Capítulo Seis
Os cinegrafistas deram uma volta pela sala, filmando todos discretamente, antes de sair, deixando-os aproveitarem o café da manhã em paz. Merlin remexeu-se desconfortável, evitando olhar para a mesa da Família Real.
Seus olhos, no entanto, continuavam sendo atraídos pela figura austera do Príncipe. Ele comia tranquilamente, em paz, como se não se importasse com a súbita eliminação em massa que acabara de ocorrer. Merlin tratou de voltar sua atenção para o próprio prato, quando o Rei Uther se retirou, desejando um bom dia a todos e lançando um olhar cheio de mistério em direção ao filho.
Merlin escutava montes de suspiros a sua volta e imaginava que os outros Selecionados estavam apreciando a refeição tanto quanto ele. Ele olhou em volta e contou discretamente, constatando que apenas quatro homens haviam permanecido: ele, Julius Borden, Mordred Lowddoc e Myror Straad.
Merlin sabia que não era a aparência que tinha definido as eliminações, pois o Príncipe mesmo escolhera as fichas dos candidatos selecionados e os que permaneciam eram todos diferentes, cada um à sua maneira. A dúvida dos motivos do Príncipe para eliminar os outros continuava martelando a mente de Merlin quando ele pousou os olhos sobre o assento que Isolde ocupara na noite anterior, recusando-se a acreditar que fora pelo exame médico que o Príncipe Arthur optara em eliminá-la.
Merlin voltou sua atenção para a torta de morango que fora colocada à sua frente e olhou para Gwen, perguntando-se se ela sentia falta de Isolde também, ou se estava aproveitando tanto a comida como o próprio Merlin. Gwen, entretanto, estava entretida numa conversa animada com Mordred e Elena. Merlin voltou sua atenção para procurar o restante dos ocupantes da mesa e notou, amargo, que todos eram Dois, Três ou Quatro, com exceção de Merlin e Gwen.
Ele não tinha certeza se o Príncipe tinha consciência daquilo, mas parecia ser estranho o fato de que tanto Isolde, como os Três Cinco na competição tivessem saído logo de cara. Merlin ruminava a ideia de que, se não tivesse conhecido o Príncipe na noite anterior, também seria chutado como os outros, enquanto rolava o pedaço de torta pela boca.
Não fora intencional – longe disso! –, mas Merlin não pôde impedir o longo gemido de prazer quando colocou outro pedaço de torta em sua boca, sentindo-a derreter em sua língua, tão absorto estava em seus pensamentos.
"Merlin?" Uma voz chamou à direita e todas as cabeças viraram na direção dela, Merlin demorou alguns segundos a mais para reagir e perceber a quem pertencia a voz, virando-se para se deparar com o olhar intenso do Príncipe Arthur.
O Príncipe engoliu em seco e Merlin apressou-se em retirar a colher dos lábios, percebendo o constrangimento que causara a si próprio. O Príncipe provavelmente estava repreendendo-o pelo seu relapso, mas Merlin não pôde deixar de se perguntar porque ele fora tão informal ao fazê-lo na frente de todos e porque ainda o encarava como se esperasse uma resposta.
Merlin cobriu sua boca com a mão e mastigou o restante de torta o mais rápido que conseguiu. Não demorou nem três segundos para forçar-se a engolir aos tropeços, fechando os olhos numa careta, mas com todos os olhos da sala sobre ele – incluindo servos, guardas, os dois cavaleiros e a própria Duquesa – aquilo pareceu durar uma eternidade.
Vivian sorria de modo presunçoso, enquanto Merlin apressava-se em limpar a boca. A Duquesa sorria levemente e tudo que Merlin queria naquele momento era que o chão se abrisse e o engolisse.
"Sim, Majestade?" Merlin respondeu, torcendo que nada voasse da sua boca enquanto pronunciava as palavras.
"A comida está valendo a pena?"
Merlin poderia dizer que o bastardo estava se segurando para não rir – mesmo que sua expressão fosse neutra – Merlin só não sabia se era sua cara de assustado ou a óbvia provocação sobre Merlin estar ali apenas para aproveitar a comida que divertia o Príncipe.
Ele secou as mãos sobre a calça e amaldiçoou o tecido ser tão fino ao ponto de sentir a umidade sobre as coxas.
"Excelente, Majestade." Merlin disse, com a maior calma que pôde. "Tenho certeza que meu irmão choraria se tivesse pelo menos a chance de provar algo como isso. Ele adora doces." Completou, em tom de explicação.
O Príncipe provou um pedaço de sua própria torta, que até então parecia intocada, antes de voltar sua atenção para Merlin.
"É realmente algo maravilhoso." Ele disse, encarando-o, e Merlin teve que engolir em seco, pois não podia nem desviar os olhos, sabendo da atenção do público ao redor. O que diabos o Príncipe queria com aquilo? "Acha mesmo que ele choraria?" O Príncipe recostou-se em sua cadeira, parecendo satisfeito consigo mesmo.
"Ah, com certeza." Merlin disse, sem pensar muito a respeito, torcendo para que o outro largasse o osso. Ele não percebia o quanto Merlin estava incomodado com a atenção do restante das pessoas? Ou apenas estava se divertindo em provocá-lo?
