Capítulo V

Naquela noite e em todas as outras que se seguiam a um encontro com a Weasley, não sonhei. Conseguia dormir a noite toda, sem nunca ser atirado para o meu pesadelo do costume, sem nunca sentir a embriaguez que o vermelho me provocava. De manhã, acordava totalmente restabelecido e, surpreendentemente, de bom-humor.

Obviamente, Zabini relacionou os nossos encontros na biblioteca com a ausência dos meus pesadelos. Não era preciso ser muito inteligente para compreender este pequeno detalhe; bastava um pouco de astúcia, algo que está (ou deveria estar) presente em qualquer Slytherin. Infelizmente, o meu colega estava incluído nesse grupo e, como tal, desatou às gargalhadas, gozando com a minha boa disposição. Ignorei-o, sem paciência para discutir algo que ele considerava irrefutável.

Quem não parecia achar piada nenhuma à minha nova aliança era o Potter, como seria de esperar. Nos primeiros tempos, limitou-se a seguir-nos. Poderia ter resultado se ele fosse um bom espião, silencioso e paciente. Contudo, ele não conseguia ficar parado durante muito tempo; precisava de se movimentar, aproximar. Ficava tão perto de nós como se estivesse sentado ao nosso lado. O único problema era o facto de ficar a olhar intensamente para mim, com a varinha na mão e pronto a enfeitiçar-me caso eu fizesse algo à sua querida prima.

Hoje, não fez questão de fingir que se escondia (sim, porque ele limitava-se a sentar-se na mesa ao lado da nossa, com um livro de Quidditch aberto, para o qual não olhava). Em vez disso, sentou-se ao lado da Weasley, tão perto que os seus ombros se roçavam. Fiquei súbita e inexplicavelmente irritado.

Continuei a ler algumas passagens de um pequeno livro, cheio de encantamentos complexos, mas intrigantes. De vez em quando, interrompia a leitura e deitava um olhar aos outros dois, com curiosidade. Deparava-me sempre com a mesma cena: uma rapariga imersa no seu trabalho e um rapaz vigilante, com o olhar preso em mim e a varinha discretamente apontada na minha direcção. Não me importaria muito, não fosse o facto de o seu braço envolver, agora, os ombros da prima, numa atitude protectora que tanto me aborrecia.

– Vamos esclarecer uma coisa, Potter. Eu não vou conseguir concentrar-me se continuas a apontar-me a varinha desse modo. – disse, num tom frio, mas irritado.

– Tens medo de alguma coisa, Malfoy? – volveu ele, numa voz semelhante à minha, mas mais baixa. Perigosamente baixa.

Sorri, cinicamente.

– Tenho mais medo da tua prima do que de ti. – repliquei.

Ele empalideceu. Deve ter compreendido que eu estava a ameaçar a rapariga, e não ele. O seu instinto de protecção, ou melhor, a sua mania de salvar toda a gente, veio ao de cima. Apontou-me a varinha directamente ao peito, com os olhos a faiscar.

– Tu não te atrevas a tocar-lhe! Se queres lutar, fá-lo comigo.

Fitámo-nos, mutuamente enfurecidos. Eu estava tentado a aceitar o seu desafio. Seria um grande prazer arrancar-lhe aquela expressão de heroísmo da face…

– Vocês importam-se de parar com isso? – intrometeu-se ela, com a voz levemente esganiçada.

Desviei o olhar do Potter, por segundos. Deparei-me com uma Weasley alarmada, quase assustada. Uma onda de desilusão varreu-me, ao constatar que ela estava preocupada com o primo, e não comigo. Como seria de esperar.

– Rose, vamos embora. – murmurou o outro, mais docemente.

Esperei que ela se limitasse a arrumar os livros e o seguisse, simplesmente, sem se dignar a lançar-me mais do que um olhar de raiva contida. Pelos vistos, o Potter pensou o mesmo, visto que se ergueu, sem deixar de me apontar a varinha. Contudo, ela não o imitou. Permaneceu sentada, com uma mão sobre o livro que estivera a ler.

