Casas Antigas e Surpresas

- Você conhece discrição? – Ron perguntou, mas eles já tinham entrado.

A grama estava na altura de seus joelhos, e em muitos lugares se viam tocas de ratos ou aranhas. Ron gemeu baixinho quando uma fileira passou pelo lado deles. Quando chegaram à porta, Harry sentiu o coração parar de bater. Sarah tentou usar a fechadura, mas estava emperrada.

- Não gosta de chutar as coisas? – Ron ironizou. – Porque não mete o pé na porta?

A cabeça de Sarah virou – se lentamente para Ron.

- Se eu quisesse, Weasley, colocava a casa abaixo. Mas eu acho que Potter quer ver a casa e não as ruínas dela, então vou tentar abrir civilizadamente.

Alguns segundos depois, a porta se abriu com um estalo seco, e Sarah fez uma reverência:

- Bem – Vindo em casa, Potter.

Harry deu um passo à frente, tremendo.

- Não consigo. – disse relutante. Sarah revirou os olhos.

- Eu entro primeiro.

Assim que abriu a porta, todos sussurraram "Lumus". Deram com uma sala de estar coberta de pó. Harry encarou o ambiente, notando a pequena cadeira alta, solitária no meio do lugar.

- Harry... – começou Hermione, passando a manga para limpar o pó de alguns porta – retratos sobre o console da lareira.

- Potter...

Harry virou – se subitamente, e viu Sarah (não conseguia pensar nela como Black) no sofá, com uma das mãos segurando um porta – retrato no colo e a outra mão mostrando um pedaço de madeira. Uma varinha. Harry sabia o que era, mais uma coisa chamou sua atenção. Sarah segurava a moldura com a foto virada para baixo.

- O que é?

- A varinha do seu pai. Achei que quisesse...

- Não, o retrato.

Ela pareceu constrangida quando Harry sentou-se ao seu lado no sofá, pegou a varinha e guardou no bolso das vestes.

- O que tem na foto?

- Nada...

Harry esperou uma pequena distração dela e pegou a moldura das mãos dela, direcionando a luz da varinha em cima da fotografia.

A foto fora tirada bem ali, onde estavam. Sirius e James, jovens, rindo. Segurando cada um o seu bebê. Pela primeira vez naquela note toda, Harry acreditou em Sarah.

- Você... – Harry começou, e os lábios dela se abriram num meio sorriso irônico.

- Deve ser a única foto que sobrou minha com o meu pai.

Harry tirou a foto da moldura.

- Pode ficar.

- Não disse que queria a foto. Não sinto tanta falta dele quanto você.

- Mas ele é seu pai.

- Foi mais seu do que meu, Potter. Fique com ela.

Resignado, Harry guardou a foto junto da varinha. Sarah levantou – se, meio sem graça. Harry podia jurar que estava corada.

- Er... Quer usar a minha mochila para guardar o que quer que vá levar daqui, Potter?

Harry sorriu. Não estava escutando. Aquela foto tinha deixado nele uma impressão engraçada.

- Se Voldemort nunca tivesse matado meus pais, você seria minha melhor – amiga.

- Hã?

- Nada. O que você disse?

- Se não quer usar minha mochila para guardar o que for levar daqui.

- Só se voltar para a Toca conosco. – Ron interferiu.

- A Ordem da Fênix?

- A Ordem a que seus pais pertenceram. – Hermione corrigiu, sorrindo.

- Vou ver.

Animado com a perspectiva de conhecer Sarah mais, Harry começou a vasculhar a sala. Encontrou, numa das paredes, o interruptor.

- Hermione... Será que funciona?

- Tenta.

Com um estalo, o aposento se encheu de luz forte. Acostumado com o escuro, Harry se encolheu, fechando os olhos com força. Após alguns segundos, abriu, e viu tudo entrar em foco novamente.

- Aqui é muito bonito, Harry. – escutou Hermione falando atrás dele. Atrás dele, estava à lareira. Sarah estava recostada num canto da sala, encarando o vazio. Ron estava perto de uma porta, um pouco mais a frente.

- Bom, só pretendo vir aqui uma vez, portando, vou pegar o máximo que puder.

Do canto, escutou – se uma risada. Sarah ainda estava de cabeça baixa, mas sacudia os ombros, soluçando de rir.

- Isso parece um saque... Hahahahaha!

Harry e Hermione se entreolharam.

- Erm... Vamos logo.

Foram pegando todos os porta retratos da lareira, assim como os brinquedos espalhados no chão. Harry sentiu um estranho sentimento de posse quando tocava as bolinhas de brinquedo coloridas, mas deixou isso de lado e foi jogando nos sacos que tinham sido abertos num canto. Estava tudo bem empoeirado, mas Hermione disse que não iria conseguir limpar tudo ali. Talvez quando voltassem à Toca.

