CAPÍTULO 6 – A Grande Fusão

Depois das risadas à custa do envergonhado garoto, o grupo finalmente estava em condições de iniciar os trabalhos a sério. Dafne se incumbiu de apresentar às novas meninas uma versão reduzida da história de Harry e informar que Voldemort ainda apresentava perigo, enquanto Harry, com ajuda de Astória e Luna, cuidava de sua correspondência, o primeiro lote que recebia através de Gringotts, depois de um redirecionamento de sua correspondência para o banco para garantir sua segurança e privacidade.

Para sua surpresa a primeira carta que abriu era de uma pequena fã de cinco anos de idade, Abigail Cresswell. Ela mandara um desenho de sua família junto com seu herói Harry Potter. O desenho era simples mas caprichado, e estava em boa proporção, exceto pelo próprio Harry, que proporcionalmente aparentava ser tão alto quanto Hagrid.

"Por um lado é preocupante ver quanto esperam de mim, mas por outro, alguém que nunca me viu oferecendo sua amizade sem restrições..." comentou o garoto, emocionado.

"Essa é a primeira carta que você recebe de um admirador, não é?" perguntou Astória, recebendo um aceno positivo de Harry. "E só chegou agora, depois de que você pediu aos duendes para cuidarem de sua correspondência. Sabe o que isso significa, não sabe?"

Harry olhou para a amiga com lágrimas nos olhos. "Outra forma de manipulação em minha vida que Dumbledore usou contra mim: privar-me de minha correspondência. Entendo que ele tenha feito isso a princípio, enquanto estive fora do mundo mágico. Mas continuar com isso até hoje? Indesculpável!"

Luna, ainda sentada no colo do menino, percebeu toda a tensão pela qual ele passava e passou-lhe a carta seguinte da pilha, tentando tirá-lo daquele estado. Infelizmente, a carta seguinte era exatamente do velho mago, e nada agradável. A carta de Dumbledore era um misto de ameaças veladas e pequenas chantagens emocionais com o propósito de convencer o menino a imediatamente retornar à casa de seus tios e comportar-se com discrição, deixando os assuntos mais sérios para os adultos neles experientes. Tratava Harry como uma criança mimada precisando de disciplina, e não sobreviveu à sua leitura. Harry ficara tão zangado com a carta que ela se incendiara espontaneamente com sua raiva.

"Quem ele pensa que é?" reagiu Astória imediatamente. "Ele não sabe onde você está, com quem está, como está, e já parte direto para dizer que você está em perigo e exige que você volte para aqueles seus repulsivos parentes imediatamente! Trata-o como uma criancinha! Ele não é seu guardião mágico, é?"

"Irowclaw disse-me que, para todos os efeitos, ao menos no que concerne ao Banco, meu guardião mágico é Sirius. Dumbledore tentou registrar com eles documentos assumindo minha guarda, mas os duendes rejeitaram, dizendo que não havia causa para destituir Sirius da função. Eles sabem que meu padrinho não foi julgado, e portanto, sem um documento assinado por Sirius abrindo mão de seus direitos, recusam qualquer alteração" respondeu Harry.

"Dumbledore pode ter conseguido documentação do Wizengamot passando sua guarda para ele" comentou Luna. "Mesmo que Gringotts não aceite a mudança, para o Ministério pode ser que Dumbledore esteja registrado como seu guardião, o que dá a ele certo poder."

"Os duendes anotaram aqui que havia feitiços rastreadores na carta. Astória? Será que ele poderia..." começou a perguntar Harry, mas sua pequena anfitriã tratou de acalmar rapidamente as preocupações do menino.

"Não se preocupe, Harry. Se havia algum feitiço rastreador em você ou em suas coisas, ele foi desativado tão logo você entrou na propriedade. E nem mesmo um vidente poderá descobrir seu paradeiro enquanto você permanecer aqui. Temos as melhores proteções que o dinheiro pode comprar!"

As duas garotas perceberam o quanto aquela resposta tranquilizava o menino, e trocaram um olhar de compreensão de que ele estava mais preocupado com a segurança delas que a dele próprio. Para elas era comovente encontrar um garoto tão altruísta.