– Não, Albus. Eu não vou. – recusou, determinada.

Fomos atingidos pelas suas palavras, embora de maneiras diferentes. Conseguia ver a minha surpresa espelhada nos olhos verdes dele, mas não só. Parecia desapontado, além de nitidamente confuso.

– Rose, eu sempre disse que esta vossa… associação não era uma boa ideia. Ele… não é de confiança.

Enquanto ele se debatia com as palavras, um tanto atrapalhado, eu fitava-a, sem realmente a ver. Nunca imaginei que ela fosse capaz de semelhante comportamento, sobretudo por minha causa.

– Basta. – cortou ela, num tom de comando a que não se podia desobedecer. – Eu confio nele.

Não reagi, face à sua confissão, talvez por estar certo de que não era verdade. Como podia ela confiar em mim, depois de ter visto a serpente que habita em mim? Devia ser um engodo, uma tentativa de convencer o primo a deixá-la em paz.

Olhei para ela. Falava directamente para ele, sem me fitar. Estava pálida, mas a sua anterior determinação não fora abalada. Se possível, fora intensificada, ao ponto de quase se tornar perigosa. Não me admirei ao ver que o Potter recuava. Se eu estivesse no seu lugar, teria feito o mesmo.

Tirei a varinha do manto, por uma questão de precaução. Sabia que o Potter ainda não estava convencido nem tinha desistido de me defrontar. Maldita ousadia de Gryffindor! Não sabem quando devem fugir, abandonar o barco. Não seria uma atitude cobarde, mas sim inteligente.

– Mas eu não! Ele é um Malfoy, Rose!

Desta vez, a Weasley deixou escorregar a sua máscara de firmeza. Ergueu-se, rapidamente, e encarou o primo, olhos nos olhos. As suas faces encontravam-se a poucos centímetros uma da outra. Durante um momento de loucura, pensei que ela fosse beijá-lo. E esse pensamento não me trouxe divertimento nem um prazer mordaz. Senti uma pontada no peito, que me magoou. O que se passava comigo?

– Ouviste o que acabaste de dizer? Albus, tu estás a ser preconceituoso! Lá por ele ser um Malfoy não significa que seja menos digno de confiança!

Abanei a cabeça, descrente daquilo que os meus ouvidos tinham captado. Não, não poderia ser. A Weasley estava a defender-me do próprio primo, não para acabar com a nossa discussão, mas porque acreditava piamente naquilo que dizia! Nem eu estava certo da veracidade das suas palavras, não obstante, ela mostrava-se segura, tal como quando respondia a uma questão, nas aulas.

O Gryffindor recuou, magoado, como se ela lhe tivesse batido. Pensando melhor, estaria com melhor cara se ela o tivesse esmurrado. Fora um duro golpe, um ferimento grave no seu orgulho. Porque Albus Severus Potter era orgulhoso, quase tanto como eu. Aquele gesto assemelhar-se-ia, aos seus olhos, a uma vil traição, agravada pelo facto de o sangue que lhes corria nas veias ser praticamente o mesmo.

– Viste o que ele fez? Ele virou-te contra mim! – cuspiu ele, desvairado, com uma voz claramente ofendida.

Virou-se para mim, adoptando uma postura enraivecida. Quase consegui ver as chamas que lhe lambiam a íris, qual demónio assustador. Aguentei o seu olhar, tentando pestanejar o mínimo possível. Não iria dar parte de fraco, não iria mostrar-lhe que precisava de que uma rapariga me defendesse. Ergui a varinha, pronto a proteger-me, assim que o vi preparar-se para me atacar.

Num momento, estávamos frente-a-frente, em posição de combate. No seguinte, a varinha do Potter agitou-se e uma luz vermelha saiu da sua extremidade, dirigida a mim. Não me defendi imediatamente, uma vez que um movimento lateral me distraiu. Algo mais se lançara na minha direcção, embora eu não soubesse o que era. Pensei que a Weasley se arrependera da confiança que depositara em mim, decidindo unir-se ao melhor amigo. Senti uma nova pontada, que me desarmou completamente. Eu não me conseguia defender, eu ia ser atingido a qualquer momento…

Segundos antes do feitiço me atingir, surgiu uma barreira transparente na qual embateu a maldição. Ouviu-se um estrondo e algumas cadeiras foram atiradas pelo ar, indo embater numa das estantes. Uma pilha de livros foi atirada para o chão, qual cascata de folhas. Felizmente, não estava ninguém na biblioteca.

