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Os inícios de manhã eram os momentos mais frenéticos no Instituto Xavier. Acordar atrasado era um hábito seguido por praticamente todos os jovens moradores, o que resultava em balbúrdias homéricas. Era como se ninguém se sentasse para tomar café da manhã; ao invés, a cozinha ficava abarrotada de gente entrando e saindo apressadamente, fazendo usos criativos de poderes mutantes, gritos que ofertavam caronas e então o silêncio. O pico durava em torno de vinte minutos e tudo voltava à normalidade.
Vampira sabia exatamente quando os primeiros minutos de silêncio ocorriam e apenas então descia para tomar café da manhã em paz. Naquela manhã, entretanto, ela parou à porta da cozinha, surpresa pelo fato de não estar vazia como o de costume.
Gambit voltou os olhos na direção dela e ofereceu-lhe um bom-dia. Vampira retribuiu com um sorriso tímido e adentrou a cozinha, aproximando-se da mesa.
"Café?" ele ofereceu, com a jarra da cafeteira em uma mão e uma xícara na outra. Encheu a xícara após ela menear a cabeça afirmativamente e a depositou sobre a mesa, na frente de onde Vampira havia se sentado. Ela agradeceu, segurando a xícara com as duas mãos enluvadas e baixando o rosto para sentir o aroma de café fresco. Era sua bebida matutina favorita, pois tornava o ato de despertar para encarar o dia ligeiramente mais fácil.
Após ter enchido outra xícara, Gambit se sentou a duas cadeiras de distância de Vampira, de onde conseguia vê-la de perfil. Ela torceu para que ele puxasse conversa, mas Gambit se manteve estranhamente quieto. Era curioso como Vampira não costumava se preocupar com convenções sociais como jogar papo fora; se estivesse na presença se qualquer outro colega, permanecer em silêncio não teria a incomodado tanto. Contudo, naquele momento, o silêncio conseguia ser opressor e desesperador. Era extremamente fácil e extremamente difícil conversar com Gambit. Uma contradição que fugia completamente da sua compreensão.
Ela ousou erguer os olhos e espiar o rosto dele. Gambit contemplava sua xícara de café ainda intocada com um olhar compenetrado, perdido nos próprios pensamentos. Parecia ter esquecido da presença dela. Esse pensamento retirou parte da tensão do seu corpo e a fez sentir os ombros perderem um pouco da rigidez. Vampira assoprou e então deu um gole na bebida quente e amarga. Olhou para o outro lado, buscando algo para comer, e notou que havia uma cesta sobre a mesa. Espichou-se para apanhá-la com pouco interesse, ergueu o pano de prato que a cobria, e se surpreendeu com o cheiro convidativo. Encontrou cookies de gotas de chocolate. Os seus favoritos.
Retirou as luvas e apanhou um cookie, desconfiada, pois desconhecia sua procedência. Não seria a primeira vez que Kitty tentara cozinhar e fora desastroso. O fato daqueles cookies estarem intocados sobre a mesa após a avalanche de alunos da manhã era outro fator de desconfiança. Vampira deu uma mordidinha cautelosa e, para a sua surpresa, era delicioso. Na sua segunda mordida, ela abocanhou metade do cookie de uma só vez, percebendo então o quanto estava faminta. O cookie ainda estava morno e ela sentiu as gotas de chocolate derreteram na boca.
"Isto aqui é maravilhoso" ela murmurou, soltando um suspiro de contentamento. O seu comentário tirou Gambit do transe, que voltou o rosto na direção dela. "Você sabe quem fez?" ela perguntou, apanhando mais um da cesta.
"Fui eu" ele respondeu com um sorrisinho modesto e deu seu primeiro gole no café. Era a primeira vez que ela via um sorriso como aquele. "Não consegui dormir então levantei cedo e senti vontade de cozinhar. Me ajuda a relaxar, t'sais. Estes foram os que sobraram, os que eu consegui salvar."
Vampira sorriu. Conhecia o apetite de uma casa cheia de adolescentes pela manhã. "Não fazia ideia de que você cozinhava tão bem."
"É um dos meus inúmeros talentos" e sua modéstia havia se dissipado.
Ela decidiu entrar na brincadeira. "Imagino que outros talentos ocultos você tem."
"Alguns seriam inapropriados para esta hora da manhã."
Vampira desviou os olhos e sentiu as bochechas corarem, por pouco não se engasgou com o café quente. Por mais que não houvesse malícia no que ela dissera, deveria saber que Gambit conseguia voltar qualquer comentário contra ela. Todas as vezes achava que seria sagaz para retrucar e reverter a situação, porém sempre acabava constrangida. Não conseguia evitar, mesmo sabendo que era assim que ele agia, mesmo sabendo que não significava nada.
Gambit a viu enrubescer e achou a reação encantadora e irresistível. Indagou-se como uma garota linda como Vampira, com aquele rosto, corpo e charme, podia ser tão adorável e inocente. Então lembrou-se dos poderes dela e sentiu uma onda gélida e desagradável percorrer o corpo, um furor crescente que nada tinha a ver com frustração. Por um momento, ele quase se esquecera de que ela era intocável.