"Você apostaria nisso?" O Príncipe perguntou, depois de alguns instantes e Merlin podia enxergar as engrenagens girando dentro da cabeça do loiro.
As cabeças de todos viravam de um lado para o outro, como que acompanhando uma partida de tênis. Merlin notou que até os olhos dos cavaleiros do Príncipe faziam o mesmo.
"Não acho que tenha algo a oferecer que possa ser do seu interesse, Alteza." Merlin tentou se esquivar.
"Aposto que posso pensar em algo." O Príncipe disse, colocando os cotovelos sobre os apoios da cadeira e juntando as mãos à frente do peito, como se pensasse no assunto. "Já sei." Ele disse logo depois, como se a ideia tivesse acabado de surgir, mas Merlin desconfiava que o Príncipe já tinha tudo planejado desde que chamara pelo seu nome. "Se ele não chorar, você poderia deixar eu levá-lo num passeio pelos jardins do castelo."
Merlin engoliu em seco. "E se ele chorar?"
"Nesse caso, você poderia me levar num passeio pelos jardins."
Merlin notou como o mordomo que havia conversado com o Príncipe antes levou a mão até a boca, como se escondesse um sussurro e logo em seguida o cavaleiro mais alto pressionou os lábios um contra o outro, reprimindo um sorriso.
Felizmente, Merlin foi salvo de responder por ninguém menos que a própria Duquesa.
"Ora, Arthur, e qual é a vantagem disso para o garoto?" Ela disse num tom mordaz, mas sorria para o Príncipe.
O Príncipe encarou-a, sua mandíbula travando e seus olhos dizendo claramente não se intrometa.
"Bem, Sr. Emrys, já que parece ter um talento natural para acordos, que tal me dizer o que o senhor deseja então?" Ele voltou-se para Merlin, fingindo ceder a contragosto.
Ao que tudo indicava, o Príncipe estava realmente gostando daquele joguinho, mas se ele queria brincar, Merlin entraria na roda.
O Príncipe tinha o mundo aos seus pés, então Merlin poderia pedir qualquer coisa. Merlin meditou por alguns instantes, pensando no que poderia pedir. Pedir o mesmo que pedira naquela manhã, no Grande Salão, seria errado e Merlin sabia disso. Mas o que mais ele poderia querer? Não era como se realmente quisesse alguma coisa a mais. Afinal, tinha tudo do bom e do melhor ali no palácio, estava vivendo como Um.
Ele notou que a sala estava em total silêncio, todos esperando sua resposta, quando seus olhos caíram sobre o mordomo próximo ao Príncipe e se lembrou da conversa que tivera com seus criados aquela manhã.
"Quero que meus criados tenham um dia de folga por semana, cada um." Merlin disse, decidido.
Todos arregalaram os olhos, até mesmo os cavaleiros e Merlin perguntou-se se havia passado dos limites, mas quando olhou para a Duquesa percebeu como ela sorria para ele, como se de repente Merlin houvesse se tornado alguém interessante.
"Feito." O Príncipe sentenciou, como se fechasse um tratado muito importante com algum líder mundial.
Merlin ouviu alguém resmungar perto dele e então percebeu que, caso perdesse, seria o primeiro ali a ter um encontro oficial a sós com o Príncipe. Merlin quis voltar atrás imediatamente, percebendo onde havia se metido, mas se ele pretendia ajudar o Príncipe como prometera, tinha que arranjar um jeito de conversar a sós com ele e talvez essa fosse a única maneira.
"Gwaine." O Príncipe chamou e o mordomo próximo a ele se aproximou, um sorriso enviesado nos lábios. "Mande enviar três tortas para a casa de cada Selecionado aqui presente. Peça que alguém espere enquanto o irmão de Merlin experimenta e nos informe se ele, de fato, chorar. Confesso que estou intrigado."
Gwaine sacudiu a cabeça e saiu, não sem antes lançar um olhar estranho em direção a Merlin.
"Acho que todos vocês deveriam escrever às suas famílias, para se inteirarem de como andam as coisas em suas casas e garantir-lhes que estão bem. Façam isso após o café, se desejarem. Garantiremos que as cartas sejam entregues com as tortas ainda hoje.
O restante dos Selecionados sorriram, alguns, como Gwen, felizes por finalmente serem incluídos nos acontecimentos e outros, como Vivian, apenas para não desagradar o Príncipe. Terminado o café, todos se retiraram rapidamente para escrever suas cartas. Merlin ficou feliz que ninguém tentou falar com ele pelo caminho, pois até Gwen o olhava de maneira estranha.
Gili lhe arrumou material de escritório e Merlin escreveu um bilhete rápido para sua mãe e Will. E, embora sua mãe provavelmente fosse surtar um pouco, Merlin tentou acalmá-la o máximo que podia com algumas poucas palavras numa folha de papel.
Queridos mamãe e Will,
Já Sinto falta de vocês! Nem parece que faz apenas um dia em que estava em casa com vocês.
O Príncipe pediu que escrevêssemos para casa, contando às nossas famílias que estamos seguros e bem e eu realmente estou. E não se preocupe, mãe, não estou fazendo nenhuma besteira.
Merlin fez questão de assegurar, pois sabia que sua mãe devia estar maluca e esperou que ela pudesse entender o que ele queria dizer com aquilo.
