UM PEIXE FORA D'ÁGUA

PADALECKI ALTERNATIVE UNIVERSE

CAPÍTULO V


AVISO: LINGUAGEM IMPRÓPRIA


- Pelo menos, aqui, entre as quatro paredes da sua casa, você não corre o risco de ser flagrado por um paparazzo almoçando com um favelado.

- Verdade. Esta foi a solução ideal. Por falar nisso, é melhor que você deixe o seu celular com o segurança. Não quero saber de fotos do interior da casa circulando nas redes sociais da sua comunidade.

- Se é isso que o preocupa, a bateria está descarregada. Ah! .. Quer saber de uma coisa: CHEGA! Vamos esquecer essa história de almoço. Eu SABIA que eu não devia vindo. MALDITA hora em que eu me deixei convencer a entrar naquele carro. Meu Deus, como foi que eu não enxerguei isso antes? Você foi me esperar no portão da Casa de Detenção exibindo um carro importado caríssimo só para me lembrar do quanto você é montado na grana, enquanto eu não passo de um FAVELADO, como você faz questão de me lembrar a todo instante.

- Acabou? Está se sentindo melhor depois de bradar aos quatro ventos que você é o menininho pobre humilhado pelo riquinho malvado e seu carrão importado? Se está, maravilha. Agora, se está esperando um pedido de desculpas meu, ESQUEÇA. Eu fui de carro importado porque queria levantar o seu astral. Quis que você se sentisse dando a volta por cima. Que se sentisse especial. Não sabia que preferia que os guardas do presídio vissem você deixando o lugar de cabeça baixa em um carro popular. Mas, não se preocupe. Eu descubro qual dos empregados tem o carro mais detonado e pego emprestado para te levar para casa na volta. Acho até mais seguro. A sua comunidade é barra pesada e eu ainda estou meio traumatizado com esse lance de sequestro.

- É desta forma que você trata todos os seus amigos?

- Claro que não. Você salvou a minha vida e merece um tratamento especial. Um tratamento VIP. E meus outros amigos não são favelados.

- Qual é a sua afinal? Eu nunca sei quando você está falando sério e quando está brincando.

- J-boy. Se vamos ser amigos, e nós VAMOS, porque eu vou me empenhar para que isso aconteça, você precisa se acostumar com o meu senso de humor ácido. Essas brincadeiras são para que você se sinta completamente à vontade na minha casa.

- Maneira estranha de abrir as portas da casa a alguém. Ofendendo a pessoa.

- Sente-se ofendido quando associo você à sua comunidade? Tem vergonha das suas origens, J-boy? É por isso que gasta o que não tem tentando parecer o que não é?

- É complicado e eu não pretendo justificar minhas atitudes para você. Isso que você está fazendo é tudo menos fazer-me sentir à vontade na sua magnífica mansão de um milhão de dólares.

- Um milhão? Quanto acha que custa o metro quadrado do terreno aqui, na área mais nobre e exclusiva de Manhattan? Minha mansão cinematográfica não sai por menos de 75 milhões de dólares. Cem milhões se incluir a mobília e as obras de arte.

- E acha que o dinheiro que tem te dá o direito de me ofender?

- Eu só estou me antecipando a perguntas que você acha que eu me faço a seu respeito, fazendo-as de uma vez e dando por encerrada a questão. Assim, ultrapassamos a fase da superficialidade e dos melindres e podemos nos mostrar um ao outro como verdadeiramente somos. Sem máscaras.

- Não é propriamente vergonha, mas eu queria muito ver aquele lugar transformado. Queria ver aquelas pessoas empenhadas em tornar a comunidade respeitada pelo que ela tem de bom. E eu acho injusto ser excluído de boas oportunidades por conta do estigma de ter nascido numa comunidade pobre e violenta.

- Gostei da sua resposta. E, mesmo que não gostasse, volto a dizer que eu não estou julgando você. Portanto, não aja como quem está sendo julgado. Eu não estou fazendo perguntas para descobrir se eu quero ou não ter você como amigo. Isso já está decidido: eu QUERO. Eu já me considero seu amigo e já ajo como tal. O que eu quero é que você também me trate como um velho amigo.