A carta seguinte era de Hermione, e surpreendeu Astória favoravelmente. Dumbledore havia contatado a Grifinória pedindo notícias de Harry, deixando a menina terrivelmente preocupada por seu amigo, mas ela evitara demandar o regresso imediato de Harry, e apenas perguntava se ele estava bem e se precisava de alguma ajuda.

"Estranho! Achei que ela iria exigir saber onde você está e o que anda fazendo" comentou Astória.

"Eu acho que Hermione deve estar pensando muito ultimamente, e revendo suas posições e sua visão sobre o mundo mágico" disse Luna, com um olhar pensativo e distante. "Acho que foi muito importante que você tenha convidado mais pessoas para seu compartimento na viagem do Expresso, Harry. Saber que você está expandindo seu círculo de amizades aparentemente teve um efeito positivo sobre ela. Ela deve estar preocupada em manter sua amizade, e deve estar reavaliando sua forma de agir..."

"É possível" comentou Harry. "Ela sempre deu muita atenção à opinião dos adultos, especialmente aqueles em posições de autoridade. Talvez, com o caso de meu padrinho, ela tenha percebido que essas figuras são tão sujeitas a erros e maldades quanto quaisquer outras. E ela ter pedido mais informações antes de tomar conclusões e sair dizendo o que eu deveria fazer... Uau! É exatamente a evolução que faltava para ela!"

"Não vamos perder essa oportunidade deixando-a esperar" disse Astória, passando pergaminho e pena para Harry. "Escreva uma resposta sucinta e mande por sua coruja para ela, antes que ela mude de ideia."

"Sim, madame" respondeu ele, obedecendo prontamente. Harry respondeu o melhor que pôde, assegurando sua amiga de que estava totalmente seguro e, pela primeira vez em um verão, feliz. Contou que tinha muitas novidades para compartilhar com ela, e que tentaria marcar um encontro após ela retornar de sua viagem pelo Continente.

A próxima carta era de Sirius, e deixou Harry bastante preocupado pelo grau com que seu padrinho mostrava ter sido influenciado por uma carta de Dumbledore. O maroto mostrava sua preocupação com o sumiço do afilhado e pedia que ele tomasse cuidado e seguisse as orientações do diretor. Também dizia que Dumbledore o aconselhara a ir para longe e permanecer escondido até que o velho mago pudesse fazer algo por ele.

Harry respondeu ao padrinho com uma carta muito dura, criticando sua decisão em obedecer Dumbledore. Um trecho dela dizia:

Se você confia tanto em Dumbledore, porque não escreveu a ele contando toda sua história assim que deixou Azkaban? Teria poupado a todos os alunos de Hogwarts um ano difícil com a companhia daqueles dementadores assassinos! Mas o que fez Dumbledore por você? Como chefe do Wizengamot ele devia ter lutado para o cumprimento da lei e providenciado seu julgamento logo depois de sua prisão, mas não o fez! Depois que Hermione e eu contamos sua história para ele, o que fez ele para cancelar a ordem de execução imediata contra você? É realmente nele que você quer apostar sua própria vida? Alguém que dá a um crápula como Snape uma segunda, terceira e quarta chance, mas não levanta um dedo para ouvir seu lado da história e dar-lhe ao menos a chance de se explicar?

Uma semana! Se você quer realmente uma chance de se desculpar pelos anos que passou longe de mim e quer uma chance de novamente ser livre e reconstruir sua vida em contato comigo, eu te peço que me conceda isso: uma semana! Fique por aqui por uma semana, e esteja pronto para receber o julgamento que não teve até agora. Não diga nada a ninguém, especialmente a Dumbledore! Confie em mim, e tudo será esclarecido em breve. Caso contrário, e tenha certeza de que falo sério, será Adeus! Por favor, Sirius, ajude-me a ajuda-lo!

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Depois da resposta a Sirius ter sido enviada, Luna levantou-se e dirigiu Astória para o colo de Harry, antes de juntar-se ao grupo maior, que estava agora trabalhando em um juramento para ser efetuado por todas que quisessem participar das novas pesquisas e da luta contra Voldemort.

