Capítulo 06 – Um Golpe Fatal


Foi somente depois de sete dias do ataque no Beco Diagonal que Alice voltou ao trabalho. Mas ainda estava o com o braço enfaixado e precisava ir ao St. Mungus pelo menos uma vez ao dia para trocar os curativos.

Charles Potter ainda estava inconsciente e, portanto, sem previsão para voltar.

Como medida emergencial Moody alterou a escala de todos os aurores. Havia sempre, no mínimo, cinco deles no Ministério. Se algum auror saía para atender um chamado, outro era tirado de seu merecido descanso e tinha que aparecer no quartel dos aurores imediatamente.

Edgar estava bastante aborrecido com esse ritmo puxado, principalmente porque lhe faltava tempo para cuidar de Emily que a cada dia sentia mais enjôos e tonturas.

- Deixa de ser manhoso Ed... – Lucy falou divertida para o amigo. – Quero ver quando nascer o bebê, vai ficar chorando porque não pode ir para casa ajudar a Emy a trocar as fraldas.

- Você brinca porque não sabe a angústia que é... – Ele falou jogando uma bolinha de papel na loirinha.

- Você podia sugerir ao Moody trocar de função aqui no Ministério com o Fabian... Que tal? Você trabalharia como Obliviador com a Emy e o Fabian seria um auror... Assim você sempre poderia socorrê-la a tempo se ela quisesse vomitar na cara de algum trouxa que está tendo a memória modificada.

Edgar jogou outra bolinha de papel que acertou a testa de Lucy.

- Sabe que não é uma má idéia? – Ele respondeu sorrindo abertamente. – Só que o seu dia vai ficar muito monótono sem ter ninguém pra chatear.

- Ah... O Dil pode me ajudar nisso... – Respondeu a loirinha apontando para um auror do outro lado da sala.

Diliring Horton apenas sorriu e entregou mais alguns papéis para Frank que estava sentado na mesa de Moody.

- Vocês dois podiam ajudar aqui... – Falou Frank com a voz cansada erguendo os olhos da pilha de papéis.

Tanto Lucy quanto Edgar fingiram não ter escutado. A loirinha transfigurou a bolinha que a acertara em um avião de papel e jogou-o em Edgar.

- Onde está a Lice? – Lucy perguntou de repente.

- Foi ao St. Mungus trocar os curativos.

- Vou convidar as meninas para almoçar no Ritz. – Lucy se levantou e jogou uma última bolinha de papel em Edgar.

- O Moody vai querer te matar se chegar aqui e perceber as duas aurores ausentes. – Falou Frank apontando a varinha para alguns pergaminhos que voaram para dentro de uma pasta em cima da mesa.

- Relaxa Frank, não está acontecendo nada... Aliás, não tem acontecido nada desde aquela aparição de Voldemort no Beco Diagonal...

- Ainda assim... – Frank murmurou mesmo sabendo que era uma batalha perdida tentar convencer Lucy do que quer que fosse.

- É só falar pra ele que eu fui atender a um chamado urgente.

- Chamado urgente?

- Sim, do meu estômago! – Falou ela piscando um olho e saindo da sala.


- E ela ainda acha que isso não é um namoro... – Alice revirou os olhos.

- Pois é. Diz que assim não se sente 'dependente' dele como ficaria se eles tivessem um relacionamento. Então eles simplesmente continuam se encontrando como se encontravam antes, mas quando acham que devem, ou sentem vontade, ficam juntos.

- Isso é moderno demais pra mim.

A ruiva sorriu e encarou o braço enfaixado da amiga.

- Mais uma ou duas trocas e já estará novo.

- Obrigada Lily. Eu até poderia trocar o curativo em casa, mas o Frank insistiu...

- E ele fez bem, é melhor que eu troque os curativos e monitore de perto. Você foi atingida por um feitiço muito poderoso! Mas como foi tratado a tempo não vai ficar nem cicatriz!

- Lily. – Chamou uma morena séria com uniforme branco abrindo a porta da enfermaria. – Tem uma coruja pra você, na recepção.

- Ah, obrigada Mirian.

A bruxa fechou a porta sem dizer mais nada. Era claro para Lily que ela estava bastante aborrecida por ter corujas entrando no hospital.

Alice acompanhou a amiga até o saguão de entrada e esperou que Lily desamarrasse o pergaminho da pata de Ayron e lesse o bilhete.

