Entre a Raposa e o Falcão

Escrita por BastetAzazis

Capítulo 6: Encontros e Desencontros

Dizem que a Primavera é a estação ideal para o início de novos amores, mas parece que nem todos os corações estão sintonizados na vila da Folha ou mesmo no Som...

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Há dias que Karin estava mais irritada que o normal. Observando-a de longe, pois ele não correria o risco de enfrentá-la pessoalmente naquele estado, Suigetsu divertia-se com o efeito que a mulher de cabelos rosados causava na ruiva mais intempestiva do Som. Era engraçado ouvi-la praguejando para todos os cantos contra a presença de uma médica-nin de outra vila, mas ficar quietinha toda vez que o Sasuke estava por perto.

Assistindo-a dando uma reprimenda numa gennin que fizera alguma coisa qualquer que ela não gostou, uma idéia começou a se formar na mente de Suigetsu. Talvez a presença da antiga namoradinha do Sasuke viesse a calhar...

- Ei, Karin – ele se aproximou da ruiva, que instantaneamente virou-se para ele com o cenho franzido. – Pare de assustar a menina com essa cara.

- O que você quer, imprestável? – ela perguntou, irritada.

- Ei! Não me confunda com um desses gennins que você tem prazer em amedrontar – ele respondeu, deixando uma risadinha debochada no rosto. – Eu só vim lhe pedir um favor... – Karin o observou desconfiada, e ele emendou: - Um favor que pode ser muito útil para você também...

- O que você quer?

- Eu estou pensando em fazer uma visita à amiga rosadinha do Sasuke – ele explicou, aproximando-se mais dela e diminuindo o tom de voz. – Mas para isso, precisaria de um empurrãozinho com aqueles seus perfumes especiais...

Karin estreitou os olhos.

- O que você está aprontando?

- Não é da sua conta – ele respondeu. – A única coisa que você precisa saber é que isso pode tirar a talzinha de Konoha do seu caminho...

Karin entendia muito bem quais eram as intenções de Suigetsu, e mesmo achando aquilo nojento, tinha que concordar que seria uma boa maneira de se livrar do fantasma daquela rosada para sempre.

- Qual é a sua habilidade em genjutso? Você consegue fazer um Henge no Jutso direito?

- Eu não sou especialista em genjutso, mas qualquer idiota é capaz de fazer um Henge do Sasuke. Eu só preciso da sua ajuda para iludi-la por tempo suficiente.

- E você acha que vai conseguir convencê-la a fazer o que você quiser? – Karin ainda perguntou, desconfiada.

- Apenas me arranje aquele perfume que você tentou usar com o Sasuke, que do resto cuido eu.

Karin franziu o cenho novamente. Ela tinha vontade de dar uma boa surra em Suigetsu por lembrá-la daquele incidente vergonhoso, que alertou o Sasuke dos seus verdadeiros poderes, fazendo com que ele nunca mais caísse nas suas armadilhas. Mas se o Suigetsu conseguisse realmente seduzir aquela garota, e ela desse um jeito de fazer o Sasuke descobrir, ela poderia ter uma nova chance. Era apenas essa idéia que a fazia suportar a companhia de Suigetsu até aquele momento.

- Volte aqui em meia hora – ela disse simplesmente, e saiu em direção ao seu quarto.

Ele ainda a acompanhou com o olhar enquanto ela se afastava. Karin podia ser uma chata às vezes, mas quando ela andava rebolando daquele jeito, não havia nada capaz de desviar os olhos de Suigetsu daquele shorts curtíssimo...

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- Byakugan!

Neji vasculhou a área com seu doujutsu ativado, procurando por seu oponente. Entretanto, antes mesmo que pudesse preparar sua próxima técnica, foi atingido pelas costas.

"Merda, ele sabe meu ponto cego."

Apesar do golpe forte, ele ainda conseguiu se manter de pé e deu meia volta para se defender dos golpes seguintes que viriam. Mas Lee percebeu que seu antigo companheiro de time estava com algum problema sério se ele conseguiu atingi-lo tão facilmente. Parando instantaneamente com o treino, ele considerou o amigo e rival antes de afirmar:

- Você não está concentrado hoje.

