N/A: Em primeiro lugar, eu gostaria de agraceder a todos os reviews que venho recebendo por esta fanfic. Fico muito feliz em saber que ela está agradando. Em segundo lugar, gostaria de pedir desculpas pela demora na postagem de novos capítulos, tive vários problemas que me tiraram completamente a vontade de escrever, todas as minhas estórias ficaram completamente paradas duránte meses, mas agora, parece que os problemas estão dando um tempo e minha cabecinha está entrando dos eixos. Isso é tudo, leiam o capítulo seis de Além dos Olhos de Prata e fiquem ligados, assim que eu terminar de escrever o capítulo oito, estarei postando o sete. Grata.


CAPÍTULO SEIS Das lembranças do passado aos planos para o futuro

Todas as meninas pararam o que estavam fazendo no mesmo momento em que dois homens se fizeram presentes. Um deles era o estranho de preto, e o outro possuía cabelos claros praticamente brancos, em contraste com o rosto de feições jovens. E ele tinha reluzentes olhos prateados. Elas estavam no pátio treinando com suas espadas de madeira.

"Srta. Irene, por favor, queira se aproximar," chamou o homem de negro.

Uma garotinha de longos cabelos brancos, demasiadamente lisos que iam até a cintura se aproximou. Ela não parecia intimidada como as outras. O homem de cabelos claros se ajoelhou de modo a nivelar seu olhar com o dela. Ele afastou os cabelos do rosto dela e os colocou atrás da orelha comprida e pontiaguda. A menina levou a mão até a orelha a mostra. E o homem sorriu.

"Os resultados estão sendo satisfatórios?" O homem perguntou virando-se de leve para o de preto.

"Ainda é cedo para sabermos, ela acabou de receber a carne e o sangue de um youma," respondeu.

A menina tocou no rosto do homem ao lado do olho esquerdo e em seguida tocou delicadamente os cabelos dele.

"É claro como o daquelas guerreiras, e seus olhos são prateados e brilhantes. Homens não deveriam ser assim. Foi o que nos ensinaram."

O homem sorriu novamente. "E você está certa, mas eu sou um ser inexplicável"

A menina virou de costas e caminhou de volta ao lugar onde estava. "Há uma explicação para tudo, só porque não sabemos, não quer dizer que a resposta não exista."

Apesar da pequena tão branca que parecia brilhar, os olhos dele se fixaram numa outra menina, cujos cabelos continham várias mechas negras entre os fios loiros claros. Ela tinha recebido há poucas luas a carne e o sangue de um youma. O olhar dela brilhava na direção do estranho de olhos prateados, brilhava com a mesma curiosidade que os olhos dele apresentavam.

Naquela noite Teresa saiu de fininho da casa das moças e caminhou pé ante pé até o limite das terras da organização. Tinha certeza que daquela vez chegaria bem mais longe. Imaginou a bronca que levaria. Bem, aquilo apenas deixaria tudo bem mais divertido. Quanto tempo aqueles idiotas levariam para perceber o seu sumiço. Tinha sido um pouco mais cautelosa ao sair da casa, mas sabia que em se tratando dela, eles vinham mantendo os olhos apertados, e vários instrutores estavam loucos para dar-lhe boas lições. Riria da cara deles quando eles a pegassem na cidade pela manhã.

Estava no meio do caminho quando sentiu uma presença, um youki. Tinha recebido há pouco a carne de um daqueles bichos nojentos, mas já estava se familiarizando com as técnicas básicas e aprendendo a diferenciar os youkis que sentia. Não era nada muito grande. E estava perto, pelo jeito seria um Youma fraco com o qual ela poderia lidar. Deu uma risadinha. Matar um youma seria bem mais divertido do que fugir dos palhaços da Organização. Correu na direção do Youma, mas ele pareceu não percebê-la, ou estava ignorando-a. Teresa não suportava ser ignorada.

"Hei, seu imbecil! Qual é o seu problema, eu estou bem aqui." Ela praticamente gritou.

O Youma olhou para ela com desdém. "Não enche, baixinha. Eu não tenho tempo pra brincar com você."

Outra coisa que Teresa não suportava era quando as pessoas faziam graça de sua altura. Sem pensar, ela pegou uma pedra do tamanho de sua mão e atirou contra a cabeça do Youma. Viu-a afundar até a metade no crânio. Teresa arqueou o semblante, não tinha mais noção da força que possuía. As coisas simplesmente saiam voando de suas mãos e quando ela se dava conta, o estrago era grande.

