Capítulo 6 - Uma complicação inesperada
Apenas poucos meses após os eventos no Hog's Head, aquele aparelhinho útil deu um alerta que Harry estava arriscando sua vida. De novo.
"Garoto infernal," pensou Severus, antes de pegar Mort e correr de Spinner's End. Mort o levou direto para o Ministério da Magia, e lá ele foi para o Departamento de Mistérios.
"E agora o que éisso?"
Parecia ser tarde da noite e Severus percebeu que havia seis garotos sendo perseguidos por Death Eaters. Ele só conseguiu reconhecer três dos meninos e dois dos discípulos de Voldemort: Bellatrix Lestrange e Lucius Malfoy, de um lado, e de outro, Harry Potter e seus dois melhores amigos.
Ele foi atrás deles e viu quando se separaram: Harry e Hermione corriam com um garoto desastrado, enquanto o menino Weasley foi para outro lado com duas meninas. Severus reconheceu uma delas como a Weasley que ficou presa na Câmara Secreta com um basilisco.
A atenção dele voltou para Hermione, agora desabrochando como uma bela moça de 15 anos. Foi aí que Severus reconheceu, com grande alarme, que quem estava atrás deles era Antonin Dolohov. Suas entranhas se reviraram de tensão.
Dolohov era um dos seguidores mais sádicos do Lord das Trevas, desde a época que Voldemort ainda tinha o nome de Tom Riddle. Tão fanático quanto cruel, Dolohov não hesitaria em matar nenhuma daquelas crianças.
Incluindo Hermione.
Com a parafernália da Morte, Severus juntou-se à refrega com a intenção de proteger os jovens, mas foi surpreendido por Hermione Granger. Ela lançou um Feitiço Silenciador em Dolohov, enquanto eles entraram numa das salas do Departamento dos Mistérios. Foi uma atitude esperta.
Severus observou Dolohov, babando de raiva, usou sua varinha e tentou lançar um encantamento em Hermione a despeito de estar afônico. A personificação da Morte correu a colocar-se entre a garota e o feitiço, mesmo sabendo que isso poderia ser completamente inútil.
- Oh - foi o que ele ouviu a jovem sussurrar, antes de seu corpo se dismilinguir no meio do campo de batalha. Severus foi até lá, ainda invisível, e cobriu-a com seu corpo para tentar prevenir que ela fosse atingida por algum feitiço perdido.
Ficar assim próximo da garota teve uma vantagem inesperada: Severus era capaz de admirá-la bem de perto. Que bênção.
O cabelo parecia muito diferente, e Severus podia perceber que ela tinha a pele macia, mesmo sem tocá-la. Com feitiços voando em meio a uma batalha, aquela não era exatamente uma ocasião romântica, mas Severus não conseguia se conter. Ele era saudável e tinha 22 anos, mesmo sendo uma encarnação imortal.
"Talvez eu esteja sozinho por muito tempo", pensou.
Os rapazes moveram o corpo dela para longe da linha de fogo, e Severus não sabia direito o que fazer, enquanto os combates continuavam. Ele pensava em tudo, menos no trabalho. Portanto, naturalmente, aquele foi o exato momento em que seu relógio indicou que ele tinha um cliente em dez minutos.
Severus rosnou de raiva, avaliando a situação. Ele tinha dez minutos, a luta continuava a todo vapor, e o aparelho estava histérico pelo montante de perigo perto de Harry. Havia uma boa chance que os dois instrumentos apontassem para a mesma pessoa.
Então os combates se deslocaram para uma outra sala, uma com uma imponente estrutura com um véu antigo. Severus podia ouvir as vozes por detrás da cortina, e de algum modo ele tinha certeza de que as vozes vinham de além do túmulo. Era tenebroso, até mesmo para a Morte em pessoa.
Muito repentinamente, a Ordem da Fênix chegou ao local. Severus observou seus antigos companheiros (ele se tornou um membro da Ordem desde que o Lord das Trevas marcara Lily) se juntaram à batalha. Com alívio, ele os viu protegerem os meninos e combaterem os seguidores do Lord das Trevas. Remus Lupin, Mad-Eye Moody, Sirius Black e o velho Kingsley Shacklebolt foram os que chamaram sua atenção.