Dei por mim a arfar, encharcado em suor. Ouvi um som semelhante, vindo da minha esquerda. Apercebi-me de que alguém se encontrava ao meu lado, tão perto que os nossos cotovelos se roçaram. Mirei, de soslaio, a Weasley, sem me preocupar em esconder a surpresa que me invadira, misturada com um intenso alívio.

A sua face estava corada do esforço, mas também de raiva. Quase podia sentir esse sentimento ondular em seu redor, consumindo-a sem encontrar qualquer oposição. Mesmo assim, fui capaz de reparar que as suas mãos tremiam, ligeiramente.

– Tu fizeste a tua escolha, Al. E eu fiz a minha. – proferiu, num tom glacial, desprovido de sentimento.

Só nesse instante me lembrei do Potter. Virei a cabeça na sua direcção, tão depressa que o meu pescoço se ressentiu. Ignorei as dores lancinantes que me invadiram, certo de que ele estava a debater-se com algo muito pior. O peso da traição pesava-lhe, agora, sobre os ombros, forçando-o a curvar-se, numa postura derrotada. Apenas os seus olhos se mantinham incendiados, alternando entre mim e ela. Por fim, virou-nos costas e saiu da biblioteca, com passos largos.

Imediatamente a seguir, a Weasley deixou que a varinha escorregasse da sua mão, indo cair no solo com uma pancada seca. Sentou-se numa cadeira, com os cotovelos apoiados nas coxas e a cabeça enterrada nas mãos. Os seus ombros agitaram-se, primeiro imperceptivelmente, depois com mais violência, à medida que mais e mais lágrimas escorriam por entre os seus dedos.

Fiquei petrificado, com o olhar preso na sua figura frágil. Doía-me que ela, sendo tão forte e poderosa, sucumbisse àquele comportamento tão humano, à minha frente. Ela, que só demonstrava as suas fragilidades quando estava só. Doía-me que ela quebrasse as suas próprias regras na minha presença.

Precisava de me distrair. Apontei, então, a minha varinha aos livros caídos e coloquei-os no seu lugar original. Fiz o mesmo com as cadeiras, apagando os vestígios da actuação do feitiço. Desejei que os estragos tivessem sido mais graves, para que eu demorasse mais tempo a arrumar tudo e ela tivesse tempo de se recompor.

Não podia adiar mais o inevitável. Apanhei a sua varinha do chão e coloquei-a na mesa, a seu lado. Procurei a pouca coragem que existia em mim e usei-a para me forçar a encarar a rapariga, agora mais calma. Não aguentei, contudo, a visão com que me deparei e fechei os olhos, um tanto infantilmente. Raios, eu não era capaz de a ver daquele modo! Não passava de um cobarde que temia a sua dor, transformando-a em minha.

Queria ajoelhar-me a seu lado, envolver as suas mãos com as minhas, dizer-lhe que tudo ficaria bem. Queria roubar-lhe as lágrimas que ela derramava em fio, arrastando consigo todo o seu sofrimento. Queria que os seus lábios formassem o meu sorriso preferido e os seus olhos voltassem a brilhar.

Cerrei os punhos, aborrecido com o meu egoísmo. Pelas barbas de Merlim, Scorpius, a rapariga está a sofrer. Precisa de ser consolada, acarinhada. E tu só consegues pensar no seu sorriso, no quanto te magoa a visão das suas lágrima!

Ousei abrir os olhos. Para meu alívio, ela já não chorava. Estava a limpar os olhos ao manto, mais calma, não obstante a expressão de mágoa que lhe deformava o rosto. Admirei-a, mais uma vez, pela sua capacidade de enfrentar as adversidades, sempre de cabeça erguida. Mesmo nos momentos de fraqueza, ela era mais corajosa do que eu.

