Language: Portuguese

Título - Viagem ao Inferno

Sumário:

Idalino Nóbrega, um jovem de 26 anos, é enviado aos confins do Inferno.

Segredos sujos e verdades cruas são descobertos.

A transformação é iminente.

Há monstros a habitar a alma que não se conseguem controlar.

Nota de Autor:

A cidade e o multi-universo de Silent Hill, assim como os monstros que nela habitam e conceitos básicos inerentes aos jogos e filmes, é propriedade da Konami.

Significado dos Nomes:

Idalino – Aquele que viu o Sol

Nóbrega – Personalidade Múltipla; Sintonia com o Mundo que o rodeia.

OC(s): Idalino (Dali), Mariana, Matilde


O ar é pesado. Um cheiro a mofo pairava, misturando-se com o abafante das cinzas.

Os olhos de Idalino demoraram algum tempo a ajustar-se à escuridão. Apenas conseguia distinguir vagos contornos de móveis antigos.

Com um antebraço junto ao nariz, na vã tentativa de filtrar a sua respiração, aproveitou o braço livre para abrir melhor os portões de madeira.

Um raio de luz penetrou o salão escuro. Livres e minúsculos dançarinos pairavam sobre a luz ténue, agitados com toda a movimentação. Afinal, dois intrusos vieram perturbar o silêncio em que descansavam sobre a madeira maciça e trabalhada dos móveis.

- Mariana! – chamou Idalino já um pouco impaciente – Onde é que te meteste?!

A sua voz ecoou novamente no silêncio.

Frenético, massajou as pálpebras, para além de tentar adaptar melhor a visão, a fim de acalmar a comichão que agora o atormentava.

Idalino era levemente alérgico ao pó. Porém, dada a dimensão que se acumulara naquele átrio, qualquer leveza pesava. Sentia um espirro crescer na base das narinas, e água ameaçava descer destas a qualquer instante.

Contudo, algo o travou de concretizar qualquer movimento, por mais involuntário que se tratasse.

Uma atordoada melodia de piano, teclas batidas de rompante, cortou o silêncio, gelando-o com o susto repentino.

- Ihihih… Já não me lembrava de fazer isto!

A voz de Mariana sossegou-o. Embora alimentasse agora uma certa irritabilidade tanto pelo susto que lhe causou, tanto pela sua ausência, como pela entrada repentina.

- O que é que estás a fazer?

- Não se nota? Estou a tocar piano!

"Que raio de pergunta estúpida…"

- Sim… Isso eu já tinha percebido… - murmurou Dali.

À sua frente jazia, sobre uma carpete redonda tão envelhecida e empoeirada que era-lhe impossível distinguir qualquer detalhe, um largo piano de cauda. O imponente instrumento encontrava-se no centro do átrio, sob o olhar atento de um pesado candelabro de cristais baços.

Do seu lado direito, tal como em alguns pontos espalhados pelo salão, sofás e poltronas de couro desgastadas e rasgadas enchiam parte do espaço, aliadas a pontuais cadeiras deitadas sobre o chão de azulejo, este praticamente coberto por papéis degradados e outro tipo de detritos.

No lado oposto, estava a receção. Uma larga mesa de madeira na qual inúmeros papéis e panfletos descansavam desordenadamente e um telefone.

"Um telefone…"

Idalino apressou-se para junto deste. Enquanto com a mão livre tapava a boca ao tossir desfasadamente, agarrou o auscultador.

O telefone era negro, antigo e ainda com um disco rotativo com os números, coberto por uma grossa camada de pó.

Jurava que uma pequenina aranha passou pela sua mão, porém, ou fora fruto da sua imaginação, ou desapareceu no imediato. Deitou para a primeira opção. Por mais estranho que parecesse, malgrado toda a sujidade do espaço, não se via qualquer espécie de teia, inseto, ou qualquer tipo de animal, como ratos.