A ruiva sorriu enquanto massageava a cabeça da coruja e estendia o bilhete para Alice ler.

Lis querida,

Vamos almoçar no Ritz hoje. Encontre-me lá na frente às onze horas.
Isso não é um convite! (tenho certeza que você conseguirá remanejar seu horário de plantão).
Ah! É pra Lice ir também! (eu sei que ela está aí com você, Frank me contou).
Beijinhos, Lucy.

'Ripchip'

- Ripchip?

- A senha. – Lily respondeu simplesmente.

- Eu sei que é a senha. – Alice sorriu. – Só não sei 'o que é' Ripchip.

Lily e suas amigas tinham combinado que sempre que se encontrassem pessoalmente usariam a palavra de despedida como 'senha' para qualquer coruja que precisassem trocar. Era a maneira mais segura que encontraram de poderem confiar nos bilhetes que trocavam diariamente.

No último encontro de Lily e Lucy elas tinham falado sobre Nárnia, por isso a senha.

- Era o simpático ratinho falante de Nárnia. – Lily explicou e encarou o relógio do saguão de entrada. – Bem, pela hora acho que já podemos ir.

Lily deixou Alice ali na recepção por alguns minutos enquanto remanejava três funcionários de sua equipe de modo que pudesse sair para almoçar naquela hora.

Quando as duas chegaram ao Ritz, Lucy e Gwenda já as esperavam.

- Qual é o nome da planta que eu não consegui colher para salvar o Peter?

Lucy girou os olhos antes de responder.

- A Chuvinha Japonesa. – Respondeu arrancando de Alice um olhar carrancudo.

- Não falei assim dela! – Repreendeu a morena.

- Já temos certeza que a Alice é ela mesma. – Falou Gwen se referindo ao fato que Alice sempre defendia a 'chavindius japoendines'.

- Bem, vocês sabem que isso pra mim é pura perda de tempo! – Reclamou a loirinha. – Se eu não conseguir sentir a diferença entre uma amiga minha e um Comensal da Morte disfarçado, então não acho que eu a conheça muito bem.

- Você sabe que é necessário! – Respondeu Lily e antes que a loirinha fizesse alguma pergunta para conferir se era ela mesma, Lily falou. – Afriesh Littar queria se casar com você porque acreditava que você era a deusa do sol.

- Ok, aceito com prova de que é você mesma, ruiva. – A loirinha falou sorrindo. – É porque, sabe, eu não te conheço há séculos então não consigo perceber que esse brilho no seu olhar hoje significa que você e James devem ter entrado num acordo sobre ter ou não um bebê. Por isso preciso ficar fazendo perguntas sobre coisas que a gente viveu...

A ruiva girou os olhos e encarou Gwenda, só faltava ela 'passar' pelo teste.

- Qual foi a primeira foto que tiramos juntas?

- Foi no nosso primeiro Natal em Hogwarts quando a Lucy lançou aquele encantamento de neve no nosso dormitório.

- Certo. Então... Vamos almoçar?

As quatro entraram no Ritz e assim que se acomodaram e fizeram seus pedidos Alice perguntou:

- Então é verdade que você e o James entraram num acordo sobre o bebê?

Lily sorriu e olhou para Lucy.

- Gostaria de entender como é que você sabe. Nós decidimos hoje de manhã!

- É como eu disse: eu não te conheço nenhum pouco.

- Impressionante! – E virando-se para Alice completou. – Sim Lice, nós decidimos. James me convenceu de que é a melhor hora para termos um bebê e que podemos protegê-lo muito bem. Parece que não adianta deixar o tempo passar na esperança de que essa guerra acabe...

Lucy deu um gritinho de felicidade e abraçou a amiga.

- Eu vou ser ma-dri-nha!

- Sim... E essa empolgação? Parece que você nem é madrinha de metade dos casamentos do nosso grupo...

- Bem, eu deveria ser madrinha de todos, na verdade. Fiquei um pouco decepcionada em perder a chance de ser madrinha da Lice e da Gwen...

As duas morenas giraram os olhos e Alice falou:

- Você sabe que eu já prometi que você vai ser a madrinha do meu bebê. Então não reclame.

- É, e deixe um pouco pra nós também... – Gwen falou sorrindo levemente.

- Tudo bem, eu deixo um pouco... Então Lis você pretende programar sua gravidez, como se fosse uma daquelas suas fichas de organização de estudos para os NIEM's?

