6º Capitulo: Tesouros e escolhas.
Elizabeth deixou a cabine de Jack muito irritada para, em seguida, topar com Will que a olhou surpreso e perguntou:
Te procurei por todo o navio, onde você estava?
Eu?Ah, estava andando um pouco por aí, mas agora que te encontrei vamos dormir porque amanhã será um dia muito difícil!
Aham, vamos, Elizabeth.
Os dois seguiram calados para a cabine onde dormiam os marujos, se deitaram e ele ameaçou toca- la, mas ela sorriu e disse:
Meu amor, estou tão cansada que só penso em dormir...boa noite!
Elizabeth se virou para o outro lado e, ao invés de dormir, apenas fechou os olhos e ficou pensando no que se passara entre ela e Jack poucos minutos atrás, odiando- se por ter de admitir que ele sabia como transtornar a cabeça dela e faze- la ficar indefesa. Ouviu um suspiro desgostoso de Will e sentiu- se mal por deixa- lo sofrer tanto.
Na manhã seguinte todos subiram ao convés com os primeiros raios de sol e avistaram, a poucos centímetros de distância, um navio afundado, ao que tudo indicava, recentemente. Gibbs aproximou- se e explicou que numa noite de tempestade o capitão não avistara a barreira de corais próxima a superfície e, na tentativa de alcançar uma ilha próxima, havia batido o casco na barreira, causando o naufrágio e a malfadada morte dos tripulantes.
Jack parecia ter pressa de acabar logo com tudo aquilo, como se não visse a hora de livrar- se de Luiza e, também, de Elizabeth, para a qual ele não dirigira um olhar sequer desde que haviam subido ao convés. Portanto, deu ordens para que Gibbs, Pintel, Ragetti, Luiza e Alça de Bota descessem com ele até o navio naufragado e enchessem sacos de pano com toda a riqueza que pudessem recolher.
Todos os que o acompanhariam despiram trajes mais pesados, espadas, pistolas, botas e saltaram na água, deixando para trás Will e Lizzie. O clima estava tenso entre eles, principalmente pelo lado de Will que parecia muito intrigado com alguma coisa. Elizabeth estava temendo uma conversa séria e ficou paralizada quando ele a chamou com voz inflexível:
Elizabeth, preciso conversar com você!
Ela arranjou o sorriso mais calmo e sereno que pode botar no rosto e se aproximou dele, passando a mão pela camisa dele, alisando, acarinhando.
Sim, Will, sobre o que quer conversar?
Ele pegou as mãos dela afastando- as levemente dele e disse, um brilho de suspeita nos olhos:
Por que você e Jack não se olharam nem uma vez hoje, ainda?Achei muito estranho, porque vocês dois estão quase sempre trocando farpas ou idéias.
Nossa, Will!Do jeito que você fala parece que está perdendo a confiança em mim, sabe! Jack tem lá os problemas dele e nós nunca nos demos bem mesmo!
Na verdade, Elizabeth, eu realmente perdi um pouco da confiança em você sim, quando vi vocês dois se beijando...
Will, você sabe porque que eu...- tentou atalhar ela, mas ele a cortou, falando:
E vejo que você não é mais a mesma de antes, depois de te- lo conhecido. Vejo que você tem outras aspirações, que você até gosta da vida que ele leva e dos joguinhos que vocês jogam.
Will, quem te pôs essas idéias na cabeça?Foi Luiza?Ela adora envenenar as pessoas!
Will a olhou com ternura e tristeza, depois negou:
Não, eu nunca troquei uma palavra com aquela moça, mas você parece odia- la, não é mesmo?Por que?
Você não vê o estilo dela?Cruel, assassina, louca, manipuladora?Vai dizer que você não vê nada de errado com ela, mas não pode suportar outros piratas?
É que a mim pareceu que você sentia era ciúmes dela, sabe!E não por mim, que jamais dou motivos, mas por Jack que fica conversando coisas confidenciais com ela por aí!Ontem mesmo, eu os ouvi conversando dentro da cabine dele.
Como?- fez Elizabeth, inclinando o corpo um pouco para a frente.
Ele e ela estavam dentro da cabine dele, conversando aos sussurros!
Elizabeth sentiu uma onda escaldante percorre- la por dentro e imaginou, por um momento, o tipo de coisa que Jack poderia estar fazendo com uma mulher dentro de sua cabine e sentiu raiva dele, muita raiva, porque ele não valia nada e...bem, ela não tinha nada haver com isso, certo?
Olhou para Will, um segundo depois, e sorriu:
Will, se você pretende provar que tenho ciúmes de Jack dizendo essas coisas para mim, está perdendo seu tempo.
