TÍTULO: Brizomancy
AUTORA: hhgranger
BETA: Vivi Andromeda
Capítulo 6 – Questões
O cheiro da carne assada chegou até Draco. Ele estava deitado à sombra de um carvalho próximo à casa e dali podia ver a porta entreaberta da cozinha, onde Ariana andava de um lado para o outro. Do seu lado direito vinha o reflexo da luz do sol nas paredes da estufa. O barulho de passos suaves e apressados fez com que dirigisse o olhar para a porta e visse Ariana encaminhar-se para o canteiro por trás da casa, onde ela tinha alguns legumes plantados. Pouco tempo se passou e novos passos ressoaram no caminho empedrado. Ariana regressava com uma alface e duas cenouras na mão. Ela olhou para ele e disse que o almoço estava quase pronto. Draco acenou com a cabeça, confirmando que entendera.
Todos os gestos de Ariana foram atentamente observados por Draco até ela entrar de novo em casa. Desde o modo como cortou a raiz da alface e arrancou a rama das cenouras até ao momento em que a água correu pelas suas mãos e ela lavou cuidadosamente cada uma das folhas do verde legume. Ariana estava vestida com uns calções um pouco acima dos joelhos e uma t-shirt larga que tinha quase o mesmo comprimento dos calções. Ela passou a mão pela testa tentando afastar alguns cabelos, que escaparam do nó com que os prendera em um rabo-de-cavalo, e também algumas gotas de suor que se começavam a formar.
Estava uma tarde demasiadamente quente, e o próprio Draco havia renunciado à camisa preta usando em vez disso uma branca. Sem feitiços refrescantes, e longe das paredes do castelo, onde era possível encontrar uma brisa fresca mesmo nos dias mais quentes de verão, estava um pouco difícil de suportar o intenso calor que dominava aquele dia de junho.
O calor entorpecia-lhe os sentidos e não demorou muito até que a sua mente voltasse ao curioso sonho que o despertara no meio da noite.
Sempre ouvira dizer que os sonhos eram o reflexo de uma mente perturbada por um dia de cansaço ou pelos nossos maiores receios e, sem dúvida, aquele ano tinha-lhe mostrado que este último era muito verdadeiro para o seu gosto. Desde que recebera aquela missão que não dormia descansado. Em toda a sua vida nunca sonhara tanto como nesse período, e como se não bastasse, os seus sonhos repetiam-se vezes e vezes sucessivas atormentando-o. A morte dos seus pais perseguia-o em sonhos durante meses, e com o passar do tempo as torturas que eles sofriam eram cada vez mais macabras. Intercaladas com estas sessões, vinham as perseguições que os seus antepassados lhe faziam. Ser um Malfoy nunca se tornou tão pesado na vida de Draco.
Enquanto pequeno também tivera sonhos. Como qualquer criança teve pesadelos mas apenas por uma vez eles fizeram com que os seus pais despertassem. Das outras vezes ele passava o restante da noite acordado com a luz acesa, balançando-se ligeiramente, tentando enganar a realidade de que ninguém iria até ele segurá-lo no colo, abraçá-lo e abaná-lo como se faria a qualquer criança com pesadelos nocturnos.
Afastou aquele pensamento da mente, não era agradável recordar essas noites de inverno. Ninguém sequer imaginava que tinha aquele tipo de pesadelos e ele teve de ultrapassar os seus próprios medos sozinho, como sempre. Nem mesmo com a sua mãe ele pôde contar nessas noites longas e escuras. Bem, ela também nada poderia fazer na presença do pai, ele concluiu.
Na primeira noite que dormira nesta casa, tivera o sonho dos justos, como ouvira chamar. Sentia-se repousado e com uma energia nova. Pensando no assunto, desde que chegara ali que se sentia melhor, era como se a casa ou a própria Ariana, com o seu jeito jovial e relaxado lhe tivessem transmitido essa sensação, e por alguns momentos ele deixou de lado a maior parte das suas preocupações. Pelo menos não dominavam a maioria dos seus pensamentos. Ele tinha outras coisas em mente, e grande parte delas estavam, de algum modo, relacionadas com a jovem mulher tratada por Ariana.
Até mesmo recordando o sonho que tivera naquela noite, os seus pensamentos acabavam por fugir em direcção a ela.
Aquela madrugada fora estranha.
Início do Flashback
Dois olhos cinzentos abriram-se repentinamente na penumbra da sala. Draco acabara de acordar e olhava em volta tentando reconhecer o local onde se encontrava. A sua respiração estava alterada e o seu coração batia descompassado.
Ao constatar que era a sala e não o quarto de hotel do seu sonho que o circundava, acalmou-se ligeiramente. Afastou o lençol branco de si e apoiou os cotovelos nos joelhos dobrados. Com uma mão puxou o cabelo para trás numa tentativa de retirar alguns fios de cabelo loiro que cobriam os seus olhos. A sua respiração ainda estava acelerada e o calor que sentia no seu corpo não diminuía.
Ficou naquela posição durante algum tempo a tentar acalmar o seu ritmo cardíaco. Aquele sonho tinha sido muito estranho. Contrariamente aos sonhos que ele havia tido nos últimos meses este não incluía os seus pais nem nenhum outro membro da família Malfoy, mas a forma como ele viu o sonho tinha sido muito estranha. Aparentemente estava num quarto de hotel com uma mulher deitada nos seus braços. Mas havia algo de estranho, ele via as coisas pelos olhos de outra pessoa, um homem mais velho, e nenhuma das acções que ele fazia eram comandadas por si próprio. Reflectindo bem aparentemente ele via tudo pelos olhos desse homem.
