Passaram –se cerca de quinze dias desde a desastrosa virada na vida de Kuchiki Byakuya. vendo todas as suas esperanças indo por água abaixo, o único jeito era tentar se reerguer de novo. Como não tinha dinheiro para bancar uma reforma em seu apartamento, ele teve que vende-lo a preço de banana, e com o dinheiro da venda comprou um apartamento (bem) menor, no subúrbio da cidade. Passou então a procurar um emprego, mas como azar não desgrudava mais de seu pé, as coisas não estavam indo nada bem, apesar de seu excelente currículo. Nem se deu ao trabalho de procurar algo no ramo de Relações públicas, pois sabia que Aizen o devia ter queimado em todas as empresas do setor.
Aquele era mais um dia de caminhada, e o cansaço e a fome estavam começando a incomodar. Andou mais um pouquinho procurando por algum lugar onde pudesse comer. Encontrou um restaurante com uma aparência bem simpática, e o cheiro que saía dele era muito bom por sinal.
_Não deve ser tão caro... Vou ficar por aqui mesmo_ pensou o moreno. Afinal, ele não podia se dar ao luxo de gastar o dinheiro restante da venda do apartamento. Entrou, escolheu um lugar bem discreto e fez seu pedido.
Do outro lado do mesmo restaurante estavam um grupo de pessoas bem peculiar. Era Renji e os músicos , que estavam na pausa de mais uma sessão de gravações. Tinham trabalhado bastante nesses últimos dias e já estavam na reta final. As músicas de trabalho já haviam sido encaminhadas para as estações de rádio, e com a influência de Youruichi, podia ter certeza de que logo as músicas estavam sendo difundidas rapidamente.
Renji estava se dando muito bem com todos, mas sua maior aproximação era com Hisagi. Sempre muito responsável e prestativo, ele ajudava o ruivo em alguns arranjos e também sugeria alguns novos, fora as agradáveis conversas que os dois tinham depois de mais um dia de gravações. Em pouco tempo, os dois se tornaram amigos.
Todos já estavam bem a vontade, menos Grimmjow, que havia dado uma resposta bem malcriada a Szayel naquela manhã, que estava acompanhando Youruichi. Tudo isso porque o personal stylist havia sugerido que o guitarrista usasse uma calça um pouco mais justa.
_Juro que se aquela bicha do Szayel der pitaco no que eu devo vestir de novo, vai acabar levando uma bifa. Onde é que já se viu querer mandar no que eu visto ou deixo de vestir.
_ Uuiii que o valentão do Grimmjow quer soltar os cachorros em cima da bichinha particular da chefona! _ ironizou Noitora
_ Por acaso tá incomodado, Noitora?_ respondeu Grimmjow na lata. Aqueles dois discutiam pelo motivo mais besta, e era sempre Hisagi que tentava botar panos quentes.
_ Ah, pelo amor de deus, não vão começar aqui dentro do restaurante, né? Hoje está sendo um dia cheio, dêem um tempo!
Os dois olharam para o tatuado e resolveram dar uma trégua. Afinal era hora do almoço e até eles mesmos precisavam relaxar um pouco da rotina puxada. Mas Noitora ainda soltou uma indireta, só que dessa vez para o Renji:
_ Também, nem se preocupe se a bicha do Szayel está querendo coisa com você, Grimmjow. Ele está interessado mesmo é no Renji.
_ Ei! Eu tava calado até agora! Não me comprometa!
_Mas que ele está mesmo de olho grande, isso ele está, Renji san..._ a voz arrastada de Stark finalmente se fez ouvir aquele dia. Todos começaram a rir descontraídos. Quer dizer, todos menos Ulquiorra, que se bastou a esboçar um leve sorriso.
_Até tu, Brutus? Bah! Deixa eu ver logo o que tem no cardápio! Tô com tanta fome que eu poderia comer até um boi... _ então o ruivo passou a prestar atenção nas refeições dispostas no menu.