Ele pareceu se arrepender das coisas que tinha falado para ela e procurou se aproximar de seu rosto, para um beijo, mas ela se afastou, de cara amarrada:
Para você eu sou o tipo de mulher na qual não se pode confiar!
Em seguida ela ergueu a cabeça bem a tempo de ver um navio pirata emparelhado com o deles e um homem apontando uma pistola para eles. Ela agarrou Will e se jogou no chão com ele, gritando:
Cuidado, Will!
O tiro soou alguns metros acima deles, passando por sobre o costado do navio e Will a agarrou bem forte, puxando- a para junto de si. Lizzie tentou se desvencilhar, olhando ao redor, em busca de uma arma, mas ele a segurou com firmeza, impedindo- a.
Elizabeth, nossa vida vale mais do que um navio, não saia para lutar e morrer!
Neste exato momento, ouviram barulho na água e mais um tiro foi disparado, sendo seguido de um grito de Gibbs:
Jack!
Lizzie sentiu qualquer coisa como o desespero na voz do imediato de Jack e soltou- se de Will, ficando em pé. Jack estava boiando na água e os outros procuravam leva- lo para o navio, enquanto Luiza gritava montes de imprecauções para o homem que atirara:
Não era para atirar nele! Eu pretendia chegar a um acordo com Jack e agora você o matou, seu infeliz!
Desculpe, Senhorita Teach, mas eu me assustei quando ele emergiu à tona!
Você sabe qual o castigo para a desobediência em meu navio?- perguntou ela.
Ao mesmo tempo que essa terrível cena se desenrolava ao redor, Elizabeth estava petrificada no lugar, como uma estátua. Ela ouvira bem? Morto, Jack Sparrow morto porque um idiota havia atirado nele sem motivos? Ela não pensou duas vezes, estendeu a mão para a pistola no cinto de Will e atirou no homem, antes que este pudesse reagir.
Luiza, ao ver o homem, que a essa altura todos sabiam pertencer a tripulação dela que comandava o navio que chegara junto ao de Jack, ficou furiosa e virou- se para Elizabeth, gritando:
Quem você pensa que é para atirar num marujo meu?Nos marujos que servem em meu navio mando eu e só eu decido o que fazer com eles!
Então discipline- os melhor!- Lizzie cuspiu as palavras.
O que você sabe de disciplina?!- zombou a outra.
A mão de Elizabeth tremia, mas ela mantinha a pistola apontada para Luiza, os dentes cerrados e os olhos cheios de lágrimas. Por sua cabeça passavam vários momentos vividos anteriormente com Jack: os momentos em que ele a fazia rir, ficar brava; os momentos em que ele a rodeava com os braços e aproximava o rosto do dela, tirando- lhe a razão. Ela não sabia o que era aquela sensação que ela tinha junto dele, mas sabia que jamais a sentiria de novo e isso a estava deixando furiosamente frustrada. Só havia uma conclusão em sua mente: ela precisava de Jack vivo só para poder brigar mais um pouco com ele, para rir mais um pouco, para sonhar mais um pouco...ela precisava dele de forma quase intestinal.
Estava imersa nesses pensamentos quando uma mão tocou o ombro dela suavemente. Ela virou- se para trás desapercebida e pulou de susto ao ver a expressão divertida no rosto de Jack. Jack?
Meu amor, tente se acalmar porque não será um simples tiro dado de longe que matará o capitão Jack Sparrow...beijos traiçoeiros surtem mais efeito!- declarou ele malicioso e divertido enquanto retirava de dentro da camisa uma enorme e bela peça de ouro que ele trazia escondida de dentro do navio naufragado; nela ficara cravada a bala que não o atingira.
Elizabeth levou alguns minutos para se situar no ambiente e apreciar o choque que aquele seu pequeno show histérico havia produzido e se odiou por isso. Luiza estava branca como cera como alguém que vira a morte de perto, muito de perto e os outro estavam como que colados ao chão nas exatas posições em que haviam estado minutos antes, alguns subindo a escada no costado do navio, outros parados no convés, boquiabertos.
Ela olhou para Will que se afastara dela e viu a expressão nos olhos dele, uma expressão de acusação, de raiva, de vergonha. Sentindo que precisa disfarçar tudo muito bem ela logo olhou para Jack que ainda sorria extasiado e gritou, irritada:
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Ela atirou a pistola no chão e disse para ele em alto e bom som:
Você não tem nada mais construtivo que fazer do que contrabandear peças de ouro roubadas dentro da camisa?Andar com você só me traz dor de cabeça, Jack, não vejo a hora de sumir deste navio!
