Naruto não me pertence.
Essa fanfic é uma adaptação do livro Mestre do prazer de Penny Jordan publicado pela editora Harlequim.
Essa adaptação não tem fins lucrativos
Capitulo 7
Ela não ia nem pensar em Naruto, quanto mais analisar esse perturbador interlúdio no caminho da praia. Imediatamente, destruiu o próprio sistema de defesa perguntando-se, com raiva, por que estava com tanto medo de chamar aquele beijo de beijo, referindo-se a ele como "interlúdio". Naruto a beijara. O que provava o que já sabia: os fatos ocorridos depois que ela o abandonou não foram suficientes para manter a enorme barreira que havia entre eles, olhou sua imagem no espelho do quarto.
Usava brincos de diamante que, junto com os braceletes de plástico, confeccionados pelo filho no último Natal, eram as únicas jóias que tinham valor para ela. Jiraya os tinha dado de presente após saber que ela esperava um menino.
Um presente dele e do pai, dissera amoroso. Ela tentara protestar, pois dois diamantes de dois quilates cada eram uma fortuna, mas Jiraya a convenceu, insistindo que brincos de diamantes eram essenciais para uma mulher italiana. E quando o filho nasceu, pesando mais de 3,5kg, ele dissera triunfante que dois quilates por brinco era um insulto para o filho deles.
Enquanto sacudia a cabeça diante da lembrança, os brincos brilharam. Não devia ficar sentada, perdendo tempo. Tinha um encontro importante em Port Cervo antes do almoço. Quanto a Naruto – quando setembro chegasse e Boruto voltasse para a escola, – não seria obrigada a vê-lo por meses.
Mas ainda faltavam quase seis semanas, e só de conviver com ele três dias já era forçada a suprimir o ardente desejo que sentia. Por ele? Como sabia ser ele a causa? Tinha 28 anos e vivera como celibatária. Uma vida celibatária apesar de ser casada. Vários homens deixaram claro que adorariam ajudá-la a quebrar os votos matrimoniais, mas simplesmente não sentira vontade. Isso era assunto encerrado. Ou assim acreditava. Podia ser coincidência a presença de Naruto fazê-la sentir-se assim. Outro homem podia exercer sobre ela o mesmo efeito. O problema era que não tinha outro homem para testar a teoria. É claro que a outra maneira de descobrir seria ceder ao pedido do corpo e... E o quê? Pedir a Naruto para levá-la para a cama? Ah, ele adoraria isso, pois confirmaria sua opinião sobre ela. Pegou a escova. Sabia, pelos comentários ácidos, quando vivia com ele, que sua infância fora infeliz. Sentia-se ainda mais unida a ele ao saber do abandono da mãe e de como o avô o tratara. Mas não tinha intenção de analisar a fundo o passado. Ela foi obrigada a trabalhar e superar o passado. Reconhecera ser preciso mais que o amor de outra pessoa para curar as feridas emocionais de Naruto. Precisava que ele mesmo se amasse. Nenhum dinheiro ou sucesso poderia comprar isso, e tampouco ninguém poderia dar isso a ele. Mas, mesmo sabendo disso, ainda não conseguia deixar de sentir pena pela criança que ele fora. Lágrimas turvaram-lhe os olhos, só de pensar na rejeição sofrida – ele era apenas um bebê, totalmente dependente da mãe quando ela o abandonara, sob a insistência do pai, para voltar à vida da qual sentia falta. Mas ele era um bebê indefeso.
Agora era um homem perigoso, e ela seria uma tola se esquecesse.
— Onde você vai? Hinata gelou na escadaria, ruborizada ao olhar para Naruto. Ela não tinha ouvido a porta da suíte se abrir e estava ali parada se sentindo uma garotinha malvada pega cometendo uma falta.
— Por que quer saber?
O olhar analítico de Naruto a percorreu de cima a baixo. Ela estava, obviamente, vestida para sair. Um sentimento indesejado contraiu-lhe a musculatura. Droga! Por que se importava com o que ela fizesse? Só devia se preocupar com o garoto.
