LIVRO I - BUSCA

Capítulo cinco

Harry estava com o pescoço doendo por causa da posição. Ergueu uma mão e pressionou a parte traseira do pescoço, inclinando a cabeça para um lado depois para o outro, estalando alguns ossos. Ele tinha assistido três fitas seguidas onde a única coisa que acontecia era a espera por Remus.

Os semblantes das pessoas no laboratório eram desolados. Sirius estava sentado numa cadeira, os cotovelos apoiados na mesa, as mãos no rosto. Parecia ser a única posição que ele conseguia permanecer por mais de dez segundos. Sua perna direita balançava rapidamente, num tique nervoso.

Harry bebê dormia nos braços de James, e Lily estava com os olhos vermelhos, olheiras profundas marcavam seu rosto. Os três ocupavam o sofá.

- Sirius, você comeu alguma coisa? - James perguntou em voz baixa, provavelmente para não incomodar o bebê.

- Não estou com fome. - ele respondeu rapidamente. Ergueu a cabeça e olhou em volta, voltando a afundar o rosto nas mãos logo depois.

Lily suspirou cansadamente.

- Vou colocar Harry na cama. - ela falou, pegando o bebê cuidadosamente nos braços do marido e saiu do laboratório.

James permaneceu sentado um tempo, olhando para Sirius.

- Você precisa manter a calma, Padfoot. - ele falou, caminhando para perto do amigo e sentando numa cadeira ao seu lado.

- Não me peça algo impossível, James. Não me peça. - ele respondeu com a voz rouca, sem mudar a posição.

James colocou uma mão sobre o ombro do amigo e apertou, num gesto de solidariedade.

- Ele vai voltar, Padfoot, você vai ver. Ele é o que conhece melhor essa área, e ele é muito inteligente...

- Eu sei! - Sirius falou, quase num grito, erguendo a cabeça abruptamente. - Mas ele está doente, debilitado! A gente não deveria ter deixado ele sair assim, James! Já passaram dois dias!

O homem de óculos não tirou a mão do ombro do amigo, que olhava para ele com uma expressão desesperada.

- Você sabe que não devemos perder as esperanças até que passem quatro dias, que é quando as doses do neutralizante que ele levou vão acabar. - James tentava racionalizar com o amigo.

- Se ele foi pego, os neutralizantes não vão adiantar de nada, James! Você não vê isso? - Sirius gritou, descontrolando-se.

- Shiu! - Lily chiou, voltando dos alojamentos. - Harry está dormindo, Sirius!

- E Remus pode estar morto, Lily! - ele sussurrou com tanta intensidade que parecia que estava gritando, a veia em seu pescoço palpitava violentamente. - Nós não deveríamos ter deixado o Peter ter saído só para avisar que tínhamos encontrado o modo de sintetizar a enzima que desativa a reprodução do vírus! Deveríamos ter esperado até termos finalizado a sintetização de todas as substâncias, até estarmos com a cura em mãos. Aí ele que sairia para levar a notícia final da cura e não precisaríamos entrar em contato com Hogwarts novamente!

- De nada adianta ficar pensando no que deveríamos ter feito, Sirius! - James chacoalhou o ombro do amigo, chamando sua atenção. - Não adianta chorar pelo leite derramado.

Sirius respirou profundamente e olhou para os lados, parecendo desorientado. Fixou os olhos na parede oposta e fez um careta de dor, emitindo um som inarticulado de impotência. Enfiou o rosto nas mãos novamente, sem adicionar mais nenhuma palavra.

Permaneceram assim por alguns minutos, até que Lily se sentou no sofá, colocando os pés sobre o assento, debaixo de seu corpo. A médica fechou os olhos e segurou o pingente de uma corrente dourada que trazia no pescoço, os lábios se moviam murmurando, mas não dava para ouvir nenhuma palavra. Prestando maior atenção à figura dela, notava-se que o que ela segurava firmemente entre os dedos era um escapulário delicado.

Harry nunca imaginara que sua mãe, uma cientista, tivesse alguma fé religiosa. Então ele refletiu que, quando todas as luzes se apagam, as pessoas sempre se voltam para algum deus. Notou que seus pais não tinham mais muitas esperanças.

Baques surdos ecoaram pelo lugar. Sirius levantou a cabeça e saiu correndo, sem olhar nos monitores, James correu atrás dele gritando para ele esperar. Lily abriu os olhos e pulou do sofá, indo para os monitores. Colocou a mão aberta pousada sobre o peito e lágrimas escorriam por seu rosto, que tinha um sorriso aberto e aliviado. Ela olhou para cima e murmurou:

- Obrigada, meu Deus!