A viagem de avião foi um pouco assustadora, mas foi boa ao mesmo tempo.
Ganhei muitas roupas, entre outras coisas aqui no palácio e tenho três criados aos quais já me afeiçoei. Daegal, o mais novo, é bem tímido e parece uma criança, apesar de que deve ter minha idade.
Os outros Selecionados são bem simpáticos também. Fiz duas amigas inesperadas. Isolde, embora ela tenha voltado para casa esta manhã. E Gwen, a outra Seis na competição. Espero que possa me encontrar com elas novamente, quando tudo isso acabar. Ambas são incríveis, cada uma a sua maneira.
Conheci o Príncipe, o Rei e a Duquesa hoje pela manhã e acho que tudo o que tenho permissão a dizer é que eles são mais nobres pessoalmente do que pela televisão. Ainda não conversei com o Rei ou com a Duquesa, apenas com o Príncipe Arthur.
Não achei que ele pudesse ser tão generoso e educado e quando ele fala de Camelot, dá pra sentir todo o amor que ele tem pelo seu povo.
Preciso parar por aqui, mas amo vocês e sinto imensas saudades. Escrevo de novo assim que puder.
Com amor,
Merlin.
Merlin revisou o texto umas quarenta vezes, tentando encaixar uma maneira de falar sobre seu encontro com o dragão, ou assegurar sua mãe de que estaria seguro, mas não encontrou formas de fazê-lo. Ele sabia que tanto sua mãe quanto Will leriam a carta várias vezes, tentando decifrar alguma mensagem escondida nas entrelinhas, então tratou de enviar uma mensagem especial para Will.
PS: Will, contei ao Príncipe Arthur como você era um irmão tão querido para mim e ele decidiu te recompensar, por isso está te enviando essas tortas. Elas não são tão boas que fazem você chorar? Ele disse que, por enquanto, é tudo que pode fazer por você.
Merlin esperava que Will conseguisse decifrar o que queria dizer através daquilo, mas tudo que poderia fazer naquele momento era torcer. Ele sabia que era improvável que Will sequer cogitasse o acordo que Merlin havia feito com o Príncipe, mas era o melhor que poderia fazer.
.oOo.
Durante o almoço, a Família Real não estava presente e os Selecionados foram informados por Alice que poderiam fazer suas refeições em seus quartos sempre que desejassem, caso não fosse solicitada a presença deles. Merlin ficou grato por sair dali o mais rápido possível, pois podia sentir as energias negativas que todos lhe lançavam e Gwen simplesmente ignorava seus olhares.
Naquela tarde, um mordomo bateu à porta de Merlin e quando abriu, foi para se deparar com o mesmo mordomo da cena do café da manhã, Gwaine.
"Ele não chorou, senhor." Ele disse, com um pequeno sorriso, parecendo muito satisfeito com isso.
"Porque você está sorrindo desse jeito?" Merlin perguntou, desconfiado.
"Nada, senhor." O homem ainda soava bastante satisfeito. "Sua Majestade pede para avisá-lo que virá buscá-lo em seu quarto por volta das cinco da tarde de amanhã. Por favor, esteja preparado."
Merlin não ficou irritado por perder, mas teria ficado feliz de conceder um dia de folga aos seus criados durante as semanas. E, pelo menos, sua mãe e Will haviam enviado cartas de volta.
A carta de Hunith não continha muitos detalhes, ela insistia em dizer como ele estava lindo na TV e coisas do tipo, mas a todo momento durante o texto a palavra cuidado aparecia, às vezes até em letras maiúsculas. Sua mãe claramente não fora discreta na mensagem que queria passar, mas Merlin sabia que qualquer outra pessoa que lesse aquilo acharia que ela era apenas uma mãe superprotetora.
Hunith concluiu dizendo estar feliz por Merlin ter conhecido Gwen e Isolde e tranquilizando-o dizendo que a distância não importa quando você se importa com alguém. Merlin dobrou a carta e guardou-a no envelope, abraçando-a contra o peito.
Will, por sua vez, estava impressionado por Merlin ter chamado a atenção do Príncipe. Não sei o que ele viu em você, mas continue com o bom trabalho. Merlin riu daquilo, imaginando se deveria continuar dizendo que o Príncipe não tinha chances com ele e ofendendo-o sempre que possível.
Ele admitiu estar com inveja por Merlin poder comer coisas tão gostosas o tempo todo e exigiu que Merlin mandasse mais comida, dizendo que isso era uma obrigação do Príncipe para com ele, se ele queria realmente ter alguma chance com Merlin. Merlin gargalhou tanto disso que seus criados o olharam com um misto de simpatia e preocupação.
Para surpresa de Merlin, entretanto, haviam muitas perguntas e insinuações sobre o Príncipe e, se Merlin não soubesse que Will conhecia os riscos, ele poderia jurar que o irmão estava torcendo para que o Príncipe o escolhesse.
Merlin jantou no quarto, naquele dia, não querendo encarar os outros Selecionados, ainda mais se eles continuassem ignorando-o como no almoço e foi para cama reconfortado por saber que Will e sua mãe estavam bem.
.oOo.