Este último pensamento fez com que Draco corresse mais uma vez as mãos pelo cabelo e esfregasse os olhos.
Olhou em volta e a cortina azulada a abanar chamou-lhe a atenção. Levantou-se e aproximou-se da janela entreaberta. Focou o olhar na profundidade escura que o cercava durante alguns momentos e a pouco e pouco foi aproximando-se do vidro frio até encostar lá a testa. Respirou o ar fresco da noite que rompia pela fresta da janela e soltou um suspiro fraco. Sentia-se angustiado. Era algo estranho porque não era uma angústia própria dele, mas a angústia do homem que ele sonhou ser. Como se não bastasse ver pelos olhos desse homem, ele ainda tinha de compartilhar as emoções dele.
Como podia sonhar que era alguém que não era ele próprio. Draco sentira tudo o que ele sentia, desde a pele macia da mulher loira embrulhada nele ao aperto no peito quando ela se afastou para o banheiro, mas ainda assim podia sentir e pensar como o real Draco que era. "Salazar me ajude, eu acho que estou a ficar doido!".
Por momentos Draco pensou que fosse ele próprio mas mais velho, como se fosse um sonho premonitório ou algo do género, mas quando se olhou no espelho e viu um homem moreno compreendeu que isso não podia ser verdade, ele nunca seria moreno, nenhum Malfoy era moreno, e o rosto desse homem também era diferente, não tão afilado quanto o seu, sem falar nos olhos que eram azuis como o mar num belo dia de verão. Não havia o menor sinal do acinzentado que ele possuía.
Mas se estar no corpo de outro homem enquanto sonhava já não fosse suficientemente estranho, pior que isso era sentir os sentimentos dele. Draco nunca tinha sentido nada do género, e por um momento, breve momento, ele sentiu inveja dele. O modo como aquela mulher o olhou foi tão forte e poderoso. Havia naquele olhar um carinho tão forte, algo que ele nunca sentiu ou recebeu de alguém. Ultrapassava qualquer coisa que ele tinha visto, mesmo entre casais. A sua mãe nunca devotou tal olhar ao seu pai. Isto sem falar na alegria e aquela sensação reconfortante que o homem sentira quando a olhara. Ele pôde sentir que ele estava feliz por receber o carinho dela mas ao mesmo tempo receoso, triste. Era como se ele tivesse um mau pressentimento, como se sentisse que aquilo não seria uma constante na sua vida e tivesse medo de perder aqueles momentos. Porque tudo parecia estar bem demais, por isso algo daria errado.
Os seus pensamentos complicados foram cortados por uma voz sonolenta às suas costas.
- Draco. – Ariana chamou-o entrando na sala com passos silenciosos e se não fosse ela falar ele não teria tomado conhecimento da sua presença. Draco voltou-se para vê-la aproximar-se de si.
O pouco que Draco via dela na sala escura permitia-lhe notar que o seu cabelo estava completamente emaranhado e com o risco para o lado contrário ao que ela usava. Ariana vestia uma camisola de alças e uns calções pouco acima dos joelhos, que por serem brancos salientavam-se na penumbra que os rodeava.
Quando ela estava à distância de dois passos dele e a fraca luz do luar que atravessava a janela incidiu sobre ela, Draco pôde notar os vincos que Ariana tinha no rosto, provocadas pela almofada.
Ela olhou-o atentamente por alguns momentos antes de se aproximar da porta que dava para a sacada e abri-la dizendo:
- Acompanhas-me? – a mão dela segurava a porta de vidro, deixando espaço para uma pessoa passar.
Draco hesitou por uns segundos mas ao sentir a aragem fresca que vinha do exterior decidiu aceitar a proposta, talvez apanhar um pouco de ar fresco ajudasse a orientar as suas ideias.
Ariana seguiu-o e sentou-se na cadeira de palha mais afastada, deixando a outra livre num convite a que ele a acompanhasse e também se sentasse.
Draco não o aceitou e continuou com as mãos apoiadas na beirada metálica da varanda olhando o nada à sua frente. Ele não se sentia cómodo na presença de Ariana, naquele momento.
Ela nada disse ou fez durante vários minutos e o silêncio tomou-lhe a curiosidade, fazendo com que olhasse para ela o mais disfarçadamente possível.
Ariana estava sentada com as pernas cruzadas e as costas apoiadas na cadeira enquanto olhava o céu. Aparentemente não notara o breve olhar de Draco sobre si e por isso ele atreveu-se a dar mais uma espreitadela na direcção dela. Ariana tinha uma expressão serena e um ligeiro sorriso no rosto.
A paz que ela emanava fez com que Draco, em busca da fonte de tal pacificidade, olhasse para o céu. Por um momento nada de especial parecia existir mas em certo momento uma estrela em particular pareceu brilhar de um modo diferente. Usando os seus conhecimentos de Astronomia, Draco reconheceu-a como Eltanin, uma das estrelas da constelação Draco.
Ela parecia brilhar especialmente para si, o seu brilho sobrepondo-se ao das outras estrelas da mesma constelação.
A pouco e pouco uma sensação de estar em casa, foi dominando-o. O bater do seu coração parecia estar a entrar em sintonia com os intervalos a que Eltanin brilhava e ele sentia uma estranha certeza de que não estaria sozinho na nova jornada da sua vida.
Por longos momentos perdeu-se a olhar o céu mas a pouco e pouco o odor do campo circundante inundou os seus sentidos e ele sentiu-se novamente transportado para a realidade terrena, contudo trazia consigo uma sensação de leveza nunca antes experimentada.