– Rose…

Ela estremeceu, ao ouvir o seu nome próprio ser sussurrado por mim. Fitou-me, numa súplica silenciosa que eu não entendi. Depois, abanou a cabeça, como se estivesse a afastar uma ideia impossível, embora desejável.

– Rose, eu… – repeti, sem saber o que dizer, como explicar a minha falta de tacto.

– Não precisas de dizer nada, Malfoy. Eu só detive o feitiço para evitar que vocês lutassem. O Albus pode ter sido um grande idiota, mas eu não quero que nada de mal lhe aconteça.

Engoli em seco. Então, fora por isso que ela me salvara? Para evitar que o primo se magoasse? E eu, Weasley? Não te passou pela cabeça que eu também poderia ser ferido?

Não percebi porque é que eu estava tão irritado. Era óbvio que ela não estava preocupada comigo. Confiar em mim era uma coisa, preocupar-se comigo era outra. Realidades completamente diferentes, que eu não deveria ter misturado. Só gostaria de saber porque é que as suas palavras me feriram tanto, porque é que a cobra se agitou, abanando a cauda de encontro as minhas costelas, chicoteando-me o coração e os pulmões.

– Não te preocupes, Weasley. Não atacarei o teu primo, a menos que ele o faça primeiro. – prometi, numa voz seca, totalmente diferente da que eu usara para a chamar. – Devias descansar.

Dei meia volta e abandonei a biblioteca, deixando a sua face marcada pelas lágrimas para trás, mas trazendo o meu orgulho ferido.


Estou mergulhado no azul. Um azul gelado, opressivo, que me prende e sufoca. Não consigo nadar até à superfície, não consigo respirar. Os meus tornozelos estão presos por garras invisíveis, que me apertam e ferem sem piedade. A minha vontade começa a esmorecer; deixo de lutar, deixo que o azul me arraste para as suas profundezas, despidas de calor.

Um movimento ao meu lado desperta-me do meu torpor. Procuro a sua origem, consciente de que é a minha última hipótese de salvação. A minha visão não distingue formas, apenas cores. Sinto-o, mais do que o vejo. O vermelho. O meu salvador.

Inspiro profundamente o seu perfume. O meu cérebro agradece a vida que me entra pelas narinas, vida essa que cheira a limão ou toranja, misturado com as pétalas de uma flor desconhecida. Entretanto, a minha visão vai se tornando cada vez mais nítida e pormenorizada. Distingo variações de tom, zonas mais claras e outras mais sombrias. O vermelho é um arco-íris de cores, todas elas vermelhas, todas elas diferentes.

O azul está encolhido a um canto, sibilando enfurecido. Fito-o com desprezo e renúncia. Repudio as Trevas que representa, repudio a própria cor, tão morta e fria. Viro-me de costas para ele e ele desliza ao longo das paredes, sob a forma de uma cobra, mantendo-se no meu campo de visão. Sei que a única forma de me livrar dela é abraçar o vermelho, deixar que entre em mim, preenchendo todos os espaços vazios.

O vermelho também se transformou, adquirindo uma forma humana, de cabelos castanhos emaranhados, tez pálida e olhos azuis. Rose Weasley é o vermelho; o vermelho é Rose Weasley. Ela é a minha única salvação, é a única que pode destruir a cobra azul. Rose é o antídoto para o veneno que me corre nas veias. Rose é a borracha que apaga o azul. Rose é a leoa que pisa a cabeça da serpente. Rose é o oxigénio que me faz viver, é o perfume que me mantém consciente.

Rose é a minha vida.


Nota da Autora: Novo capítulo, gente! Quero saber o que estão a achar da fic… especialmente sabendo que só existem mais dois capítulos!

Obrigada Lyra e Lauh pelos comentários sempre animadores!

Tenho pena que as outras pessoas que lêem a fic não se dêem ao trabalho de mandar um review. É tão fácil!

Beijos.