No outro dia, as coisas não melhoraram. A Família Real estava ausente novamente, tanto no café da manhã, quanto no almoço, e Merlin ficou isolado do restante dos Selecionados, inclusive durante a aula de etiqueta que tiveram pela manhã, pegando um dos lugares do canto aos fundos. Estava começando a se sentir cada vez pior. Não podia deixar de analisar como aquilo era irônico, os outros estavam fazendo birra com a única pessoa que não deveriam se importar.
"Em nome das aparências, você poderia segurar meu braço?" O príncipe pediu, quando Merlin se juntou a ele no corredor em frente ao seu quarto, naquela tarde.
Merlin hesitou um pouco, mas acabou cedendo. Seus criados haviam ajudado a escolher peças mais casuais – alegando que tudo bem, já que se tratava de um encontro de fim de tarde – e Merlin podia sentir o tecido engomado do terno do Príncipe sob a pele nua do seu braço, já que a camisa que Merlin usava estava dobrada até o cotovelo.
Aquilo tudo deixava Merlin bem incomodado e ele podia sentir uma sensação de formigamento nas pontas dos dedos e um zumbido no fundo da mente, que já lhe era muito familiar – ele tentou recapitular as últimas vinte quatro horas em sua mente, enquanto descia as escadarias ao lado do Príncipe e percebeu o que aquilo significava: a última vez que usara magia fora quando ouvira o Príncipe repreender o servo no Grande Salão, no dia anterior.
O Príncipe deve ter notado o desconforto de Merlin, pois tentou distraí-lo, quando alcançaram o lado de fora.
"Sinto muito que ele não tenha chorado."
"Por que será que não acredito nisso?" Merlin disse, num tom brincalhão, depois de lançar um olhar por cima do ombro e notar que Gwaine, o mordomo de olhar malicioso, seguia-os de perto.
"Nunca havia ganhado uma aposta antes. Foi bom." Apesar da voz do Príncipe continuar num tom bastante formal, Merlin notou algo em seus olhos que faziam com que ele parecesse uma criança feliz por ter ganhado um brinquedo novo.
"Sorte de principiante." Merlin resmungou, dando de ombros, quando eles passaram por mais guardas, em direção às sebes altas do jardim.
"Na verdade, eu sempre aposto, ou melhor, sou obrigado a isso." Os olhos do Príncipe tremeluziram ligeiramente e Merlin poderia jurar que ele estava prestes a girar os olhos.
"Você? Com quem você costuma apostar?" Merlin questionou, subitamente curioso.
"Comigo." Disse Gwaine às suas costas, fazendo que eles interrompessem sua caminhada, virando-se para trás.
Merlin franziu o cenho ao notar que haviam três cinegrafistas espalhados pelo jardim, além de muito mais guardas do que ele notara inicialmente.
"Por que ele está nos seguindo?" Merlin cochichou para o Príncipe. "Como podemos conversar a sós com ele ouvindo tudo que falamos?"
"Eu perdi uma aposta." O Príncipe gemeu, derrotado.
Merlin cruzou os braços contra o peito como se exigisse uma explicação. Por acaso o Príncipe havia convidado Merlin para um passeio apenas por isso? Por que perdera uma aposta?
"Eu disse ao Príncipe que você tentaria alertar seu irmão para que pudesse ganhar a aposta de vocês." Gwaine intrometeu-se.
Merlin arqueou uma sobrancelha para o homem, afinal, aquilo não explicava nada.
"Sua Alteza discordou de mim e eu sugeri que, caso você tentasse avisar seu irmão, ele me deixaria acompanhá-los no seu primeiro encontro." O homem concluiu.
"Você leu minha carta?" Merlin confrontou o Príncipe.
"Não! Lógico que não." O Príncipe negou prontamente.
"Então como vocês sabem o que escrevi na carta?" Merlin desafiou, cruzando os braços, cético.
"Toda correspondência que entra ou sai do palácio é verificada." Gwaine esclareceu. "Tive que cobrar alguns favores para descobrir mas só perguntei se você tinha avisado seu irmão, eu juro."
Merlin rangeu os dentes, ainda contrariado. Ele sabia que sua correspondência seria verificada, seria tolo achar que não, mas não sabia se acreditava ou não que o Príncipe não lera sua correspondência.
"E por que você aceitou esses termos?" Merlin sussurrou para o Príncipe.
O Príncipe Arthur parecia envergonhado, evitando o olhar de Merlin.
"Ele consegue ser muito orgulhoso às vezes." Gwaine continuou e Merlin percebeu então porque o sorriso da tarde anterior.
"Bem, não me sinto confortável com ele rondando nosso primeiro encontro, Majestade." Merlin sentenciou.
"Mas ele perdeu uma aposta!" Gwaine gemeu, e aquilo lembrou a Merlin de quando Will fazia birra para conseguir algo dele.
"Mas eu não." Merlin virou-se para Gwaine, decidido. Se o Príncipe Arthur não tomaria uma atitude a respeito daquilo, ele faria. "Se eu bem entendi… Gwaine, não é mesmo?" Ele começou, ao que Gwaine, assentiu, animado. "Você ganhou uma aposta na qual seria permitido acompanhar nosso encontro?"
"Sim, senhor." Gwaine concordou, muito satisfeito consigo mesmo para suprimir o sorriso.
"Então acho que não tenho alternativa, a não ser deixá-lo fazer isso…" Merlin começou, suspirando e quando o sorriso de Gwaine alargou-se ele completou. "de longe."