Olhou na direcção de Ariana e viu que ela havia adormecido, a cabeça dela estava inclinada para o lado direito e a alça esquerda da sua camisola estava ligeiramente caída mostrando um pouco do ombro onde a luz do luar reflectia.
Draco observou-a por algum tempo, tentando ver através dela, tentando descobrir o que havia de estranho nela, e mais uma vez não conseguiu chegar a qualquer conclusão.
Uma mosca circundava-a e pousou no nariz dela. Não demorou muito a que Ariana acordasse tentando afastá-la de si. Draco não pôde evitar um pequeno sorriso.
Ariana deve ter sentido o divertimento dele porque disse:
- Não tem piada! – ela ainda afastava com as mãos os incómodos insectos que a circundavam como se ela tivesse mel. – Eu vou deitar-me novamente, se precisares de alguma coisa chama. – Ariana já se dirigia à porta passando ombro a ombro com Draco e quando segurou a maçaneta da porta envidraçada voltou-se para trás dizendo, – Boa noite Draco. – antes de seguir para o interior da casa.
A última coisa que ele viu antes dela voltar-lhe as costas e seguir em direcção ao seu quarto foi o brilho intenso dos seus olhos azuis.
Fim do Flashback
Olhos azuis. Não tão cinzentos como os meus próprios, mas ainda assim acinzentados. E aparentemente os olhos azuis perseguiam-no, pois até nos seus sonhos as mulheres tinham olhos azuis. Mas o facto de existirem olhos azuis no seu sonho não era o que mais o atormentava, mas antes a forma como havia vivido o sonho. Ele sentia-se a observar a manhã daquele casal, como um tipo qualquer de voyeur, e sem dúvida aquela designação aproximava-se demasiado da realidade. Ele assistira ao começar do dia dos dois. Ele moreno, de pele clara e olhos azuis, azuis como o oceano. Ela loira, também de pele clara e com olhos azuis, mas um azul diferente, em certos momentos ele pôde distinguir um tom ligeiramente acinzentado, especialmente quando o homem compartilhou com ela a tristeza que dominava o seu coração. O mais estranho de tudo aquilo era ele poder sentir emoções dos personagens. Desde a satisfação não só física como emocional que dominaram a loira quando acordou e sentiu o seu corpo entrelaçado ao do homem, à plena confiança que ela tinha nele, à tristeza quando ele acordou e ela teve que se apressar para o banheiro, a fim de se aprontar e ir embora. Até os sentimentos do moreno ele sentiu, a sua alegria, a sua dor quando ela se afastou, mesmo que o coração dele urgisse que ela se lixasse para as regras e finalmente passasse uma manhã relaxada ao seu lado, até a forte necessidade que o dominou quando ele se decidiu a tomar banho com ela, e deixou os cuidados para trás passando à realização do que aparentemente era um sonho. Uma manhã de sexo na banheira.
Ainda bem que o sonho acabara naquele momento, pois caso contrário ele sentir-se-ia realmente um voyeur, algo que ele nunca gostou particularmente.
Mas para além deste estranho facto, o que mais o surpreendia e até mesmo o assustava era o facto de o nome da mulher que ele vira no sonho não lhe ser estranho. Ele não se lembrava de onde, mas ele conhecia aquele nome, Meredith.
Os seus questionamentos foram cortados pela voz de Ariana que estava à sua frente, fazendo-lhe sombra e que abanava uma mão tentando chamar a sua atenção. O rosto dela tinha uma expressão preocupada.
- Draco! - Quando ela viu que ele focou o olhar nela e que aparentemente já saíra do estranho mundo em que se encontrava perdido em pensamentos, continuou. - Estás bem? Estou a tentar chamar-te há tempos e nunca mais me respondias. – perguntou com um olhar atento em busca da confirmação se ele estava realmente bem.
- Estou, só estava distraído. – ele esfregou ligeiramente os olhos e ergueu-se do chão, ficando frente a frente com Ariana. – O almoço já está pronto?
- Sim, era para isso mesmo que te estava a chamar. Vem. – ela disse encaminhando-se para a cozinha, mas não sem antes olhar para trás de modo a confirmar que ele a seguia.
Ambos entraram em casa, serviram-se e começaram a comer. As refeições entre eles eram sempre silenciosas, e normalmente quando não totalmente mudas, era sempre Ariana que cortava o silêncio. Mais uma vez isso se repetiu.
- Eu hoje à tarde tenho de trabalhar. O Sr. Lane, deu-me a manhã de folga, mas vou ter de trabalhar até à noite. Temos uma encomenda grande e o trabalho vai ter se ser feito durante a noite, para conseguirmos ter tudo pronto até amanhã. – ela fez uma pausa bebendo um pouco de sumo de laranja natural. – Por isso não devo vir para o jantar. Podes aquecer a carne que vai sobrar do almoço para o teu jantar, – em tom explicativo, ela continuou. – eu fiz lombo de porco já a contar com isso.
Draco olhou-a atentamente e fez um aceno de cabeça, indicando que havia entendido.
Mais uma vez o silêncio se instalou entre eles e assim continuou até ambos se sentirem satisfeitos e Ariana começar a tirar os pratos da mesa.
Draco dirigiu-se à sala e pouco depois Ariana passou por lá com um casaco na mão e vestida com umas calças verde escuras e uma camisola de manga curta branca.
- Tchau! Até mais logo!
Um olhar de Draco do livro que ele lia sentado no sofá foi a resposta que chegou a Ariana, antes de ela virar as costas à sala e sair de casa fechando a porta com algum estrépito.