Neji não protestou, era verdade. A decisão de Hinata de aceitar a sugestão dos anciões do clã e anunciar o casamento dos dois o pegara de surpresa. Não que ele fosse contra aquilo, era óbvio que Hinata tomara a decisão mais acertada para evitar disputas internas dentro do clã, e como era esperado dele, ele podia apenas concordar. O pedido formal seria feito por ele em dois dias. Entretanto...

Neji jamais esperara haver um porém em sua vida. Se Hinata tivesse tomado aquela decisão um ano antes aquela notícia não teria deixado-o tão abalado. Era incrível como um ano poderia mudar a vida de uma pessoa de cabeça para baixo.

- Você tem razão, Lee – foi o que ele disse ao amigo depois de refletir. – Acho que você merece ser o primeiro a saber. Eu vou me casar.

Os olhos de Lee ficaram ainda mais esbugalhados quando ele ouviu a notícia.

- Casar!? – Um sorriso sincero se formou no rosto dele antes de continuar: - Então vocês finalmente...

- Com a Hinata-sama – Neji o cortou imediatamente.

O sorriso de Lee desapareceu tão rápido quanto se formou, e ele encarou o amigo, visivelmente transtornado. Percebendo a expressão confusa, Neji logo o esclareceu:

- Foi uma decisão do clã. A Hinata-sama ainda enfrenta muita resistência à sua liderança, uma união entre membros da Souke e da Bouke pode evitar que o clã passe por brigas internas.

- Eu entendo – Lee afirmou, quase como um consolo. – E você está certo disso?

- É o meu dever com o clã – Neji respondeu prontamente.

- Mas se estivesse tão certo assim, isso não seria motivo para você perder a concentração nos treinos.

Neji franziu o cenho. Tantos anos de convivência, e ele não conseguia mesmo esconder nada do Lee.

- Ela já sabe? – Lee perguntou. – Qual foi a reação dela?

Neji simplesmente baixou os olhos, fugindo do olhar duro do amigo. Lee e TenTen eram os únicos que sabiam sobre ele e Hanabi. Quando os treinamentos com a prima começaram, ele imaginou que seria o mesmo que treinar Hinata: uma obrigação com o clã. Mas Hanabi era muito diferente da irmã mais velha, ela tinha uma vivacidade e uma vontade de se superar que começou a encantá-lo cada vez mais. Ele havia acabado de desmanchar o namoro com TenTen e, conforme aprendia mais sobre a nova aprendiz, começou a entender também o que não tinha dado certo na sua relação com a companheira de time. Hanabi tinha alguma coisa a mais, ela conseguia quebrar a expressão sempre séria e compenetrada dele para fazê-lo sorrir das coisas mais simples, ao mesmo tempo que sempre se mostrou concentrada e fiel com os mesmos objetivos de sempre fazer o melhor para o clã. Certamente ela entenderia sua decisão, por mais dolorosa que fosse para os dois.

- Eu ainda não a vi depois que Hinata-sama me comunicou sua decisão – foi o que ele respondeu, e era verdade.

Lee balançou a cabeça, reprimindo o amigo.

- A Hinata-san simplesmente lhe deu uma ordem dessas e você não fez nada? Nem ao menos explicou a situação de vocês dois? Tenho certeza que a Hinata-san entenderia, e não...

- É por isso mesmo que eu não disse nada – Neji o interrompeu. – Você não entende, Lee. Esse casamento é necessário para o clã. Eu não posso correr o risco da Hinata-sama desistir disso por causa de uma besteira. Tenho certeza que a Hanabi vai entender isso também.

- Isso é ridículo, Neji! Eu conheço você, tá na cara que você não concorda com isso.

O Hyuuga não respondeu, e os dois ficaram em silêncio, até ouvirem a voz do último membro do antigo Time Gai:

- Neji... – TenTen surgiu próxima a uma árvore. – Tem uma pessoa que quer falar com você.

Os dois amigos giraram os olhos em direção à companheira de time, mas logo em seguida, uma segunda pessoa surgiu de trás da árvore.

- Hanabi-chan... – Neji sussurrou, surpreso.

- Neji... – ela o chamou com a voz embargada.