O semblante alegre do mordomo de repente desmoronou, sendo substituído por uma expressão perdida. Merlin cruzou os braços novamente, arqueando uma sobrancelha e o sorriso de Gwaine voltou a abrir-se.
"Ah, Princesa, você tem que ficar com ele." O mordomo exultou, e Merlin questionou-se o porquê de toda aquela alegria repentina.
"Não me chame de Princesa." Merlin disse, quase num rosnado.
"Ele não está falando contigo." A voz do Príncipe fez-se ouvir ao lado dele e Merlin voltou sua atenção para ele. O Príncipe Arthur estava extremamente corado, ainda evitando os olhos de Merlin, quando voltou-se para Gwaine. "Você pode ficar próximo ao chafariz, Gwaine. Se alguém perguntar, diga que pedi para que ficasse por perto, caso precisássemos de algo."
Gwaine assentiu, ainda sorrindo, parecendo inabalado com sua recente derrota e virou-se, caminhando em direção ao chafariz. O Príncipe ofereceu o braço para Merlin novamente e os dois caminharam ao lado das sebes altas, que provavelmente faziam parte do labirinto nos fundos do jardim que Merlin podia ver da janela da sacada de seu quarto.
"Como você conseguiu fazer isso?" O Príncipe parecia, ao mesmo tempo, surpreso e impressionado.
"Isso o quê?"
"Fazê-lo ir embora. Ele geralmente não desiste tão fácil assim das coisas." O Príncipe pareceu contrariado. "Faz anos que tenho que lidar com esse tipo de coisa."
"Acho que eu tenho um dom para fazer acordos." Merlin gracejou. "Foi o próprio Príncipe que me disse isso."
O Príncipe encarou Merlin com uma expressão que Merlin não conseguia decifrar e Merlin de repente não sabia o que dizer ou fazer.
"Ele é… peculiar." Merlin disse, quando o silêncio tornou-se desconfortável demais para manter.
"Não há necessidade de ser tão educado, Sr. Emrys. Pode dizer que ele é esquisito."
Merlin sorriu.
"Vocês parecem ser bem próximos." Merlin pegou-se curioso. "É um de seus amigos?"
"Eu não diria isso." O Príncipe franziu o cenho, ranzinza. "E não o deixe ouvir você dizendo uma coisa dessas também. Ele já se mete em problemas o suficiente sem incentivo."
Merlin percebeu certo afeto por trás das palavras do Príncipe, mas decidiu não insistir no assunto e deixou-se ser levado pelo Príncipe até um banquinho de pedra, onde se sentaram para conversar.
"Por que você não dispensou os primeiros candidatos no primeiro Jornal Oficial, como geralmente acontece?" Merlin pegou-se puxando assunto mais uma vez, pois parecia que o Príncipe Arthur não estava acostumado a fazer aquilo.
"Presumi que não havia necessidade de fazê-los passar por esse tipo de constrangimento." O Príncipe disse, num tom formal, como se aquela resposta já tivesse sido ensaiada, e provavelmente deveria, caso alguém perguntasse isso para ele.
Não pela primeira vez, Merlin pegou-se perguntando quanto do que saía da boca do Príncipe era ensaiado.
"Mas chega de falar sobre mim." O Príncipe disse de repente. "Estamos aqui para que eu possa te conhecer melhor, afinal."
"Achei que estivéssemos aqui para definir nossas táticas durante a competição." Merlin esquivou.
"Para confiar em você, Sr. Emrys, preciso te conhecer melhor." O Príncipe rebateu, num tom quase monótono.
"Justo." Merlin concordou. "Então comece por me chamar apenas por Merlin." Ele exigiu. "Ficar me chamando de senhor o tempo todo é muito estranho. Não estou acostumado com isso."
"Tudo bem. Se você insiste." O Príncipe abriu um sorriso triunfante. "Me conte sobre sua família."
Merlin contorceu os lábios, pensando um pouco.
"O que você quer saber deles?"
"Estou apenas, curioso." O Príncipe disse, colocando os cotovelos sobre os joelhos, o queixo sobre as mãos e inclinando-se para Merlin, como na manhã do dia anterior. "Suspeito que deva ser bem diferente da minha."
"Provavelmente." Merlin concedeu, entre risos. "Will não gosta de usar coroa durante o café da manhã."
O Príncipe sorriu novamente.
"Apenas durante o jantar?"
"Obviamente." Merlin zombou.
Os dois sorriram novamente e Merlin encontrou-se surpreso do quão comum parecia aquela conversa, como se o Príncipe de repente se tornasse alguém… normal. A cada segundo que passava, Merlin tinha mais certeza de que o Príncipe estivesse bem longe de ser o esnobe que ele supunha.
"Bem… sou filho único, tecnicamente." Merlin começou a dizer, policiando-se para não contar nada que não deveria e culpando-se pelas mentiras que já sabia que teria que dizer. "Meu pai faleceu quando eu tinha três anos e minha mãe nunca mais se casou."
"Não deve ter sido fácil para ela." O Príncipe disse em tom solene. "Ter criado você sozinho."
"Ela sempre disse que jamais optaria por se casar novamente com alguém que não amava." Merlin deu de ombros. "Ainda mais correndo risco de ter vários filhos e não conseguir sustentá-los."