- Você é completamente louco. Não faz nem uma hora que você me disse o seu nome. E nem foi o seu nome, foi como você é chamado. O que não é a mesma coisa. A verdade é que somos dois estranhos se falando pela primeira vez.

- É por isso que estou tentando quebrar o gelo. Sei que no caminho até aqui você veio imaginando que meu verdadeiro propósito era te arrastar até o meu quarto e deixar você me foder gostoso, mas, como você mesmo disse, somos ainda dois estranhos. Há coisas importantes sobre mim que você ainda não sabe. Coisas que você precisa saber. A primeira é que eu não sou tão fácil assim. Não transo com desconhecidos no primeiro dia. Se quiser transar comigo, vai ter que voltar aqui amanhã.

- Desisto! Eu não consigo mesmo decifrar você.

- Não tente adivinhar. Apenas pergunte o que deseja saber. Eu vou facilitar as coisas para você. Vou responder às perguntas que você, por educação, talvez nunca me fizesse. Pronto? Então, vamos lá! Você agora sabe de quem eu sou neto. Você citou a famosa frase em que o grande jurista prega a tolerância zero. Conhece, portanto, a fama de reacionário do meu avô. Deve ter-se perguntado por que usufruo sem culpa do dinheiro dele vivendo de uma forma que ele desaprova.

- Confesso que isso me passou pela cabeça.

- O dinheiro que eu esbanjo é, na verdade, meu. Não é do juiz. É a herança de minha mãe que se multiplicou muitas vezes graças à administração eficiente dos bens por um gestor designado pelo meu falecido avô materno antes mesmo de eu ter nascido. Também sou herdeiro de meu pai, que me deixou um bom patrimônio, construído por seu próprio mérito em sua curta vida profissional. Já o juiz é meu avô paterno e eu sei que, apesar de nossas desavenças, ele me fez seu herdeiro universal, coisa que a lei não o obriga. Mas, o dinheiro dele ainda é exclusivamente dele e ele não gasta um centavo que seja comigo. E nem eu quero ou preciso. Eu desejo, do fundo do coração, que o velho reaça viva muitos anos e usufrua ele próprio dos bens que acumulou em uma vida inteira de dedicação à carreira jurídica. Pensamos diferente, mas respeito sua integridade e seu saber jurídico. Deve saber que ele é o autor de mais de dez livros considerados referência na área do Direito Patrimonial. Quero que meu avô viva o suficiente para ver o mundo transformado num lugar melhor. Melhor porque muito diferente de quase tudo que ele acredita.

- Já você mesmo não faz nada para mudar esse mundo.

- Eu acredito em transformar o mundo mudando a forma de pensar das pessoas. Um trabalho de formiguinha. Eu comecei a fazer isso muitos anos atrás. Quando decidi que transformaria meu avô em uma pessoa mais tolerante, mais aberta às mudanças sociais. Goste eu ou não, meu avô tem o poder de fazer nosso país dar largos passos à frente ou mantê-lo estacionado. Quero acreditar que estou dando a minha contribuição, nem que seja influenciando-o a não fazer o país dar um passo atrás.

- Mudar alguém como seu avô é tarefa para mais de uma vida.

- Concordo. Sei que preciso de alguém que me ajude. E até já escolhi essa pessoa.

- Eu aqui reclamando de estar sendo julgado com base em um estereótipo e, ao mesmo tempo, rotulando você de playboyzinho, com toda a carga de preconceito que esse termo carrega. Eu via você feliz na boate e imaginava alguém preocupado apenas em curtir a vida. E você estaria no seu direito. É a sua vida e, sei agora, é o seu dinheiro. Mas, fico contente de confirmar a primeira impressão que eu tive de você. Que você é mais do que parece ser. Não apenas um rostinho bonito ou um corpinho apetitoso. Aliás, eu preciso parar de chamá-lo de playboyzinho e começar a chamá-lo de Mike, como todos os seus outros amigos.