- Hanabi está na minha casa desde ontem – TenTen explicou para os dois rapazes surpresos. – Acho que vocês dois precisam acertar umas coisas – ela complementou com a voz dura para Neji.

O Hyuuga apenas assentiu com a cabeça, enquanto Lee continuava olhando surpreso para Hanabi, esperando um dos dois começar a falar. Foi preciso TenTen deixar o lado da amiga para ir até Lee e puxá-lo pelo braço.

- Vamos – ela disse enquanto já o puxava para longe do campo de treinamento onde estavam. – Nós também temos algumas coisas para conversar.

- Mas eu quero ver o que eles... – Lee tentou explicar, mas parou assim que percebeu o olhar fulminante da companheira de time.

Assim que os dois se perderam de vista, Neji começou:

- Hanabi... Você tem que voltar pra o clã. Isso só vai piorar as coisas.

- Então você concorda com esse absurdo que a minha irmã inventou? – Hanabi perguntou, indignada.

- Todo mundo sabe que isso é o melhor para o clã – Neji respondeu sem pestanejar.

- E quanto a nós? Você vai esquecer tudo aconteceu entre a gente nesse último ano?

- Não... – Neji respondeu, caminhando em direção a ela para consolá-la. – É claro que não. Eu nunca vou esquecer você, Hanabi-chan...

A menina o considerou com o cenho franzido, repelindo a aproximação dele e lutando com todas as forças para não parecer uma menina frágil e chorona na frente do homem que ela sempre tivera como exemplo do shinobi a ser seguido.

- E ainda assim você pretende casar com a minha irmã? – ela inquiriu, enojada.

- Eu não tenho escolha – ele afirmou, sem titubear.

Hanabi baixou os olhos, deixando que todas suas esperanças, todos seus sonhos se esvaíssem com as respostas frias de Neji.

- Entendo – ela disse, encarando o chão. – Eu fui uma idiota acreditando que você realmente me amava.

Ela deu meia volta e saiu caminhando. Não conseguiria encará-lo com os olhos cheios de lágrimas e a decepção que invadira seu peito. Mas embora Neji fosse um ninja treinado a nunca demonstrar seus reais sentimentos, isso não impedia que que seu coração também se apertasse ao assistir a pessoa que ele mais amava deixá-lo daquele jeito. Ele apressou-se atrás de Hanabi, até que conseguiu segurá-la pelo braço.

- Hanabi, espere! Eu jamais sentirei por outra pessoa o que sinto por você. Mas você tem que entender... Nosso destino nos leva a caminhos diferentes!

- Hunf! – ela bufou enquanto se desvencilhava dele e virava para encará-lo com os olhos lacrimejantes. – Se você me amasse de verdade, jamais colocaria um briga política do clã entre nós! – Hanabi gritou para ele.

- Você está enganada – ele respondeu, franzindo o cenho. – Se você realmente estivesse pensando no nosso bem, entenderia que eu não posso ir contra o nosso clã! Eu jurei que protegeria o clã com a minha vida, se preciso. Como o meu pai fez um dia.

Uma lágrima escorreu dos olhos perolados da Hyuuga, sem que ela conseguisse impedir. Mas sua expressão apenas endureceu após as palavras de Neji.

- Você sabe o que isso significa para mim – Neji continuou, levantando a mão para secar a lágrima no rosto dela. – Procure entender... Eu estou sofrendo tanto quanto você...

Mas o coração impulsivo de Hanabi jamais concordaria com aquilo. Nenhum Hyuuga deveria trocar sua felicidade em nome do bem do clã. Não havia sentindo fazer parte de um clã se você tinha apenas deveres e nenhum direito, como ela via acontecer com todos que não faziam parte da família principal.

- Se você prefere me ver sofrer que enfrentar uma decisão errada da minha irmã – Hanabi ponderou, a voz embargada tentando reprimir o choro –, então você nunca me amou de verdade... É muito fácil culpar o destino quando você não tem coragem de enfrentá-lo!

As palavras dela o atingiram como um tapa na cara. De todas as pessoas em Konoha, era ela quem ele sempre confiara seus maiores temores, seu orgulho pelo pai e a promessa que fizera ao tio. Ela sabia o quanto o clã era importante para ele, e ele sempre julgou que era igualmente importante para ela. Agora ele via que podia ter se enganado, ela jamais entenderia a honra de ser um Hyuuga.