A melodia incessante do piano escondia o silêncio tumular que parecia engolir as próprias notas de música.

"Esquece isso! Não tarda nada, apanhas uma série deles…" – ressaltou a sua consciência.

"É…" – concluiu, redimido, abanando a cabeça. Tinha coisas mais importantes em que se concentrar.

Nos primeiros instantes, ponderou marcar o número de casa. Já tinha inserido os dois primeiros números quando se lembrou que os pais já deveriam estar a trabalhar.

"Tal como eu já devia…" – respirou fundo, deixando uma nota mental de que a tão desejada promoção, com sorte, ficara penhorada por uns meses.

Os dedos hesitantes sobrevoaram os números. Pensando bem, não tenha assim tanta gente a que pudesse ligar.

" O Pedro…"

Esforçou-se por se recordar do seu número de telemóvel. Com sorte, hoje estaria a folgar.

"É… Depois só tenho que lhe comprar um bom vinho como recompensa…"

Respirou fundo e esperou ansioso o usual bip. Porém, o silêncio manteve-se.

-A linha telefónica estar cortada era o desfecho mais óbvio da história, já o esperava. Porém, a esperança é a última a morrer.

Resignado, após uma ou duas tentativas mais, pousou o auscultador.

Os olhos rondaram, perdidos, os panfletos publicitários que estavam espalhados pela secretária, todos eles alusivos ao hotel Toluka Lake, discriminando diferentes programas de alojamento.

Cansado, expirou, sentando-se sobre a mesa que rangeu com o seu peso. Apoiou o rosto com ambas as mãos, olhando de relance Mariana no piano.

A melodia alegre, agora um pouco mais branda, continuava a ecoar pelas paredes altas.

"Como é que ela consegue estar assim…" – perguntava Dali – "Ou então, eu é que estou a stressar demais…"

Passaram-se alguns minutos. Idalino manteve-se na mesma posição, até que chamou a atenção da criança. Quando Mariana parou de tocar, levantou a cabeça.

- Estás bem? – a preocupação soava sincera. Com um pequeno salto desceu do banco do piano aproximou-se.

- Sim… - Idalino respondeu com voz baixa. Sorriu tenuemente. – Apenas um pouco cansado…

- Hum… Okay. Cansado pareces…

- Imagino…

Um silêncio embaraçoso cobriu ambos após estas palavras serem proferidas. Nenhum dos dois sabia o que dizer. Como tal, Mariana passeava agora pelo salão levantando levemente os plásticos sobre algumas das mobílias, espreitando. Dali continuava na mesma posição, olhando à sua volta sem nada ver.

"Como é que eu me meti nesta situação… Que raio de sítio é este…"

Os seus pensamentos corriam indistinguíveis pela sua mente.

- Ihihih… Anda cá!

O riso alegre de Mariana despertara-o do transe. Esta fugia agora para um corredor lateral, mergulhando destemida na escuridão.

- MARIANA!

Embora corresse ao seu encontro, perdeu-a de vista.

- Mariana…

A voz grave ecoou, inquieta, fraquejando. Dali estancou na entrada do corredor cujo Sol não se atrevera a banhar. Um murmurar rastejava na atmosfera, ameaçador, trocista. Gotas de suor frio escorriam pela têmpora, humedecendo a tez clara. Os olhos, agora de carvão, brilhavam amedrontados na escuridão. As olheiras eram fundas, e a respiração arrastada.

Um frio crescia pela espinha, impedindo-o de avançar. Havia algo de errado com aquele local, sabia-o, petrificava-o.

Passos leves, saltitantes, irromperam pelo espaço. Um riso leviano, desvanecido no nevoeiro, acompanhou-os.

- Mariana! Volta cá!

Tremendo, olhou o chão. Atreveu-se a avançar um paço.

- Para com isso! Imediatamente! – gritava na escuridão. Esforçava-se por parecer autoritário, porém o terror fraquejava-lhe a voz, obrigava-o a tossir. – Não tem piada!