- Não como meus outros amigos, J-boy. Você não é como eles. Essa experiência pela qual passei me mostrou algo que no fundo eu já sabia. Que eles são apenas companheiros de farra, não os amigos que eu gostaria que fossem. É um dos motivos porque quero mudar tudo na minha vida.

- Você sabe que eu não quero você apenas como amigo.

- É, eu sei.

- Só isso? Um simples "Eu sei"?

- Você me viu de longe e se sentiu atraído. Sentiu tesão, o que eu acho perfeitamente compreensível e até inevitável. Eu sou muito gostoso, não sou? Pode confessar que me acha o máximo. O sonho de consumo de qualquer um. Escutei isso tantas vezes que passei a acreditar.

- Quer parar com isso? Não é uma simples atração. Eu sei que é mais que isso. E sei que você não é uma pessoa cínica. Eu prestei atenção em você. Na forma como você sorria para aquela garota, a sua .. namorada?

- Eu não estou sendo cínico. Só acho que você pode estar fantasiando e traduzindo a atração que eu acredito que você tenha por mim como o início de um sentimento mais sério. Portanto, eu estou dando a você a chance de me ver bem de perto e descobrir por você mesmo se eu sou realmente tudo aquilo que você espera que eu seja.

- Então me diga se eu agrado você como homem. Não pelas as minhas qualidades ou pelo meu caráter.

- Sei que incentivei você a me perguntar tudo o que quisesse saber e prometo que terá a sua resposta. Só me dê um pouco mais de tempo. Antes, quero responder a uma pergunta que sei que deseja fazer e cuja resposta não é a que gostaria de ouvir. Não, meu namoro com a Sophia não é apenas de fachada. Assim como acredito que o seu com a Sandra também não seja. Estou certo?

- Está. Apesar de também me sentir atraído por homens, eu e a Sandy nos entendemos bem na cama. Acredito que ela não tenha do que reclamar.

- Não mesmo?

- Por que a pergunta?

- Porque uma relação não se resume a sexo. É um todo. Porque a Sandra é uma boa garota e eu não gostaria que acabasse magoada. E nem você. Eu vejo o quanto está ansioso. Sei que criou expectativas e isso me preocupa. Eu sou uma pessoa que valoriza a amizade acima de tudo. Não quero destruir a chance de ter um bom amigo ao meu lado pelo resto da vida só para usufruir de uns poucos meses de sexo. Sexo é algo muito fácil de se obter quando se é jovem, bonito e muito rico. Amizades verdadeiras, ao contrário, são ainda mais difíceis quando se é tudo isso.

- Esse preâmbulo todo é para me dizer que eu não sou o seu tipo, não é mesmo? É por isso que fala tanto em amizade. É por isso que não estamos transando neste exato momento. Jura que não sente nem pouquinho de tesão por mim? Se for isso, diga de uma vez! Chega de ficar dando voltas. Você sabe ser direto quando quer. Portanto, não entendo tanta preparação. Eu já sou crescidinho o bastante para saber lidar com uma decepção amorosa.

- J-boy, não vamos apressar as coisas. Sexo é melhor quando vem acompanhado de amor. E amor é algo que se constrói com o tempo. O que foi? Ficou surpreso em descobrir que eu tenho esse lado romântico?

- Um pouco. Mas, agradavelmente surpreso. Tudo o que você disse faz sentido. Eu estava mesmo sendo afobado e querendo queimar etapas. Mas, você está certo. Vamos aos poucos.

- Não vamos esquecer que tem a Sandra e a Sophia. A vantagem disso é que podemos sair os quatro. Fazer programas de casal.

- Não acho uma boa ideia misturar as coisas. Eu e você .. e a minha e sua namoradas. Seria muito estranho.

- Vai ser legal, acredite. Mas, esteja preparado. A Sophia vai ter ciúmes da Sandra e mais ciúmes ainda de você. A Sophia vai simplesmente PIRAR quando te conhecer. Ninguém vai conseguir tirar da cabeça dela que nós dois não estamos tendo um caso e ela não vai nos deixar sozinhos um minuto sequer.

- Cada vez menos eu acredito que isso vá dar certo.