Vampira ergueu os olhos e, ao notar que ele a encarava com curiosidade, desviou os olhos para a xícara de café à sua frente. A presença dele ainda causava confusão e, mesmo assim, quando ela tentava se afastar, não conseguia. Fugir ao se sentir encurralada era um hábito, e Vampira não conseguia entender por que não conseguia se convencer a sair correndo para longe dele. Suas conjecturas foram subitamente interrompidas ao ouvir a voz dele.
"Tenho trabalho a fazer" ele disse ao se pôr em pé, com um quê de inquietação na voz, como se ir embora naquele momento fosse uma decisão difícil de tomar.
Vampira ergueu os olhos na direção dele rápido demais, aflita demais. Seus olhos levemente esbugalhados, como se sem perceber implorasse para que ele não se fosse, como se surpresos com a percepção de que ao invés de querer fugir dele, se sentia decepcionada por perdê-lo tão prematuramente.
"Você vai investigar?" ela perguntou, titubeante, tímida.
Ele ofereceu um meneio sutil de cabeça. "Você quer vir comigo?" ele perguntou após um momento de hesitação, como se esperasse uma réplica negativa, afinal Vampira havia se esquivado do seu convite para almoçar no dia anterior. Vampira, porém, lhe lançou um olhar de agradável surpresa.
"Quero" ela respondeu com evidente animação, mas sequer se importou. Abandonou o restante do café, que então estava morno, e o seguiu em silêncio até a garagem.
Gambit parou e apanhou uma chave do bolso de trás do jeans. "Espero que não tenha medo de motos" comentou, com um quê de desafio na voz.
Vampira abriu um sorriso enorme. Deu um passo largo à frente para observar a moto dele mais de perto. "Tá brincando? Eu adoro motos" seu olhar admirado não a deixava mentir.
Gambit subiu na moto e ajeitou o guidão. "Tenho só um capacete. Não estou acostumado a levar carona."
Vampira foi até outra moto e afanou o capacete. Voltou e pulou na garupa da moto de Gambit. "Acho que o Logan não vai se importar de eu pegar isto aqui emprestado" disse antes de vestir o capacete. Ele riu e também vestiu o seu.
"Segura firme" ele disse. Indo contra o conselho, Vampira se segurou nas laterais. Contudo, assim que Gambit acelerou para fora da garagem e até o portão de entrada, ela se viu obrigada a envolver os braços ao redor do tronco dele. Arfou, surpresa. "Tá tudo bem aí?" ele perguntou.
"Tá, sim. Achei que estivesse um pouco mais quente aqui fora, só isso" ela mentiu com a voz firme, valendo-se do fato de que, assim como ele, vestia apenas camiseta e jeans; nada que pudesse proteger do vento. "A gente pode ir."
O portão da mansão abriu e a moto saiu em disparada.
Durante o breve percurso, Vampira tentou ignorar o calor que emanava através da camiseta dele, reconfortante e extasiante. Era o mais perto em anos que ela se aconchegava em outro ser humano. Fazia com que sentisse falta de algo que nunca tivera. Gambit sentiu os braços dela endurecerem e erroneamente deduziu que era devido à velocidade e ao vento gelado castigando seus corpos desprotegidos. Mesmo assim, acelerou, deleitando-se na sensação dos braços delgados envolvidos nele.
Cedo demais a moto parou.
"Onde estamos?" ela perguntou assim que desceu da moto e retirou o capacete. Sentiu as pernas bambas e culpou a velocidade vertiginosa. Olhou rapidamente ao redor e avistou do outro lado da rua um prédio de fachada de vidro esverdeado que se levantava imponente em uma rua calma e arborizada próximo do subúrbio.
Gambit retirou o capacete para revelar o rosto sério e rijo. Apontou com a cabeça para o prédio. "Consegui informações de que este laboratório está envolvido em ilegalidades."
O rosto dela também se tornou sério. "De que tipo?"
"Do tipo que se interessa por mutantes" ele respondeu gravemente, lançando um olhar penetrante na direção dela.
Vampira ponderou. "Você acha que há uma conexão, que ele deve estar envolvido?" ela perguntou, sem conhecimento do nome real do vilão que os ameaçava.
Gambit fez que sim com a cabeça. "É pra isso que estamos aqui. Vim outras três vezes na última semana à procura de algum indício que corroborasse com as informações que obtive" ele se aproximou dela para poder cochichar. O corpo de Vampira endureceu, mas ela se manteve firme no lugar. "Descobri que há um andar subterrâneo sobre o qual não existem registros. Estudei esse lugar durante dias. Hoje vou tentar entrar no sistema deles e ver se consigo encontrar algo a respeito desse andar fantasma."
"Como eu posso ajudar?"
"Vou pensar em alguma coisa" ele respondeu, deixando claro, mesmo sem ser a intenção, que a presença dela era dispensável. Trazê-la havia sido um improviso desnecessário. Era por isso que um ladrão nunca deveria se deixar levar por sentimentalismos. Contudo, não era a primeira tampouco a última vez que Gambit quebrava essa regra.
"Eu posso ficar de vigia" Vampira ofereceu, resignada porém sincera. O fato de Gambit tê-la trazido com ele já significava algo.