Astória ficara preocupada com a disposição de Sirius obedecer Dumbledore e perder o próprio julgamento e a chance de voltar a ser livre. Ela precisava que o padrinho de Harry assumisse a guarda do menino para que seu plano pudesse prosseguir. Ela sabia que Dumbledore jamais assinaria o contrato entre Harry e ela. Harry tentou acalmá-la o melhor que podia. Meninas em choro deixavam o pobre menino em uma situação difícil, mas ele estava aos poucos progredindo e tinha até elaborado uma teoria sobre o papel do choro para as mulheres: era a forma delas lidarem com emoções fortes. Um garoto, na mesma situação, ficaria com raiva e provavelmente arrumaria briga com alguém ou sairia quebrando coisas para descarregar a tensão. Já as meninas choravam, depois de esgotadas se acalmavam, e aí voltavam ao assunto com calma. A fase de choro continuava sendo estranha aos olhos do menino, mas os resultados que elas obtinham pareciam melhores no final, menos destrutivos e menos permanentes do que uma amizade arruinada por um soco desmerecido em um momento de fúria.

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O grupo das meninas já tinha um juramento padrão preparado para a aceitação de membros masculinos. Harry seria o quarto a ser admitido em um dos três grupos no corrente século. Esse mesmo juramento serviu de base para a criação de outro, para proteger os segredos de Harry e das pesquisas realizadas por sua mãe.

As meninas, empolgadas pela propaganda que Dafne fizera dos avanços obtidos por Lily, aterrorizadas pela possibilidade da volta de Voldemort, desejosas de um refúgio seguro em uma ilha secreta e inflamadas pela sensação de que estavam prestes a embarcar em uma aventura que poderia fazer história e definir o futuro do mundo mágico por séculos avante, acabaram criando, e assumindo, um juramento muito mais sério e poderoso do que seria conveniente aos olhos de magos e bruxas mais experientes.

Tão logo todos, incluindo Harry, fizeram aquele juramento, os primeiros sintomas do quão longe eles tinham ido começaram a se expressar, se bem que, de início, de uma forma um tanto sutil.

Harry voltou a contar sua história, agora com muito mais detalhes, e utilizou uma penseira encontrada por Dobby no cofre de sua família para ilustrar os principais momentos da narrativa: o encontro com o espectro de Voldemort na Floresta Proibida, o confronto com Quirrell e o espelho e o episódio com o jovem Riddle e o basilisco na Câmara Secreta. Para terminar, Harry relatou a recente descoberta sobre os horcruxes, inclusive o presente em sua cicatriz. Dafne e Astória haviam dito ao menino que ele podia deixar esse último como um segredo, mas a pronta disposição do grupo em ajudar e em fazer o juramento de segredo e fidelidade fez Harry sentir-se no dever de revelar tudo. Ele estava cansado de descobrir quantos segredos andaram escondendo dele, e de modo algum agiria da mesma forma com as pessoas que tão prontamente se dispuseram a ajuda-lo.

Quando Harry acabou seu relato Dafne pediu para que fossem servidos sanduíches e sucos, e eles começaram a discutir o que fazer para se prepararem para o retorno de Voldemort. Logo ficou claro que o grupo tinha pouca confiança nos adultos, ou pelo menos na maioria deles. Eles tentariam avisá-los do perigo, mas não colocavam muitas esperanças de que essa iniciativa produzisse frutos, portanto nem se limitariam a apenas avisar nem pretendiam se expor em demasiado com esse aviso.

A ilha secreta dos Potters e a disposição de Harry em garantir refúgio a todo o grupo foi uma notícia bem vinda. Logo as garotas estavam fazendo planos e dividindo tarefas. Como eles ainda eram poucos para a quantidade de trabalho que viam pela frente, todos colaborariam onde pudessem, mas um 'chefe' foi designado para cada ramo de atividade.