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Talvez aquela fosse a primeira vez em anos que Byakuya comia com gosto. Pra falar a verdade, ele só não raspou o prato porque sua educação não permitia. Pediu a conta, mas na hora em que colocou a mão no bolso e procurar sua carteira, não a encontrou. Apalpou o outro bolso da calça, nos bolsos da jaqueta que estava usando e nada.
_Eu perdi minha carteira!
O garçom olhou para ele meio desconfiado, e em seguida disparou:
_Quer dizer que não tem dinheiro pra pagar?
_Eu acabei de dizer que eu perdi minha carteira! Eu tenho que sair pra procurá-la.
_ Não sem antes falar com o gerente!
O moreno ficou nervoso e constrangido com aquilo tudo. Levantou-se de repente e acabou batendo com a cabeça na bandeja de outro garçom que estava passando, entornando todo o suco da jarra que ele levava em cima dele. Todos os que estavam perto olharam pra ele, inclusive os que estavam na mesa com Renji. Grimmjow e Noitora começaram a rir da desgraça do pobre moreno, e o restante observava surpreso, sem achar graça nenhuma daquilo. De repente, Renji levantou-se e foi de encontro ao grupo. Dessa vez era o gerente que indagava Byakuya.
_Mas como é que o senhor quer que eu pague, se eu perdi minha carteira?
_ Moço, espera um pouco. Qual o problema aqui?_ perguntou Renji ao gerente. Depois de ouvir a versão do homem, o ruivo se prontificou em pagar.
_ Pode colocar a despesa dele na minha conta. Eu pago.
Só assim que os ânimos se acalmaram. Byakuya e Renji se entreolharam. O ruivo acabou sorrindo para o moreno, que o fitava com a expressão de simpatia. Depender da caridade de estranhos. Realmente o Kuchiki tinha chegado ao fundo do poço. Sentindo-se humilhado, saiu dali depressa, sem nem ao menos agradecer a Renji.
_Ei! Espera aí!_ Renji se apressou em seguir o moreno, mas antes voltou a sua mesa e falou a Hisagi que pagasse a parte dele, que logo mais ele o pagaria na gravadora.
_Mas Renji, o que você vai fazer? Tem coisa pra gravar ainda! E você nem terminou seu prato, homem!
_Eu volto logo, prometo!_ pegou a mochila e as chaves da moto e saiu. Todos ficaram olhando um para o outro se indagando mentalmente o que foi aquilo.
_Eu hein, que cara mais esquisito... Parece que aí tem, viu?_ comentou malicioso Noitora.
_ Como se você fosse a pessoa mais normal do mundo..._ falou calmamente Ulquiorra, sem nem olhar para o baterista.
_A conversa ainda não chegou na cozinha, seu emo!
_Renji é muito do otário! É isso que dá querer ser o salvador da pátria. Por isso que eu mando logo todo mundo se foder!_ falou Grimmjow antes de quase virar o copo de cerveja de um gole só.
_Ei Hisagi, volte pra mesa e termine de comer... tá esfriando, ou então pode deixar que eu como o resto..._ Stark falou preguiçosamente para seu colega.
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Renji correu até alcançar Byakuya. Parou de frente ao moreno e falou:
_Oh, calma aí! Porque a pressa?
_Você me humilhou naquele restaurante...
_ O quê? Mas eu paguei sua conta! Desde quando isso é humilhar?
_ Desde que minha vida virou um completo lixo! Eu tinha um bom emprego, uma boa moradia,minha vida era perfeita! E agora... tenho que depender da caridade de pessoas como você!
Quando mal terminou de falar, um balde de água cai em cima da cabeça do moreno. Assustado, Renji tira o balde rápido de Byakuya, e em seguida olha pra cima, dando de cara com um limpador de janelas do alto de um prédio, que lá de cima gritou preocupado:
_Moço, mil perdões! É que o balde acabou caindo do andaime... E-está tudo bem aí?