"D'accord" ele concordou, com um sorriso reconfortante. "Não sei quanto tempo vou demorar. Se você vir algo suspeito, pode ir embora sem mim" disse, colocando a chave na mão dela.
Vampira anuiu e se recostou na moto enquanto assistia a Gambit atravessar a rua. Cruzou os braços e tentou parecer o menos suspeita possível. Carros ocasionais passavam pela rua tranquila, assim como poucos pedestres. Houve um homem fazendo jogging com um cachorro na coleira enquanto outro andava de bicicleta. O sol surgiu e aumentou a temperatura levemente. Uma brisa fazia as folhas das árvores farfalharem. Ela assistiu ao semáforo próximo passar do vermelho para o verde literalmente centenas de vezes. Sua barriga roncou e ela percebeu que já era hora do almoço quando Gambit voltou.
"E então?" ela perguntou, ávida.
"Vamos conversar em outro lugar" ele disse. "Sabe pilotar?" Vampira abriu um sorriso lindo e apanhou a chave no bolso. "Vou encarar isso como um sim" ele disse antes de subir na garupa.
Vampira os conduziu para uma lanchonete, a quinze minutos de onde estavam. Havia estabelecimentos mais próximos, mas ela não perderia a chance de dirigir uma moto tão incrível, mesmo que por poucos minutos a mais.
Eles se sentaram a uma mesa de quatro lugares ao fundo, longe das várias mesas ocupadas, pediram hambúrgueres, batatas fritas e refrigerante, que foram servidos em poucos minutos durante os quais preferiram adiar a conversa.
"Você conseguiu hackear o sistema deles?" Vampira perguntou dando uma mordida voraz no hambúrguer, logo após a garçonete ter se retirado e julgaram que não seriam ouvidos.
Gambit sorriu afetadamente e um pendrive surgiu na sua mão. "A planta original não continha o subsolo, mas havia arquivos provando que há um laboratório lá em baixo."
"Você conseguiu descer lá?" ela perguntou com a boca cheia, segurando o hambúrguer na altura do queixo para abocanhá-lo novamente.
"Non. Não tive tempo" seus olhos viajaram por alguns momentos, contemplativo. "Vou voltar hoje à noite" disse, por fim, ao se recostar na cadeira. Colocou uma batata frita na boca sem muito interesse. "Preciso planejar antes."
"Você vai invadir?" ela perguntou. Gambit notou que não havia acusação na voz dela, apenas interesse. Ela estava ciente de que ele era um ladrão e, mesmo quando soube, encarou o fato com naturalidade como se tivesse descoberto seu nome do meio. Foi quando ele soube que ela não o julgaria pelo que ele era, apenas pelos seus atos.
"Oui" foi sua resposta despretensiosa. Não havia modéstia em sua voz nem em sua compostura. Vampira deduziu que invadir um laboratório na calada da noite era tarefa corriqueira para Gambit. Afinal, ele era o filho adotivo do líder do Clã dos Ladrões. Mesmo não conhecendo os detalhes da história, era evidente que Jean-Luc havia visto algo no garoto.
"O que você acha que vai descobrir?" Vampira estava ciente de que estava fazendo perguntas demais, porém, sua curiosidade falava mais alto. Ficara sem saber por tanto tempo que, enquanto Gambit estivesse respondendo, ela continuaria perguntando.
Ele lançou um olhar enigmático na direção dela, apenas então se lembrando de que Vampira sequer sabia o nome de quem os ameaçava. Ele colocou mais uma batata na boca e se inclinou sobre a mesa. "Qualquer indício que possa ligar Nathaniel Essex àquele lugar e, principalmente, buscar alguma pista sobre para onde ele possa ter ido" ele respondeu, usando o nome do vilão casualmente, jogando no ar para que ela abocanhasse, mas propositalmente omitindo o seu alter ego Sinistro.
Vampira sorriu ao ser confiada com aquele nome, por mais que não fosse familiar de nenhuma forma. Ela deitou o sanduíche e estreitou os olhos na direção dele, antes que a conversa se tornasse séria demais. "Como você conseguiu entrar?"
"Joguei um charme na recepcionista."
Ela gargalhou em deboche, mas o rosto dele parecia sério. "Tá falando sério?"
Ele deu de ombros, sem entender o porquê do ceticismo. Apesar no clima jocoso, ele falava a sério. Gambit conseguira passar do primeiro andar ganhando a confiança da recepcionista com seu sorriso sedutor e palavras doces. Enquanto distraía a moça que usara, ele surrupiou um crachá de visitante para poder se infiltrar. Depois disso, subir pelos elevadores, esgueirar-se pelos longos corredores e arrombar fechaduras comuns era algo que conseguiria ter feito com um dos braços amarrados nas costas.
Vampira chacoalhou a cabeça, inconformada. "Você fez aquele negócio com os olhos?"
Gambit a observou com gravidade por alguns instantes antes de responder. "Non. Não foi necessário."
Ele caiu em silêncio. Sentiu-se incomumente desconfortável pela menção à primeira vez que eles se encontraram quando ainda lutavam de lados opostos, quando ele usou seu poder contra ela. Indagou-se se Vampira havia trazido aquele momento à tona propositalmente para desconsertá-lo ou se fora apenas um comentário banal. Na realidade, não lhe agradava usar o seu charme hipnótico. Faria tudo fácil demais e Gambit gostava de imaginar que poderia conseguir o que bem quisesse sem recorrer a esse poder. Esforçou-se para deixar o assunto de lado.