- Que cara de contrariado é essa? Não me diga que são ciúmes antecipados da Sophia? Dois ciumentos na minha vida eu não aguento.

- É que eu esperava .. Ah! Esqueça!

- Eu já sei o que está acontecendo. Você passou três semanas preso, vigiado 24 horas por dia. Não podia nem se masturbar direito. Saiu e eu te trouxe direto para cá. Você veio cheio de expectativas e eu pisei no freio. Você está frustrado. Está tenso. É natural que esteja. J-boy, você precisa relaxar e eu tenho a solução perfeita para isso. Um bom banho quente. Leve o tempo que quiser. Quando terminar, eu peço para servirem o almoço. Acho que também estou precisando de um banho, mas, no meu caso, é de um banho frio.

- Está propondo que tomemos banho?

- Estou. Mas, tire esse sorriso do rosto. Quero deixá-lo relaxado, mas não da maneira que está pensando. Sei que é tentador, mas não estou propondo tomarmos banho juntos. Pelo menos, não hoje.

- Ah!

- O que foi? Cara feia para mim é fome e almoço ainda não está pronto. Imagino que, enquanto esteve preso, sonhasse com um bom e demorado banho quente de banheira.

- Sim, mas na minha casa. Onde eu tenho minhas roupas. Aqui eu tomo banho e depois visto as mesmas roupas suadas e amarrotadas de antes?

- É claro que não! Essas suas roupas eu vou mandar queimar.

- Como é que é? Eu sei que acha que são de terceira categoria e que ofendem seu senso estético, mas, como eu disse antes, eu não tenho grana para comprar outras melhores.

- Estamos falando das roupas que você usava quando foi PRESO e com que saiu da prisão? Você acha que vai se sentir bem voltando a usá-las?

- Não sei. Não pensei a respeito.

- Então, que bom que eu pensei por você e comprei roupas adequadas e confortáveis que vão ficar perfeitas em você. Ideais para o nosso primeiro almoço.

- Eu não vou usar roupas compradas por você.

- Vai sim. Nem que seja preciso eu chamar os seguranças e ordenar que arranquem toda a roupa do seu corpo.

- Eles não vão obedecer a uma ordem absurda dessas.

- Eles prezam muito o salário que eu lhes pago. Um salário bem acima do mercado. Morrem de medo de perder o emprego. Sabem que a fila de marombados querendo ganhar o que eles ganham é imensa. E reparou como são bonitos? Eu faço a seleção com os candidatos de cueca. Isso de arrancarem sua roupa à força vai ser bem excitante. É capaz de até você ficar de pau duro.

- Pois tente e eu processo você.

- Eu sou dono de um escritório de advocacia e tenho à minha disposição os melhores advogados da Costa Leste. E você sabe melhor que ninguém que precisaria de muita grana para tocar um processo contra mim. Portanto, deixe de frescura e aceite logo o meu presente. Eu escolhi pessoalmente com todo o carinho. Por favor, ACEITE. Você não imagina o quanto isso me deixaria contente.

- Está certo. Aceito. Não quero brigar com você. Mas, saiba que essa cara de cachorro com fome é patente minha. Só me prometa que este será o único presente.

- Prometo.

- Espera! Você não mandou fazer escargot ou outra dessas comidas exóticas de gente rica só para poder rir da minha cara por eu não saber usar corretamente os talheres.

- O cardápio você só vai descobrir na hora. Se tiver escargot, eu te ensino a comer. Melhor, faço que nem se faz com criança: te dou de comer na boca. Não acredita? Estou falando sério. J-boy, entenda de uma vez por todas. Eu não quero rir de você, eu quero rir COM você, como fazem os bons amigos. Sinta-se como se estivesse na sua casa e não fique constrangido nunca. Agora, vamos! No banheiro você vai encontrar, além de sabonete, shampoo e toalhas, creme de barbear, aparelho de barba descartável e loção pós-barba.

.

'Meu Deus! O que que eu estou fazendo aqui? Eu não tenho nada a ver com esse lugar. Nada.'