"E por que isso?" O Príncipe franziu o cenho.
"As castas inferiores não tem condições de controlar essas coisas, Alteza. Eu sou um Seis, lembra?" Merlin arqueou uma sobrancelha.
"Claro." O Príncipe engoliu em seco, colocando-se ereto novamente e parecendo envergonhado. "Me desculpe."
Merlin decidiu não pressionar o Príncipe sobre o assunto. Ele realmente parecia não se lembrar que a realidade de Merlin era diferente da dele, às vezes.
"Bem, de qualquer forma, isso não pareceu ter tanta importância para ela quando a mãe de Will faleceu de tuberculose." Merlin deu de ombros. "Acho que eu deveria ter uns seis ou sete anos na época."
"Sua mãe parece ser uma pessoa bem generosa." O Príncipe disse, o canto do lábio se curvando levemente, mas Merlin pôde sentir um pouco de tristeza em seu tom de voz. "Gostaria de conhecê-la um dia."
"Ela é a melhor pessoa do mundo." Merlin confirmou, abrindo um sorriso.
"Deve ser bom." O Príncipe disse, com um olhar vago em direção ao nada e Merlin percebeu que aquelas palavras haviam escapado sem permissão, quando o loiro desviou o olhar.
"Ela trabalha na casa do Prefeito e sempre cuidou de nós dois, como se ambos fôssemos filhos dela, mesmo que Will seja um Sete." Merlin continuou a dizer, como se não tivesse percebido o deslize do Príncipe. "Eu aprendi desde cedo a não me importar com castas. Will provavelmente teria morrido de fome se minha mãe não tivesse decidido ajudá-lo e sinto muito orgulho disso."
"Mas as castas são importantes para manter a estrutura econômica da nação." O Príncipe empertigou-se. "Sem elas, entraríamos em colapso."
Merlin bufou, disfarçando seu desapontamento com desdém. "Eu devia ter adivinhado."
"Você não concorda?" O Príncipe encarava-o com o cenho franzido, quando Merlin voltou-se para ele, como se magoado por Merlin não concordar com ele.
Merlin suspirou.
"Sem ofensas, Alteza, mas creio que tenhamos vivido experiências diferentes." Merlin engoliu em seco. Não queria chatear o Príncipe, mas não poderia concordar com aquelas palavras. "Somos de mundos opostos, afinal."
O silêncio que seguiu-se foi o mais desconfortável até então. Os dois evitaram olhar um para o outro por longos segundos, antes que o Príncipe quebrasse o silêncio novamente.
"E Will? Como ele é?"
"Will é um idiota." Merlin sorriu com carinho. "Ele sempre cuidou de mim, desde que éramos crianças e age como se fosse muito mais velho, o que é muito chato. Nós não nos vemos muito atualmente, porque trabalhamos e dormimos em horários opostos. Mas o que posso dizer? Ele é trabalhador, honesto, inteligente e muito irritante."
Quando Merlin encontrou o olhar do Príncipe, este estava com o semblante endurecido.
"Que foi?" Merlin perguntou, confuso.
"Nada." O Príncipe voltou o olhar para grama. "Só parece que ele é muito importante para você."
"Ele é meu irmão!" Merlin exclamou, tentando chamar a atenção do Príncipe para a obviedade daquilo. "Aposto que você se sente da mesma maneira sobre a Duquesa Morgana, não?"
O Príncipe franziu o cenho, pensativo e voltou o olhar para Merlin.
"Suponho que só agora eu tenha entendido o que ele significa para você." O Príncipe disse em tom solene. "Perdão."
Eles permaneceram em silêncio, observando um coelho correr de um lado para o outro do jardim.
"Por que é tão importante para você que ele se torne um Três, afinal?" O Príncipe questionou um tempo depois. "Você pode ajudá-lo, mesmo que ele não suba de casta, não?"
"Will é orgulhoso demais." Merlin fez uma careta. "Nunca aceitou contribuir menos do que eu em casa, mesmo que tivesse que trabalhar bem mais para isso."
"Mas você sendo um Três, isso seria impossível."
"Exatamente." Merlin exultou, feliz que o Príncipe entendesse. "Além disso, também tem Freya."
"Quem é Freya?" O Príncipe voltou a franzir o cenho, ranzinza.
"Há alguns anos, Will começou a trabalhar numa fazenda, próxima a nossa cidade." Merlin começou, ignorando as oscilações de humor do Príncipe. "Tudo parecia bem. Ele estava feliz, ganhando bem, a família empregadora o tratava bem, mas ele se apaixonou pela filha do casal."
"E qual o problema nisso?" O Príncipe franziu o cenho.
"Ele é um Sete, Alteza." Merlin irritou-se. Será que era tão difícil assim para o Príncipe Arthur entender que as coisas no mundo lá fora não funcionavam como ali no palácio? "A casta dele não mudará da noite para o dia como a da pessoa que se casar com você."
Os dois se encararam novamente e Merlin percebeu que aquela conversa não os levaria a lugar algum.
"Vamos mudar de assunto."
"Não." Exigiu o Príncipe. "Eu quero entender." Ele disse, entre uma ordem e um pedido.
"Assim como eu quero que você tenha a chance de encontrar seu amor nessa competição, eu também desejo que Will possa viver o amor que ele já encontrou mas não deseja lutar por ser um burro orgulhoso." Merlin disse dando de ombros, sua raiva já meio dissipada.
