Cap. 6 - Seria isso uma faísca?
Aquela sexta-feira demorou a passar para Cathy, ansiosa para conhecer sua nova sala, todas as aulas do dia pareceram levar o dobro de tempo, mas a noite finalmente chegou e com ela Severus Snape.
Bateu e entrou na sala do Mestre, logo que o viu pode perceber que ele não estava no melhor dos humores. Assim que pôs um pé na sala, ele acusou-a de estar atrasada, apesar dela estar exatamente no horário, resmungou algo sobre perder uma noite inteira de detenção para dar uma de guia, e ainda deu um olhar de raiva quando ela perguntou a localização da sala.
Cathy pode observar que Snape estava com muita pressa, e foram quase correndo para a sua nova sala, que ficava no final daquele corredor.
Snape a ensinou como usar o sistema de segurança, sem deixar espaço para perguntas claro, e quando estava mostrando a organização dos ingredientes, parou abruptamente no meio de uma frase e sua mão esquerda estava fechada com tanta força que interrompia o fluxo sangüíneo.
- Algo errado professor? Cathy perguntou um pouco preocupada, ela sabia que naquele braço estava a Marca Negra.
- Absolutamente nada sua insolente. Acho que uma sabe-tudo como você pode descobrir o resto da sala sozinha não? Ótimo.
E com isso, Severus Snape saiu da sala, Cathy correu ao corredor, somente para ver ele entrar em sua própria sala e sair de lá segundos depois com uma capa diferente no braço.
- Então era isso, pensava Cathy sozinha em sua sala, uma reunião de Comensais da Morte...
Por duas longas horas Cathy tentou se distrair, re-arrumou o armário de ingredientes, limpou todos os caldeirões e todas as bancadas, e ainda teve tempo de mudar toda a decoração da sala. Não tinha como fugir de sua consciência... Estava morrendo de preocupação, não tinha plena certeza do que acontecia quando ele era chamado, nem que horas ele voltaria, muito menos em que estado ele estaria... A única certeza que tinha era que não conseguiria dormir enquanto ele não voltasse, nem com todas as poções no mundo.
Intermináveis horas passaram, até que perto das três horas da madrugada passos foram ouvidos no corredor.
Devagar, Cathy abriu suavemente um pequena fresta na porta, afinal, poderia ser Mr. Filch ou algum aluno, mas não. Era ele. E nada no mundo poderia ter preparado Cathy para a visão de um Severus Snape ligeiramente manco, com várias manchas de sangue espalhadas pelo corpo, e visivelmente cansado.
Agora que o momento havia chegado, Cathy não sabia bem o que fazer, ele obviamente odiaria a intromissão dela, mas ela simplesmente não conseguia se forçar a ir para seu quarto, então, alguns segundos de hesitação depois, Cathy abriu a porta, e seguiu pelo mesmo caminho que Snape, ele estava alguns metros a frente e entrou em seu dormitório. Cathy bateu suavemente na porta, mas Snape não respondeu, então, com mais medo do que gostaria de admitir, Cathy abriu a porta sem convite.
Aquela era uma noite que, para Severus, não poderia ser caracterizada como qualquer outra coisa a não ser 'maldita'.
O Lorde das Trevas estava de péssimo humor, o otimismo dos primeiros dias de retorno a muito haviam passado, e sua fúria por não conseguir grandes sucessos em seus planos estava maior que nunca.
Apesar de completamente louco, Voldemort não era desprovido da habilidade de planejar e arquitetar planos, na verdade, era muito bom nisso, e portanto sabia esperar. No entanto isso não o impedia de descontar sua raiva em qualquer um que estivesse perto quando recebia notícias ruins.
Hoje, o infeliz que estava na linha de fogo fora Snape. O Lorde não estava com raiva, pelo menos nada fora do usual, mas estava desconfiado e frustado quando o assunto era seu espião. E nessa noite em especifico Voldemort pressionara Snape, queria a localização da sede da Ordem e um meio de entrar no castelo. Duas informações que Snape obviamente não podia fornecer.
Em resumo, o castigo de Snape fora bancar o rato de laboratório para os outros comensais. Voldemort realmente estimulava a criação de novas maldições, que geralmente eram testadas nos trouxas durante os ataques, mas se Voldemort estivesse realmente bravo com alguém do círculo, essa pessoa receberia as maldições teste.