Ariana não olhou para trás até chegar ao portão da frente. Quando o abriu, este rangeu ligeiramente, devido ás mudanças de dimensão do metal provocado pelo calor. Fechou-o, não o trancando com qualquer tipo de chave, até porque o portão não tinha fechadura, e seguiu o caminho de terra batida até à aldeia, não sem antes dar uma última olhadela para a casa às suas costas.
Inspirou o ar de início de verão e deu um suspiro fraco. Não tinha a menor vontade de ir trabalhar mas era necessário que o fizesse. Para piorar hoje trabalharia até à madrugada do dia seguinte. Só esperava que lhe pagassem estas horas de trabalho como extraordinárias, embora o seu lado realista lhe dissesse que isso não deveria acontecer. Bem, não me posso queixar, ela pensou, até que podia ter sido mais difícil encontrar trabalho, especialmente com a minha formação. Olhou em volta para o campo verdejante, onde aqui e lá se viam algumas manchas rosadas e amareladas de flores que por ali haviam nascido, enquanto caminhava. Algumas borboletas circularam-na e ela parou para observá-las atentamente. Estendeu a mão e uma borboleta de tom azulado pousou nela. Ela abria e fechava as suas asas a intervalos irregulares e Ariana nem se atrevia a se mexer, com medo de a afastar de si. O horário de chegar ao trabalho estava completamente esquecido perante aquela maravilha da natureza. A única coisa em que ela se podia concentrar era na sensação leve das patas da borboleta na sua mão, e dos suaves movimentos que esta fazia quando abria e novamente fechava as asas. Ariana não soube precisar quanto tempo esteve parada no meio do caminho, até que uma brisa de ar fria e com cheiro a mar a atingiu e a borboleta voou em direcção aos campos floridos, deixando para trás uma Ariana ainda de mão estendida. Um arrepio atravessou o seu corpo, e ela abraçou-se a si própria esfregando os braços, onde os pêlos estavam arrepiados.
Como odiava estes ventos estranhos. A casa dela era afastada da aldeia e não se via o mar de lá, mas podia-se sentir o cheiro da maresia quando o vento vinha do norte e, em noites de mar mais agitado, ela ouvia o bater das ondas. Não era algo que a incomodasse, pelo contrário, ela gostava muito do mar, mas aquele vento frio numa tarde de verão provocara-lhe sempre uma sensação estranha. Algo que ela não conseguia explicar, era como se…
Bem, ela não queria pensar em espíritos no momento. Especialmente quando estava atrasada para o seu trabalho e quando sabia que tinha de lutar contra o sono até à madrugada seguinte.
Apressando o passo ela chegou ao cruzamento, este dava para a aldeia, o miradouro junto ao mar, as quintas próximas e o caminho para a sua casa. Virando à direita ela correu um pouco, aproveitando a descida para ganhar velocidade. Os seus cabelos em movimento e o ar contra o seu rosto faziam-na sentir bem e ela esboçou um sorriso. A curva próxima fê-la reduzir a velocidade e ela derrapou ligeiramente, mas lá se conseguiu equilibrar, antes de embater contra um senhor que vinha de bicicleta na direcção oposta.
- Oh! Desculpe! O senhor está bem? – ela perguntou preocupada.
- Sim minha menina, estou bem. – a voz bondosa do senhor fez com que Ariana abandonasse a sua expressão preocupada e lhe desse um sorriso antes de continuar o seu caminho com passos apressados.
- Boa tarde! – a voz dela ecoou e o senhor meneou a cabeça, antes de descer da bicicleta e seguir o caminho agora a pé.
Algumas centenas de metros mais à frente Ariana deixou o seu passo apressado e entrou numa vereda pequena que conduzia a uma cerca onde vários cavalos eram visíveis. Com um assobio dela, um cavalo preto veio até junto de si e relinchou, mostrando satisfação em vê-la. Ele aproximou o focinho dos bolsos de Ariana que com um sorriso maroto disse:
- É esse o interesse que tens em mim? – ela fingia uma voz magoada mas tinha um sorriso enorme no rosto. Ele relinchou mais uma vez, e sacudiu a cabeça, antes de mais uma vez se aproximar do bolso.
Ariana enfiou a mão no bolso e de lá retirou uma cenoura que ele roeu com grande satisfação. Ela estendeu a sua mão esquerda para a cabeça dele e fez-lhe festas enquanto ele roía avidamente a cenoura. A mão de Ariana seguiu até uma mancha branca em forma de estrela na testa dele, a única parte do corpo onde era visível outra cor que não o preto. Até esse momento, Antares já havia comido a cenoura e deixou-se submeter aos carinhos de Ariana com grande prazer. Os olhos pretos dele reflectindo o rosto de Ariana.
Dando duas últimas palmadinhas no focinho dele Ariana disse:
- Tenho de ir, mas eu volto amanhã.
Antares relinchou em sinal de despedida e ficou junto à cerca a vê-la partir. Assim que Ariana saiu do seu campo de visão, cavalgou para junto dos seus companheiros.
A jovem ainda vinha com um sorriso no rosto quando chegou novamente à estrada, mas este desapareceu quando olhou para o relógio e viu que tinha cinco minutos para chegar ao trabalho. Era melhor correr, e foi isso que Ariana fez.
Quando chegou à porta traseira da Cervejaria Ivers, que ficava na praça central da aldeia, o Sr. Gilroy estava com uma expressão mal-humorada e disse olhando para o relógio:
- Três minutos atrasada, será que há algum dia em que chegues a horas?
- Desculpe, mas eu encontrei no caminho um senhor que precisou de ajuda com a bicicleta, ele tinha caído e eu demorei um pouco mais do que gostaria a ajudá-lo a levantar-se e confirmar que estava tudo bem, e não precisava de mais nada.