Lilith Moon, cujo pai era um atacadista de produtos mágicos, ficou encarregada de preparar a ilha abastecendo-a de alimentos, roupas e utensílios, além de armas, ferramentas e material de construção, para que um grande número de pessoas pudesse lá viver sem nada faltar. Por enquanto, Harry teria que financiar essas compras pessoalmente.

Maebh O'Brian era uma garota prodígio em Runas. Ela ficou encarregada de estudar proteções mágicas tanto para reforçar as defesas da ilha quanto as residências dos membros do grupo.

Susana Bones, sobrinha da diretora do DELM, tinha grande conhecimento de leis e tradições mágicas e acesso a alguns recursos do Ministério e alguns importantes contatos. Ela se ofereceu, e foi aceita, como encarregada de analisar os aspectos legais das ações que o grupo viesse a executar e a tentar convencer a tia e alguns aliados dela do perigo que rondava o mundo mágico.

Luna Lovegood, cujo pai era editor e proprietário de O Pasquim, ficou encarregada do relacionamento com a Imprensa e, a seu pedido, também do relacionamento com as criaturas mágicas, já que tinha grande conhecimento nessa área.

Mandy Brocklehurst, cujo pai era consultor de Negócios e Finanças e vinha educando a filha nessas atividades, ficou encarregada das finanças do grupo e de ajudar Harry a colocar ordem nos negócios de sua família. Ela iniciou imediatamente suas atividades pedindo licença para negociar por Harry a carcaça do basilisco, para o que pediu a ajuda de Luna para tratar do assunto com os duendes de Gringotts.

Bridget Carlson, que iria iniciar seu último ano em Hogwarts e já tinha sua licença para aparatar, pediu para chefiar os assuntos de Transporte e Locomoção. Ela se dispôs de imediato a iniciar o treinamento de todos em aparatação, a aprender a fazer chaves-de-portal ensinando depois aos interessados, e a buscar uma forma de criar uma rede flu alternativa, sem controle (ou interferência) do governo mágico. Por uma estranha coincidência (para não dizer corrupção) a rede flu tinha o péssimo hábito de estar indisponível sempre que os Comensais realizavam um ataque durante a primeira aparição de Voldemort.

Trisha Buttermere já vinha recebendo alguma instrução de madame Pomfrey, e pretendia tornar-se uma medibruxa após Hogwarts. Ela ficou encarregada dos assuntos de Saúde. Iria iniciar redigindo uma lista de poções para manterem em estoque, para emergências, e uma lista de técnicas simples de atendimento básico de emergência, que iria utilizar para treinar todos que se interessassem em aprender.

Para espanto de Harry, ele foi colocado como encarregado da Magia Ofensiva e Defensiva. Se suas notas em Defesa já eram boas, vê-lo em ação na penseira convenceu todas as garotas de que ele era a escolha certa para o cargo. Várias das garotas mais velhas prontificaram-se a ajuda-lo com o estudo de material mais avançado.

Dafne não ficou de fora e, explicando rapidamente o que descobrira sobre os cadernos de Lily Potter, criou para si um departamento de Pesquisas e colocou-se à frente dele. De imediato, pediu ajuda às meninas dos anos superiores para que listassem o que havia de importante no currículo de cada ano em relação às necessidades que esperavam encontrar com o retorno de Voldemort. A notícia sobre os cadernos interessara muito a todas as meninas, e logo ela tinha voluntárias para auxiliar em todos os ramos de conhecimento mágico.

Hannah Abbott era uma das garotas mais populares de Hogwarts e ficou encarregada do recrutamento de aliados. Sua primeira missão seria tentar obter a adesão dos dois outros grupos de meninas de Hogwarts.

Lisa Turpin adorava estudar História da Magia, se bem que detestasse Binns tanto quanto os demais. Para ela foi criado o departamento de informação, encarregado do exame histórico dos conflitos contra Grindelwald e Voldemort, de modo a identificar possíveis simpatizantes deles que ainda estivessem à solta na sociedade mágica atual. Ela estudaria também as táticas empregadas por cada um dos grupos envolvidos nos embates, e tentaria traçar estratégias para prevenir que essas táticas voltassem a funcionar.