O resultado disso em Snape naquela noite foram hematomas realmente graves e de difícil cura,
algum osso do pé esquerdo lesionado, e o mais grave, uma hemorragia interna lenta e continua lançada pelo maldito Lucio Malfoy.
Snape mal se lembrava que horas atras estava com Cathy Potter, e não estava nada preocupado com a possibilidade de encontra-la nas masmorras, por isso não se importou muito com discrição.
Entrou em sua sala, se jogou em sua poltrona, e imediatamente fez flutuar uma poção para a hemorragia, mas estava preocupado, a poção era para hemorragias normais, e Lucius tinha dado a entender que aquela não era uma simples hemorragia... Se gabara a altas vozes... Algo sobre 'difícil cura' e 'sangrar até a morte explosiva''...
Então, de repente, a porta se abriu.
Cathy Potter estava entrando em seus aposentos, sem convite, e com uma preocupação nítida estampada na cara.
Snape estava realmente bravo, mas misturado com a raiva, estava presente uma boa dose de surpresa. "A garota me esperou!"
Quando viu Snape, machucado, cansado, surpreso, a coragem pareceu voltar a Cathy e inunda-la por dentro. Decidiu naquele momento que não sairia daquela sala correndo, não importa o que ele dissesse.
- eu sei que minha intromissão não é bem vinda, sei que você consegue se virar sozinho, e também sei que estou de detenção para o resto da minha vida. -Disse Cathy muito segura - mas vou continuar aqui até que me deixe ajudar.
Ela andou até o professor, se ajoelhou perto da poltrona, e ficou a espera de uma resposta.
- O que foi? Perdeu a coragem? Grifinórios impulsivos.
Disse Snape ferino
- Eu não sei onde estão os machucados, mas não, não perdi a coragem. Respondeu ela, com um leve tom de desafio.
Dito isso, Cathy respirou fundo e foi para os pés da poltrona, sabia que estava manco do pé esquerdo, então foi começar por lá. Mas assim que encostou na barra da calça, Snape empurrou a poltrona para trás e olhou enfurecido para Cathy. Nunca imaginara que ela realmente fosse ter estômago para uma situação dessas.
-quem você pensa que é Potter?! Saia já dessa sala! Eu sei me cuidar garota! Vá dormir, falar com suas amiguinhas, não me importa, só saia daqui!
- Bom professor, sinto em te desapontar, mas eu descobri que não posso, simplesmente não consigo dormir ou fazer o que quer que seja sabendo que o senhor está assim.
Dito isso ela pareceu se irritar, apontou a varinha para seu pé e rapidamente o concertou. Sem deixar que ele interferisse novamente, tão profissional quanto era com poções, Cathy tratou cada ferida, e soube desfazer todas as maldições que encontrou, mas não reparou na de Lucius.
Snape estava obviamente incomodado de ter uma aluna tão perto de si, passando a mão por suas pernas, tronco, braços, a procura de machucados... Fazia muito tempo desde que alguém se preocupara, perdera seu sono por ele...
Snape sabia que a poção não havia funcionado para curar a hemorragia, ajudara a conte-la por um tempo, mas não curou. Severus se perguntava o que fazer... Não conseguia imaginar nada que pudesse conter o sangue, e Potter não iria nem reparar, a camisa fazia bem seu trabalho cobrindo seu abdômen arroxeado com o sangue preso.
-Professor?
- pronta para sair dos meus aposentos Potter?
-Preciso tirar sua camisa.
-O QUE ?
Ela virou os olhos, após uma breve hesitação fez um feitiço que fez sumir a parte de cima das suas roupas.
Imediatamente ela deu um salto para trás e olhou com horror para a grande mancha roxa-preta na pele dele.
-Devia ter me dito- disse Cathy em voz baixa - que maldição foi essa?
-Não existe, foi um teste, nada que você conheça e possa concertar. Me deixe sozinho, vou resolver de algum modo.
- A poção não fez efeito?
- Não.
Cathy ficou um pouco quieta, pensando, e Snape não a importunou. A garota vinha se provando inteligente, e não custava nada deixa-la tentar, pelo menos não agora que toda a situação já era imprópria e errada.
Então ela teve uma ideia.
- A poção funciona curando a ferida e limpando o sangue...
-sim...?