A voz de James gritando "Moony!" foi toda a confirmação que se precisava para saber que o médico voltara. Lili virou-se para ir ao encontro do amigo.

Harry achou que aquele escapulário lhe era vagamente familiar, mas antes que pudesse lembrar exatamente onde tinha visto algo parecido o telefone soou, sobressaltando-o. Ele ignorou o aparelho tocando e permaneceu olhando para a tela, somente para se decepcionar quando a imagem piscou e apagou, antes mesmo de Lily ter saído do laboratório.

- Merda. - resmungando em voz baixa, Harry pausou o vídeo e se arrastou para o telefone. - Alô! - ele falou impacientemente.

- Oi, companheiro! - saudou a voz de Ron do outro lado da linha. - Como está tudo por aí?

- Tudo em ordem. Eu estou assistindo os vídeos.

- Ainda? - Ron perguntou levemente surpreso.

- Sim, ainda. - Harry respondeu distraidamente. - Você queria me falar alguma coisa?

- Então, na verdade sim. Liguei para te dizer que consegui o nome de quem levou a caixa com as fitas e os documentos para o Ministério. - ele anunciou, mas sua voz estava estranhamente cautelosa.

- Sim? - Harry empolgou-se. - Quem?

- Hum... - Ron pigarreou antes de falar. - Draco Malfoy.

- O quê? - Harry quase gritou. - Quando foi isso?

- Aparentemente foi há quatro meses. Um outro espião apresentou Malfoy a Kingsley. Parece que a caixa foi uma forma de prova de lealdade ou algo assim. - dava para se perceber pela voz que Ron estava fazendo uma careta.

- Ron, isso não é possível. Se foi ele, o que por si só já é algo difícil de acreditar, não pode ter sido em menos de um ano e meio. Você sabe que ele é um soldado tipo B agora. - Harry falou, tentando achar sentido naquilo que o amigo estava lhe contando.

- Eu sei, companheiro. Não é possível, mas o próprio Kingsley me confirmou que foi ele quem entregou a caixa há quatro meses. - Ron falou, soando tão confuso quanto Harry.

- Mas como isso é possível? - Harry perguntou a ninguém em particular.

- Não sei, companheiro. Não sei mesmo. - veio a resposta de Ron.

- Tudo bem. Depois eu vou conversar com Kingsley a esse respeito. Obrigado, Ron. - Harry falou.

- De nada, Harry. Até mais. - Ron se despediu e desligou o telefone.

Harry ficou parado por alguns segundos, tentando digerir a notícia. Ele se lembrava de ter visto Malfoy do lado de Snape no último confronto, agindo como um perfeito soldado tipo B. Todo mundo sabia que ele era um infectado há mais de um ano e meio. Então como era possível?

Balançando a cabeça, Harry voltou a sentar na frente da TV para continuar assistindo com os olhos atentos.

A imagem voltou alguns segundos depois, mostrando Sirius entrando na sala de confinamento com um grande sorriso estampado no rosto, carregando uma caixa de aparência metálica. O biólogo depositou a caixa na mesa e deu meia volta para fora do cômodo, atacando Remus, que entrava no local.

- MMMMNNNNNN! - Remus reclamou, tentando soltar-se do beijo faminto do outro. - Sirius!

O de cabelos negros riu, fungando no pescoço do médico, respondendo:

- Eu não vou te soltar nuuunca mais!

Remus retribuiu o abraço do outro, um sorriso suave em seu rosto. Murmurou:

- Eu te amo.

Sirius encarou Remus, seus olhos brilhando, e o beijou, ambos sendo interrompidos quando James entrou na sala, falando alto.

- Dá pra maneirar, vocês dois? Temos uma missão importante. Concentração!

Sirius riu, abraçando Remus por trás e encarando James com uma expressão de censura.

- Ah, falou o senhor respeitável que estava se agarrando com a Lily há menos de uma hora.

Foi Lily que respondeu, entrando com um agitado Harry em seus braços.

- Cuide de se agarrar com seu namorado que eu cuido do meu, ok?

Ela sentou-se em uma cadeira e sentou Harry sobre a mesa, e ele, muito curioso, investigava a caixa de metal ao seu lado. Deu um gritinho, batendo com a mão na mesma. Remus riu, se aproximando.

- Tem razão, Harry, vamos começar logo.

Remus abriu a caixa, deixando à mostra um estranho rádio.