"Obrigado por esclarecer minha dúvida. Significa muito para mim." O Príncipe disse com um leve aceno de cabeça.
Merlin não podia deixar de achar o tom e a formalidade do Príncipe Arthur exagerados, principalmente porque estavam apenas os dois, conversando como amigos.
"Sabe… seria bom se você maneirasse um pouco na formalidade quando for se encontrar com os outros Selecionados." Merlin começou, pisando em ovos. "Sei que deve ser difícil controlar isso, que você deve ter sido educado para ser assim, mas se quer ter encontros normais com os outros, seria bom pegar mais leve nesse ponto."
"Com os outros?" O Príncipe repetiu, de forma mecânica, seu olhar meio perdido.
"É." Merlin tentou buscar as palavras para fazê-lo entender o que queria dizer. "Os outros estarão num encontro real com você, nem todos eles gostarão de ser tratados com tanta formalidade. Eu entendo porque sei que não passaremos de amigos, mas alguns deles podem ficar ofendidos."
O Príncipe colocou-se de pé, aparentemente irritado, e Merlin fez o mesmo.
"Você realmente não considera isso um encontro real, não é mesmo?" O tom de mágoa agora era palpável e Merlin sentiu-se culpado de repente.
"Eu…"
O Príncipe começou a se afastar em direção às sebes do jardim novamente e Merlin o seguiu. Ele pisava duro e Merlin teve que apressar-se para alcançá-lo.
"Está tudo bem?" Merlin colocou uma mão sobre seu ombro, quando o alcançou.
"Não. Não está nada bem." O Príncipe vociferou.
"Então explica por que não está bem." Merlin desafiou.
Ele sabia que estava pisando em solo desconhecido, pressionando o Príncipe daquela maneira, mas já percebera que às vezes precisaria desafiá-lo se quisesse obter uma resposta.
O Príncipe continuou a encará-lo, parecendo furioso, e Merlin desviou os olhos dos dele, relanceando os cinegrafistas e guardas que estavam mais atrás. Merlin perscrutou o jardim com o olhar e percebeu que todos os olhos estavam voltados para eles. Ótimo! Era tudo que ele precisava agora, que as câmeras tivessem registrado sua discussão com o Príncipe.
Verdade seja dita, o Príncipe Arthur escondia muito bem suas emoções, então dificilmente as pessoas entenderiam o que se passava entre eles. O mais próximo deles continuava sendo Gwaine, ao lado do chafariz, e nem ele parecia ter notado que o Príncipe estava bravo, já que Arthur permanecia de costas para todos.
Mas aquela invasão de privacidade, todos aqueles olhos em volta observando, fez com que ele se encolhesse, virando-se de lado, como se quisesse se esconder atrás do Príncipe.
"Merlin, o que…"
O Príncipe pareceu confuso por alguns instantes, antes de olhar por cima do ombro e fazer um gesto com a mão.
Todos os cinegrafistas e guardas se retiraram imediatamente para dentro, apenas Gwaine permanecia ao lado do chafariz. Merlin não estava ansioso para continuar sob o escrutínio de todas aquelas pessoas, mas estranhou aquilo do mesmo jeito.
"Você está bem? Parece tenso." O Príncipe perguntou, colocando as mãos sobre os braços de Merlin, como se não quisesse assustar um animal selvagem, mas o movimento só fez com que Merlin se sentisse mais desconfortável.
"Você também estava tenso alguns segundos atrás." Merlin acusou, remexendo-se para desalojar as mãos do Príncipe. "A diferença é que não escondo meus sentimentos por trás de uma máscara."
"O que você quer dizer com isso?" O Príncipe perguntou ressabiado.
"Que você me deixa confuso." Merlin admitiu.
"Por que te deixo confuso?" O Príncipe parecia realmente intrigado.
"Seu caráter, suas intenções…" Merlin começou a gaguejar, sentindo um arrepio pela espinha e o zumbido que havia cessado durante todo aquele tempo voltou a soar em seus ouvidos.
O Príncipe semicerrou os olhos e avançou um passo. Os dois voltaram a ficar bem próximos e, apesar de a brisa ser quente, Merlin sentiu um arrepio subir pela espinha.
"Meu caráter? Você duvida do meu caráter?"
"Desculpa." Merlin sacudiu a cabeça. "Falei sem pensar. Eu não te conheço, afinal."
Merlin começava a sentir-se zonzo novamente. Não, não, não. Agora não!
"Explique-se então." O Príncipe exigiu, e Merlin percebeu que aquilo não era uma sugestão, mas uma ordem.
"Não entendo o que espera dessa nossa voltinha, Alteza." Merlin não pôde impedir o tom irônico que acompanhou as palavras.
"Achei que tivesse feito minhas intenções bem claras, Sr. Emrys." O Príncipe devolveu no mesmo tom. "Ou preciso explicar exatamente o que quero de você?"
Ele disse, avançando mais um passo e Merlin entrou em pânico. Sua respiração parou e o tempo andou em câmera lenta, seus olhos vagaram o jardim rapidamente e Merlin percebeu que, além de Gwaine, não havia mais ninguém – não que o homem fosse de grande utilidade, caso o Príncipe fosse tentar algum avanço, seu olhar malicioso indicava mais que ele preferia se sentar e observar do que interromper.