Lily mostrou língua para a amiga antes de responder.

- Sim, eu pretendo que tudo seja absolutamente programado.

- Lis, você sabe que para a sua 'programação' você tem que considerar um período de tempo para que o seu organismo desacostume com os métodos anticoncepcionais, não sabe?

- Sim Lice... Estou considerando isso. Eu parei de tomar a poção já faz um tempinho, sem que o James soubesse, claro.

- Então pelo que sabemos, você já pode estar grávida? – Lucy perguntou empolgada.

- Talvez, mas eu acho muito difícil... Acredito que mais um ou dois meses...

Gwenda segurou a mão da ruiva por cima da mesa e abriu um sorriso doce.

- É tão bom receber uma notícia dessas Lis. No meio dessa guerra, em meio a tanta coisa ruim que temos visto, saber de um nascimento, mesmo que sejam apenas planos por enquanto... Parece que renova nossas forças, sabia? Dá certo conforto pensar que podemos ter uma vida normal apesar de tudo.

- Foi exatamente esse o argumento que me convenceu. James me lembrava constantemente da promessa que fizemos em nosso último dia em Hogwarts, que faríamos de tudo para ter uma vida feliz, que aproveitaríamos cada dia como se fosse o último.

- É... – Falou Alice. – Às vezes o pavor das coisas que sabemos que está acontecendo faz a gente esquecer por um momento que temos nossas vidas para seguir. Isso é terrível!

- Seria ótimo ter um pouco de paz, pra variar. – Gwenda comentou com um sorriso triste.

- Mas temos que concordar que está tudo bem quieto ultimamente. Desde aquele ataque no Beco Diagonal não aconteceu mais nada.

- Tenho medo dessa tranqüilidade Lis. – Respondeu Gwen sentindo os pêlos da nuca se arrepiarem. – A gente fica na tensão, só 'esperando' o próximo golpe.

- Moody também acha bem pior quando fica assim, quieto demais. – Falou Alice. – Ele acha que as pessoas tendem a baixar o nível de vigilância quando se sentem um pouco 'seguras'.

Naquele momento o almoço foi servido e elas interromperam o assunto desagradável. Lily comentou com as amigas sobre o relacionamento 'moderno' entre Lucy e Sirius e a loirinha foi obrigada a explicar que as coisas não eram tão complicadas quanto Lily fazia parecer.

- Só não vamos morar juntos nem nada do tipo. E também não preciso ficar dando satisfações quando quiser 'sumir' por um tempo.

- Ainda assim. – Alice comentou. – Vocês formariam um lindo casal se resolvessem assumir de verdade.

A loirinha sorriu e apontou para Gwenda.

- Ela demorou séculos pra decidir firmar compromisso com o Fabian e ninguém achava ruim. Sirius e eu ainda estamos fazendo uma experiência e vocês já querem que a gente case?

- Vocês foram feitos um para o outro. Desde Hogwarts, a gente sempre achou isso.

- Vocês são malucas se acham isso. – Lucy comentou sem dar importância ao fato de que ela própria concordava com a Alice.

O almoço foi bastante rápido, pois tanto Lily quanto Lucy e Alice tinham pressa em voltar para o trabalho.

- Vamos marcar um almoço para o fim de semana? – Perguntou Lily à saída do Ritz.

- Se o Moody nos liberar... – Falou Lucy.

- Ele vai liberar, Lu. – Falou Alice. – Ele já está nos devendo um milhão de folgas.

- Na verdade, a culpa da falta de folga de vocês é mais do Voldemort do que do Moody. – Gwenda falou sorrindo.

- E então? – Lily perguntou já encarando o relógio. Tinha prometido no St. Mungus que não demoraria a voltar.

- Podíamos ir a Hogsmead. Estou com tantas saudades do povoado! – Sugeriu Gwenda.

- Ótima idéia! – Lucy deu um gritinho de felicidade. – Acho que a última vez que estivemos lá foi naquela vez do sorvete de bacalhau.

- Argh! – Alice fez uma careta. – Nem me lembre daquilo.

As quatro amigas concordaram que fariam de tudo para se reunirem no final de semana em Hogsmead e já estavam se despedindo quando escutaram o barulho característico de ataque de comensais nas proximidades.