_ É! Eu acho que está..._ falou Renji um tanto constrangido com aquela situação tão familiar. Há um tempo atrás, muito provavelmente aquele balde teria ele como alvo. Não imaginava de encontrar alguém com um azar tão grande além dele no mundo, imagine então na mesma cidade. Pegou então sua mochila, tirou um lenço e passou a enxugar o rosto de Byakuya. agora, vendo mais de perto, percebeu o quanto ele era bonito, melhor dizendo, lindo. Meu Deus! Ele podia muito bem trabalhar de modelo...
O moreno ficou meio em choque pela situação, tanto pelo banho involuntário quanto pela ajuda do Renji. Acabou tomando o lenço da mão do ruivo e passou a se secar sozinho.
_Obrigado..._ falou tímido para o ruivo, com as bochechas avermelhadas.
_Er... de nada_ Renji corou e esfregou a mão nos cabelos avermelhados da nuca, já que estavam presos num rabo de cavalo. _ Er... você dizia que tinha um bom emprego... não tem mais?
_ Fui demitido a pouco tempo, e estava justamente procurando outro, mas até agora não consegui nada. Mas também, quem vai querer empregar um desastre ambulante feito eu? Bem... tenho que ir, obrigado de novo por sua ajuda...
Byakuya entregou o lenço para a Renji e foi se afastando, até que ouviu a voz grossa do ruivo a lhe chamar.
_Ei, eu posso arrumar um lugar pra você trabalhar!
_ Hã?
_ Era meu antigo emprego. O dono me disse que ainda estão precisando de gente. Não é o melhor emprego da face da terra, mas serve pra pagar as contas.
_ Por que está me ajudando tanto?_ Byakuya franziu a testa, um tanto desconfiado.
_Bem é que... Eu costumo ser solidário com pessoas assim ...
_ Assim como?
_ Caras sem sorte, azarados... desastres ambulantes._ Renji sorriu com franqueza. Apesar do azar parecer ter saído definitivamente de sua vida, não deixava de simpatizar com as pessoas de pouca sorte na vida.
_ Então... você aceita ir comigo? Não é tão longe daqui.
_ Está bem então..._ que remédio, não é?
_Ótimo! Então eu levo você até lá! Ops! O que isso?_ parou ao sentir que havia topado com alguma coisa em seu pé. Abaixou-se e pegou o que parecia ser uma carteira.
_Se parece muito com a minha! Dê-me aqui. _ Renji estendeu a carteira para Byakuya, e quando este abriu, verificou que era mesmo a sua, com todos os documentos, mas... sem dinheiro algum. O moreno acabou deixando escapar um suspiro que era um misto de alivio por ter reavido sua carteira e de decepção por ter perdido o dinheiro.
Byakuya seguiu Renji até onde a Zabimaru estava estacionada. Pegou os capacetes que estavam presos a ela e estendeu um para seu carona, que abriu muito os olhos.
_ Nós vamos de moto?
_ Sim, vamos! Algum problema?_ falou o ruivo colocando o capacete na cabeça.
_ Não... é que , eu nunca andei de moto na vida...
_ Não? Pois não sabe o que está perdendo! A sensação de liberdade que você tem quando sente o vento batendo no seu rosto... Não tem como descrever! Mas agora você vai saber como é! Venha!
Renji sentou na Zabimaru e deu partida. Estendeu a mão para o moreno e ele subiu na garupa, um tanto distante de Renji.
_Eu se fosse você, me segurava bem. Essa belezinha aqui não brinca em serviço quando o negócio é velocidade!
Byakuya nem sequer pode pensar sobre o assunto e Renji arrancou dali. Assustado , o moreno envolveu os braços no corpo do ruivo, que acabou deixando escapar um sorriso. Lógico que havia sido de propósito. Acelerou um pouco mais e sentiu o aperto dos braços em seu corpo aumentar.
_Se quiser pode apertar mais...
_Como ?
_ Pra se sentir mais seguro ué!