- Se você quer me obrigar a trair nosso clã – ele respondeu com a voz fria e controlada, embora por dentro, seu coração estiva despedaçado –, então talvez seja você que nunca tenha me amado.

Hanabi balançou a cabeça, contrariada. As palavras frias de Neji pareciam uma kunai afiada enterrando-se em seu coração. Com os olhos vermelhos, mas ainda sem derramar mais nenhuma lágrima, ela arrancou o símbolo do clã Hyuuga na manga da roupa e jogou-o para o primo.

- Pois fique com esse seu clã maldito! – ela gritou antes de sair correndo do campo de treinamento.

Neji estava magoado demais para correr atrás dela desta vez. Pegando o pedaço de pano do chão, ele ponderou em silêncio até que ponto ele estaria arruinando a própria vida, ou a vida de pessoas importantes para ele...

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Um falcão mensageiro cruzou o céu de Konoha enquanto TenTen arrastava seu companheiro para longe de Neji e Hanabi, e Lee se perguntava se ela ainda sentia alguma coisa pelo ex-namorado. Distraídos com seus próprios problemas, eles não perceberam o belo pássaro pousar sobre a janela do escritório do Hokage e, meia-hora depois, voltar pelo mesmo caminho de onde veio.

Algumas horas depois, o Hokage deixou o escritório para sua refeição preferida. Um rámem de porco do Ichiraku. Entretanto, seu estômago reclamando foi totalmente ignorado quando cruzou com a figura preocupada de Hinata. Eles se cumprimentaram educadamente, mas nem Naruto conseguiu deixar de notar a aflição da líder dos Hyuuga.

- Hinata-chan... Aconteceu alguma coisa?

- Infelizmente, sim, Naruto-kun... – Sua preocupação era tamanha que ela nem precisou se controlar para não enrubescer na frente do Hokage. – Hanabi-chan desapareceu desde aquele dia em que você esteve no clã.

Naruto ficou sem reação. Como Hokage, aquela notícia podia ser preocupante, embora ele soubesse que, provavelmente, o sumiço da irmã de Hinata estava relacionado apenas com a briga que ele mesmo presenciara dois dias atrás.

- Você acha que ela abandonou Konoha? – ele investigou.

Hinata balançou a cabeça antes de responder:

- Eu não sei. Ela estava muito revoltada a última vez que falei com ela, mas não acredito que Hanabi-chan deixaria a vila.

- Eu vou averiguar isso, Hinata-chan – ele a assegurou, com a certeza que sempre lhe fora característica.

Hinata sorriu tristemente, e o rosto inconsolável dela fez o coração dele ficar ainda mais preocupado. Coçando a cabeça, ele tentou animá-la.

- Er... Você não está com fome? Eu estava indo até o Ichiraku... O rámem de porco dele é uma delícia!

Hinata arregalou os olhos, desta vez deixando que um leve tom de vermelho corasse suas bochechas, mas nem teve tempo de recusar o convite, pois Naruto já a arrastava pelo braço. Eles não conversaram muito enquanto apreciavam o ramem, mas ela notou que Naruto parara já na primeira tigela, e sua alegria contagiante havia desaparecido do rosto.

- Naruto-kun... – ela resolveu arriscar quando viu que ele, milagrosamente, não iria repetir a refeição. – Você também parece preocupado. Aconteceu alguma coisa?

Naruto levantou os olhos da tigela vazia, pousando-os sobre o olhar doce e preocupado de Hinata. Em algum lugar do seu coração, ele se alegrou por ter alguém que sempre o entendia sem ele precisar dizer nada.

- Eu recebi notícias do Som – ele respondeu.

- Aconteceu alguma coisa com a Sakura-chan? – Hinata perguntou, assustada.

- Não – ele a acalmou. – Ela está bem, ao que parece. Mas o Sasuke me pediu mais um favor...

Hinata apenas levantou uma sobrancelha, esperando que Naruto a esclarecesse.

- Ele pediu para a Sakura ficar mais alguns meses no Som, até conseguir treinar alguns ninjas em técnicas médicas básicas e reorganizar a ala médica deles.