Elas se olharam por um segundo e decidiram que era melhor irem ver o que era. Mas antes que pudessem sair correndo Lily gritou:

- Esperem!

As outras três a encararam surpresas. Lily estava com as duas mãos sobre o peito e ofegava pesadamente.

- Você está me assustando Lis. – Lucy murmurou.

Poucos segundos depois a ruiva segurou a mão de Gwenda que estava ao seu lado e encarou as amigas.

- Não podemos ir.

- O quê? – Alice perguntou estupefata. – Lis, é meu trabalho e da Lucy.

- Estou com aquela sensação ruim. Por favor, Moody pode mandar outros aurores.

Lucy e Alice se encararam e balançaram a cabeça negativamente.

- Ele mandaria mesmo, depois de nos matar! – Alice explicou.

- Alguma coisa muito ruim está pra acontecer! Vocês deviam acreditar em mim... – Lily choramingou.

- Alguma coisa muito ruim já está acontecendo, Lis. – Falou Lucy apontando para as pessoas que corriam enlouquecidas por ali. – E vai ficar pior se cruzarmos os braços e fingirmos que não podemos ajudar.

A ruiva virou repentinamente para Gwenda, ainda sem soltar a mão da amiga.

- Gwen, fica?

A morena se surpreendeu com a intensidade do pedido de Lily, mas ficou do lado de Lucy e Alice.

- Esses trouxas vão morrer se a gente continuar aqui conversando Lis. – A morena apertou de volta a mão da amiga. – Não estou fazendo pouco caso do seu pressentimento, juro, mas essas pessoas estão precisando da gente.

Lily se deu por vencida e respirou fundo tomando coragem antes de concordar com um aceno de cabeça. Elas empunharam suas varinhas e correram na direção contrária em que as pessoas vinham gritando.

Gwenda de longe lançou uma azaração no comensal que mantinha uma trouxa suspensa no ar e Alice amortizou a queda dela e levou a mulher para um lugar seguro.

- Petrificus Totallus. – Gritou Lily enquanto Lucy estuporava outros três comensais.

As duas começaram a duelar contra os comensais enquanto Gwen ajudava Alice a cuidar dos trouxas feridos.


Sirius e James almoçavam no próprio Ministério da Magia com Edgar e Frank quando Remus chegou.

- Oi Aluado. – James cumprimentou e arrastou uma cadeira para o amigo se sentar. – Você demorou então resolvemos te esperar aqui.

Remus cumprimentou os amigos, mas não sentou.

- Acabo de vir do quartel dos aurores, passei lá pra procurar vocês...

- O Moody já chegou?

- Sim, e está louco porque apenas o Horton estava lá. Parece que está acontecendo um ataque 'pesado' próximo ao Ritz...

Frank ficou em pé num pulo.

- Há quanto tempo?

- Acabou de começar. De acordo com aquela pirâmide dele, a Lucy e a Alice já estão lá.

Frank e Edgar desaparataram no mesmo instante para o local do ataque. James e Sirius passaram no escritório de Uso Impróprio da Magia para avisar que iriam pra lá como reforço e Remus foi com eles.


Voldemort fez sua segunda aparição em público em uma semana e dessa vez Lily duelava sozinha contra ele quando James chegou para ajudá-la.

Frank dava cobertura a James e Lily, mantendo alguns comensais afastados deles e Edgar duelava sozinho contra três comensais.

Como sempre, era grande a desproporção de bruxos lutando contra Voldemort e seus Comensais. Mesmo com a chegada de Alastor Moody e de Diliring Horton, os Comensais ainda tinham uma proporção de, pelo menos, dois para um.

Sirius, Remus e Lucy estavam ocupados lutando contra seis comensais quando a loirinha viu Gwenda, que ainda ajudava Alice com os feridos, ser estuporada e quase perder sua varinha.

Lucy lançou um 'rictusempra' num dos comensais com que lutava e correu para ajudar Gwen que era quem estava mais vulnerável. Conseguiu, de longe, bloquear o 'Cruciatus' que o comensal lançou na morena, mas quando se preparava para desarmá-lo foi impedida por outro comensal que lhe deu bastante trabalho.

Enquanto isso Gwen não conseguiu se livrar de outro Cruciatus e caiu no chão gritando de dor. O comensal da morte chegou bem perto ainda sem interromper a maldição, agachou ao lado dela e sussurrou.