Havia uma jovem, e Severus a reconheceu como uma nova integrante da Ordem com o nome de Nymphadora Tonks. Ela ajudou a levar Hermione para longe do perigo. Aquilo deu um pouco de alívio a Severus.
Ai a flecha apareceu, e Severus percebeu que ele estava ali para coletar a alma de um membro da Ordem. Ele viu Sirius lutando lado a lado com Harry e considerou o menino protegido o suficiente para ele procurar sem cliente. Mas a flecha apontava para eles dois.
Só mais dois minutos.
Foi aí que Bellatrix Lestrange aconteceu. Tão irritante quanto Severus se lembrava. Ela se pôs a provocar Sirius Black, e o deserdado membro da família mais nobre respondeu à altura.
De repente, seu relógio apontou claramente para Sirius, e bem a tempo de coletar sua alma. Em uma série de ações simultâneas, a bruxa demente ejetou de sua varinha um raio vermelho, Severus se adiantou para coletar a alma e nesse momento ele ficou visível para Sirius. Seu antigo colega de escola xingou baixinho quando ele não só foi atingido pela maldição de Bellatrix mas também detectou a presença da Morte. Sirius fixou seus olhos Severus enquanto caía lentamente no portal escondido atrás do véu.
Não era exagero afirmar que Severus não sentiu nenhuma satisfação em coletar a alma de um de seus atormentadores dos tempos de escola. Ficou ainda mais claro quando ele viu a reação de Harry. O pobre menino surtou e correu atrás de Bellatrix. A mulher louca gargalhava e cantava "Eu matei Sirius Black", numa vozinha infantil. Até Severus ficou inclinado a coletar a alma dela. Mas ele sabia que Satã provavelmente esperava ansiosamente a chegada dela em seus domínios. Além disso, a confusão que isso criaria com as demais Encarnações não valia a pena, não importa o quanto ela merecesse.
Para a surpresa de Severus, o Lord das Trevas em pessoa apareceu na briga. Severus olhou o relógio: para sua surpresa, ninguém mais iria morrer naquela batalha. E naquele momento, ele entendeu a razão. Dumbledore e um bando de Aurores chegaram ao local.
O que aconteceu em seguida foi um dos duelos mais emocionantes que o mundo bruxo jamais testemunhara. Na verdade, porém, o único bruxo a testemunhar a façanha foi Harry Potter, e o Lord das Trevas ainda tentou possuí-lo - sem sucesso.
A situação tornou-se excessivamente interessante quando Cornelius Fudge, o ministro da Magia em pessoa, chegou a tempo de ver Lord Voldemort bem na sua frente. Poucas vezes Severus viu tamanha palidez num corpo vivo que não estivesse tomado por doenças. E o Lord fugiu.
A atenção de Severus se voltou para o próximo cliente que seu relógio reclamava. Mas ele resistia a deixar o local. Contudo, Severus calculou que, com Dumbledore a seu lado, Harry Potter não podia estar mais seguro. Então ele voltou ao trabalho.
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Severus tentou muito não se culpar. No final da contas, não era nada grave. Mas lá estava ele, no meio da noite, na ala hospitalar, cuidando de Hermione. Ela dormia tranquilamente. Estava escuro e silencioso, e muito ao gosto de Severus. Ele estava aliviado em vê-la livre de dor.
Não que ele não confiasse nas habilidades de Madame Pomfrey. Merlin sabia que a enfermeira da escola era um dos membros mais competentes do quadro de funcionários. Mas Severus conhecia Dolohov, e suas maldições não eram apenas cruéis; elas eram mortais.
A enfermeira dormia a sono solto perto da paciente. Severus tirou o manto da Morte para movimentar-se ainda mais silenciosamente na enfermaria vazia. Ele se sentou ao lado da cama e inspecionou as poções na mesa de cabeceira. Havia pelo menos uma dúzia. E, como ele temia, todas eram recomendadas para tratamento de feridas internas.
"Maldito seja, Dolohov", pensou ele iradamente. Hermione tinha mesmo muita sorte.
Severus a encarou mais uma vez, e desta vez, viu os grandes olhos castanhos fixos nele. Como ele estava sem seu uniforme, ela podia vê-lo.
Melhor tomar a iniciativa, pensou.
- Não era minha intenção acordá-la - disse ele em voz baixa. - Desculpe por isso.
- Tudo bem - disse ela.
Severus notou que ela estava calma e perguntou:
- Está se sentindo melhor? As poções estão fazendo efeito?