A essa altura ela já estava quase chorando e a expressão dos presentes não poderia demonstrar mais espanto! Então, ela virou- se para Will e correu abraça- lo, mas ele a impediu e a afastou, deixando- a desesperada:
Will, vamos embora daqui, por favor!
Por que? Eu já vi o bastante por hoje, por uma vida inteira se quer saber, Elizabeth! Não vou me esquecer do que você acabou de fazer, não vou me esquecer do que você fez com o meu amor e a minha dedicação!
Will, eu te amo, sempre, sempre! Eu escolhi você, como você pôde duvidar de mim assim?
Elizabeth Swann, amor não é tudo nesse mundo e você acaba de me mostrar isso! Que adianta amar se esse amor significa a negação de nós mesmos? Para amar realmente é preciso haver conjunção de idéias, é preciso haver igualdade de almas. Eu não posso amar uma assassina fria e calculista como você que já mostrou que pode matar duas vezes. Jack, tome cuidado com ela para não amanhecer morto dia desses!
Do que você está falando, Will?- fez Jack que realmente não estava entendendo nada de nada da cena.
Will riu ironicamente e explicou:
Vai me dizer que você não está vendo que ela matou aquele homem para vinga- lo?Pois então, vou deixa- la aqui para você cuidar dela, porque para mim acabou!
Elizabeth agarrou os braços de Will e suplicou, realmente, para que ele não fizesse uma coisa dessas, mas ele estava irredutível e a afastou com violência.
Hei, cuidado, Will!- disse Jack sério, dando um passo à frente, pegando a espada e abraçando Elizabeth.
Luiza, vendo que a situação ia ficar feia, horrorosa, pavorosa, digna de pesadelos, ordenou que seus homens fossem recolhendo todos os sacos de dinheiro depositados no chão. Ragetti, vendo a manobra dela, interrompeu Jack para dizer:
Er, com licença, capitão, mas a moça está levando todo o tesouro embora!
Mande- a fazer muito bom proveito e se mandar do meu navio!- disse Jack, sem tirar os olhos de Will.
Você vai defende- la, Jack?Pensei que você fosse um covarde!- provocou ele.
E eu pensei que você fosse eunuco!As aparências enganam, querido!- devolveu Jack com seu inabalável bom humor, provocando a ira do outro que também sacou a espada.
Jack empurrou Elizabeth para o lado e gritou:
Feche os olhos, amor!
Partiu para cima de Will que também investiu sobre Jack, mas foram interrompidos por Elizabeth que chamou a atenção dos dois. Ela estava controlada e muito brava:
Não precisam brigar como animais por minha causa, posso escolher com quem ficar de forma civilizada! Will, eu sempre tive você em consideração, sempre gostei muito de você, sempre, sempre, sempre e jamais deixaria que navegasse no Holandês sozinho, sem um porto seguro para o qual voltar a cada 10 anos...eu estava disposta a fazer esse sacrifício por você, porque julgava que você merecia mais e que o que eu sentia por Jack não significava nada perto do que eu sentia por você!
Jack a olhava muito tenso como um condenado prestes a receber a sentença de morte e Will estava atento, a espera do resto da declaração, mas quando Elizabeth continuou todos pareceram se inclinar para ela afim de ouvir bem, até mesmo Luiza que estava esperando para ver no que dava e zarpar rapidamente.
Mas, apesar disso, hoje você passou dos limites comigo e eu decido ficar e tentar viver a vida que sonhei desde os oito anos enquanto navegava com meu pai, esperando ver piratas se aproximando pelas águas! Ainda não sei ao certo o que sinto por Jack, amor ou paixão, afinidade ou atração, mas decidi investir nisso agora!- ela declarou, indo passar um braço ao redor de um Jack que parecia mais atordoado que do normal.
Will a olhou incrédulo e disse:
Espero que você não pense que eu vou me tornar um Davy Jones da vida, porque eu não arriscaria minha felicidade por você, deve haver alguém que me mereça em algum lugar. Posso permanecer aqui apenas até alcançarmos terra, eu e meu pai?
Claro, em nome da aliança que mantivemos durante tanto tempo!- finalizou Jack, e Will se afastou, descendo pelas escadas e deixando a parte de cima do navio.
Alça de Bota passou por Elizabeth que não se conteve e sussurrou um desculpas bem baixo para ele. O pai de Will ergueu a vista para ela com um olhar penetrante e disse:
Você não me deve desculpas. William apaixonou- se por uma dama cheia de virtudes e personalidade, mas foi incapaz de reconhecer o momento em que ela se tornou uma pirata! Não a culpo!