A voz serena e o ar inocente de Ariana fez com que o homem acreditasse nela e dissesse após um olhar perscrutador:
- Desta vez passa, mas para a próxima que chegues atrasada vai ser descontado do teu ordenado.
- Muito obrigada Sr. Gilroy. – Ariana respondeu.
- Vá, entra lá, há muito trabalho a fazer. – ele disse enquanto marcava uma cruz na prancheta que segurava nas suas mãos, e se afastava para que ela passasse.
- Queria ver se havia tanta eficácia para me pagar as horas extraordinárias. – Ariana murmurou enquanto atravessava a grande porta de madeira e entrava nos corredores escuros da fábrica de cerveja, contudo não o fez tão baixo quanto gostaria.
Voltando-se para trás ele perguntou:
- O que disseste?
- Disse que está um dia extraordinário. – ela respondeu com um sorriso angelical no rosto.
- Humft! – ele respondeu com uma sobrancelha arqueada, enquanto Ariana seguia o seu caminho em direcção a uma longa e árdua noite de trabalho.
Enquanto isso Draco abandonou o livro que lia, enquanto Ariana esteve em casa, e olhou a sala atentamente. Ele estava sentado no sofá pequeno, à sua frente estava a lareira, que Ariana costumava acender à noite nos dias mais frios, mas onde nem resto de cinza se via actualmente. Sob os seus pés ele sentia o macio tapete verde-escuro. Os sapatos que calçara estavam encostados de qualquer jeito próximos à parede. Levantou-se e dirigiu-se para o canto da sala onde Ariana montara provisoriamente a sua cama. Um colchão que ela descobrira no sótão, algumas mantas que trouxera do seu próprio quarto, uma almofada não tão macia quanto ele gostaria e uns lençóis que ele tinha que admitir que eram macios, compunham a sua improvisada cama. Pelo menos não durmo no sofá, ele pensou. Pousou o livro que estava a ler sobre a mesa de jantar e parou junto à sua cama. Ao lado desta havia uma arca onde estavam guardadas as roupas que, também, Ariana lhe arranjara.
Início de Flashback
Draco estava encostado ao parapeito da varanda quando ouviu os passos de Ariana a entrar na sala. Decidiu ver o que ela fazia. Quando chegou lá, ela estava abaixada junto à estante mais afastada da entrada à procura de algo. Aparentemente ela encontrou o que quer que fosse que procurava e um ruído metálico acompanhou a descida duma escada em espiral do tecto da sala até terminar junto ao chão. Ariana esboçou um sorriso e subiu a escada em direcção ao sótão. Draco aproximou-se dela e ao notar a sua presença ela convidou-o a subir.
- Vem, pode ser que aqui encontremos algo onde possas dormir. – ela fez um gesto para que a acompanhasse e continuou a subida.
Draco seguiu-a e quando atingiu o limiar da escada, os seus olhos depararam-se com uma visão diferente do que esperava. Contrariamente à penumbra que calculava encontrar, ele deparou-se com um sótão parcialmente iluminado por três pequenas janelas que Ariana abria. Recortados pela pouca luz que adentrava o sótão, podiam distinguir-se vários montes de caixotes e panos espalhados, entre outras coisas. Ariana, que acabara de abrir a terceira janela do sótão voltou-se para ele e disse:
- Eu tenho a impressão que aí atrás de ti é capaz de haver um colchão. – a mão dela apontava para algo atrás do lado esquerdo dele. Ariana já se aproximava de si, desviando de todos os obstáculos no caminho. – Ainda não tive tempo de arrumar tudo aqui no sótão, mas pareceu-me distinguir algo grande quando eu me tentei aventurar para esse lado, talvez seja o que procuramos.
Os minutos seguintes foram um arrastar e arrastar de caixas de um lado para o outro do sótão, espirros e mais espirros de Ariana, que a este momento já tinha o nariz encarnado, que já se assoara vezes sem conta, e algumas discussões quanto ao local onde as caixas deviam ou não ser colocadas. Ariana apesar da reacção alérgica continuava com grande energia na sua tarefa, e aparentemente, aquele trabalho não era pesado para ela, pois em momento algum lhe pediu que agarrasse os caixotes mais pesados, e sempre que ela tinha de o fazer, fazia-o sem dizer nada, excepto quando um palavrão escapou da sua boca por um dos caixotes lhe bater na canela, provocando uma bela nódoa negra.
Por fim lá avistaram aquilo que aparentemente era um colchão e depois de Ariana se embrenhar nas caixas e empurrar o colchão, ambos conseguiram trazê-lo para o piso inferior, onde segundo Ariana ele devia ser colocado na varanda para que ela lhe desse uma limpeza.
- Queres dormir nele a cheirar a mofo? – ela perguntou-lhe com uma mão na cintura e a outra a apoiar o colchão. – Por mim tudo bem, só me poupas trabalho. – ela olhava-o atentamente, e, quando ele agarrou mais uma vez com as duas mãos o colchão indicando que faria o que ela queria, Ariana esboçou um pequeno sorriso e disse em voz baixa, mas suficientemente alta para que Draco tivesse ouvido:
- Lá se vai a minha tarde de perna estendida no sofá! – e continuou a arrastar o colchão pela sala até o encostar nas grades da varanda, onde o sol do fim da manhã começava a incidir.
- É melhor voltarmos lá acima e procurar também algo para vestires. Roupas de cama eu tenho no meu quarto, mas não tenho nada no meu roupeiro que te possa interessar. – Ariana já abandonava a varanda e continuou a falar aparentemente para si própria. – Eu acho que havia uma arca algures, quem sabe não tem roupas… – ela já subia novamente a escada com uma energia incrível, nem parecia que havia passado grande parte da manhã a carregar coisas pesadas.