- Sim, obrigada por perguntar. Quem é você?
A pergunta quase o pegou de surpresa, de tão casual.
- Meu nome é Severus. O Professor Dumbledore pediu minha assistência. Vim apenas vistoriar suas poções. Agora vou deixá-la voltar a descansar.
- Precisa mesmo ir agora?
- Não deveria se descuidar de seu repouso. A maldição que sustentou era muito poderosa, na verdade mortal. Você teve sorte.
Ela sorriu.
- Madame Pomfrey disse a mesma coisa. Mas ela não me falou a seu respeito.
Um pouco desconcertado, Severus admitiu:
- Eu nem deveria estar aqui. Assim, se pudesse deixar essa visita apenas entre nós, eu agradeceria. Talvez apenas o diretor, claro.
- Harry disse que sempre tem um membro da Ordem cuidando dele.
- Bem, cuidando não só dele - corrigiu Severus. - Agora volte a dormir.
- Vai voltar para me ver?
- Sim. Mas se eu fizer tudo certo, você não vai me ver.
- Você já fez isso antes?
- Talvez. Agora, por favor, volte a descansar, Srta. Granger. Vai se sentir melhor.
- Tá bom. Obrigada, Severus.
Severus surpreendeu a si mesmo quando a pôs para dormir como se fosse uma garotinha. Assim que ela fechou os olhos, ele pôs seu manto e desapareceu em pleno ar. Mas ele ainda estava ali quando Hermione repentinamente se sentou na cama, procurando por ele.
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- Bom, você não vai me dar uma bronca?
Eles estavam na Moradia do Destino. Lachesis, a tapeceira, estava ocupada tecendo uma das carreiras no colossal Tapete da Vida. Ela não parou o que fazia.
- Por que eu lhe daria um sabão depois de seus atos imbecis?
- Eu não tinha intenção de ser visto - redarguiu.
- Nem de se apaixonar por ela, claro.
Severus estava envergonhado.
- É assim tão evidente?
- Não, na verdade não é. Mas você está agindo muito parecido ao modo como agia com Lily. - Ela continuou a fazer sua urdidura no tear à mão. - Preciso lembrar que a garota é uma adolescente? E que ir atrás dela se constitui em crime?
- Eu não tenho nenhuma intenção de "ir atrás dela".
- Claro que não tem. - Destino deu um risinho. - Você vai segui-la por toda a eternidade, curtindo essa dor de cotovelo do seu amor proibido, fadado a ser um eterno solitário.
Ele fez uma careta.
- Sabe, muitos mortais nem têm ideia de como estão com razão em acreditar que o Destino é sarcástico. No caso, sarcástica.
- Desculpe. Mas você certamente pode ver que existe um padrão.
- E esse padrão de que fala aparece claramente na sua tapeçaria?
Destino olhou para o teto, onde estava pendurado o imenso tapete da vida. - Então você não entende o significado dos fios e pontos?
- Claro que não.
- Ótimo - disse ela, voltando ao trabalho. - Continue assim.
Severus ia replicar com uma resposta ácida e cortante, mas seu relógio brilhou, indicando um cliente.
- Preciso sair agora.
- Obrigada pela visita. Foi divertido.
Severus soltou um ruído inarticulado e saiu. Assim como o Tempo, a Morte não esperava ninguém.
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- Que gesto simpático, vir me visitar antes de nos encontrarmos profissionalmente.
Severus olhou ao redor do escritório de Dumbledore, reconhecendo um ar familiar ali. Ele estranhou. Havia morte no ar.
- Você está morrendo?
- Para dizer a verdade, sim - admitiu. - Aurora acha que eu tenho um ano, no máximo.
- Como-
- Não vamos nos deter nisso, pois já fizeram tudo que podia ser feito. Ouvi dizer que você apareceu à Srta. Granger há algum tempo.
- Não mude de assunto. Falou em Aurora? Aurora Sinistra está cuidando de você?
- A Professora Sinistra é a Mestra de Poções da escola há mais de uma década. Ela é um membro muito competente do corpo de funcionários de Hogwarts.
- Você sabe que ela também é uma Death Eater? Seguidora de Lord Voldemort?
- Ah, sim, claro que sei. Ela também é uma espiã para a Ordem da Fênix. E uma muito boa, aliás.