Ela permaneceu em silêncio quando ele terminou de falar, mordendo os lábios, se segurando para perguntar a decisão dele. Internamente, ela torcia para que ele tivesse concordado com tudo, mesmo que fosse incapaz de admitir aquilo até para si mesma.

- Hoje é o aniversário dela... – Naruto resmungou, baixando os olhos. – Faz um ano que eu a pedi em casamento...

- Você queria que ela estivesse aqui, não é mesmo? – Hinata adivinhou.

Naruto apenas assentiu com a cabeça, então continuou:

- O Sasuke me pediu que eu escrevesse para ela, autorizando-a como Hokage a permanecer no Som o tempo que ela achasse necessário, pois ele acha que ela não aceitaria o convite sem minha autorização.

- O Sasuke não sabe sobre vocês? – Hinata perguntou, estranhando o pedido do líder do Som.

Naruto demorou a responder:

- N-não.

- E o que você respondeu? – ela não conseguiu mais se segurar.

Naruto deu um longo suspiro, antes de levantar os olhos para encará-la.

- Eu pensei no que você disse; na história da sua mãe. Eu escrevi para ela dizendo que, se fosse necessário, ela deveria ficar quanto tempo quisesse no Som.

Sem pensar que estavam num local público, Hinata pousou uma mão sobre a mão dele espalmada no balcão.

- Eu sei que é uma decisão difícil, Naruto-kun – ela o encorajou. – Mas você sempre acaba tomando as decisões certas, não é mesmo?

- Você acha isso mesmo, Hinata-chan? – ele perguntou, com um pequeno brilho voltando a preencher seu olhar.

Ela apenas assentiu, junto com um sorriso.

Naruto sorriu igualmente.

Konoha simplesmente parou naquele instante. Ambos se olhando sinceramente, sorrindo e encorajando um ao outro. Um momento que ficou congelado no tempo, até o Ichiraku pigarrear e anunciar que, naquele dia, seria por conta da casa.

- Eu... Eu preciso ir... – Hinata disse apressada, assim que percebeu a reprimenda discreta, sentindo o rosto esquentar.

Naruto ainda ficou sentado, observando-a seguir o caminho para o Distrito Hyuuga, sem entender o que foi aquele instante que parecia ter durado horas.

- A Sakura-san ainda vai ficar muitos dias em missão? – Ichiraku perguntou, como se para fazer Naruto entender que certas coisas não eram apropriadas em locais públicos e àquela hora do dia.

- Sim – Naruto respondeu, sem prestar muita atenção na conversa, ainda observando Hinata na rua.

Ele não entendia porque seu coração começou a palpitar tão forte depois daquele momento. E o que fora exatamente aquele momento? Como um simples toque macio, tão carinhoso, conseguia fazer ele esquecer todas as suas apreensões? E então veio a pergunta que ele sempre evitava fazer a si mesmo: por que os carinhos da Sakura nunca foram capazes de lhe transmitir aquela paz?

Irritado com o sentido que seus pensamentos tomaram, o Hokage simplesmente agradeceu a refeição e seguiu contrafeito pela rua. Ele tinha os problemas da vila para pensar, não podia deixar que aquelas dúvidas ocupassem todo o seu dia. Havia a Hanabi Hyuuga que estava desaparecida, e aquele casamento absurdo da Hinata com o Neji. Uma vez ele jurara sobre o próprio sangue dela que jamais deixaria alguém escarnecer do esforço daqueles que tentam melhorar. Como Hokage, ele não poderia permitir que o clã Hyuuga continuasse desmerecendo seus membros destemidos.

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- Sakura-sama?

Sakura levantou os olhos das ervas cultivadas na pequena estufa apresentada por Yuzu. Depois de passar a noite no quarto de Satoshi, ela o deixou aos cuidados Momiji, certa de que seu paciente estaria em boas mãos, e tratou de recolher os ingredientes que poderiam ser úteis para desenvolver um antídoto. Ao contrário do que ela imaginava, o Som possuía uma série de ervas e outras plantas medicinais que ela jamais esperaria encontrar num lugar com uma ala médica tão precária. Ela encontrara tudo o que precisava na estufa ou nos jardins em volta dela, rodeado pelas cerejeiras carregadas naquela época do ano, lembrando-lhe que estava completando mais uma primavera.