Como que para desviar os pensamentos para outro lugar, Gambit repentinamente se pôs de pé, deu um passo largo e se sentou do outro lado da mesa, na cadeira ao lado dela. Vampira enrijeceu perceptivelmente, a ponto de parar de mastigar com a boca ainda cheia. Afastou-se e se encolheu um pouco. Engoliu o pedaço de hambúrguer meio mastigado, que entalou na garganta. Apanhou o refrigerante e sugou o canudinho. Percebeu que havia sido um erro ao ver os olhos dele caírem semicerrados e interessados sobre os seus lábios. Ele aproximou a mão do rosto dela em um movimento deliberadamente lento de aviso, como se lhe oferecesse tempo para protestar, o que foi exatamente o que ela fez.
"O que você acha que tá fazendo?" ela perguntou, irritadiça; fez sua voz ganhar um tom agudo, que soou como medo. Ao mesmo tempo, ela se inclinou para trás e suas costas encontraram a parede – ela se sentiu encurralada como um animal ferido.
Gambit riu. Uma gargalhada curta, gutural, sem achar graça. Rápida e fluidamente apanhou um guardanapo de papel e o passou no canto esquerdo da boca dela. Ela estremeceu, mas permitiu que ele o fizesse, apesar de só relaxar depois que a mão dele se afastou. Ela havia retirado as luvas para comer e isso a fez se sentir ainda mais exposta.
"Você estava suja de ketchup" ele ofereceu um sorriso, que desta vez pareceu genuíno.
"Era só você ter me dito" ela resmungou em protesto, com aquele biquinho que ele achava incrivelmente lindo.
Ela ousou erguer o olhar até o rosto dele de soslaio. Gambit sorriu sem mostrar os dentes, porém com os olhos fascinados. "Não teria a mesma graça."
"Teria menos graça ainda se você tivesse acabado desmaiado" à medida que falava, sua voz ia ficando menos queixosa e mais desafiadora.
"Neste caso, eu preferia desmaiar por causa de um beijo" seu sorriso era artificial, como se o flerte fosse automático e mandatório para esconder quaisquer que fossem os seus sentimentos reais.
Percebendo que não era sincero, ela recobrou a confiança inata, que emergia com cada vez mais frequência na presença dele.
Conduzir a moto de volta para o Instituto melhorou o humor de Vampira consideravelmente. De volta à mansão, ela estava no meio de uma gargalhada devido a uma observação um tanto maldosa que Gambit havia feito sobre o carro de Ciclope quando ouviu o seu nome ser chamado.
Ela virou o rosto rapidamente na direção da voz; enrubesceu enquanto seu sorriso morria, pois era como se se sentisse culpada, como se temesse ser julgada por passar tempo com alguém que até poucos meses antes lutava contra eles, como se fosse uma traição, como se temesse que fosse Wolverine a julgá-la. Contudo, ao se virar, Vampira encontrou Tempestade e relaxou. Havia um sorriso bondoso no rosto de ébano da mulher à medida que ela caminhava até eles.
Tempestade dirigiu a palavra primeiramente para Vampira. "Você chegou bem a tempo, querida. Os recrutas logo estarão voltando do colégio e precisam conciliar os treinamentos de hoje com a lição de casa. Alguém com o punho forte como você deve guiá-los para que não se percam nas horas."
"Pode deixar, Ororo" ela respondeu, fingindo que sabia exatamente o que tinha de fazer, quando na realidade, se Tempestade não a tivesse relembrado, Vampira deixaria os recrutas ao vento.
Ororo deitou a mão sobre o ombro de Gambit. Vampira imaginou que ela simpatizava com Gambit – algo que estranhamente alentou o seu coração.
"Xavier deseja conversar conosco" anunciou Ororo.
Gambit assentiu. "D'accord. Estou a caminho" ele respondeu e Tempestade se retirou. Uma olhada de soslaio em Vampira o fez notar a decepção no rosto dela – estava sendo deixada de fora novamente. Ele se aproximou dela, e desta vez, Vampira não recuou, mesmo a vontade estando presente, pois percebera que ele não iria de fato tocá-la. "Se você não se importar com a minha companhia mais uma vez" seu tom era arrogante apesar das palavras "eu te conto as novidades" murmurou ao pé do ouvido dela. Lançou uma piscadela ao se retirar, dando por certo que ela não recusaria a proposta.
"Esses recrutas ainda vão me enlouquecer" Vampira resmungou para si mesma enquanto chutava os tênis para longe. Despiu-se da blusa e abriu o zíper da calça jeans antes de se render e cair de costas na cama feita. Suspirou alto, observando a brancura monótona do teto. Percebeu que ter sucumbido ao cansaço havia sido um erro, pois, mesmo estando doida por um banho, estava difícil se levantar.