"Puxa, parece que estamos criando um novo governo!" comentou Astória, encantada com a grandeza e complexidade da conspiração. "Falta alguma coisa?"

"Por enquanto acho que não" comentou Katie, "Mas tão logo sentirmos a necessidade, podemos criar outros 'departamentos'".

"Talvez um para comunicações, espionagem e contraespionagem..." sugeriu Morag, que era aficionada em romances policiais trouxas.

"Potter... Harry" chamou timidamente uma das gêmeas Carrow.

"Sim? Alguma outra ideia?" respondeu ele.

"Minha irmã e eu gostaríamos de nos tornar as primeiras residentes fixas em sua ilha, se você nos permitir" pediu ela encabulada, para espanto do garoto.

"Nada contra de minha parte, mas as acomodações não estão lá em bom estado no momento" respondeu ele com cuidado. Desde que fora apresentado às gêmeas, Harry percebera haver algo diferente ali, algum segredo que ele ainda não conhecia. "Algum motivo em especial?" perguntou ele, tentando dar uma chance para que o segredo viesse à tona naturalmente, mas dando chance de elas evitarem responder, se assim o quisessem.

As duas irmãs trocaram um longo olhar até que, por fim, olhando para o chão e mostrando toda a tensão em que estavam, a mesma que lhe fizera a pergunta contou para Harry a real situação delas.

"Nossos pais são Comensais da Morte. Nunca deixaram de ser. Tão logo Voldemort retorne, eles correrão para seu lado, prontos a reassumir suas posições. Ainda pior, eles são irmãos. Vivem essa relação incestuosa desde que atingiram a puberdade..."

Nesse ponto as gêmeas estavam chorando copiosamente. Em um instante Harry saiu de sua cadeira e estava em pé em frente delas, com uma mão no ombro de cada uma, tentando consolá-las. Seu movimento fora tão rápido que parecia ter sido aparatação!

"Vocês tem minha permissão para fazerem da ilha seu lar, e ficarem quanto tempo desejarem..." disse ele para alívio das duas. "Apenas... E quanto a Hogwarts? Eles poderiam tirá-las de lá, não é? Vocês terão que se esconder para sempre?"

As duas puxaram o menino para mais perto, cada uma usando um ombro dele para chorar. Dessa vez foi a outra gêmea, Flora, quem respondeu.

"Eles sabem que não compartilhamos suas convicções. Estão decepcionados conosco, e já não se preocupam mais com o que fazemos. Por sorte nosso avô pagou por nossa educação adiantadamente, ou sequer teríamos ido a Hogwarts. Estamos passando alguns dias nas casas de nossas amigas. Elas nos conhecem e nos ajudam, mas alguns pais não são muito favoráveis a essa amizade delas conosco."

"Nossos pais ficarão felizes se nos mantivermos distantes, desde que não saibam que estamos trabalhando contra seu mestre" completou Héstia. "Ter um lugar fixo para residir nas férias nos deixaria bem mais seguras."

"Então está decidido!" determinou Dafne. "Vocês ficam aqui conosco até que a ilha tenha condições mínimas de habitação. Nossos pais só retornam no próximo mês. Nessa época a ilha, ou pelo menos uma parte dela, estará em boas condições, e vocês se mudam para lá com Harry, e ajudam a fazer o inventário do que houver por lá e melhorar as condições do local."

Apesar de todo seu treino Harry ficou vermelho quando as duas gêmeas, agora felizes, o abraçaram com ainda mais força e determinação. Enquanto ele tentava se recuperar, Flora olhou para a irmã dizendo apenas: "A biblioteca completa!"

"Espere um instante" pediu Héstia à irmã. Virando-se para os demais, ela explicou: "Há algo que vocês precisam saber. Algo ruim deve acontecer logo após a final da Copa de Quadribol. Lúcio Malfoy esteve em casa ontem à noite. Ele está entrando em contato com os Comensais que escaparam à prisão, e está planejando algum tipo de ação para assim que o jogo acabar, para 'lembrar ao mundo mágico quem manda'. Não sabemos o que pretendem fazer, mas será algo no próprio local do jogo, logo depois de seu término, e provavelmente será algum tipo de ataque para causar pânico na multidão e tentar reavivar o temor de todos para com o Senhor das Trevas."