Entretanto, naquele instante, seus olhos moveram-se das cerejeiras do outro lado das paredes de vidro para seguir a voz que a chamava da porta.

- Você não se lembra de mim, não é? – o ninja parado na entrada da estufa continuou, encarando-a com um sorriso debochado.

- É claro que eu lembro – ela respondeu, firme. – Suigetsu, não é?

Ele assentiu com a cabeça, não deixando de reparar cuidadosamente na mulher que vinha causando tantos cochichos pelo Som nos últimos dias. Sakura percebeu os olhos ávidos e endureceu sua expressão instantaneamente.

- Me pediram para entregar isso aqui para você – ele disse, divertindo-se com a irritação dela e estendendo um pergaminho.

Sakura caminhou até onde ele estava e pegou o papel da mão dele, ainda o encarando com o cenho franzido.

- Acredito que você ficará aqui o resto do dia, não é? – ele perguntou quando ela deu as costas para ele, voltando para onde estava. – Caso alguém ainda precise de você no hospital...

Sakura se virou para trás, começando a se sentir incomodada com aquele assédio mal disfarçado. Sem querer que aquela conversa se prolongasse por mais tempo, simplesmente assentiu com a cabeça e voltou a lhe dar às costas.

Suigetsu sorriu ironicamente para as costas dela antes de deixar a estufa, pensando em como as mulheres difíceis eram as mais interessantes...

Assim que percebeu que estava novamente sozinha, Sakura abriu o pergaminho. Era uma carta do Naruto. Ele lhe dava os parabéns pelo aniversário, lamentava que ela não estava em Konoha para comemorarem juntos e lhe dizia para permanecer no Som o tempo que fosse necessário para ajudar o Sasuke.

Ela estranhou aquilo. Ela ainda não tinha avisado, nem a ele nem ao Sasuke, de nenhuma decisão quanto a permanecer ou não no Som. O fato de tudo ter acontecido tão repentinamente, além do sofrimento de estar novamente tão perto do Sasuke e senti-lo sempre tão distante contribuíam para que ela quisesse terminar sua tarefa logo e voltasse para casa. Entretanto, a força de vontade que lia no olhar de Momiji, o encontro com uma nova versão do antigo Time 7, as histórias tristes que ouvira sobre a Vila do Som antes de Sasuke tomar sua liderança... tudo aquilo a fazia sentir que era necessária ali. E talvez, se o próprio Naruto fora capaz de lhe escrever para ficar, era porque ele também entendia aquilo. Entretanto, uma pontada em seu coração lhe dizia que, na verdade, ela havia ficado decepcionada por ele não ter pedido para que ela voltasse logo...

Tentando afastar esses pensamentos da mente, ela voltou a se concentrar no antídoto. O sol já havia descido no horizonte quando ela testou uma gota da nova poção em seus pergaminhos. Sem se dar conta da hora adiantada, Sakura comemorou silenciosamente. Ela finalmente havia chegado num antídoto para o veneno; o que significava que sua missão original em Otogakure estava cumprida.

E então, o pequeno sorriso se desfez. Estava na hora dela tomar uma decisão. Seu coração estava dividido entre o dever como médica de ajudar aquela vila que parecia tão carente neste aspecto e o sentimento de culpa que a invadia cada vez que analisava a hipótese de permanecer no Som, de permanecer mais tempo tão perto do Sasuke.

E havia ainda um porém que insistia pesar em seu coração. A maneira como Naruto parecia totalmente alheio ao fato de estar aproximando-a do Sasuke cada vez mais. Era um sentimento muito belo aquela amizade entre eles, a ponto do Naruto fechar os olhos para tudo que já havia presenciado entre ela e o Sasuke quando ainda eram genins. Mas Sakura estava descobrindo que não tinha o mesmo coração puro e, por mais que admirasse o valor que o noivo e antigo companheiro de time ainda cultivava pelo Time 7, ela sabia que nenhum homem era tão nobre assim, e começava a desconfiar que aquele amor que ele tanto lhe confessava não passava de um engano, de uma confusão com uma amizade enorme, capaz até de fazê-lo comprometer a própria felicidade apenas para impedi-la de continuar chorando por causa da solidão trazida por um amor impossível.