Havia certa estranheza pairando sobre a cabeça de Vampira ultimamente. Ouvia Jean tagarelando sobre não saber para qual faculdade ir – havia sido aceita em várias – enquanto Vampira simplesmente não fazia ideia de qual seria o seu próximo passo. Estar com os X-Men parecia o suficiente por enquanto. Ao menos era o que ela achava até poucas semanas atrás. Algumas coisas haviam mudado.
Primeiramente, Logan já não lhe dava mais atenção como antes. Ele parecia não ter mais tempo para ela, não apenas nas últimas semanas em que passava longos períodos de tempo fora investigando, já vinha acontecendo há algum tempo. Seus treinamentos individuais eram o seu único tempo a sós e ela sentia falta dele.
Seus melhores amigos, Kurt e Kitty, passavam cada vez mais tempo com Amanda e Piotr respectivamente. Jean e Scott não se desgrudavam, algo que seria irritante mesmo se a quedinha que Vampira tivera por Scott não tivesse evaporado como se não fosse nada.
E, acima de tudo, havia a falta de avanço no controle dos seus poderes. Vampira havia chegado no ponto em que, por mais que desejasse controlar os seus poderes mais do que qualquer outra coisa, estava conformada pela sua situação atual, quase confortável. Estava saindo da adolescência e se tornando uma mulher confortável na sua própria pele (expressão que sempre a fazia soltar uma risadinha irônica). Vampira havia deixado para trás o visual gótico pesado e o guarda-roupa completamente escuro. Adoraria desfilar por aí de shorts e regata, como na infância, não fossem os seus poderes perigosos. Também não alisava mais os cabelos religiosamente e os estava deixando crescer naturalmente, tanto que, mesmo ondulados, eles caíam logo abaixo dos ombros.
E como se não bastasse, ainda havia a presença de Gambit. Vampira soltou um gemido gutural de frustração assim que seus pensamentos se voltaram para ele. O cara era mestre em deixá-la irritada e confusa e desconcertada. Conseguia passar por cima das suas defesas e fazer caírem suas máscaras. Ela apanhou o travesseiro e apertou contra o rosto para suprimir um grito de frustração. Perguntava-se por que ele teve de voltar. Não entendia por que não conseguia simplesmente se afastar dele... daquele cafajeste trapaceiro.
Vampira conseguiu por fim se levantar, despiu-se do resto da roupa e foi para o chuveiro. Despejou água fria na cabeça em uma tentativa de abafar os pensamentos, mas também foi em vão. Depois que ela havia voltado com os X-Men após o sequestro perpetrado por Gambit, Vampira havia se convencido de que toda a conversa amigável e os fatos em comum em suas vidas, tudo havia sido mentira. Apenas meios que Gambit havia encontrado para usá-la e manipulá-la. Havia repetido para si mesma tantas vezes que ele não passava de um mentiroso mau-caráter, que quase acreditou. Contudo, ela havia visto através dele, muito além do que ele normalmente deixava transparecer.
As horas que passaram juntos nos últimos dias haviam provado que estar perto era inevitável, tentar se afastar inútil. Claramente, Vampira dizia para si mesma que não havia nada de remotamente romântico no seu tempo juntos, apenas duas pessoas parecidas, com muito em comum, aproveitando a companhia um do outro. Entretanto, Vampira não sabia o que fazer com o frio na barriga que a aproximação dele causava, a não ser ignorá-lo. Sabia que os flertes dele não passavam de hábito e praxe, uma característica que fazia parte de sua natureza – ou que ele havia desenvolvido e aperfeiçoado para conseguir se manter por cima.
Vampira saiu do banho, se secou, se vestiu e notou aliviada que ter deixado os seus pensamentos fluírem lhe fizera bem. Vestiu então pijamas confortáveis, pois não planejava mais descer, a não ser para apanhar algo para comer mais tarde, e abriu o livro deitado sobre o criado-mudo.
Ela estava mergulhada na história – um romance fantástico – por mais de duas horas quando batidas leves na porta a trouxeram de volta à realidade e fizeram um sorriso singelo surgir nos seus lábios. Deixou o livro aberto com as páginas para baixo e se levantou da cama. Inconscientemente colocou uma mecha de cabelo branco para trás da orelha e conferiu o que vestia: calças de pijama e camiseta. Correu para vestir as luvas que lhe cobriam até acima dos cotovelos e abriu a porta.
Seu sorriso murchou. Vampira torceu para que o rapaz do outro lado da porta não notasse sua cara de decepção. Entretanto, seu semblante devia parecer irritadiço e ameaçador, pois Scott abriu a boca, mas nenhum som saiu dela. Vampira percebeu e tentou contornar a situação. "E aí?"
"Oi, Vampira... estou reunindo o grupo na biblioteca" ele disse, por fim "Jean e Kitty já estão lá nos esperando. Vou buscar o Kurt também."
"Pra quê?" ela disse com certa aspereza proporcionada pela decepção de ter sido ele quem bateu à sua porta. Na verdade, era irônico, pois se Scott tivesse vindo procurá-la meses antes ela teria sentido empolgação ao invés de enfado. Percebeu de repente que mesmo quando seus sentimentos por Scott estavam no auge, ela nunca sentira um frio na barriga ao vê-lo.