"Seria ótimo se pudéssemos aproveitar essa reunião e eliminar a todos eles!" declarou Susana, para espanto de muitas de suas amigas.

"Susana! Como pode pensar nisso!" declarou Hannah.

"Eu... eu não teria coragem de participar, acho eu" confidenciou a ruivinha. "Mas, pense um pouco. Assim que Voldemort voltar, a primeira coisa que ele irá fazer será reunir esses Comensais que escaparam da prisão. E a segunda será usá-los para libertar os que estão presos. Sem eles, ele estará praticamente sozinho, dificultando o ataque a Azkaban e atrasando em muito os seus planos..."

"Poderíamos pegá-los todos de surpresa" comentou Héstia. "Eles não esperam nenhuma reação do público além de pânico, e pouca resistência dos aurores, que não poderão revidar com a força necessária por medo de ferir os espectadores. Haverá muita gente de outros países na final. Poderia causar um incidente internacional se o número de vítimas for elevado."

"Se os Comensais evitarem derramar sangue mágico, os aurores não terão desculpa para escalar o conflito. Os Comensais causarão pânico e depois irão embora sem enfrentarem resistência."

"Sim, mas por que criar esse pânico?" perguntou Harry confuso.

"Uma mensagem bem clara: dê-nos espaço ou sofra as consequências" respondeu Susana, pensando nas consequências políticas de tal ato. "Pode apostar que, após esse evento, várias leis serão propostas no Wizengamot para aumentar ainda mais os privilégios dos puristas, e elas podem acabar sendo aprovadas por medo de retaliações contra os que tentarem barra-las."

"Então temos que detê-los de alguma forma" respondeu Harry com determinação. "Temos tempo para nos preparar e bolar um bom plano de ação. Eu farei algo, mesmo que mais ninguém queira participar."

"Conte conosco" respondeu de imediato Héstia.

"Mas... seus pais? Eles estarão lá!" protestou Tracy boquiaberta.

"E eu ficarei feliz de vê-los morrer" respondeu Héstia olhando friamente para a amiga. Mesmo Harry, ainda ingênuo com esse tipo de assunto, percebeu imediatamente que a vida das gêmeas havia sido muito mais difícil do que o que ele descobrira até agora indicava.

"Ok, algumas regras" emendou Harry, tentando anuviar um pouco a tensão. "Nessa missão só participarão voluntários. Só aceite participar se tiver certeza de que não se arrependerá depois nem entrará em pânico durante. Ninguém que participar falará mal dos que recusarem, nem os que recusarem poderão arguir contra os que participarem. Concordam?"

Dafne exibiu um enorme sorriso para a irmã. Ela estivera incerta com a escolha de Astória e temera que Harry fosse mais fama que real poder. Para sua felicidade, ali estava a prova de que o Menino-Que-Sobrevivera era não só um herói de fato, como seus feitos em Hogwarts já haviam provado, como também um líder nato, que liderava pelo exemplo mais do que por arrogantes ordens por detrás das fileiras.

Houve alguma discussão, mas mesmo as mais pacifistas entre elas acabaram convencidas de que uma guerra estava por vir, e que inevitavelmente algum sofrimento, e mortes, acabariam ocorrendo. Restringir o quanto possível esse sofrimento e morte ao lado inimigo parecia ser o único caminho capaz de maximizar as chances de o grupo escapar com um mínimo de baixas, por mais difícil que fosse trilhar esse caminho. A certeza de que não seriam forçadas a agir contra sua própria natureza, e que poderiam deixar a ação violenta para aqueles mais capacitados a executá-las, acabou com a discussão.

"Harry?"

