CAPÍTULO VI

Bella realmente tentou fazer o jantar, mas queimou a carne, e as verduras e os legumes ficaram cozidos demais. Teve vontade de jogar tudo pela janela.

— Como está o jantar? — Edward indagou, entrando na cozinha no momento em que ela colocava a panela com a carne queimada dentro da pia, depois de ter desligado o exaustor.

— Perfeito — ela disse, virando-se para que ele não visse a carne.

— Ainda tenho tempo para tomar banho?

— Oh, claro.

Quando Edward saiu da cozinha, Bella sentou-se numa cadeira, exausta. Aquele fora um dia difícil, e havia uma certa tensão pairando no ar.

Desde o beijo, Edward e ela ficaram frios um com o outro. Haviam trabalhado juntos no escritório por uma hora, Bella digitando no computador, e ele entretido com uns papéis. Mal se falaram.

Bella chegara à conclusão de que ele se preocupava com a possibilidade de ela ter visto no beijo algo mais do que uma simples diversão.

Colocou a mão nos lábios, como se ainda pudesse sentir o toque da boca máscula contra a sua. Tinha consciência de que aquele beijo não significara nada para Edward, e queria parar de pensar no assunto.

Afastou-se da pia e aproximou-se do telefone. Não ia cozinhar mais nada. Logo que entrara na cozinha, pensara em ligar para um pequeno restaurante e pedir um jantar, mas achara muito arriscado. Só que agora Edward subira para tomar banho, e o pessoal da imprensa desaparecera da frente do portão.

Com determinação, ela pegou o telefone e discou para o Le Gardin, que ficava a poucos quarteirões, rua acima. Sabia que o bistrô fazia entregas a domicílio.

Deixaria o portão aberto para que entrassem, e pediria para que entregassem o pedido na porta dos fundos, assim Edward não desconfiaria de nada.

Sua coragem abandonou-a, quando Edward apareceu na cozinha antes de a comida chegar. Ele estava muito atraente, usando calça jeans e camisa de seda azul.

— Quer que eu ajude em alguma coisa? — perguntou, olhando para o fogão.

— Não, não, obrigada.

Bella torceu para que ele não olhasse os monitores e visse que o portão estava aberto.

— Se quiser, pode ir para o escritório. Levo seu jantar numa bandeja — sugeriu numa tentativa desesperada de tirá-lo dali.

— Já trabalhei muito por hoje — ele respondeu, sentando-se numa cadeira. — Se estiver bem para você, pensei em comermos juntos.

Bella ficou mais nervosa ainda. No íntimo, estava encantada com aquela sugestão, mas se Edward ficasse ali, descobriria que ela havia encomendado o jantar. Logo o rapaz da entrega estaria batendo na porta.

— É uma boa idéia — ela falou, em seguida mordeu o lábio inferior, tentando imaginar um meio de tirá-lo da cozinha. — Por que não jantamos na sala de jantar? Será muito mais relaxante.

— Já estou relaxado.

Edward fitou-a de uma maneira tão provocante, que ela teve a impressão de que ele podia vê-la nua.

Depois de colocar Susie no berço, Bella tomara banho e vestira uma saia preta e uma blusa branca de jérsei. Aquelas duas peças eram as únicas que não estavam completamente amassadas, depois do modo como ela enfiara as roupas na mala.

Pensou se aquela saia não estava muito curta. De repente, a idéia de que Edward estivesse achando que ela tentava seduzi-lo fez com que suas faces se aquecessem, ruborizadas.

— Quer me deixar terminar o jantar sozinha? — indagou, tensa.

— Tudo bem.

Para alívio de Bella, Edward levantou-se, mas não saiu da cozinha de imediato. Abriu o armário e pegou dois copos.

— Talvez eu deva arrumar a mesa — ele sugeriu. — Vou aceitar sua sugestão de jantarmos na sala de jantar.

Bella observou-o sair da cozinha. Bastou que ele desaparecesse, para que se ouvisse o ronco de um automóvel. Rapidamente, ela abriu a porta dos fundos. O rapaz da entrega devia tê-la achado louca, pois ela pegou a encomenda, pagou e recuou apressada, batendo a porta.

— É uma boa cozinheira — Edward elogiou, enquanto Bella servia-lhe uma segunda porção.

— Obrigada.

Estavam sentados à bela mesa de mogno. Edward acendera as velas do candelabro, e a luz suave dava ao ambiente um clima de intimidade. Era como se fossem namorados.

Bella fitou-o. Aquele pensamento era ridículo. Perguntou-se se ele a via como uma presunçosa, por ela ter sugerido que comessem na sala de jantar.

— Não precisava ter acendido as velas — declarou.

— Teve o trabalho de preparar esta deliciosa comida. — Edward observou-a com um amplo sorriso nos lábios. — Também sugeriu que comêssemos aqui, então, decidi fazer as coisas em grande estilo.

— Claro, mas quando sugeri que jantássemos aqui, eu não... — Bella hesitou, sem saber ao certo o que dizer. — Bem, não imaginei que...

Parou, pois estava piorando a situação. Os olhares deles se encontraram. Ela ficou arrepiada.