"Pra conversarmos" Scott respondeu, impedindo que ela buscasse uma resposta para sua indagação. "Esperamos você lá em cinco minutos" ele disse ao lhe dar as costas. Ao invés de insistir, simplesmente seguiu para a ala masculina atrás de Kurt.
Vampira suspirou com irritação, calçou os chinelos e desceu. Encontrou as duas garotas sentadas à mesa mais ao fundo da biblioteca, aos conchavos. Kurt surgiu com Scott a tiracolo logo após. O grupo se sentou ao redor da mesa.
Como um último ato de rebeldia, Vampira cruzou os braços e se recostou na cadeira, balançou-a e fazendo os pés dianteiros saírem do chão. "Qual o motivo dessa reunião?"
Scott falou: "Acredito que todos nós estejamos frustrados com o que anda acontecendo aqui na mansão."
"Ou seja," Vampira o cortou rispidamente. "vocês estão magoados porque o Professor e os outros estão fazendo reuniões sem nós."
Scott voltou os óculos de quartzo na direção dela. Seus olhos devem ter brilhado por dentro, pois seus lábios contraídos em uma linha reta deixavam claro o seu desagrado. "Não colocaria nessas palavras, Vampira, mas, sim, este é um dos motivos."
"Entendo" começou Jean "que o Professor queira poupar os recrutas, mas nós, como o primeiro grupo, não deveríamos ficar de fora."
Vampira se segurou para não rodar os olhos. Era claro que se sentia da mesma forma, mas ouvir Jean ainda a deixava levemente irritada. "Por que você não fala com o Professor, Jean?"
"Eu tentei, Vampira. O Professor desconversou."
"Gambit chegou aqui há aproximadamente três semanas com aquelas informações" continuou Scott. "e não sabemos de mais nada."
"Os mais velhos estão sempre reunidos" queixou-se Kitty.
"O Professor nos contou sobre a situação" disse Kurt. "Se não nos chamou para nenhuma outra reunião talvez seja porque não há nada para contar."
"Nós achamos que talvez você soubesse de alguma coisa, Vampira" disse Jean, após alguns segundos de silêncio.
"Por quê?" indagou Vampira, mais na defensiva do que deveria.
Jean hesitou. Era perceptível que não se sentia confortável com o que estava prestes a dizer. "É que eu vi você saindo de moto com o Gambit," ela disse, sem olhar nos olhos de Vampira "e achamos que ele talvez tenha te contado alguma coisa" Jean parecia encabulada por dizer aquilo, como se estivera espionando.
Vampira sentiu as bochechas pegarem fogo. Evitou olhar diretamente nos rostos dos colegas, contudo, notou que Kurt fechou a cara após o comentário de Jean, enquanto Kitty mostrava um sorrisinho. Vampira suspirou alto e se inclinou sobre a mesa. Ponderou se deveria contar o pouco que sabia. Por um lado, seus colegas mereciam saber; por outro, imaginou se não estaria traindo a confiança de Gambit ao contar. Optou pelo meio-termo. "Eles têm um nome. Estão investigando."
"Que nome?" perguntou Scott, com interesse.
"Não sei" ela mentiu. "Não quer dizer nada. Nenhum dos mais velhos o reconheceu. Se não nos contaram é porque não podemos ajudar."
"A gente poderia ajudar na investigação" argumentou Kurt.
Os outros concordaram, mas não havia o que fazer a não ser esperar.
Gambit dificilmente era surpreendido, porém, tinha de admitir que a última coisa que esperava quando subiu pela janela do quarto na calada da noite era encontrar Vampira adormecida na sua cama.
Após a reunião inesperada com os colegas, Vampira voltara para o seu quarto, emburrada e contrariada. Gambit não viera pelas horas seguintes. Devia ter passado toda a tarde planejando a entrada no laboratório, ela pensou, que seria onde ele estaria durante a madrugada. Imaginou que se não houvesse o que ser encontrado, ele logo estaria de volta. Foi quando ela resolveu esperar seu retorno no quarto dele. Não achou que Gambit se importaria; no máximo faria uma piadinha sem vergonha.
Certificando-se de que ninguém a vira, Vampira entrou furtivamente no quarto dele e manteve as luzes apagadas. Trombou na cama e acendeu a luz do abajur. Sentou-se na cama, primeiramente com boa postura, mas foi se entregando aos poucos, até estar confortavelmente deitada. Olhando ao redor, Vampira não encontrou nenhum pertence dele a não ser por um maço de cartas esquecido sobre o criado-mudo. Decerto havia mudas de roupas no armário, porém nada à vista. Gambit tratava os seus aposentos no Instituto como um quarto de hotel. Falava a sério quando dizia que não ficaria por muito tempo.
Em algum momento, ela fechou os olhos, entediada. Logo adormeceu. Foi como Gambit a encontrou horas mais tarde: as mãos caídas sobre a barriga, cabelo espalhado pelo travesseiro, o rosto de lado e lábios semicerrados.
Gambit deitou a mochila no chão, retirou o casaco e os sapatos – sem emitir ruído algum – e chegou mais perto para observá-la. De um canto de sua mente, veio a lembrança de que Vampira costumava ter pesadelos com as psiques de quem absorvera. Apenas o pensamento de que a pobrezinha poderia ser atormentada pelos muitos demônios do seu passado fazia um arrepio frio percorrer a espinha dele. Vê-la dormir tão pacificamente alentou o seu coração de uma forma inesperada. Sem perceber, fantasiou despertá-la com um beijo. Era o que teria feito não fossem os poderes dela.