- Sabia que fui eu que matei seus pais? Aqueles traidores do sangue se negaram a vir para o nosso lado. Dei a eles a chance de terem glória e poder com o Lord das Trevas, mas eles não quiseram. Preferiram morrer defendendo os trouxas a quem eles tinham tanto apreço.

Só então ele interrompeu a maldição e Gwenda respirou com dificuldade durante um tempo.

- A Eyelesbarrow já sabia. Sempre soube. Grande amiga, não? Faz alguns anos que aquela legilimente intrometida viu toda a cena, pensei que tivesse te contado...

A morena parecia ter sido golpeada com força, ficou imóvel, sua cabeça girando loucamente, não teve tempo de raciocinar o que estava prestes a acontecer. Lucy, que tinha percebido a inércia da amiga, gritou para que alguém a ajudasse e como ninguém pôde fazer nada ela se livrou do 'seu' comensal ao modo trouxa mesmo: deu um chute nele e enfiou a varinha pelo buraco da máscara. Ele caiu no chão gritando de dor e ela correu na direção de Gwen.

- Ela será a próxima a ter o mesmo fim que você vai ter hoje. Pettigrew irá nos entregar vocês, um por um. – O Comensal se afastou e gritou antes que Gwenda pudesse reagir. – Avada Kedavra.

- Estupefaça! – Gritou Lucy lançando o comensal para longe, mas já era tarde demais. Gwen encarou os olhos da amiga e abriu um sorriso triste antes de cair no chão, desfalecida.

Lucy deu um grito de dor como se ela própria tivesse sido atingida. Correu atrás do Comensal e levantou a varinha pronta para lançar qualquer uma das maldições imperdoáveis. Foi impedida por Edgar que a segurou quando percebeu a intenção dela.

- Não vale a pena. – Ele sussurrou e a abraçou forte.

- Ed... – Lucy chorou nos braços do amigo. – Me solta!

- Não.

- Me deixa acabar com ele! Eu preciso...

O garoto afrouxou um pouco o abraço, mas não a soltou. Carregou a loirinha até onde Gwenda estava caída e lançou uma barreira de proteção em torno das duas.

Depois de alguns segundos, Lucy caiu em si e percebeu que além dela e de Edgar mais ninguém tinha notado o que acontecera. Tentou gritar para chamar a atenção de Lily ou de Alice, mas ambas estavam bastante ocupadas. Tentou correr até os amigos, mas o escudo de Edgar a mantinha ali, quieta, isolada, protegida.

Quando percebeu que não havia nada que pudesse fazer, a loirinha sentou no chão ao lado do corpo da amiga e começou a chorar.

Aos poucos os comensais começaram a desaparatar e até Voldemort já tinha desaparecido. Só então os outros perceberam a loirinha ali, sentada, chorando compulsivamente e Gwen caída ao lado dela.

- Lucy... – Remus se ajoelhou ao lado da amiga que ainda estava em choque.

Lily também ajoelhou ao lado dela e empurrou uma pedra em suas mãos.

- Portus. – Murmurou e o objeto emitiu um leve brilho azulado.


Lucy abriu os olhos devagar, olhou à sua volta e percebeu Lily sentada na beirada da cama com a cabeça apoiada nos ombros de James que mexia no cabelo da esposa. Ambos estavam com os olhos vermelhos e pareciam ter chorado bastante.

De repente Lucy entendeu o porquê e sentiu seu coração diminuir dentro do peito.

Lembrou de tudo o que tinha acontecido com Gwen, mas não lembrava como tinha ido parar na casa de Lily. Deve ter feito algum movimento brusco porque a ruiva percebeu que a amiga já tinha acordado.

- Lucy... – A ruiva pulou no pescoço da amiga e elas ficaram assim, abraçadas, chorando.

James levantou da cama o mais silenciosamente que pôde e desceu para a sala.

- Ela acordou? – Sirius perguntou levantando do sofá.

- Sim. Achei melhor deixar as duas sozinhas.

Sirius assentiu.

- Alice ainda está em choque, não fala nada só chora. – Falou Remus voltando do outro quarto. – Edgar, o que exatamente aconteceu?

Edgar, que estava até então muito quieto num canto, falou com a voz um pouco rouca.

- Eu não sei bem. Estava lutando contra três comensais quando percebi que a Lucy estava duelando sozinha, mas ela estava diferente.