— Se está planejando levar Boruto com você...
— Não estou — interrompeu-o. Já havia combinado com Tomoe e Tsunade, para que elas tomassem conta dos meninos, confiava nelas para mantê-los sob vigilância e longe de qualquer perigo ou confusão.
— Não, imagino que não — concordou Naruto. — Chega do papel de mãe devotada.
Hinata podia sentir a raiva crescer. — Estou saindo para tratar de negócios, embora isso não seja de sua conta. Por isso não vou levar meu filho.
— Eu não teria permitido que os levasse. Combinei de entrevistar um tutor para eles no final da tarde e, naturalmente, ele vai querer conversar com eles
Hinata tentou objetar, tentando ordenar as idéias.
— Você não tem o direito de me proibir de sair com meu filho — finalmente disse. — Nem ele precisa de um tutor. Está de férias.
Ela havia visto o resultado de pais ambiciosos exigirem demais das crianças. Queria ver o filho atingir seu potencial, é claro, mas também queria vê-lo crescer aproveitando a liberdade e as alegrias da infância.
— Eles é meu pupilo. Logo você pode concluir que preciso saber mais sobre ele.
— Podia fazer isso conversando com ele — disse debochada. — Ele é uma crianças, não alguma empresa que você comprou. Não pode compreender como ele funciona lendo um relatório preparado por alguém. Como... Como uma espécie de balanço. Que atitude tomará se o relatório determinar não ser inteligente o suficiente para você maximizar seu investimento? Despachá-lo para outra pessoa?
— Não seja ridícula. Você sempre exagera.
— Exagero? Ele é meu filho — lembrou. — Não de... — Sacudiu a cabeça. Qual o sentido de discutir com ele? Nenhuma palavra o faria compreender como ela se sentia simplesmente porque era incapaz de sentir qualquer coisa. — Não pode fazer isso, Naruto — disse firme. — Não vou permitir. E Boruto? Como acha que vai se sentir?
— Do jeito que fala, parece que vou submete-lo a alguma espécie de tortura, quando na verdade você já fez o mesmo com ele.
— O quê?
— Com certeza ele foi submetido a um exame de admissão na escola. — Hinata mordeu o lábio inferior. É claro que sim, e com a típica confiança masculina, ficou orgulhoso por ter alcançado êxito.
— O professor Iruka é um educador altamente qualificado, com vários anos de experiência. Hinata lançou-lhe um olhar irado.
— Você disse que entrevistaria um tutor em potencial.
— Se for necessário, ele vai dar aula a ele, mas, inicialmente, quero que o avalie.
— Pare com isso! — explodiu Hinata. — Eles é uma criança. Criança. Entendo que você não teve uma infância normal...
— Motivo pelo qual pretendo me certificar de que meu herdeiro estará bem preparado.
— Seu herdeiro? — conseguiu murmurar. — O que... o que quer dizer?
— Não é óbvio? Quero dizer que já que Boruto é filho de Jiraya, é meu herdeiro natural, gostaria de ter uma idéia do quão bem preparado está para assumir essa responsabilidade.
O alívio era quase tão intrigante quanto o medo.
— Então eu estava certa. Não está falando apenas de avaliação. Bem, nem você nem o professor vão submeter meu filho a nenhum tipo de teste psicológico. Já lhe ocorreu que ele pode não querer se envolver em seus negócios? Nada o impede de ter filhos.
— Não, nada me impede, e pretendia ter filhos. Mas me parece que já que o filho de Jiraya está aqui e têm o meu sangue, faz sentido ser meu herdeiro. E quanto aos testes psicológicos, você está deixando sua imaginação delirar. O professor vai simplesmente conversar com ele e depois me dirá o resultado da entrevista. E há uma coisa da qual pode estar certa: meu pupilo não vai para um colégio interno.
Hinata ficou desesperada. Mas não ia, de jeito nenhum, ser forçada a explicar seus atos para Naruto e não ia, também, implorar-lhe compreensão e ajuda. Suprimindo o instinto de defesa, perguntou:
— Quando esse professor deve chegar?