O Harry adulto que assistia o filme, ficou interessado no rádio dentro da caixa. Perguntou-se como Remus conseguira trazê-lo, pois era bem grande.

Havia doze entradas dispostas em uma fila com um cabo conectado a cada uma. Na parte superior um cabo grosso levava a um microfone de aparência danificada. Nas laterais duas saídas de som pequenas, e vários botões ao longo do topo do dispositivo. Foi um deles que Remus apertou, regulando a frequência em um botão grande, e o barulho de estática preencheu a sala, todo os ocupantes muito quietos, esperando algum sinal.

Subitamente, silêncio, e Remus pegou o microfone:

- Aqui é a base G.H. Ordem da Fênix buscando contato, cambio.

Esperaram, e o rádio continuou mudo. Remus repetiu:

- Aqui é a base G.H. Ordem da Fênix buscando contato. Chamando base Hogwarts, repito, chamando base Hogwarts, cambio.

Nenhuma resposta, e Sirius, sentado no sofá ao lado de James, sacudia a perna nervosamente. Remus respirou fundo, repetindo novamente:

- Aqui é a base G.H. Ordem da Fênix, buscando conta... - um barulho o interrompeu, Remus soltou o botão, escutando atentamente.

Uma tossida baixa e uma voz alta e rouca, muito animada fez-se ouvir.

- Aqui é a base Hogwarts, Hagrid falando. Cambio.

Os amigos entreolharam-se e Remus falou:

- Base G.H. Ordem da Fênix solicita contato com Dumbledore. Cambio.

- Vou chamar Dumbledore, peraí.- barulhos e a voz acrescentou, atrapalhadamente: - Cambio.

Harry riu, imaginando o grandalhão Hagrid mexendo naqueles botões pequenos do aparelho, cheio de pressa.

Uma voz calma tomou o quarto, indagando:

- Base G.H. Ordem da Fênix? Aqui é Albus Dumbledore. Cambio.

Todos na sala respiraram aliviados, e a mão de Remus tremeu um pouco quando ele se aproximou do microfone lentamente.

- Quem fala aqui é Remus Lupin, também em nome de Sirius Black, James e Lily Potter, e - deu uma pausa, sorrindo ao olhar para a criança que o olhava com atenção - Harry Potter, cambio.

Ouviram a voz do homem no rádio carregada de emoção quando respondeu:

- Harry Potter?... Cambio. - ele suspirou audivelmente, e Lily riu, pegando o microfone que Remus lhe estendia.

- Harry Potter, senhor, o nosso menino de ouro. Espero que em breve você possa conhecê-lo pessoalmente. - ela adicionou, emocionada. - Como é bom ouvir sua voz Dumbledore. Temos excelentes notícias. As melhores, pra ser mais exata. Cambio.

- As notícias - Dumbledore pigarreou - devo acreditar que se referem a uma cura? - sua voz estava embargada. - Oh, meus queridos, isso é tão... Tão maravilhoso. Cambio.

Remus estava com o microfone novamente:

- Todas as amostras reagiram positivamente à substância que desenvolvemos, e as cobaias estão completamente curadas. Cambio.

- Tão rápido! - Dumbledore parecia imensamente feliz. - Isso é incrível! Meus caros, vou enviar tropas para trazê-los em segurança, e disponibilizar uma fábrica para a produção da maior quantidade de amostras possível, é uma operação que deve ser iniciada já! - e o ruído desapareceu, os cientistas rindo percebendo que Dumbledore esquecera do "cambio".

- Senhor - Remus acrescentou, parecendo mais sério. - Há alguma possibilidade de contato com Peter Pettigrew? Cambio.

- Como? - Dumbledore parecia confuso. - O senhor Pettigrew não se encontra na base? Eu percebi que você não o citou, mas - James e Sirius se entreolharam - o senhor Pettigrew não entrou em contato com esta base desde... O primeiro semestre do ano passado, creio. Cambio.

- O quê? - Harry falou, chocado, ao mesmo tempo quer os cientistas no vídeo também se sobressaltavam.

Ele passou as mãos pelos cabelos, tentando pensar. Se Pettigrew não entrara em contato, então quando ele saiu com as informações...

- Não... - Harry olhou para os pais no vídeos, sua face se contraindo. - Ah, Deus, não...

Harry deu um pulo no sofá, assustado, pois no vídeo um estrondo alto se fez ouvir, e os alarmes soaram ensurdecedores. Enquanto ele tentava entender o que acontecera, a imagem piscou e caiu em interferência.