Draco seguiu-a e assim que ele pôs o seu pé no último degrau da escada ouviu-a resmungar:
- Mas que raios… – ela tentava a todo o custo puxar uma caixa, mas ela estava presa em algo e por mais que ela tentasse a caixa não se soltava. Draco esboçou um sorriso de lado ao ver o esforço que ela fazia, mas não fez qualquer movimento para a ajudar. Ariana parou momentaneamente ao que parece sentindo às suas costas o sorriso de divertimento de Draco e ergueu-se com as costas bem direitas, afastou-se da caixa e aproximou-se de Draco. Por momentos ele pensou que ela fosse reclamar com ele ou até atirá-lo da escadaria abaixo, visto que ele se encontrava encostado ao pilar junto às escadas, e o seu sorriso encolheu um pouco, mas em vez de sequer se aproximar dele ela passou ao seu lado, como se não o visse, e foi buscar um pau a uma das caixas que se encontrava na parte sul do sótão. Draco não se sentiu mais calmo ao vê-la com o pau na mão, mas ela mais uma vez passou por ele sem lhe dirigir sequer o olhar. Quando ele a viu voltar-lhe as costas e abaixar-se mais uma vez junto á tal caixa, Draco soltou a respiração que não se apercebera ter segurado. Alguns segundos depois a caixa estava encostada à parede junto à janela e por trás dela podia entrever-se algo de madeira. Mais uma caixa para o lado e quando por fim Ariana arrastou a última caixa de cartão, uma arca de madeira era visível. Ariana encontrava-se em frente à arca e mostrava o seu ar de conquista, como se tivesse vencido uma batalha, e ela sabia que o havia feito, como sempre. Draco foi atraído àquela arca como se um qualquer tipo de campo magnético o puxasse, e a cada passo que dava para junto dela ele sentia que aquilo não era uma mera arca. Era a Arca. Parou ao lado de Ariana e aí sim pôde ver melhor o que se apresentava à sua frente. Era uma arca de madeira com cor preta, algo raro, mas a raridade desta arca não ficava por aí. Ela não tinha fechadura e ao que parecia Ariana também notara isso e as suas sobrancelhas franziram-se ligeiramente. Draco até podia ouvir na sua mente os pensamentos de Ariana: "Como é que esta arca não tem fechadura?". E se havia alguma dúvida da parte de Draco de que aquilo era realmente uma arca mágica ela esvaneceu-se quando Ariana estendeu uma mão na direcção da arca, na zona central onde deveria ficar a fechadura e um sonoro "click" ouviu-se antes da tampa erguer-se como se uma mão invisível o fizesse. Tanto Draco como Ariana deram um passo para trás quando isso aconteceu.
Aquela era uma das situações que em momento algum podia passar pela mente de Draco. Ok, ele realmente tivera algumas surpresas desde que chegara ali, desde a noite anterior, à cena do banheiro, sem falar na estranha conversa que tivera com Ariana ao pequeno almoço a apenas algumas horas de distância, mas encontrar uma raridade daquelas era algo que ele não esperava. Agora um pouco mais calmo, mas ainda com a respiração acelerada ele pôde observar melhor a arca. Ela tinha vários símbolos, uns entrelaçados semelhantes ao símbolo de infinito em torno de toda ela e em certo ponto os infinitos prolongavam-se formando um círculo bem no centro da parte frontal da arca. Dentro desse círculo havia umas representações que, mesmo tendo tido aulas de Runas Antigas, ele não reconhecia. Mas ele sabia que eram símbolos rúnicos.
Ariana deu um passo em frente em direcção à arca e curvou-se espreitando para o interior dela. Draco seguiu os seus movimentos fazendo o mesmo. Para sua surpresa, ou nem tanto, várias roupas masculinas estavam dentro da arca. Ariana esboçou um sorriso que dizia "Eu bem sabia" mas ainda apresentava um ar curioso, ou talvez cuidadoso. Mas aparentemente ela escondia esse receio bastante bem pois mesmo assim estendeu a mão para o interior da arca e agarrou uma capa preta com aspecto de bastante uso que estendeu em direcção a Draco.
- Acho que te deve servir, pelo menos podes trocar entre a tua e esta quando for necessário lavá-las. – ela disse largando a capa nas mãos de Draco e voltando a sua atenção para o interior da arca.
Depois de remexer um pouco mais na arca e constatar que existiam várias outras peças de roupa que deveriam servir a Draco, não prestando atenção à expressão amuada dele, que torcia a cara a cada peça que ela lhe mostrava, Ariana apoiou-se na borda da arca refazendo o rabo de cavalo de onde agora já escapavam alguns fios de cabelo antes de dizer:
- O que dava mesmo jeito era levar esta arca lá para baixo, pois não tenho outro local onde guardar as roupas. – Assim que Ariana terminou a frase e voltou a olhar para a arca à procura de um qualquer local onde a pudesse agarrar ela desapareceu da sua frente com um estalido.
Com os olhos um pouco arregalados e tacteando no local onde a arca se encontrava como que temendo que esta se tivesse tornado invisível ela exclamou:
- Mas como é possível…
Draco ainda olhava para o local onde a arca estava, e se ele tinha alguma dúvida sobre o que aquela arca era, ela esvaiu-se nesse instante.
Decidido a confirmar a sua teoria ele afastou-se de Ariana e dirigiu-se às escadas.
- Mas onde é que…
Mas Draco já não a ouvia, ele descia as escadas e parou no meio delas olhando para o canto da sala onde agora se encontrava a arca fechada. Ariana que fora despertada pela ausência de Draco havia seguido em direcção às escadas na procura dele.