— Depois do almoço. E, ao contrário do que você parece supor, a avaliação será para benefício dele.
— Vou estar de volta. Ele não vai perguntar nada a ele, nem uma simples pergunta, sem a minha presença — avisou.
Ela precisava de um tempo para si mesma, para pensar. Ainda se sentia mal e tonta. Sem mais nenhuma palavra, desceu apressada a escadaria e foi para o jardim, onde Boruto e Shikadai estavam ocupados mostrando a Tsunade como conseguiam ficar de cabeça para baixo.
— Ei, garotos — riu Tsunada, demonstrando aprovação e afeto. Garotos, sem dúvida, concordou Hinata, agradecendo a Tsunade por ficar de olho neles. Entrou no carro pequeno comprado por Jiraya para ela.
O percurso até Port Cervo, o elegante resort na costa Esmeralda, um lindo porto com hotéis sofisticados, não seria longo. Esperava estar vestida adequadamente para a ocasião. Nessa época do ano a baía de Port Cervo estaria lotada de iates caros, e mulheres bem vestidas passeariam pelas ruas fazendo compras nas butiques exclusivas. Para conseguir atingir seu objetivo era importante parecer que ainda fazia parte desse mundo.
Naruto a viu partir da janela do andar de cima, incomodado. Ela usava um vestido de linho cinza-claro, do mesmo estilo do que usava no dia em que ele chegara. Um bracelete de ouro brilhava no pulso, óculos escuros de tartaruga grandes protegiam-lhe os olhos. Quando ela se sentou no carro, ele pôde ver o tom rosado natural das unhas dos pés nas sandálias que faziam sobressair a delicadeza de seus tornozelos e pés. No calor da manhã avançada, quase podia sentir seu perfume. A casa inteira tinha o cheiro dela – os aposentos pelos quais passara, no cabelo do garoto. Estava em toda parte, exceto nos aposentos dele.
Só havia um lugar onde pudesse ter ido vestida assim. E só uma razão. Sua boca se contraiu. Ela podia se entregar a quantos homens desejasse – quando tivesse quitado o débito com ele.
Hinata estacionou o carro e atravessou as ruas elegantes, hesitando momentaneamente diante da loja, antes de tocar a campainha e esperar a porta ser aberta. O dono veio cumprimentá-la, conduzindo-a à sua elegante sala.
— Gostaria de uma xícara de café?
Hinata agradeceu e abriu a bolsa. Quando telefonara para ele, explicara o motivo da visita, para poupar o constrangimento pessoalmente. Como ele não demonstrou surpresa, deduziu que estava a par dos problemas financeiros do marido.
Colocou a bolsa na mesa, retirou as caixas arrumadas cuidadosamente, abrindo-as uma a uma: o conjunto de colar e brincos de diamantes e esmeraldas que ganhara de Jiraya no primeiro aniversário de casamento; o anel Cartier de esmeralda retangular cercado por diamantes que sabia ter custado mais de 250 mil euros; o imenso solitário, seu anel de noivado; o anel de diamante amarelo rodeado de pequenos diamantes brancos. Finalmente, pegou os brincos de diamante e, pela primeira vez, a mão tremeu.
— Quanto me dá por tudo? — perguntou baixinho ao joalheiro. Ele pegou uma lente de aumento e examinou cada item cuidadosamente. Demorou mais de meia hora para responder, e quando mencionou a quantia que estava disposto a oferecer pelas jóias, ela suspirou, aliviada.
Não chegava nem perto do que devia ter custado, mas era o suficiente para conseguir um teto e, se fosse cuidadosa, sobraria para as anuidades do colégio. Queria mantê-lo na escola de que tanto gostava.
Acenou de leve, os olhos arregalados de surpresa quando o joalheiro empurrou os brincos de diamante para ela.
— Fiz os cálculos sem incluir estes — disse em voz baixa. — Deve guardá-los. Tenho certeza de ser o desejo de seu falecido marido.