"Então? Demasiado cansaço para brincar?"

A voz cavernosa, malgrado feminina, soou atrás de si. Voltando-se de rompante viu a pequena figura de Mariana, rosto escurecido, perto do início do corredor.

- Mariana?...

- AAH! - um espasmo de dor trovejante deitou Idalino sob o chão. O zumbido agudo voltava a atormentá-lo, dificultando a sua visão. Esta nublara, turva e sem sentido. – Mariana… - esforçava-se por chamar.

Sentiu o seu corpo frágil saltar sobre o seu, brincando com o seu estado vulnerável. O riso agudizava a dor de cabeça. A revolta começava a crescer-lhe no sangue.

- MARIANA! –gritou, ou melhor, rugiu.

Como um animal enraivecido, levantou-se apoiado contra a parede à sua direita, e cambaleou ao encontro da imagem.

Esta aparentava tratar-se de uma miragem, estática, indiferente, turbulenta. Em câmara lenta, viu-a correr para a sala à sua direita. Seguiu-a.

O zumbido agrava-a a cada passo que tentava dar, forçando-o a cair algumas vezes até chegar ao seu destino, aquando do qual o inviabilizou da audição. Sentia-se gritar enfurecido, porém não se conseguia ouvir a si próprio.

Esgotado, deixou-se cair encostado a uma cómoda. A visão escurecia gradualmente, evidenciando o pequeno volto de que debruçava para observar. Foi-lhe indiferente. A raiva estava a ser substituída por uma apatia profunda. Sentia a energia a ser-lhe sugada.

- Foda-se… - sussurrou.

Lentamente, caiu na escuridão da sua mente.


Os bips mecanizados governavam a atmosfera, indiferentes aos visitantes. Além destes, ouvia-se alguns dos murmúrios dos médicos e enfermeiros na sala, visíveis através do vidro, porém, impossíveis de descodificar.

Matilde já há muito se habituara a ignorar o austero cheiro a álcool. Estoica, limitava-se a observar o corpo do seu filho. Uma manta bege de malha cobria-a, enquanto os braços involuntariamente abraçavam o próprio corpo. As olheiras eram profundas, e o olhar baço, reluzindo apenas com leves vestígios de lágrimas.

António, que tremulamente segurava a boina castanha, agora acinzentada com o uso, falava com o médico responsável alguns metros afastado. Todavia, Matilde ainda conseguia perceber algumas partes da conversa.

- Mas… Sr. Doutor, quando tempo é que ele vai ficar…

- Não sabemos. Pelo menos, até este momento é inconclusivo. A atividade cerebral é praticamente mínima.

- Então vai ficar assim para a vida?...

- Como já disse, é inconclusivo. Embora seja já um milagre estar aqui.

- Um milagre? Estar assim?

- Está vivo, apesar de tudo.

- Vivo?! Mais morto do que vivo…

- Oiça, preferia que tivesse morrido?

- Credo! Como ousa dizer uma coisa dessas?!

- O seu filho fez uma contusão cerebral muito grave. Neste momento, é difícil dizer algo preciso sobre o seu estado. Temos que fazer mais alguns testes para podermos eliminar qualquer dúvida.

- Mais testes? Que testes? Ele já está ligado a uma máquina…

Matilde expirou fundo. Embora ignorante, pelo aspeto, distinguia, pelo menos, uma perna partida, costelas pelas ligações no peito, e o rosto deformado de cortes.

Tinha acabado de abrir a loja quando recebera uma chamada telefónica do hospital a notificá-la de um acidente de aviação com um autocarro. Três sobreviventes, entre os quais o seu filho, embora os outros dois não estivessem em melhor estado.

Segundo o que ouvira pelo hospital, o motorista despistou-se, no momento em que perdeu o controlo, o autocarro embatera na valeta. Desequilibrando-se, rodou sobre si, esmagando alguns dos passageiros. Fora uma sorte não ter explodido. O depósito de combustível rebentara com o choque.