— O que quero dizer é que estou me sentindo pouco à vontade, porque esta tarde...

— Porque nos beijamos?

Bella movimentou a cabeça afirmativamente.

— Sei que não significou nada — disse. — Sei que foi pura diversão, mas quero que saiba... — Encolheu os ombros. — Estou sendo clara?

— Não — Edward respondeu, rindo, depois inclinou-se para a frente e colocou mais vinho no copo dela. — Como pode afirmar que o beijo não significou nada?

— Não provoque. Isso não é nada engraçado, muito menos cavalheiresco.

— Não sei se quero ser cavalheiresco. Você é uma mulher muito atraente. Perturba o equilíbrio hormonal masculino.

Bella sentiu um calafrio. Percebeu, de súbito, que Edward era um mestre na arte de seduzir. Tentando dissipar a aura sensual que ele estava criando com aquelas palavras.

— Não mencionou algo a respeito de não fazer amizade com os empregados? — perguntou.

— Mencionei, mas talvez tenha dito só para me manter longe de você. Tem namorado?

— Não, nenhum relacionamento sério. Não desde... Faz muito tempo.

Ia dizer "desde Jacob", mas não desejava introduzir seu ex-noivo na conversa. Recordou que achara que o tinha visto no meio da multidão de repórteres.

— Desde que seu noivado terminou? — Edward sugeriu. — Quanto tempo faz que terminaram?

— Dois anos.

Bella pegou o copo de vinho. A qualquer momento, Edward perguntaria onde ela e Jacob tinham se conhecido. Como não queria entrar naquela conversa perigosa, mudou de assunto.

— Importa-se, se conversamos sobre outras coisas? — indagou, tensa. — Não gosto de falar de Jacob.

— Por quê? Ainda gosta dele?

— Não, não, só não quero tocar nesse assunto.

— Ele deve tê-la magoado muito. — Edward observou-lhe o rosto, pousando o olhar nos lábios carnudos. — Ele deve ser louco, para tê-la deixado partir.

As palavras e o tom de voz que ele usou mexeram com as emoções de Bella.

— Quer falar sobre o quê? — Edward perguntou.

Por alguns instantes, ela ficou quieta, tentando controlar o turbilhão de emoções que sentia.

— Não sei — murmurou, encolhendo os ombros.

— Susie? Fale-me sobre a mãe dela. Diga como ela é.

Ele franziu a testa, e ela ficou com receio de ter sugerido aquele assunto muito abruptamente.

— Tania é linda e talentosa — Edward falou, pegando o copo de vinho. — Já deve tê-la visto em algum filme.

— Já. Estou curiosa para saber como é a verdadeira Tania Denali.

— É uma pessoa adorável. Não há muito mais o que acrescentar.

— Por que não vai se casar com ela?

— Estou apenas me deparando com a natureza curiosa do ser humano, a que se referiu esta tarde? — ele indagou com aspereza. — Ou há algum interesse mais pessoal?

— Só estou curiosa.

Assim que Bella conseguisse compreender o relacionamento de Edward e Tania, escreveria sua matéria, e aquela farsa terminaria. Aquele pensamento criou uma desconfortável onda de melancolia.

— Se comprar os jornais de amanhã, verá que eles atribuirão a você o fato de eu não me casar com Tania — Edward avisou.

— Não quero saber o que os jornais dizem. E, de qualquer maneira, se conseguiram tirar uma foto nossa, sei o que dirão.

— Que sou um sedutor de mulheres.

Ele se inclinou na cadeira com um malicioso sorriso nos lábios.

— E você é? — Bella perguntou.

— Essa é uma pergunta traiçoeira. Se eu negar, acreditará em mim? Claro que não, principalmente depois de eu ter dito que a achava atraente, ou depois do modo como a beijei essa tarde.

Edward inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— Embora eu tenha de dizer que percebi que você também gostou do beijo — prosseguiu.

Ela não queria se mostrar embaraçada com aquela declaração, mas foi inevitável. Adorara a pressão dos lábios firmes contra os seus.

— Se eu disser que sim, que sou um sedutor de mulheres, não ficará aborrecida, se eu a beijar de novo, ficará?

— Acho que está propositalmente me provocando.

— Estou conseguindo?

— Não.

Bella forçou um sorriso.

— Tudo bem — Edward murmurou, parecendo contente consigo mesmo.

Ele sabe muito bem que me perturba, ela pensou, furiosa.

Fitou-o. Ainda não conseguira respostas quanto ao relacionamento dele com Tania, nem descobrira por que eles não se casariam.

— Sabe o que acho? Acho que você é um homem que leva suas responsabilidades muito a sério. Ama Susie e quer o melhor para ela, mas, no íntimo, está com medo de se comprometer com Tania.

— Por quê?

Bella encolheu os ombros.

— Talvez porque esteja com medo de perdê-la, como perdeu sua esposa — disse. — Seu instinto de auto-proteção afasta-o de um relacionamento mais profundo.

Edward ficou imóvel por alguns segundos, fazendo com que ela achasse que atingira com a verdade.

— Vocês, babás, também entendem de psicologia? — ele perguntou.