Quando não restava nada além dos sofás (Hermione diminuiu a cadeirinha com a varinha, após a insistência de Harry em levar aquilo) e a lareira vazia, Ron deu um berro.

- Harry!

Quando correram para a porta, Hermione deu um gritinho.

- É sangue...

Não era uma mancha grande, mas estava lá, no chão. Harry sentiu um frio inexistente percorrer seu corpo.

- Deve ser do meu pai. Vamos subir.

Ron encarou – o, surpreso. Harry deu de ombros.

- Vai fazer diferença eu me sentir mal?

- Devia. Sangue é sangue, Potter. – Sarah comentou num canto.

- Achei que fosse mais fria.

- Eu sou. Mas esse sangue aí pode mostrar sangue lá em cima.

- Como alguém atingido pela Avada Kedavra pode sangrar? – Hermione perguntou pensativa.

- Acho que ele caiu. – Sarah observou – Não imagino que tenha simplesmente deitado no chão. Vamos logo.

A porta que saía de dentro da sala de estar estava emperrada, e Sarah deu um chute na maçaneta para abri – la. Era uma sala normal, de televisão. Mais brinquedos, que eles foram colocando nos sacos. Alguns álbuns de fotos jogados num canto. Depois de deixar o cômodo novamente vazio, subiram as escadas.

Quando chegaram ao último degrau, Harry congelou, encarando a porta semi – aberta. De dentro vinha a luz do luar.

- Podemos começar por outro lugar?

Andaram pelo corredor, e tiveram de acender as varinhas novamente. Naquele andar só havia três portas: a do quarto de Harry, semi – aberta, e duas outras, fechadas. Harry escolheu uma ao acaso, e deu com um armário. Cheio de coisas. Cartas, fotos, algumas roupas. Tudo foi guardado. Harry queria ficar, olhar aquilo. Mas não havia tempo. Depois, seguiram para a porta oposta ao quarto do bebê. Quando abriram, viram que era o quarto de James e Lily. Um perfume, misturado ao cheiro de antigo, ainda permanecia no ar. Harry teve vontade de ficar ali, dormindo.

Encontraram o interruptor dessa vez. E a luz amarela inundou o quarto. A cama, apesar de poeirenta, estava pronta para ser usada. Os travesseiros na horizontal, as cobertas puxadas. Num canto, as cobertas estavam até mesmo puxadas, como se alguém com pressa tivesse saído dali. Harry sorriu involuntariamente. De trás dele, escutou Ron e Hermione mexerem nas gavetas da penteadeira e da escrivaninha, puxando tudo para dentro das sacolas. Não fazia ideia de quantos sacos havia. Quanto mais, melhor.

Viu Sarah abrir as gavetas dos criados – mudos, e tirar alguns objetos pequenos. Até que um lampejo dourado chamou a atenção.

- Calma aí, Sarah.

A garota parou, olhando para ele por cima do ombro.

- O pomo de ouro?

- Me dá ele.

- Toma. – e jogou a bolinha. Estava dentro de uma caixa de vidro, e quando ele abriu, tentou voar, mas Harry a manteve bem presa nos dedos. Não adiantava ficar segurando aquilo. Colocou no saco.

Enquanto os amigos levavam o que tinham guardado para baixo, Harry olhou a porta adjacente ao quarto. Abriu – a e se viu num closet. Olhou as roupas. Estavam dobradas, penduradas, em caixas. Pegou um casaco masculino e vestiu, sentindo o perfume do pai. Cabia perfeitamente, como se fosse para ele. Lágrimas lhe vieram aos olhos. Achou - se meio infantil, mas sentou no chão e abraçou os joelhos, ainda chorando. Aquele cheiro, que parecia familiar e protetor, o fazia sentir saudade. Saudade da vida que poderia ter tido, doas amigos que podia ter levado lá. De quantas vezes podia ter sentido aquele perfume, em algum abraço.

- Potter? – escutou a voz de Sara chamar. Não respondeu. Não queria que ela o achasse covarde por estar chorando. Ela repetiu, e entrou. Soluçando, Harry olhou o chão em sua frente, e viu um par de botas se transformarem em joelhos, enquanto Sarah chegava perto dele.

- Eu... Estou bem, Sarah.

Mas ela não respondeu, nem riu. Harry sentiu seus braços envolverem seu pescoço, e sua respiração na sua nuca. Mal podia acreditar que ela estava abraçada a ele. Parecia que se conheciam há séculos, e ele havia acabado de perder seu pai. Sem pensar, Harry retribuiu o abraço, sentindo as palavras dela no seu ouvido:

- Relaxa, Potter. Uma hora isso passa. Sempre passa.

Quando se soltaram, Harry olhou para ela.

- Sente falta dos seus pais?

- Acho que sinto menos falta dos meus pais do que sente dos seus, Potter.

- Podia me fazer um favor?

- Depende.

- Podia parara de me chamar de Potter?

- Não sou sua amiga. Nem próxima.

- É. É sim.