Durante toda a discussão Harry havia ficado bem próximo às gêmeas Carrow. Agora Flora havia se voltado para ele, e descansava a mão esquerda dela sobre seu músculo peitoral direito. Harry imediatamente colocou as lições recebidas de Dafne em prática, e analisou a situação. A menina era tímida e quieta por natureza, e não estava à vontade com aquele contato. O garoto deduziu que ela estava na iminência de pedir-lhe algo que era de grande importância para ela, e estava fazendo o possível para angariar alguma simpatia, ou pelo menos evitar que ele negasse seu pedido com brusquidão. Anuindo para que ela prosseguisse, Harry dedicou-lhe toda sua atenção.

"Você já conhece a fundo a Magia Familiar dos Potters?" perguntou ela.

"A ilha!" exclamou Dafne, aproximando-se deles. "Você quer usar a ilha para seu projeto da Biblioteca Completa!"

Enquanto isso, Harry simplesmente perguntava: "O que é Magia Familiar?"

"Aff! É um crime o quão pouco te ensinaram sobre o mundo mágico" protestou Dafne mais uma vez em face de outra demonstração de como haviam mantido o herdeiro de uma das mais antigas famílias mágicas da Europa em completa ignorância.

"A magia que aprendemos em Hogwarts é apenas uma pequena fração da magia conhecida" explicou Flora. "É a parte da magia que está aberta ao conhecimento de todos os magos e bruxas, independente de sua origem. A maior parte da magia conhecida, contudo, está dividida entre as famílias, e mantida por cada uma em segredo, sendo passada somente aos membros da família."

"É outro ponto onde o egoísmo e a competitividade dos machos da espécie entra em cena para privar a maioria de um bem enorme, em prol de manter esse poder nas mãos de uns poucos!" completou Dafne.

"Quer dizer então que cada família que inventa ou entra em posse de algum conhecimento mágico novo, ao invés de compartilhar com os demais, esconde-o para si?" resumiu o garoto o que entendera da conversa.

"Exatamente!" confirmou Dafne. "Dessa forma, cada família guarda para si o monopólio sobre uma parte do conhecimento mágico, que então usa para obter poder ou dinheiro."

"Alguns chefes de família chegam a limitar o acesso de seus próprios familiares a esse conhecimento" explicou Flora.

"Principalmente as mulheres da família, eu diria" sugeriu Harry.

"Exatamente as mulheres da família, por que elas irão casar e se tornar parte de outra família" confirmou novamente Dafne.

"E vocês gostariam de ter acesso à magia familiar dos Potters?" perguntou Harry à Flora. Por sua natureza o menino se predispunha a compartilhar, mas estava receoso sobre as consequências dessa benevolência sobre o futuro de sua família.

"O mesmo juramento que fizemos para o grupo e para você nos impedirá de compartilhar os segredos com qualquer pessoa de fora, Harry" explicou Flora, falando rapidamente como se tivesse medo de que Harry se fechasse à ideia antes que ela pudesse expor todos os seus argumentos. "Por um descuido de nosso avô, Héstia e eu temos acesso ilimitado à magia familiar dos Carrows, inclusive para passa-la a outros. Nós somente não fizemos uso desse acesso ainda por que não teríamos onde manter uma cópia a salvo, já que os originais não podem ser retirados da mansão da família."

"Mais alguém dentre vocês tem acesso irrestrito à magia da família?" perguntou Harry de forma geral para o grupo, que se reunira em volta deles devido ao interesse no assunto.

"Eu tenho!" respondeu de pronto Luna.

"Minha tia prometeu-me acesso integral assim que eu completar quinze anos" declarou Susana. "Isso só ocorrerá dentro de pouco mais de meio ano."

"Essa é outra exceção à regra, bastante incomum e apenas por que a tia de Susana é a atual regente da família e não vê problemas em mulheres adquirindo acesso a esse conhecimento" explicou Dafne. "Papai jamais daria tal autonomia para mim ou Astória".

"Talvez eu consiga convencer meu tio-avô", disse Morag, "Mas isso porque não temos muito a esconder."

Outras garotas estavam na mesma situação de Morag. Talvez não conseguissem muito sucesso tentando acessar esse conhecimento agora, mas o retorno de Voldemort e o juramento de não abrirem esses segredos indiscriminadamente poderia facilitar muito essa abertura no futuro. O simples fato dessas garotas estarem dispostas a discutir uma antiga tradição com seus chefes de família animava o menino, mostrando o grau de envolvimento que já se conseguia entre os membros daquele grupo.