- Dra… – ela parou a meio da frase quando viu a arca na sala. - Mas como é possível? – ela ultrapassou-o e aproximou-se da arca. – Eu…
Draco seguiu-a calmamente e com as mãos nos bolsos parou ao lado dela.
- Era mesmo aqui que eu tinha pensado…mas… – Ariana ainda olhava para a arca.
- Ela fez a vontade do seu dono. – Draco interrompeu o monólogo de Ariana observando atentamente a arca.
- O que queres dizer com isso? – Ariana questionou voltando-se para ele e analisando a expressão de Draco.
- Exactamente o que disse.
- Mas… – o olhar de Ariana voltou-se para a arca. – O que isso significa? Ok, eu já percebi que contrariamente ao que eu esperava quando pensei ter visto uma arca ela não é uma mera arca muggle, e se me faltava alguma confirmação de que ela era mágica ela chegou agora, mas…
- O que queres dizer com se te faltava alguma informação? Tu sabias o que ela era? – Draco interrompeu-a com bastante curiosidade e sentindo que poderia descobrir algo bastante interessante sobre Ariana.
- Bem… eu senti a vibração mágica em torno dela, – Ariana disse agora mais calma e um pouco incerta em como expressar o que havia sentido. – tu não sentiste? – ela questionou tentando desviar a atenção de si.
Draco esteve silencioso por um momento antes de responder, o modo como Ariana se tentou esgueirar da questão deixou-o ainda mais curioso, e por isso ele firmou o olhar no dela, tentando encontrar dissimulação ou receio nos olhos dela, mas ela apenas o olhava com firmeza, com uma expressão de que seria difícil arrancar alguma coisa dela. Acabou por se decidir a responder, pois quem sabe assim ela não falava um pouco mais.
- Sim eu senti. Foi como se a arca me atraísse. – ele respondeu desviando o olhar do dela e pousando-o mais uma vez na arca. Como quem não quer nada ele tacteou o assunto. – Foi o que sentis-te?
Ariana que ainda tinha o olhar fixo no rosto de Draco olhou brevemente para a arca antes de responder.
- Sim, pode-se dizer que foi isso.
Draco não achou a resposta por demais informativa, mas também não isenta de informação oculta.
- É comum as arcas mágicas fazerem isto? – Ariana perguntou apontando para o local onde ela se encontrava agora.
- Não propriamente. – Draco respondeu cautelosamente e esse facto não passou despercebido a Ariana.
- Quer dizer que ela não é uma arca mágica comum? – ela tentava fazer contacto de olho com Draco, mas este ainda observava a arca fugindo do olhar que ele sabia que Ariana tentava puxar de si.
- Ela não é propriamente uma arca, é uma Attiga. – Draco olhou para Ariana tentando descortinar algo no seu olhar, mas aparentemente não encontrou o que desejava pois a palavra parecia não ter o efeito que ele desejava em Ariana, ela parecia desconhecer o significado da palavra.
- O que é uma Attiga? – ela questionou com bastante curiosidade.
Draco ponderou por instantes se deveria ou não contar o que sabia, ou quase tudo o que sabia sobre Attigas, mas decidiu-se por contar, afinal ele nada tinha a ganhar se ela não soubesse manuseá-la, pelo contrário, ainda podia tornar-se útil saber o que daquela arca se poderia extrair.
- Attigas são arcas mágicas muito raras. – Draco começou com aquela voz típica de quem responde a uma pergunta à qual sabes a resposta mesmo a dormir – São arcas antigas, pensa-se que a sua existência ultrapassa um milénio, que foram construídas por um mago egípcio, ou pelo menos foi ele o primeiro a ter contacto com elas. – Ariana olhava atentamente para Draco e ele ainda tinha o olhar fixo na arca. – Ninguém sabe ao certo como foram feitas e vários bruxos passaram a vida inteira a tentar estudar estas arcas numa tentativa de as reproduzir, mas nenhum o conseguiu. Conta a lenda que apenas existiram doze Attigas, mas até agora nunca se conseguiu comprovar a existência delas. Sabe-se que existiram realmente sete por relatos de alguns dos estudiosos destas raridades, mas nunca se confirmou a existência das restantes cinco. – Assim como as arcas comuns de magos, elas têm feitiços protectores, anti-roubo, anti-destruição, feitiços de ilusão e de encolhimento para transportar, mas as Attigas têm uma particularidade que as tornou muito cobiçadas por certos feiticeiros, – Draco finalmente conectou o seu olhar ao de Ariana. – elas escolhem os seus donos.
Draco fez uma pausa tentando ler através daqueles olhos azuis e quase pôde ver a mente de Ariana a interligar toda aquela informação que ele lhe dera. Ao menos tem raciocínio rápido, ele pensou.
- Como é que elas escolhem os donos? – Ariana perguntou.
- Isso, muita gente gostaria de saber, quem sabe tu própria não me podes ajudar a entender esse mistério. – ele respondeu com um tom manhoso.
Ariana olhou para ele e com mais astúcia do que ele esperava disse:
- Eu não faço a menor ideia de como ela me escolheu e acho que tu sabes mais sobre isso do que me contaste.
- Apenas sei que estas arcas não podem ser vendidas, trocadas, oferecidas e não passam de pais para filhos, elas escolhem o seu mestre, não se abrem para mais ninguém que não seja ele, e apenas a ele mostram o seu conteúdo.
- Então e como explicas o facto da Attiga ter aparecido aqui, logo depois de eu ter dito que a queria aqui em baixo.