Mas quando esse raciocínio a fazia se decidir a ficar justamente para entender melhor seu coração, as palavras de Karin voltavam a ressoar em sua mente. A idéia de que Sasuke a usara como motivo de piada entre seus novos companheiros de time ainda era capaz de trazer lágrimas em seus olhos, e ela novamente se convencia que aquele não era o seu lugar, que deveria voltar o mais rápido possível para Konoha. Para longe do homem que não era capaz de entender seus sentimentos.

Mas então, isso significava que ainda havia em seu coração algum sentimento que o Sasuke deveria entender? Ela sabia a resposta e, por mais que não quisesse admitir, também sabia que vinha usando a alegria contagiante do Naruto para tentar abafá-los.

- Sakura...

Um arrepio a cruzou pela espinha ao ouvir aquela voz. Como ela podia se enganar com o Naruto quando ele a assombrava daquele jeito?

Respirando fundo, Sakura virou-se para a porta da estufa. Ele estava lá; iluminado pela luz fraca da lua. As luzes que ela providenciara para sua bancada de trabalho ainda mandavam mais sombras para a figura dele. Anos haviam passado, mas aquele era o Sasuke que ela sempre conhecera; envolvido em sombras, surpreendendo-a, paralizando-a.

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Karin fez questão de vestir seu shorts mais apertado e ainda deu uma bela conferida no espelho. Ela não se atreveria a usar o truque dos perfumes de novo, uma vez que Sasuke já estava ciente deles, mas prendeu o cabelo para realçar o rosto e ajeitou o sutiã para levantar e juntar mais os seios, fazendo-os parecer maiores. Se o imprestável do Suigetsu tivesse feito tudo direitinho, ela só precisaria inventar uma boa desculpa para levar o Sasuke até a estufa e, depois, ela o teria em suas mãos...

Entretanto, Karin logo descobriu que seu companheiro de armação era mais eficiente do que ela poderia supor. Virando num corredor escuro, ela logo avistou o Sasuke alguns metros de distância, visivelmente abalado.

- Sasuke-kun... – Ela se aproximou dele. – Aconteceu alguma coisa?

- Karin...? – ele a considerou por um momento, parecendo confuso. – O que você está fazendo aqui?

- Eu... Eu... – ela balbuciou enquanto aproveitava para chegar ainda mais perto dele. Para sua felicidade, ele parecia não se importar com o contato entre os dois. – Eu preciso ir até a estufa, recolher algumas ervas que estava...

- Não! Eu acabei de voltar de lá – Sasuke a interrompeu. – Eu ainda não acredito que aqueles dois...

Por um momento, Karin sentiu uma pontada de inveja pela maneira como aquela rosada aguada era capaz de abalar daquele jeito o líder do Som. Entretanto, fingindo-se de inocente, ela retirou os óculos e ofereceu:

- Venha, Sasuke-kun. É melhor sairmos daqui... As paredes têm ouvidos.

Sasuke simplesmente assentiu com a cabeça e deixou que ela o conduzisse de volta para o seu quarto. Antes de entrar, ela ainda ouviu pelas costas:

- Você sempre ficou do meu lado, Karin... Eu devia ter valorizado isso em você antes...

A ruiva sorriu de orelha a orelha ao ouvir aquilo, reprimindo um grito de felicidade para que ele não a ouvisse enquanto ela ainda estava de costas para ele. Em silêncio, mas com os olhos brilhando de expectativa, ela abriu a porta do quarto e o puxou para dentro.

- Não se preocupe, Sasuke-kun... – ela sussurrou insinuando-se contra ele. – Nós podemos consertar isso essa noite...

Continua...

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N.A.: A autora se conserva no direito de não deixar nenhuma nota para evitar as pedradas...

Depois que a raiva passar...

Feliz 2009 para todos. Espero conseguir atualizar as fics com mais rapidez esse ano, mas já aviso que o mês de janeiro será atribulado...

Por isso, sem previsão para o próximo cap!

*foge das pedradas de novo*