'Era para eu estar na minha casa. Me preparando para encontrar a Sandy e pedi-la em casamento. Ao invés disso, eu estou na mansão do playboyzinho. Excitado com a expectativa de um almoço romântico com ele. Se é que será um almoço romântico. Não consigo entender esse cara. Ele ora me elogia, ora me sacaneia. Me atiça e depois joga um balde de água fria. Mas, acho que a única forma de descobrir qual é a dele é seguir em frente e ver aonde isso vai dar.'

'Admito que o Mike estava certo quanto ao banho. Eu estava mesmo muito tenso. Também não é para menos. Ser convidado para um almoço na casa do carinha que virou uma verdadeira obsessão para mim desde a primeira vez que o vi me deixou inseguro. E o papo dele mais ainda.'

'Eu quero muito que dê certo. Eu quero esquecer que existe um abismo social entre nós e me acertar com ele. Eu quero tê-lo nos meus braços, mesmo que por uma única vez. E, se for para ser uma única vez, eu quero que seja inesquecível.'

'É muito louco isso. Na boate, eu o observava de longe. Eu via os lábios dele se movendo e tentava imaginar como seria o som que saía daqueles lábios. Eu o via sorrir e me imaginava o objeto daquele sorriso. Foi o sorriso dele que me conquistou. Eu via aquele sorriso lindo, espontâneo, e isso me transmitia uma sensação boa. Ele era o único cara naquela boate que não parecia estar preocupado em se exibir para os outros. O único que não parecia estar na fissura de arranjar companhia. Mas, quando finalmente eu o tive nos braços, ele estava desacordado. Continuei sem conhecer a sua voz e sem saber a cor dos seus olhos. Já ele me conheceu por meio de um dossiê e de um vídeo. Somos dois estranhos se encontrando hoje pela primeira vez. Só hoje eu descobri que a voz dele e é vibrante e máscula como imaginei que fosse. Só hoje eu descobri que ele tem olhos azuis, num tom escuro, acastanhado. E que ele tem uma forma engraçada de olhar. Parece estar sempre com os olhos semicerrados.'

'Como eu sonhei com uma oportunidade dessas. Só nós dois, conversando sem pressa e sem o risco de sermos interrompidos. Poder declarar o meu amor. E o que acontece? Chego aqui e sou ofendido. Mas, parece que o tratamento de choque funcionou. O abismo social continua o mesmo, mas eu já não sinto mais o peso que antes parecia ter. É claro que fiquei chocado quando o Mike me chamou de favelado. Mas, essa sensação de ultraje também ficou para trás. Eu não quero acreditar que o Mike esteja armando para me humilhar. Eu salvei a vida dele. Ele não pode ser tão FDP assim.'

- J-boy, tudo bem aí? Posso entrar?

- Não! Espera! Eu estou completamente .. nu.

- E qual o problema de estar nu na presença de outro homem?

- É que é uma situação estranha.

- Por que estranha? Nunca jogou basquete ou outro esporte coletivo qualquer? Eu jogo vôlei e antes jogava football. Acaba o jogo e vai todo mundo para o vestiário tomar banho. Fica aquele bando de homem pelado andando de um lado para o outro balançando o pau. Quem tem a infelicidade de ter o pau pequeno não escapa de ser sacaneado. E, aliás, parabéns. Já deu para ver que se alguém algum dia sacaneou você, não foi por esse motivo.

- Importa-se de ficar de costas ou de esperar lá fora até eu terminar meu banho. Ainda preciso lavar as partes íntimas. Eu posso ser bissexual, mas fico constrangido sabendo que tem um homem me observando tomar banho.

- Está certo. Não sabia que estava diante de uma donzela. Deixei as roupas no quarto ao lado. Não sei você, mas eu detesto me trocar no banheiro.

- O QUE VOCÊ .. ?

- Calma! Eu estou só verificando a temperatura da água. Não vou agarrar o seu pau. Você deixou que a água esfriasse. Não está aproveitando como deve os recursos da banheira. Deixe-me ligar a hidromassagem e regular o termostato para manter a água na temperatura correta para os músculos relaxarem. E isso aqui neste pote são sais de banho perfumados. Pêssego, meu predileto. Está vendo? Forma bastante espuma e assim acabam-se os motivos para tanto constrangimento.