— Estou certa, não?

— Não. Está completamente errada e passando dos limites. Meu relacionamento com Tania não é da sua conta. Está aqui para cuidar de Susie, não para analisar meus romances.

Bella teve a sensação de que levara um tapa no rosto.

— Desculpe, mas você começou a fazer perguntas pessoais — replicou. — E não acha que passou dos limites, quando me beijou esta tarde?

— Touché. Talvez tenha sido uma boa lição para nós, para mantermos distância um do outro.

— Se é o que quer...

Bella levantou-se e começou a recolher a louça suja com raiva. Por que se sentia daquele jeito? Edward tinha todo o direito de não querer que ela se intrometesse em sua vida. Foi para a cozinha.

Estava envolvendo-se perigosamente. Adorava toda vez que Edward falava num tom de voz sensual e, cada vez que ele se mostrava ríspido, ficava chocada.

Lembrou-se de que estava naquela casa para conseguir uma reportagem. Seu trabalho era o que havia de mais importante. Nada devia des viá-la dele. Nada de emoções. Começou a arrumar a louça na máquina, furiosa consigo mesma.

— Deixei-a irritada — Edward declarou, encostado no batente da porta, observando-a.

— Não, acho que fui eu que o irritei.

— Não vamos discutir — ele falou, sorrindo.

Aquele sorriso fez com que Bella se sentisse vulnerável. Não queria sentir-se atraída por ele, mas sentia-se. Diante das circunstâncias, aquele era um erro de proporções inimagináveis.

— Não, não vamos discutir — ela disse, ligando a máquina. — Provavelmente estamos cansados.

— Talvez.

Apesar de a conversa transcorrer educadamente, havia tensão no ar.

— Quer café? — Bella ofereceu, pegando a cafeteira.

— Lembrou-se de fechar o portão, quando Henri foi para casa?

Ela franziu a testa e virou-se, vendo que ele observava os monitores.

— Claro que fechei — respondeu. — Eu...

Recordou que tinha fechado o portão depois que Henri saíra, mas esquecera-se de fechá-lo após a saída do carro de entrega do Le Gardin. Sentiu as faces corarem.

— Mais atenção, Isabella! Podia haver repórteres lá fora, sem contar os ladrões.

Ela nem acreditava que tivesse feito tamanha bobagem. Estivera tão preocupada com o jantar, que fechar o portão não lhe passara pela cabeça.

— Não posso pensar em tudo — murmurou.

Aproximou-se da pia para encher a cafeteira com água e olhou fixamente para a janela. Pelo pouco que conhecia de Edward, repórteres eram tão "bem-vindos" quanto ladrões. De súbito, viu alguém lá fora. Ficou tão chocada, que soltou um grito.

— O que foi? — Edward indagou, parando ao lado dela. — O que aconteceu?

— Tem alguém lá fora. Alguém estava olhando para nós.

Ele olhou pela janela, mas não viu ninguém.

— Vou ligar para a empresa de segurança — decidiu, pegando o telefone.

Depois de dar a senha, colocou o fone no gancho, em seguida caminhou na direção da porta dos fundos.

— Não vá lá fora — Bella pediu, assustada. — Ele pode estar armado. Pode estar esperando por você.

— Acho que depois do grito que você deu, ele está a quilômetros de distância daqui.

— Mesmo assim, não abra a porta. — Ela segurou o braço musculoso. — Eu não suportaria, se algo acontecesse com você. Seria minha culpa, por ter deixado o portão aberto e...

— Acalme-se. Tudo bem, não vou abrir a porta.— Ele encostou a cabeça dela contra seu peito.

— É tudo minha culpa — ela se lamentou. — Desculpe eu ter deixado o portão aberto. Estava tão entretida com o jantar...

Edward abraçou-a.

— Esqueça, não aconteceu nada, exceto com seu sistema nervoso — murmurou.

O perfume da colônia masculina fez com que Bella se lembrasse da noite anterior, quando entrara no quarto de Susie só de lingerie.

— Sente-se melhor? — ele perguntou.

Ela afastou-se e fitou-o.

— Eu me sinto muito bem em seus braços — disse.

— Que inferno, Isabella!

O tom de voz dele era uma mistura de impaciência e desejo. Bella sabia que aqueles dois sentimentos eram perigosos, assim como Edward. Ele inclinou a cabeça e beijou-a apaixonadamente.

Ela pressionou o corpo contra o dele, querendo mais. Não conseguia pensar com clareza, desejava apenas saborear aquele momento. Então, o som da campainha os fez afastar-se. Bella fitou-o, sem saber o que dizer.

— É melhor mantermos distância — Edward disse, ofegante.

A campainha tocou de novo.

— Deve ser o pessoal da empresa de segurança — ele comentou, caminhando para a porta. — Vou atender, antes que acordem Susie.

Bella observou-o afastar-se. Precisava sair daquela casa o mais rápido possível, antes que a situação fugisse de seu controle.


Gente, mais um capítulo!

Obrigada a todo mundo que deixou review, é bom saber que vocês também estão gostando da história.

Sexta-feira eu posto o capítulo 7, até lá!

Bjs!