-mas ela também diminui a velocidade do fluxo de sangue... Quando você tomou, pareceu melhorar alguma coisa? - Ela perguntou
- Não muito
-mas algo
-sim, pareceu aliviar um pouco
Cathy mordeu o lábio, indecisa
- Acho que sei resolver
- Quanta confiança Potter, se importa de compartilhar?
- Acho que não há uma ferida, a maldição não estourou nenhuma veia, ela torceu os vasos sangüíneos... sabe? Como se uma mão invisível os enrolasse, de forma que o sangue não conseguiria passar, nem sair. Veja como é perverso, não há ferida, então a poção não funciona, mas o sangue fica preso, e por causa da pressão da corrente sanguínea tentando fluir, uma hora tudo vai estourar.
- Brilhante - disse sarcástico - mas não explica o porque da mínima melhora quando bebi a poção.
- Eu acho q como o fluxo sanguíneo diminuiu a velocidade, a pressão também diminuiu. Bom, não custa nada tentar.
Dito isso, sob o olhar cuidadoso e desconfiado de Snape, Cathy lhe deu mais uma dose da poção para prolongar o tempo antes que as veias estourassem, então fez um feitiço muito complicado, para dar aos seus olhos uma visão de calor, de forma que enxergasse as concentrações de sangue melhor, e então fez o que nenhuma mulher tinha feito em anos, cuidadosamente, quase carinhosamente, ela pôs a mão em seu tórax e do lado a ponta da varinha, e começou a entoar um encantamento, baixinho, quase que como pedindo por favor que as veias e os músculos relaxassem e voltassem ao normal.
Estava funcionando.
Snape confiou nela, o corpo relaxou, tudo voltou a circular direito, o arroxeado foi diminuindo até que sumiu.
A situação era de toda estranha, e o mais estranho era que nem ela, nem ele estavam desconfortáveis.
Ela o olhou por inteiro para checar se não tinha mais nenhum machucado, pareceu que ia perguntar alguma coisa, mas mordeu a língua e se levantou, estava indo embora quando...
- Obrigado... Potter
- Não precisa me agradecer professor...
- vamos, pergunte o que quer que seja que você está segurando
- Dumbledore insiste que eu não saiba de nada do que acontece, pelo perigo de Voldemort ver algo pela minha mente, mas me parece somente lógico que, o que Voldemort já sabe, eu também posso saber, e eu não sei de nada... Me perguntava se você, se o senhor, poderia me falar alguma coisa...
Snape não pareceu gostar muito da ideia, estava com os lábios contraídos, mas fez que sim com a cabeça.
- Chá ? Ou talvez algo mais forte, afinal são 4 a.m. se não me engano - disse ele olhando para o relógio
- Pode ser - ela foi vaga, não querendo pedir um copo de wiskey
Felizmente para ela, Snape tinha uma muito boa intuição e muito pouca ética. Ele voltou com dois copos de Firewiskey.
Bebeu o copo dele inteiro de uma vez, falar sobre a guerra sempre lhe era desagradável.
Ele então se pôs a falar, contou a ela tudo sobre a primeira guerra bruxa, sobre o sistema de recrutamento da ordem e dos comensais, sobre os desaparecimentos e os ataques á muggles. Respondeu todas as perguntas dela pacientemente, e a conversa fluía maravilhosamente.
Para um espectador de fora, a cena era sugestiva, um homem e uma mulher sentados no mesmo sofá, em frente a lareira, relaxados na presença um do outro, com o sol frio nascente se insinuando pela janela das masmorras. O assunto não falhava, ele era muito culto, e ela tinha sede de saber, falaram sobre a guerra, sobre poções, sobre o passado. Ambos com uma pequena vozinha de culpa sussurrando em suas mentes 'julguei cedo demais'...
Estavam em silencio a algum tempo, e ele viu que ela adormecera, meio torta. Um pouco em dúvida, mas terrivelmente cansado, faltando pouco mais de uma hora para o café da manhã no salão principal, não valia a pena ir para a cama, então se acomodou no sofá, e após uns segundos de dúvida, ajeitou-a mais perto se si, e ela inconscientemente o abraçou, ele conjurou uma leve coberta, e dormiram juntos. Finalmente, não mais inimigos.
Ela descobriu que se importava com ele.
Ele descobriu que ela não era quem ele pensava que fosse, e nunca mais a chamou de 'Potter'.
Aqui vai um presente para o atencioso leitor, essa madrugada foi a primeira de muitas.