Mordeu o lábio para impedi-lo de tremer. Estava tão emocionada que custou a colocar os brincos. Dez minutos depois deixara as jóias e caminhava decidida para o banco, com o cheque na bolsa. Jiraya tinha sido gentil e generoso, mas era antiquado também. Hinata nunca teve dinheiro seu. Jiraya alegava ser desnecessário. Ela recebia uma mesada e possuía um cartão de crédito, cujas faturas eram mandadas para ele. Era estranho depositar uma quantia tão alta em sua conta. Agora, ela e os meninos não dependeriam de Naruto. Se quisesse, compraria passagens no primeiro vôo para Londres. Mas o filho ficaria desapontado em partir antes do término das férias de verão, e pelo bem dele, suportaria a presença de Naruto – e sua caridade – por mais algumas semanas.
Mas quando Boruto estivesse de volta à escola... Ela planejara tudo. Alugaria um apartamento perto da escola para levá-lo de manhã e buscá-lo à tarde. E, com sorte, encontraria logo um emprego. Depois, procuraria uma pequena propriedade para comprar. Não seriam ricos, mas iam se virar. E os filho seria feliz – ela iria se empenhar.
Estava na hora de voltar para casa. Hinata fechou os olhos e pediu forças. Nunca tinha imaginado que seus caminhos se cruzariam. Naruto e Jiraya eram parentes, mas raramente se encontravam, e ela havia deixado claro para Jiraya que não queria nenhum contato com Naruto. E nunca suspeitara, nem nos piores pesadelos, que quando voltasse a vê-lo se sentiria como nesse momento. Estava quase tentada a fazer aquilo de que ele já a acusara e arranjar um amante – qualquer um – só para provar a si mesma que eram os longos anos sem sexo, aliados à presença dele, que reativavam as memórias, deixando-a insone e louca de desejo.
Não era Naruto exatamente. Sua experiência sexual não era extensa. Talvez o corpo tivesse armazenado lembranças do prazer ilimitado compartilhado por eles. E se pudesse provar isso a seu corpo, talvez ele parasse de atormentá-la tanto. Talvez devesse testar essa teoria. Hinata parou de andar e olhou para a frente. Era uma idéia maluca. Maluca e perigosa.
— Seu filho é meninos de sorte por ter uma mãe como a senhora — disse o professor Iruka com um sorriso caloroso. Ele chegara à tarde, logo depois do almoço que ela preparara ao voltar. Apesar de sua inicial determinação de não gostar dele, teve que admitir que ele a ganhara – e não devido aos comentários elogiosos. Boruto aceitou o professor imediatamente, e Hinata reconheceu sua capacidade para lidar com crianças e ensiná-las. Passara quase toda a tarde não observando, mas participando das atividades, fazendo perguntas de maneira tão sutil que a ansiedade maternal foi logo aplacada.
— Acredito que as férias escolares devem ser tratadas como descanso. Não quero que ele fique trancado em casa, ocupado com várias atividades. Quero que aprenda por si mesmo a gostar da vida.
— Isso é óbvio pela maneira como interage com ele — o professor disse, com novo sorriso de aprovação. — Espero que tenha afastado seus medos quanto ao período em que o colocou no colégio interno — continuou, e Hinata ficou tensa. Sentira alívio em trazer o assunto à tona com ele, confidencialmente, e mais ainda quando ele lhe garantiu que ficara claro para ele que o filho tinha gostado da novidade de ficar interno e, certamente, isso não lhe causara sofrimento, mas ela não queria que sua vulnerabilidade e medo fossem expostos a Naruto.
Entretanto, não havia nada que pudesse fazer, com Naruto parado a seu lado, para pedir ao professor que mudasse de assunto.
— Naruto comentou sobre a preocupação dele em relação à situação — explicou o professor. — É compreensível ambos terem tocado no assunto comigo. Posso garantir, Hinata, que tendo em vista o pai estar à beira da morte e você estar tentando conseguir uma alternativa de tratamento para ele, não tinha outra alternativa. Soube do médico que procurou em Nova York. Ele conseguiu resultados impressionantes com seu método inovador da cura do câncer.