- Como assim 'diferente'? – Perguntou Sirius parecendo levemente incomodado.

- Nós trabalhamos juntos, você sabe. Eu estou acostumado a vê-la lutar e se livrar de comensais com bastante facilidade. Mas ela estava tendo trabalho demais com um único comensal. Foi aí que eu percebi um brilho de medo nos olhos dela e isso não fez sentido pra mim.

- Ela estava com medo do comensal? – Perguntou James.

- Não. Medo do que estava acontecendo. Eu só entendi quando a vi enfiar a varinha no buraco da máscara dele e correr atrás de outro comensal que tinha acertado a Gwen. Entendi o que ela iria fazer e não podia deixar. Por isso eu corri atrás dela e a levei para longe da luta.

Sirius levantou do sofá e andou de um lado para o outro da sala. Não gostava da idéia de Edgar percebendo o que quer que fosse nos olhos da loirinha.

Edgar logo voltou a falar.

- Se eu a deixasse se vingar ela não se perdoaria nunca. A Lucy é impulsiva, queria agir guiada pelo o que estava sentindo na hora, mas depois com certeza passaria dias se martirizando por ter matado alguém...

- Um comensal da morte não merece a piedade de ninguém.

- Era o Malfoy, a máscara dele caiu quando a Lucy o estuporou. – Edgar afirmou.

Remus sorriu desdenhoso.

- Então ela não se arrependeria, pode ter certeza.

- Narcisa Malfoy está grávida. – Edgar continuou expondo o que ele sabia que seria o ponto de vista de Lucy quando ela superasse o choque. – Eu tenho certeza que a Lucy se sentiria mal por isso. Mesmo sendo quem é... Ela iria preferir que o Malfoy fosse preso, não morto. Mas quando eu voltei para pegá-lo ele já tinha desaparatado.

Sirius suspirou, sabia que Edgar provavelmente tinha razão.

- Alguém tem que avisar o Fabian... – Ele falou evitando olhar na direção de Remus que parecia extremamente abatido.

- Se é que ele ainda não sabe... – Remus comentou se jogando no sofá ao lado de James.

Edgar se prontificou a ir até o Ministério procurar Fabian, já aproveitaria para avisar Moody que nem Alice, nem Lucy estariam em condições de aparecer por lá.


A tristeza que caiu sobre os amigos de Gwenda nos dias seguintes foi tão intensa que parecia para eles que a guerra tinha enfim terminado. Era como se com aquele golpe tão próximo a eles, Voldemort minasse todas as suas forças, toda sua resistência, toda sua vontade de lutar.

Alice era, de longe, quem estava mais abalada. Desde o acontecido não comia quase nada e falava pouco, deixando Frank a cada minuto mais preocupado.

A cerimônia de despedida de Gwenda foi rápida, mas ainda assim Alice não conseguiu ficar até o final e Frank levou a esposa para casa para descansar um pouco.

Lily, de todas as meninas, era quem estava em mais condições de apoiar os amigos nesse momento de tanta dor, provavelmente porque Alice tinha Gwen como uma irmã e porque Lucy tinha visto tudo acontecer. Depois do enterro levou Lucy para sua casa e os marotos também resolveram ir para lá.

- Eu não consigo me conformar, Lis. – Lucy falou num fio de voz enquanto a ruiva lhe servia uma xícara de chá de camomila bem forte e quente. – Ela olhou no fundo dos meus olhos como se pretendesse me falar alguma coisa, ou como se quisesse que eu visse dentro daquele azul profundo algo que ela não podia falar... Eu nunca vi tanta tristeza, tanto medo e tanta angústia refletidos num único olhar. Ainda assim eu não pude enxergar nada. Nada.

Lily estendeu os braços sobre a mesa e segurou a mão de Lucy entre as suas.

A loirinha sorriu com o calor que emanava das mãos da amiga e sentiu seu coração aquecer um pouco.

- Estamos juntas, sempre. Lembra?

- Eu não sei se agüentaria se acontecesse com mais alguém, Lis.

- Não vai acontecer. Vamos evitar que aconteça.

Lucy sorriu para amiga e nesse momento os marotos entraram na cozinha. Sirius sentou ao lado da loirinha enlaçando-a pela cintura e ela percebeu que Remus estava bastante abatido.

- Ela está num lugar melhor do que nós. – Falou ele percebendo o olhar de Lucy. – Na verdade ela está muito melhor do que a gente à mercê dessa guerra horrível...