- Ela obedeceu à tua vontade. Era aqui que a querias e ela assim fez.
- Humm… – Ariana voltava a olhar para a Attiga e alguns segundos depois ela deixou de ser vista, para logo de seguida voltar a reaparecer.
- Ok, então ela fica aqui, podes usar as roupas, nem é preciso colocá-las noutro local. – Ariana disse voltando as costas a Draco.
- Mas eu não a posso abrir – Draco disse com muito má vontade, afinal ter uma Attiga era algo de uma raridade incrível e Ariana tinha uma, mas ele não, como isso era possível? Se havia alguém que devia ter aquela Attiga era ele que era puro-sangue e um bruxo das melhores linhagens. Os seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Ariana das escadas.
- Podes sim, ela abrir-se-á para ti.
- Não ela não abrirá, quem a tenta abrir sem ser o verdadeiro dono arrisca-se a ter uma morte bem dolorosa. – só nesse momento Draco percebeu que não sendo o dono da Attiga não podia fazer nada com ela e a raiva dominou-o. Mais uma vez eram os outros que tinham aquilo que ele queria.
- Eu já disse que ela abrirá – Ariana disse ainda parada a meio das escadas. – experimenta.
- Nem penses, não sou louco de o tentar fazer.
Ariana abanou a cabeça e desceu as escadas, agarrando na mão dele e aproximando-a da arca que se abriu como anteriormente.
- Como podes ver ela também abre para ti, agora tem cuidado com o que tentas fazer antes de me contares mais sobre Attigas, eu ainda não estabeleci todas as minhas vontades. – Ariana largara a mão de Draco e afastara-se dele, deixando-o com o rosto ligeiramente avermelhado de raiva para trás, antes de seguir novamente em direcção ao sótão.
Fim do Flashback
Ariana era uma mulher muito estranha, deveras estranha. Agora que ela estava fora de casa ele finalmente tinha a liberdade de procurar algo que lhe mostrasse quem ela realmente era.
O facto de ser a dona de uma Attiga não o deixava mais descansado. Era uma verdadeira raridade um bruxo ser escolhido por uma Attiga para seu mestre, do que ele se lembrava das pesquisas do seu pai sobre o assunto, tanto homens quanto mulheres podiam ser escolhidos, o que não era muito indicativo neste caso, mas as sete Attigas que se conhecia existir escolheram sempre bruxos poderosos, ou então eles tornaram-se poderosos depois de as possuírem, e se isso fosse uma indicação, Ariana podia ser mais perigosa do que ele calculara inicialmente.
Quem era Ariana Curen?
Nota de Autora:
Olá pessoal!! (Mariana envergonhada por aparecer quase 5 meses depois da última actualização). Quero pedir milhões de desculpas pela demora em actualizar, mas realmente não consegui acabar este capítulo antes, para mim foi um bocado complicado escrevê-lo, pelo menos o início, especialmente pois eu queria que vocês conseguissem entender o primeiro flashback, com tanto ele e ele, espero que tenham entendido, especialmente quem não leu o capítulo anterior.
Agora sim já percebem o que eu queria dizer no capítulo anterior quando disse que o sonho não vinha em sequência temporal. Draco sonhou tudo o que aconteceu no Capítulo 5 – Pequena Imperatriz, e agora neste capítulo "Questões" ele tenta entender que sonho foi aquele. Espero que isto tenha ficado claro e que tenham percebido qual foi a perspectiva que Draco teve no sonho. Caso ainda tenham qualquer dúvida não hesitem em perguntar, aliás eu ficaria muito feliz em receber comentários com a vossa opinião acerca deste capítulo.
Alguns agradecimentos: Rui Simão (meu caro colega da FFUL que consegui introduzir neste meio, espero que tenhas gostado e muito obrigado por apesar de não gostares de escrever teres feito um comentário para mim), AnaNinaSnape (muito obrigada por todos os elogios, como prometido cá está mais um capítulo, agora só falta leres e comentares), Kiara Hiwatari13 (a leitora convertida numa fã de fanfics de Harry Potter graças à minha fic, muito obrigada pelos comentários e pelo apoio), Vivi Andromeda (minha adorada beta, que tudo faz para que esta fic tenha o mínimo de erros possíveis, e que tem uma paciência incrível para colocar e tirar todas as vírgulas necessárias, entre uma imensidão de outras coisas como me aturar como sua amiga) Vivis Drecco (a leitora mais curiosa e imaginativa que eu poderia ter, espero que gostes e que cries muitas novas teorias com este capítulo, uma amiga além-mar) Vinicius (uma alma desaparecida da minha lista de comentários, mas que eu acredito que apesar de tudo ainda lê os meus capítulos e se diverte). Obrigada a todos vocês é graças a pequenas palavras de carinho e apoio que eu continuo a encontrar força para escrever esta fic. Beijos para todos.
E depois deste momento emotivo, vamos à coluna Dicionário:
Como devem ter notado apareceram algumas palavras sublinhadas ao longo do capítulo, bem não foi simplesmente porque me apeteceu tentar os meus dotes artísticos, até porque tenho muito pouco talento para desenho, que eu as sublinhei, mas antes numa tentativa de as destacar visto ser necessário fazer alguns esclarecimentos sobre o que elas significam em Português de Portugal e do Brasil, como tal aqui vai:
t-shirt – o mesmo que camiseta
camisola – (como mencionado em capítulo anterior) - s.f. peça de roupa de malha que cobre o tronco e os braços e é geralmente usada como agasalho; - não é uma peça de roupa para dormir.
Acho que não tenho mais nada a dizer, a não ser
Até ao próximo capítulo!