- Obrigado. Mas, saiba que eu não ficaria nem um pouco constrangido se você também tirasse a roupa e entrasse comigo nessa banheira. Acho que seria a maneira perfeita da gente se conhecer.

- Jared, tem algo importante a meu respeito que eu quero que você saiba. Mas, você tem que me dar a sua palavra que não vai contar para mais ninguém. Esses amigos que vão comigo nas baladas, o pessoal que frequenta essa casa, os empregados, os seguranças .. eles podem até suspeitar, mas, saber com certeza, eles não sabem. Ninguém sabe. Nem a Sophia. E eu prefiro que, por enquanto, tudo permaneça assim.

- Obrigado pela confiança. Eu prometo guardar segredo. O que você quer me contar de tão sério assim?

- É sobre a minha orientação sexual. O meu avô não pode ficar sabendo que eu venho mentindo para ele esses anos todos. Ele não ia me perdoar se descobrisse a verdade depois de todos os constrangimentos que eu o fiz passar nestes últimos anos.

- Fica tranquilo, Mike. Eu até imagino o que vai me pedir e por que. Eu sei que seu avô é um dos pilares do conservadorismo deste país. Entendo que seja difícil para ele aceitar um neto bissexual. Mas, se ele ama você de verdade, como parece, vai acabar aceitando. Fazer de você seu herdeiro universal mostra que não é o estilo de vida que você leva que define a relação de vocês.

- Que eu saiba você não contou a seus pais da sua bissexualidade, apesar de não duvidar do amor que eles têm por você.

- Não, não contei. Eu quero acreditar que eles vão entender, mas a verdade é que eu tenho medo da reação deles. E eles não são nem de longe tão rígidos quanto seu avô. Quer dizer, nem disso eu tenho certeza. Meu pai às vezes diz umas coisas que me assustam.

- Eu fui criado pelo meu avô juiz. Meus pais morreram quando eu era muito pequeno. Eu sou o único filho do único filho dele. Ele transferiu para mim todas as expectativas que tinha com relação ao meu pai, o filho perfeito que ele teve e perdeu. O sonho do meu avô era me ver estudando Direito em Stanford, como ele próprio e também como meu pai. Quantas vezes ouvi meu avô dizer que nada o faria mais feliz que me ver graduado entre os primeiros da turma e, no futuro, assumindo meu lugar no escritório de advocacia da família.

- Normal. Não é diferente comigo. Eu entendo muito bem a pressão de ter que corresponder às expectativas dos pais. Meu pai também sonha com um filho advogado. Eu entendo que você não queira decepcionar seu avô. Portanto, mesmo que as coisas entre nós não engrenem ou que um dia a gente venha a brigar, eu prometo não revelar nada sobre a sua bissexualidade.

- Acontece, Jared, que não é a minha homossexualidade - ou a minha bissexualidade - que eu escondo. O segredo que eu escondo do meu avô e dos meus amigos de farra é que eu sou 100% hétero. Eu jamais me senti minimamente atraído por homem algum e sou louco por mulheres. Eu beijo caras e olho para a bunda dos rapazes e para o volume entre as pernas deles com cara de desejo, mas é tudo teatrinho. Quando eu disse que essa experiência de quase ter sido assassinado me fez repensar o rumo que eu dei à minha vida, estava falando, entre outras coisas, dessa FARSA. Eu estou cansado de representar. Eu quero voltar a ser eu mesmo. Eu quero falar mais de seios fartos e menos de paus.

- Está me dizendo que é hétero e que finge ser gay? Por que alguém faria isso? Não faz o menor sentido. Só pode ser outra das suas zoações.

- Você vai entender quando conhecer a minha história. Termine seu banho e me encontre no salão. Aquele em que se vê a piscina.


ESCLARECIMENTO:

Mike chama Jared de J-boy como se fosse um apelido carinhoso, uma forma abreviada de 'garoto Jared'. Mas, J-boy é também uma gíria com o sentido de idiota (jerk) e é um termo que designa masturbação.


29.06.2016