- Sim, você tem razão... – Lucy falou abrindo um sorriso triste.

Ela se esforçou para não deixar que mais lágrimas voltassem a rolar pelo seu rosto.

- Espero que a Lice consiga melhorar logo. – Lily comentou preocupada e James abraçou a esposa.

- Nós vamos ajudá-la a superar.


Remus deixou os amigos no início da noite, aparatando na esquina da casa de Marlene. A morena tinha conseguido licença apenas no início da manhã para acompanhar o funeral de Gwen, mas teve que voltar ao Ministério no período da tarde e àquela hora devia ter recém chegado em casa.

Remus nem precisou tocar a campainha, Marlene abriu a porta da frente assim que ele cruzou o jardim de margaridas que contornava o caminho até a casa.

- Olá. – Ela o recebeu com um beijo demorado.

- Como sabia que eu estava chegando?

- Drouet me contou. – Ela apontou para um sapo parado na porta de entrada.

Remus cumprimentou o sapo com um afago na cabeça fazendo Marlene rir.

- Ele não é um cachorro Remus...

- E como eu devo cumprimentar um sapo?

- Dando um beijo pra ver se ele é encantado.

O sapo coaxou e Marlene riu.

- Parece que ele não gostaria de um beijo seu...

- Isso é ótimo! – Remus suspirou aliviado e puxou a namorada pela mão para dentro de casa.

Marlene ofereceu uma bebida quente para Remus, mas ele não aceitou dizendo que Lily já o tinha entupido de chás durante toda a tarde.

- Você está melhor? – Ela perguntou deitando com a cabeça no colo do namorado.

- Um pouco. – Remus respondeu pensativo passando de leve os dedos pelo cabelo da morena. – Vou superar... Acontece que eu não esperava um golpe desses tão perto de nós... E a Gwen... Bem, ela era a melhor aluna de DCAT...

- Eu também não entendo. – Marlene suspirou. – Pensei nisso durante o dia e simplesmente não faz sentido. A não ser que o comensal tenha conseguido confundi-la de alguma forma... Ou falado alguma coisa que embaralhou a mente dela...

- A Lucy diz que o viu falando alguma coisa. Mas ela teve muito trabalho para se livrar do comensal com que lutava então não entendeu nada do que estava acontecendo.

Os dois ficaram em silêncio durante algum tempo.

- Nem três semanas de casamento... – Marlene murmurou ainda encarando o teto. – O Fabian deve estar péssimo.

- Ele está mesmo... – Remus confirmou. – Sumiu depois do funeral e nem Gidean sabe onde ele se meteu.

- Deve só estar querendo ficar um pouco sozinho... É normal um pouco de isolamento nesses casos.

- Sim... – Remus concordou distraído. Ele próprio pensando que talvez fosse sentir a falta de Gwenda muito mais do que gostaria de admitir.


Alice ainda demorou bastante para se recuperar do choque da perda de sua melhor amiga. Falava pouco e chorava muito. Sentia tonturas freqüentemente e vomitava tudo o que tentava comer nos últimos dias.

- Fiz uma sopa pra você, Lice. – Falou Lily entrando no quarto da amiga com uma tigela de sopa fumegante.

A ruiva estava praticamente morando na casa de Alice e Frank. Tinha conseguido licença de meio período durante alguns dias no St. Mungus para poder cuidar da amiga em casa.

Lucy tentara o mesmo pedido no quartel general para que Lily não se sentisse sobrecarregada, mas não teve tanta sorte assim com Moody. Ele estava a cada dia mais paranóico e, com a nova licença de Alice e a falta de melhora no quadro de Charles Potter, as horas de trabalho dos outros aurores tiveram que sofrer mais aumentos significativos. Isso incluía Frank que passava agora mais tempo no Ministério do que com a esposa.

Por isso Lily era quem ficava mais tempo cuidando da morena e já tinha percebido algumas coisas curiosas na falta de melhora de Alice.

- Lis, eu não quero comer nada. Me desculpe, mas... Só de sentir o cheiro dos legumes já me sinto enjoada.

Lily pousou a tigela na bandeja ao lado da cama e sorriu para a amiga.

- Eu sabia que diria isso, então preparei uma poção poderosa pra você. – Falou Lily balançando um pequeno frasco nas mãos.