O joelho de Merlin reagiu automaticamente, subindo de encontro a virilha do Príncipe com velocidade. O Príncipe soltou um som agudo, mas abafado e levou a mão à região agredida, cambaleando para trás.
"Por que fez isso?" Ele reprimia uma careta de dor, enquanto protegia a região.
"Se encostar um dedo em mim, farei pior." Merlin ameaçou, ainda com medo, pois Gwaine se aproximava dos dois.
"O quê?" O Príncipe empertigou-se, parecendo se recuperar.
"Se você…"
"Não, seu idiota. Eu ouvi da primeira vez." Ele interrompeu, com outra careta de dor, quando se colocou de lado, levantando uma mão em direção a Gwaine. O mordomo estacou no local que estava. "O que eu não entendo é o que você poderia fazer comigo. Perdoe-me se no momento não consigo pensar em algo pior que uma joelhada." Ele acrescentou meio sarcástico, meio ofendido.
Merlin sentiu o calor subir ao rosto. Ah, não. Ele percebeu então que agredira o Príncipe para se proteger de algo que não tinha a menor chance de ocorrer.
O Príncipe passou a mão pelos cabelos parecendo furioso e ao mesmo tempo envergonhado, toda vez que relanceava em direção ao mordomo. Depois de longos instantes ele encarou Merlin.
"O que você achou que eu fosse fazer, Sr. Emrys?" Ele vociferou.
Merlin abaixou a cabeça, corado. Ele não podia encarar os olhos do Príncipe, tamanha a vergonha que sentia.
"Merlin, eu exijo que me diga o que você imaginou que fosse acontecer." O Príncipe soava cada vez mais irritado, mas não apenas isso, ele estava obviamente ofendido.
Merlin encarou-o, ainda sem conseguir dizer uma palavra e percebeu que não precisava dizer nada, pois as narinas dilatadas no Príncipe diziam por si só que ele adivinhara a resposta.
Ele deu meia-volta e já dera três passos em direção ao palácio, quando voltou-se para Merlin, parecendo ainda mais alterado.
"Se me considera tão baixo assim," Ele cuspiu as palavras num sussurro amargo. "Por que ofereceu sua amizade então?"
Merlin não conseguiu encará-lo e notou que Gwaine se aproximava deles cautelosamente – aparentemente, Merlin havia julgado errado não apenas uma, mas duas pessoas naquele dia.
"Você jantará no seu quarto esta noite." O Príncipe ordenou, colocando-se ereto novamente, sua voz voltando ao seu tom normal, mas ainda soando fria. "Cuido de você pela manhã."
Ele virou-se em direção ao palácio em seguida.
"Nenhuma palavra sobre isso, Gwaine." Ele ouviu o Príncipe vociferar. "Acompanhe o Sr. Emrys até o lado de dentro quando ele se recompor."
Merlin cambaleou até o banquinho que ele e o Príncipe haviam se sentado e deixou-se cair ali. Gwaine ficou parado a uma distância de dois metros e lançava olhares tristes que Merlin evitava. Alguns instantes depois, Merlin pôde ver o movimentos dos guardas retornando, mas os cinegrafistas não voltaram com eles.
Gwaine esperou com Merlin no jardim durante muito tempo, pois Merlin esperou até ter certeza de que todos os Selecionados teriam descido para o jantar para voltar para o lado de dentro.
"Garanto que amanhã o Príncipe estará mais calmo." Gwaine disse, com um sorriso consternado, quando alcançaram a porta do quarto de Merlin.
Merlin agradeceu com um sorriso, mas duvidava que isso fosse verdade.
Gili, Kara e Daegal estavam empolgados quando Merlin entrou, achando que Merlin passara todo aquele tempo com o Príncipe. O jantar de Merlin já fora servido na mesa próxima a sacada e Merlin sentou-se para comer, esperando que assim evitasse qualquer pergunta. Mas até Gili, o mais compenetrado dos três, estava inquieto e Merlin não conseguiu continuar evitando os olhares.
"Que foi?" Ele perguntou, por fim.
"Logo depois que o senhor saiu, um dos próprios cavaleiros do Príncipe veio nos informar que teremos um dia de folga por semana enquanto estivermos ao seu serviço, senhor." Gili disse, por fim. "Ele disse que deveríamos agradecê-lo por isso."
Os três se curvaram diante de Merlin em reverência e seu estômago despencou, percebendo o que o Príncipe havia feito – mesmo ganhando a aposta, ele cedera ao pedido de Merlin.
"Também pediu que lhe entregássemos isso, quando veio nos avisar." Kara estendeu um cartão para Merlin, o selo de Camelot estava estampado sobre ele.
Merlin sorriu o melhor que pôde e terminou sua refeição, dispensando os criados, pensando que, quando o Príncipe o expulsasse no outro dia pela manhã, poderia explicar-lhes o que havia ocorrido. Apenas quando deitou-se na cama foi que teve coragem para ler o bilhete.
Você pede coisas para os outros em vez de pedir para si, o que me torna incapaz de negar.
Mas, por mim, não se gabe muito disso.
Espero ansioso pelo nosso encontro.
De seu amigo,
Arthur.