— Sim. Eu esperava... Mas ele explicou que o estado de Jiraya estava muito avançado para que pudesse fazer algo. Hoje acho que talvez tivesse sido melhor ficar ao lado dele.
— Você fez o que acreditou ser o melhor para ele — tranqüilizou-a o professor.
— Quanto a Boruto, foi bem melhor conviver com os amigos em um ambiente familiar e seguro do que testemunhar o problema que se desenrolava em casa. Calculo que muitas vezes desejou tê-lo a seu lado, pois isso lhe serviria de consolo — disse numa voz gentil. Foi difícil conter as lágrimas.
Era a primeira vez que alguém reconhecera o quanto ela precisara de apoio.
— É verdade. Mas não quis sobrecarregá-lo.
— Não a vejo como o tipo de mãe que faria isso com o filho — disse o professor, caloroso. — Todos podemos ver como ele é equilibrado e feliz. Como dizia a Naruto — continuou, — se deseja que Boruto seja encorajado a se interessar por política internacional e negócios, seria uma boa idéia estimulá-lo a estudar história e o meio ambiente, o que você já vem fazendo.
Ele era um homem alto, com modos educados e um ar professoral, ficando impossível para Hinata não corresponder a seu entusiasmo e educação. Os meninos estavam brincando do lado de fora.
Hinata os olhou da janela do aposento que Naruto transformara em escritório, enquanto esperava o professor terminar o café e concluir suas observações. Pelo barulho que faziam, a brincadeira obviamente incluía algum tipo de corrida de carro. Não viu Naruto andar em sua direção e ficar a seu lado, olhando os meninos, mas imediatamente sentiu sua presença. Queria desesperadamente mudar de lugar e colocar mais distância entre eles, mas estava muito perto da janela. E ele, muito perto dela.
— Devem estar treinando para a Fórmula 1. — O professor soava grave, mas quando Hinata o olhou viu que ele piscava o olho.
— Boruto me disse que Shikadai vai desenhar um carro e ele vai dirigi-lo.
— A Ferrari que se cuide — disse Naruto, seco. — Foi bom você ter permitido que o Shikadai ficasse aqui durante o verão. — disse o professor a Hinata — Isso também ajuda o Boruto a ser mais ele mesmo.
— Boruto parece querer carregar o peso do mundo nas costas, é bom pra ele agir como criança. — disse Naruto abruptamente.
Hinata o encarou, incapaz de esconder o choque ao ouvi-lo descrever a personalidade do filho, conhecendo-o apenas superficialmente.
Naruto viu o olhar chocado que Hinata lhe lançava.
— O que aconteceu?
— Você o descreveu muito bem, pra quem mora com ele há tão pouco tempo.
—Acredito que o Boruto seja tão sério por ter um pai já em uma idade avançada, e por isso acreditou que precisaria agir com mais maturidade próximo a ele. – Concluiu o professor.
Naruto sempre tivera boa percepção quanto às pessoas; sempre fora capaz de julgar os comportamentos de forma analítica. Como fizera com Hinata. As revelações do professor sobre o motivo de ter colocado Boruto num colégio interno eram muito racionais para que ele as desconsiderasse. E ninguém conseguiria fingir a emoção que ele acabara de vê-la tentando suprimir. Quase podia sentir a alteração mental, forçando-o a admitir a possibilidade de que, deliberadamente, escolhera encarar os fatos de um ângulo adequado às próprias necessidades.
Nesse exato momento, a consciência obrigava seus sentimentos a se tornarem imparciais e exigia respostas honestas a algumas perguntas. Tinha que reconhecer Hinata como uma boa mãe. Mas decidiu que não o faria. A pontada de dor ao pensar nela o abalou. Pelo canto do olho viu o professor chegar perto dela enquanto falava. Imediatamente, Naruto também se moveu, chegando mais perto.