Quando ele decidiu que iria deixá-la dormir, Vampira despertou, talvez tendo sentido a presença dele.
"Desculpa," ela disse, assim que entendeu onde estava "não achei que fosse cair no sono aqui" sentou-se, ajeitou os cabelos com os dedos, evidentemente embaraçada.
"Pas de problèm, chère" ele disse, com uma tristeza não habitual na voz, quase imperceptível.
Ela fingiu não notar. "Como foi?"
Gambit caiu sentado na cama. Vampira achou que ele parecia abatido sob a penumbra. "Não encontrei nada" ele respondeu com desânimo. "Havia mesmo um laboratório lá embaixo, mas estava completamente vazio."
"Você acha que Essex esteve lá?" ela perguntou, puxando o nome do vilão da memória.
"Acho" ele respondeu e então a encarou com os olhos cansados. "Mas essa informação não serve de nada, a não ser para provar que Essex está por perto. Só que já sabíamos disso" completou com crescente frustração. Sua mandíbula enrijeceu e suas mãos fecharam em punhos. Inesperadamente ele sentiu a mão enluvada dela sobre a sua e seu punho se desfez.
Vampira havia se aproximado dele consideravelmente para os seus padrões e agora o observava com olhos verdes semicerrados e uma expressão sonolenta porém coerente sobre o rosto branco. "Não é sua culpa" ela sussurrou.
Gambit sentiu a garganta embargar enquanto seus olhos de demônio brilharam fitos no rosto de porcelana dela. Como ela sabia que era o que ele mais desejava ouvir e, ainda assim, a última coisa que esperava ouvir de fato? Nunca sequer cogitou que simples palavras poderiam desarmá-lo de forma tão eficaz e arrebatadora. Corrigiu-se mentalmente ao perceber que não eram apenas as palavras, mas sim quem as dissera.
Então Vampira deu por si e se afastou rápida e abruptamente. Não se reconheceu e culpou o sono. "Acho melhor eu ir" ela gaguejou, então evitando fazer contato visual com ele.
Gambit não protestou; deixou-a ir em direção à porta por mais que fosse a última coisa que gostaria de ver.
"Não falta muito pra amanhecer. Se eu não for agora, alguém pode me ver" ela disse e hesitou apesar de suas palavras.
"Então fica" ele disse, levantando-se e aproximando-se dela. "Prometi te contar todos os detalhes, não foi? Podemos descer para tomar café da manhã daqui a pouco. Só preciso de um banho antes."
Vampira sabia que deveria dizer não, mas não conseguiu. Fez que sim sutilmente com a cabeça. Um sorriso perfeito tomou as feições dele, feições que deixaram de ser sombrias e voltaram à beleza habitual.
Vampira se sentou na cama novamente e aguardou pacientemente enquanto Gambit tomava o seu banho. Ficou aliviada por ele ter tido a decência de sair vestido. Foi quando Vampira percebeu que estava de pijama. Com uma encolhida de ombros, decidiu que não faria diferença. Desceria para tomar café e depois vestiria roupas mais apropriadas para as atividades do dia. Durante as próximas horas, ela ouviu, fascinada, Gambit contar todos os detalhes de como entrou e saiu dos subterrâneos do laboratório. Após ouvirem o estrondo dos jovens indo para o colégio, desceram para tomar café da manhã.
A cozinha, contudo, não estava vazia como o esperado.
"Onde você dormiu, Stripes?" Wolverine perguntou no momento em que ela adentrou a cozinha, com Gambit no seu encalço.
A pergunta a atingiu como um soco no estômago. Temeu que Logan já soubesse a resposta e perguntara apenas para desconcertá-la e fazê-la mentir e se afundar ainda mais. Seu rosto perdeu a pouca cor quando respondeu: "No meu quarto" ela mentiu com a voz firme e se congratulou mentalmente por isso. "Que pergunta é essa?" com o canto dos olhos, viu Gambit passar por Wolverine e seguir até a cafeteira, que já trabalhava. Temeu que ele pudesse dizer a verdade, para confrontar Logan, mas ele ficou em silêncio.
"Eu bati na sua porta agora há pouco e você não atendeu."
"Eu estava dormindo pesado" péssima mentira, Logan sabia que seu sono era leve, mas enquanto sua voz continuasse firme, ela manteria a mentira. "Ou eu estava no banho e não ouvi."
"Você saiu do banho e vestiu o pijama de novo?" Logan perguntou com a voz cheia de ironia. Um esgar maldoso cruzou os seus lábios, como se satisfeito por tê-la feito cair em contradição.
De soslaio, ela viu Gambit fazer uma careta engraçada mostrando que a resposta dela havia sido péssima. Contudo, ela se manteve firme. "Eu disse banheiro e não banho, Logan" e cruzou os braços para demonstrar sua irritação com aquelas perguntas desnecessárias.