Byakuya apenas bufou um tanto irritado. Estava sendo assediado pelo ruivo e simplesmente não entendia porque não o colocava em seu devido lugar. Porem, ao sentir aquele corpo grande envolto por seus braços e o leve perfume masculino que era trazido pela brisa que ia de encontro ao seu rosto, ele rapidamente entendeu o motivo. Logo Byakuya sentiu-se como num braseiro, então respirou fundo e pensou com seus botões, tentando manter sua costumeira frieza:
_Byakuya, não se deixe levar. Lembre-se de que da última vez que você deixou isso acontecer, as conseqüências foram as piores possíveis.
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-Ora, ora, olha só quem veio visitar a ralé..._ falou Urahara quando viu seu antigo funcionário entrar em seu estabelecimento.
_Boa tarde pra você também Urahara...
_E o que traz a sua visita tão ilustre nesta humilde loja de doces?
_ Está precisando de gente pra trabalhar aqui ainda? Se sim, eu tenho a pessoa ideal pra isso!_ Nisso Renji puxou Byakuya pelo braço e o apresentou ao ex-patrão.
Urahara então abriu seu leque, e veio em direção a Byakuya. Parou de frente ao jovem e passou a analisá-lo minuciosamente. O olhou de cima a baixo, deu a volta e olhou a costas dele.O moreno começou a ficar constrangido com aquilo.
_Ah, qualé Urahara, vai olhar os dentes dele também é?_ falou Renji indignado com o exame do dono da loja. O outro deu uma risadinha maliciosa e fechou o leque de um golpe.
_Ele tem ótima aparência, apesar de estar um tanto sujo. Isso é bom pra atrair clientela. Além do que, o que o Renji fazia qualquer um faz.
_Ei, também não é assim, né?_ Renji tratou logo em seu defender, procurando também não causar uma má impressão em Byakuya.
_Rapaz, pode começar a partir de amanhã!_ Urahara deu uma batidinha no ombro de Byakuya, como que selando o contrato de trabalho. Renji sorriu satisfeito com sua boa ação do dia.
Ao saírem do estabelecimento, os dois homens pararam onde a moto de Renji estava estacionada.
_Eu... bem... não sei como te agradecer... _ Byakuya falava pausadamente. Ele, que sempre fora tão auto suficiente, jamais se imaginara numa situação como aquela. Engolir o seu orgulho e aceitar a ajuda era realmente difícil pra ele.
_Ah, que é isso! Já não disse que gosto de ser solidário com azarados? _ riu por fim Renji. _Mas se bem que tem uma maneira de você me agradecer...
Byakuya levantou o rosto em direção a Renji. Como ele havia imaginado, nada nessa vida seria assim de graça. Estava tão envergonhado que nem sequer perguntou qual seria o preço da boa vontade de Renji.
_ Só quero que deixe que eu te visite aqui sempre que eu quiser.
O moreno piscou os lindos olhos cinzentos. Pensou que estivesse corado ao perceber o calor em sua face. Fazia tempo que não sentia aquilo. Foi quase como naquela fatídica noite da festa da Soul Records, quando o dançarino mascarado cruzou seu caminho. Por fim, respirou fundo e respondeu a cantada, tentando ao máximo passar naturalidade e distância:
_Pelo que sei, vivemos num país livre. Você pode ir e vir pra onde quiser, e isso inclui a loja do Urahara san.
_Claro, claro. Além do mais, gosto muito de doces. E a sua presença aqui vai ser um motivo a mais pra eu vir aqui mais vezes._ deu um riso safado para o moreno.
Desconcertado,o Kuchiki balançou a cabeça e se adiantou em se despedir com um rápido aceno de mão. Ao chegar a esquina, virou-se para trás e encontrou os olhos castanhos de Renji que não se desgrudavam um segundo sequer dele. Rapidamente, ele virou o rosto altivamente e dobrou a esquina, seguindo seu caminho de volta pra casa.
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_ Olha só quem resolveu visitar a ralé..._ falou Urahara ao ver seu antigo funcionário entrar na loja acompanhado de Byakuya.