"Esse machismo tolo condena vocês garotas a saberem menos do que os meninos, não importa quanto se esforcem por aprender!" disse Harry com indignação.

"Há algo que alivia um pouco a situação, Potter" confidenciou Dafne. "Algumas mulheres, conhecendo essa situação, doaram os frutos de suas descobertas para um ou mais dos três grupos femininos de Hogwarts, ao invés de, ou além de, incorporar suas descobertas à magia de suas famílias. A mãe de Luna, por exemplo, foi uma colaboradora especialmente prolífica."

Harry dirigiu um sorriso à sua amiga loirinha, que estava radiante com o elogio de Dafne à sua mãe, antes de se dirigir a todas.

"Eu não vejo problema em compartilhar nada do que tenho, exceto aquilo que eu for obrigado a manter como segredo de família por força maior, com nenhuma de vocês, na medida em que vocês estiverem dispostas a compartilhar tudo o que puderem comigo e entre si."

Felizes com a disposição do menino, parte das garotas logo estava planejando a formação de uma biblioteca mais avançada e completa do que qualquer outra conhecida, enquanto outras começavam a traçar os objetivos dos diferentes 'departamentos' que criaram. Mas, aos poucos, os pequenos grupos foram se juntando e iniciando sessões de confissões pessoais a um nível de intimidade que uma garota só costuma demonstrar para sua melhor amiga e confidente.

Progressivamente o grupo foi compreendendo a real extensão do que expressões como 'não ter segredos para o grupo' e 'compartilhar tudo que puder', utilizadas no juramento que fizeram, realmente abrangia. A seu turno, cada uma sentiu na própria pele a urgência de se abrir com os demais sobre seus sonhos, temores e mais recônditos segredos. Escapara ao entendimento desse grupo, devido à excitação, uma lição aprendida a duras custas pelas gerações anteriores: juramentos mágicos eram severamente reforçados pela própria mágica dos participantes, forçando as partes a cumprirem suas obrigações com extremo rigor.

Por três dias consecutivos desculpas esfarrapadas foram dadas a pais apreensivos sobre o porquê suas filhas não retornavam logo para casa como haviam prometido. Choro e riso se alternavam continuamente, enquanto cada uma, a seu turno, fazia suas confissões e abria a alma frente a seus companheiros, forçados pelo juramento que fizeram.

Enquanto isso, a magia de cada um, altamente envolvida pelo juramento, fazia o que podia para unir ainda mais o grupo, criando um forte vínculo telepático entre todos. Normalmente juramentos mágicos eram feitos por uma única pessoa para outra única pessoa. Aqui, nesse caso, vinte e três pessoas se reuniram em um único juramento envolvendo todos igualmente, criando a mais forte ligação mágica em muitos séculos. Nem mesmo a formação da Távola Redonda reunira tantas pessoas, e nem mesmo a criação do Conselho Mágico, precursor do atual Wizengamot, unira tantas pessoas tão intimamente.

As conversas necessitavam de cada vez menos palavras sendo ditas explicitamente. Bastava que uma ideia surgisse na mente de um deles para que aquela pessoa imediatamente soubesse o que cada outro membro tinha em favor ou contra a ideia. O conhecimento de cada um se tornava aos poucos o conhecimento de todos; pouco importando quão avançado era ele apenas poucas horas atrás para os mais novos. Logo, em questão de minutos eles eram capazes de realizar o que antes custaria dias de discussão para alcançar.

Para todos os membros daquele grupo esses dias ficariam para sempre conhecidos como 'a grande fusão' e seria a experiência mais abarcante, emocional, plena e estressante de suas vidas, mas também a mais importante e modificante. E tudo por que aquele grupo decidira que cooperar era mais importante que competir; compartilhar era mais importante que possuir; e se preocupar pela felicidade do próximo era tão ou mais compensador quanto buscar a própria felicidade.