- Mesmo? Por que diz isso?
- Ela me procurou pois queria encontrar um modo de derrotar Lord Voldemort. Ela queria deixar seus serviços e me revelar todos os planos dele antes de morrer.
- Isso é flertar com a Morte! - disse Severus. - Ninguém deixa o Lord das Trevas e vive para contar.
Dumbledore assentiu pesadamente.
- É bem verdade, sim, ela se mostrava suicida. Você deve se lembrar de como o Lord Voldemort trata mulheres solteiras e descompromissadas.
A expressão de Severus fechou-se. Ele se recordou, com repulsa, o grau de depravação e de indignidade a que as seguidoras de Voldemort eram sujeitas. Não era à toa que seus números eram minguados, nem que muitas se apressassem a entrar em casamentos desastrosos.
- E essa foi a motivação dela para virar uma espiã?
- Isso e também o assassinato de seu noivo. Ele era Muggleborn. Aurora é motivada por vingança. E pelo desejo de deter Voldemort.
- Pelo bem de todos vocês, espero que ela seja uma boa espiã. O Lord das Trevas não hesitará em usá-la contra vocês se descobrir a verdade.
- Estou bem ciente - disse o diretor. - Mas estou para lhe falar sobre uma conversa encantadora que tive há algum tempo com a Srta. Granger. Ela me contou que você a visitou na ala hospitalar.
- É verdade.
- Imaginei por que você não a fez esquecer o encontro. Ou por que você falou com ela sem os seus tradicionais - gesticulou - trajes.
- Desde que me tornei Morte, perdi todos os meus poderes bruxos. Eu gostaria de ter capacidade para fazê-la esquecer aquela noite, mas infelizmente não posso. Eu estava sem meus trajes naquele momento, por isso ela podia me enxergar.
- Ela parecia ter a impressão de que você é um espião supersecreto da Ordem da Fênix. Não tive coragem de contar a verdade. É uma ironia.
- Ironia? - repetiu Severus.
- Bom, no final das contas, você não deixa de ser um espião para a Ordem, não é? Eu tinha planejado em lhe oferecer uma vaga de professor aqui em Hogwarts. O Professor Slughorn vivia falando de suas habilidades com Poções. Ele até o abrigou naquele clube exclusivo dele.
- E assim você teria seu espião Death Eater e também ficaria de olho em mim. Mas que pena: eu tinha morrido. Aí você recrutou Sinistra para a tarefa.
- Ela é uma mulher de muito valor, para não mencionar coragem. Sinto que as coisas se encaminham para um desfecho. Devo lhe contar sobre minhas suspeitas antes que seja tarde demais. Você tem tempo?
Na verdade, Severus tinha tempo, mas logo desejou que não tivesse. Dumbledore lhe contou sobre as horcruxes que o Lord das Trevas fez, e como ele suspeitava que o próprio Harry Potter fosse uma delas. Portanto, Dumbledore queria o menino vivo e ileso até que fosse o momento de derrotar o bruxo maligno.
Foi quase o suficiente para fazer Severus perder as estribeiras. Ele se sentiu manipulado, e não economizou palavras. Ele estava com tanta raiva que gritou com o velhote, por usar tanto o menino quanto ele, sem respeito pelo cargo. Severus deixou Hogwarts ainda irritado, e voltou para Spinner's End com a intenção de dar uma esfriada, mas estava difícil. A petulância do velhaco!
A determinação de Severus era de jamais por os pés naquela escola de novo. Usar o menino daquele jeito era completamente desumano. Era o filho de Lily! Havia uma aura de sacrilégio, para ele. Como Dumbledore ousava fazer armações desse tipo com uma criança? Ele fazia questão de recolher pessoalmente a alma daquele velhote metido.
No final das contas, demorou muito pouco para seu desejo se tornar realidade. Uns poucos meses mais tarde, Severus voltou a Hogwarts, desta vez a trabalho. Ele tinha um cliente. Seu nome era Albus Percival Wulfric Dumbledore.
Não houve tempo nem necessidade de palavras. No alto da Torre de Astronomia, Severus coletou pessoalmente a alma cinzenta do diretor, antes que o velho professor fosse atingido nem no peito por uma Maldição Imperdoável: o Feitiço Mortal. A personificação da Morte fez questão de olhar bem para a pessoa que lançou o feitiço.
Aurora Sinistra.