- Coma!?...

O murmúrio do seu marido despertou a sua atenção. Aproximou-se de ambos.

- Temo que sim… - o desconforto era notório da voz do próprio médico. Por muitos anos de serviço que tivesse, dar este tipo de notícias nunca se tornava mais fácil. Limpava os óculos com um lenço cinzento.

Matilde pousara suavemente uma mão no ombro do marido. Ambos sabiam que não havia nada a fazer. António olhou o chão, vazio.

- Eu compreendo que a situação pela qual estão a passar seja dificílima.

- Não compreende, não. – foi a primeira vez desde que pusera o pé naquele hospital que Matilde falou – Já não bastou ter perdido a minha filha há oito anos? Agora, o meu filho?!

- Minha senhora, ainda não perdeu nada…

- Ai não?

- O Idalino entrou em coma, é verdade. Contudo, é normal nestas situações. Sobreviveu a um acidente gravíssimo.

- É um vegetal…

- Acontece em muitos casos. Às vezes, é uma forma de o corpo recuperar. Pode acordar a qualquer momento.

Matilde sabia que nem o próprio médico acreditava nas palavras que acabara de dizer. Lia-o nos seus olhos. Contudo, eram uma tentativa de conforto, vã, mas uma tentativa.

- E agora?... – limitou-se a perguntar – O que fazemos?

- Neste momento… Nada.

- Nada?

- Esperamos, Dª. Matilde… Esperamos…

Uma sirene ecoou pelo corredor caiado de branco. O quarto de Idalino foi inundado por uma luz vermelha, insistente, ameaçadora.

O médico precipitou-se ao seu encontro, seguido de perto pelos pais desolados. Contudo, a estes fora-lhe barrada a entrada por um enfermeiro.

- Deixe-me entrar! É o meu filho, porra! – Matilde tentava-o empurrar.

- Eu sei! Por favor, deixe-nos trabalhar! Afaste-se!

- Idalino!

O corpo de Dali contorcia-se na cama com convulsões. O ritmo cardíaco disparara, gritante. A equipa médica estava frenética, tentando-o controlar, tarefa dificultada pela quantidade de fios e máquina que rodeavam o paciente.

- AFASTEM-SE!

O grito do médico, seguindo-se ao aterrador zumbido contínuo do ritmo cardíaco, fora a última coisa que Matilde e António ouviram antes de serem retirados da zona.


- AAAAH…

Idalino arfou profundamente ao acordar, ao qual se seguiu um ataque de tosse. O ar tinha agora um sabor acre, avinagrado, como se partículas de sangue pairassem em seu redor. O coração batia incontrolavelmente, ameaçando-se sair do peito. Os batimentos cardíacos zoavam na sua mente, como se os ouvidos estivessem no lugar dos pulmões.

Idalino encostou-se ao móvel atrás de si e tentou recuperar o controlo.

Inspira. Devagar.

1, 2, 3… Expira…

Inspira. Devagar.

1, 2, 3… Expira…

Inspira. Devagar.

1, 2, 3… Expira…

Sentiu a mente começar a clarear. Pelo menos, recuperara o controlo sob a sua respiração.

"O que é que aconteceu?… Onde é que estou?..."

Lentamente, flashes conturbados cruzavam o seu pensamento. O nevoeiro. O silêncio. O vulto. A criança…

"Mariana…"

…O hotel. A dor.

- Mariana… - o chamamento não se elevou a um sussurro rouco e fraco.

Os seus membros pareciam pesar toneladas, arrastando-se enquanto Idalino tentava levantar-se apoiando-se no móvel maciço. Ao longe, parecia soar uma sinistra sirene de emergência.

- Mariana… - voltou a chamar, agora de forma mais recomposta. Porém, a resposta manteve-se.

Silêncio.