Hinata ficou tensa. O que ele achava que ela ia fazer? Dizer ao professor Iruka que não daria permissão para o filho ter um tutor? Diferentemente dele, ela era flexível e podia mudar de idéia. Como o professor dissera, o filho estava num estágio em que parecia uma esponja, ansioso por absorver idéias e informações e aprender novas habilidades, desde que ensinadas da forma correta. Sabia que o professor era capaz de exercer esse papel. E ela estaria presente para monitorar e intervir, se necessário.
Naruto bloqueava a visão dos meninos, então ela se afastou, o maxilar se contraindo ao ver a boca dele trincada.
— Fiquei particularmente intrigado com o livro da vida — dizia o professor.
— É um conceito usado com eficiência para ajudar crianças problemáticas, mas devo admitir nunca ter pensado em ser usado com uma criança feliz.
Hinata deu de ombros. Não ia contar ao professor sobre sua infância ou explicar que através da terapia aprendera sobre o livro da vida.
— Originalmente, quis encorajar Boruto a manter um diário. E o livro da vida me pareceu um passo natural. É mais interativo e divertido. Concordamos que teriam uma parte só dele para os pensamentos particulares e outra na qual trabalharíamos juntos.
Naruto ouvia em silêncio. Os elogios do professor sobre a educação do Boruto reforçavam o que ele já observara. Então, por que achava tão difícil abandonar a idéia preconcebida e agora insustentável de que ela não era uma boa mãe? Talvez por querer fazer parte da vida de Boruto? E da vida de Hinata, uma mulher que o abandonara? Bem no fundo de sua parte mais íntima e vulnerável um medo atravessava as camadas de proteção. E se a culpa por Hinata tê-lo deixado fosse dele e não dela? Essa dúvida reprimida, uma vez exposta, não podia ser ignorada. O professor despediu-se, dizendo, entusiasmado, esperar começar a trabalhar com Boruto na semana seguinte. Hinata deixou claro pretender passar o resto do dia com o filho.
Naruto se surpreendeu voltando à pergunta, como um homem com dor de dente passando a língua no lugar inchado embora isso aumentasse a dor. Continuava a comparar a infância de Boruto com a sua. Não, reconheceu como se estivesse sendo apunhalado, porém com afeto. Lembranças reprimidas afloraram. Imagens dele quando criança, estendendo os braços para o avô e recolhendo-os, sofrido, ao ouvir palavras grosseiras e ser esbofeteado. Ouvia o avô lhe dizendo o quanto lastimava ter ele como único herdeiro, o orgulho corrosivo estampado na voz. O avô não fazia segredo do desprezo que sentia por ele.
— Primo Naruto... — Havia uma nota de adulação na voz de Boruto que lhe causou um olhar triste.
—Boruto, o que foi? Precisa de alguma coisa?
— Sabe eu estava pensando meu aniversário é semana que vem e eu queria muito uma bicicleta maior, mas ela diz que eu ainda sou muito novo. Talvez você podia dizer que preciso de uma bicicleta maior.
Naruto levou vários minutos para absorver o que ele dizia.
— Seu aniversário é na semana que vem? — Fez um rápido cálculo. Semana que vem... Isso significava que Hinata engravidou enquanto ainda moravam juntos. E isso significava que ela o traíra com Jiraya quando ainda eram amantes. Sentiu a fúria ferver seu sangue. Boruto sacudiu a cabeça, entusiasmado, sem saber o efeito das palavras.
— Vou fazer 10 anos — disse, orgulhoso. — Mamãe diz que não posso ter uma bicicleta grande até os 11 — lembrou mas Naruto não estava prestando atenção. Ele precisava ver Hinata, e já. Deixou Boruto e desceu as escadas.
Shikadai saiu do corredor e entrou no quarto, Boruto ainda estava parado exatamente onde o Naruto o deixou.
— Isso foi inteligente_ Disse Shikadai_Mas talvez não tenha sido o momento certo.
Boruto olhou Shikadai,e pensou por um momento que ele estivesse certo.
—O que pode dar errado, no máximo eu ganho uma bicicleta.
—Então já tem sua conclusão?
—Ainda não. Vamos, eu ainda quero acabar com você no vídeo game.
—Nos seus sonhos.