Conjurou um copo com um movimento da varinha e despejou o líquido dentro.

- Bebe, vai te fazer bem.

Alice pegou o copo com as mãos trêmulas. Estava bastante fraca por causa de seus freqüentes enjôos. Bebeu todo o líquido que tinha um leve aroma de baunilha.

O efeito da poção foi instantâneo, porque Alice mal pousara o copo em cima da bandeja, já a puxou para mais perto de si e começou a comer a sopa.

- Nem acredito! Está deliciosa, Lis. – A morena falou sorrindo. – Obrigada.

Lily também sorriu e ficou ali sentada na beirada da cama da amiga esperando-a terminar antes de fazer um pedido curioso.

- Você quer um fio de cabelo meu? Está pensando em ir trabalhar no meu lugar para fazer o Moody parar de mandar aquelas corujas pavorosas perguntando se eu já estou bem?

As duas gargalharam.

- Na verdade seria uma idéia muito boa. Mas eu preciso confirmar uma suspeita... – Falou Lily tirando outro frasco transparente do bolso de sua capa.

Alice puxou um fio de cabelo e entregou para Lily enquanto a outra mão massageava levemente o couro cabeludo.

Lily colocou o fio de cabelo da amiga dentro do frasco e, num segundo, a poção passou de verde água para um vermelho muito intenso.

A ruiva abriu um sorriso enorme enquanto colocava o vidrinho em cima do criado mudo.

- Posso saber o que significa? – Alice perguntou sem conter sua curiosidade.

- Pode... Na verdade não sei como te contar, mas... – Lily fez uma pausa escolhendo bem as palavras. Como não conseguiu, falou tudo do jeito mais simples que conhecia. – Lice, você está grávida.

- Estou o que? – A morena se ajeitou melhor na cama encarando os olhos de Lily.

- Você está grávida! Suspeitei dos seus sintomas insistentes de enjôo e tontura, por isso preparei essa poção hoje cedo. – Lily ficou em silêncio durante um tempo antes de perguntar receosa. – Você está feliz?

Alice levantou os olhos para a amiga. Estava chorando. Mas Lily logo percebeu que não eram as mesmas lágrimas que via nos olhos da amiga nos últimos dias.

- Lis... É claro que eu estou feliz! Por Merlin! Isso é maravilhoso! O Frank vai adorar!

- Claro que vai. – Lily acompanhou o riso da amiga, mas logo ficou séria novamente. – Lice, como amiga e medi-bruxa eu tenho que te pedir que tire uma licença do seu trabalho durante a gestação. Você sofreu um choque muito forte, talvez seja perigoso para o bebê se você continuar se arriscando tanto.

- Você está louca? – Alice perguntou desmanchando o sorriso. – Agora sim que eu tenho que lutar Lis. Agora eu preciso mais do que nunca limpar esse mundo dessa gente cruel para que o meu filho possa desfrutar de alguma paz!

Nesse momento Frank chegou em casa e entrou no quarto sorrindo de orelha a orelha.

- Meu amor, adivinha o que eu comprei pra você? – Perguntou ele agitando uma pequena sacola de papelão nas mãos. – Bolo de nozes que você tanto gosta!

Alice encarou Lily, colocou as mãos na boca e correu para o banheiro.


N/a:

Ain... Alice gravidinha!!! Que lindo!!! *-*

E aqui se encerra a participação da Gwen em NLR... Tristeza para alguns, felicidade para outros... Fala sério... Eu sei que tinha MUITA gente esperando esse acontecimento desde aquela discussão dela com a Lucy quando a loirinha voltou de Nárnia... Eu era uma dessas pessoas... ¬¬ Mas devo confessar que até perdoei a Gwen com o passar do tempo e não queria precisar matá-la, mas... /suspiro/

Por falar em 'matar'... Próximo capítulo nós veremos mais duas mortes... O negócio está ficando acelerado por aqui... huahuahsuhaushuahsua Quem vocês acham que serão minhas próximas vítimas? Dica: um (a) é auror e o (a) outro (a) é comensal.

Beijos para Yuufu, 1 Lily Evans, Rose Anne Samartinne, Caroline Evans Potter e Lolah Lupin (que bom que gostou, flor! Mas não posso prometer nada... rsrsrs).

Como já estou de férias da faculdade o próximo capítulo vem logo, logo... Na verdade, só depende de vocês... =)

Luci E. Potter.