Mesmo sabendo que havia mentira no que ela dizia, Logan preferiu deixar o interrogatório de lado. Havia outras maneiras de lidar com Vampira; confrontá-la e apertá-la até ela dizer a verdade nunca funcionara. "Precisamos conversar, Vampira. Sobre os nossos treinamentos de terça."
Àquela altura Gambit já havia se servido uma xícara de café e estava recostado contra a pia, assistindo-a mentir com um sorrisinho sarcástico no rosto. Ela estreitou os olhos ao passar por ele. Apanhou uma xícara de café e se sentou perto de Logan.
"Eu sei que você anda ocupado, Logan. Tudo bem se não tiver tempo por enquanto" eram as palavras certas, mesmo não sendo o que ela realmente sentia.
Logan assentiu a contragosto. "É só essa agitação passar e nós podemos voltar a treinar."
"Tá bom" ela disse e tentou sorrir para ele, porém não conseguiu esconder a decepção real.
Logan se levantou e, antes de se retirar, lançou um olhar furioso para Gambit, como se desconfiasse de algo, como se os dois terem descido ao mesmo tempo fosse mais que suspeito. Mas não diria nada, por ora. Tentava ignorar a presença insultante daquele garoto arrogante.
Gambit se sentou na cadeira ao lado da de Vampira. "O que você acha que aconteceria se ele soubesse que você dormiu na minha cama?" ele provocou.
"Não viaja, Cajun" ela retrucou, fechando a cara. "Mesmo que a situação fosse outra..." ela se perdeu no que dizia, mas ele entendeu.
"Quando você puder controlar os seus poderes" ele disse casualmente. Sabia que os seus poderes mutantes eram assunto sensível para Vampira, mas achou que suas palavras talvez servissem para animá-la "vai ter uma fila de caras pro Wolverine implicar."
Vampira o encarou de soslaio e soltou um riso fraco, como um assopro. Era um pensamento engraçado.
"Até lá," ele continuou "acho que o velho Wolvie vai se contentar em implicar comigo."
"Você não torna as coisas fáceis" ela brincou para ignorar quaisquer implicações que as palavras dele traziam. Não lhe agradava imaginar se resistiria tanto às investidas dele não fossem os seus poderes, afinal, mesmo arrogante e cheio de si, os atrativos físicos de Gambit saltavam aos olhos.
"O que eu fiz de errado?" ele perguntou, puxando-a violentamente do seu devaneio.
Vampira conseguiu se recompor rapidamente "Por onde eu devo começar?" perguntou retórica e sarcasticamente "Eu poderia fazer uma lista."
"Eu preferia que você fizesse uma lista com coisas que faria comigo."
Havia tanta lascívia na voz dele que Vampira sentiu as bochechas queimarem novamente. "Te chutar pra fora dessa mansão com certeza estaria nela" Vampira respondeu com deboche.
Gambit abriu a boca para retrucar quando sentiu o celular vibrar no bolso do jeans. Ele olhou a tela, que acusava o nome de seu pai. Pediu licença e foi para o corredor.
"O que é?" ele atendeu rispidamente.
"Onde você está, Remy?" seu pai perguntou com a voz de quem cansara de fazer essa pergunta ao longo do anos.
Gambit hesitou, mas optou por dizer a verdade. "Bayville."
"Por que voltou?"
"Tenho assuntos inacabados aqui, Jean-Luc."
Jean-Luc suspirou do outro lado da linha. Detestava quando Remy lhe chamava pelo nome apenas para provocá-lo, para lhe jogar na cara que não o considerava o seu pai. "Preciso de você em casa, fils."
Remy segurou uma risada. Os dois eram previsíveis quando se dizia respeito ao seu relacionamento. Remy o chamava pelo nome para irritá-lo e Jean-Luc logo apelava para o sentimentalismo. "Não vai dar. Preciso ficar aqui por algum tempo."
"Quanto tempo, fils?"
"Não sei ainda."
"Você sumiu há quase um mês, Remy. Novamente, não me ofereceu nenhum tipo de satisfação. Sempre lhe dou espaço e espero pacientemente que você retorne. Contudo, desta vez, existem assuntos políticos que requerem a minha total atenção. Por isso preciso do meu filho ao meu lado."
Remy detestava quando as palavras do pai pareciam sinceras. "Foi mal, Jean-Luc" então sua voz se tornou séria, quase um sussurro. "Os X-Men... eles precisam de mim. Devo isso a eles. Não posso voltar pelas próximas semanas."
Jean-Luc resignou-se com a noção de que não conseguiria fazer o filho mudar de ideia. "Espero que a sua ausência não traga consequências irreversíveis ao nosso Clã."
"Je suis desolé, papa" ele disse, com toda a sinceridade.
"Se cuida, meu filho."
A linha ficou muda.
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Glossário:
t'sais – sabe
D'accord – está bem
Pas de problèm – não tem problema
fils – filho
Je suis desolé, papa – Eu sinto muito, pai
N/A: Acho que Romy deve estar super em baixa, mas se você estiver acompanhando esta história, eu adoraria saber o que está achando dela. Se um texto não tem leitores, ele também não tem por que existir.
Mil agradecimentos à maravilhosa GreatesChange por me ajudar com os capítulos (leiam a romy dela que é ótima!).