O Youma virou para ela lentamente e Teresa correu para atirar-se em cima dele. Em seguida ele estava no chão com a garota batendo a cabeça dele chão com força suficiente para que a pedra afundasse completamente no crânio. "Isso vai ensiná-lo a me chamar de baixinha."

Ela levantou e mirou as mãos. "Ótimo, agora minhas mãos estão imundas, eu juro que se você não estivesse morto..."

Ela foi interrompida pelo som de palmas. Os olhos fitaram um homem de cabelos claros que reluziam ao luar. Era o homem que interrompera as lições mais cedo.

"Ora, ora, você se virou melhor do que eu imaginei. Você derrotou o youma e num instante pareceu como se você já fizesse isso há um tempo. Você avançou contra ele como se fosse nada e atingiu o crânio no chão de modo que ele nem sentiu. Claro que a pedra ajudou e não foi nada elegante..."

"Do que você está falando, seu estranho? Aparece do nada e começa a falar um monte de besteira. Quem é você?"

Ele estava sentado num pedaço caído de tronco com as pernas cruzadas e a fitou com uma expressão enigimática. "Que estranho... Você não parece nada assustada, e alias, parece querer me intimidar."

De repente, Teresa sentiu seu corpo ser forçado contra o chão e ela caiu de joelhos, incapaz de levantar. "Mas como pode ver, isso é tolice, pois sou obviamente muito mais forte que você e suas halidades mal começaram a se desenvolver."

Ele a soltou e começou a falar enquanto caminhava em volta dela com as mãos para trás, olhando-a de cima. "Pensei que a organização fosse clara quanto a novatas andando por aí a noite."

Teresa olhou diretamente nos olhos dele, e deu de ombros. "Eu não dou a mínima para o que eles dizem. Eu faço o que quero e eles não podem fazer merda nenhuma comigo!"

Ele soltou uma risadinha. "Você é uma pequena muito brava. Posso esperar grandes coisas vindas de você, basta ter o treinamento certo."

Neste momento os dois ouviram passos. Teresa suspirou. "Eles vieram mais rápido dessa vez..."

Um homem vestido de preto veio até ela e disse: "Sua fedelha, eu já lhe disse várias vezes para não sair mais da casa sem permissão, você sabe que é proibido sair a noite. Espero que eles me deixem te bater dessa vez."

Ele a pegou pelo braço e começou a puxá-la na direção da casa das moças.

"Com licença, mas aonde você pensa que está levando-a?" O homem de cabelos claros perguntou.

"Não é da sua conta," ele respondeu rudemente e moveu-se para caminhar, mas deu de cara com o homem. Teresa olhou para o ponto onde ele estava, ele tinha se movido tão rápido que ela nem pôde ver.

"Agora eu vou matá-lo," ele desembainhou uma espada e tentou atingí-lo, mas só encontrou ar. Ele olhou freneticamente por todos os lados, Teresa fez o mesmo e antes que qualquer um dos dois pudesse realizar o que estava acontecendo o instrutor da Organização foi atingido por um soco no estômago que o forçou a soltar Teresa e cair de costas no chão.

"Pequena, eu lhe darei duas escolhas," o homem disse ao virar-se para ela. "Você pode vir comigo e eu posso treiná-la para ser tão forte quanto eu ou..." Ele apontou para o outro sujeito que se contorcia de dor no chão. "Ou você pode voltar com ele para a organização."

Teresa olhou para ele, chocada, ela podia sentir o poder oscilando por ele, não era qualquer tipo de youki, era puramente poder. Ela poderia ser tão poderosa? "Está bem. Eu vou com você, mas eu poderei voltar?" Ela perguntou.

Ele olhou para o homem mais uma vez e disse: "Eu levarei esta aqui por dois anos e então eu a devolverei para que a Organização conclua o treinamento dela. Eles sabem quem sou." Ele se virou e começou a caminhar com Teresa ao seu lado.

Sentado numa larga pedra, na parte mais íngrime daquele lado da encosta, Uwaine assistia o movimento da vila ao pé da montanha, dali, as pessoas caminhando na praça tinham o tamanho de insetos. Gostava de sua montanha e de sua vila, era o único lugar que sentia que era seu, onde tinha sossego e não era importunado pelos ratos da organização. Apesar que ele imaginava que era hora de voltar. Eles tinham conseguido criar uma guerreira a altura de Teresa. E imaginava qual tinha sido o tipo de treinamento que ele tinha dado a essa garota, pois como ele sempre dissera, criar uma guerreira forte não tinha nada a ver com o youma dentro dela, mas se relacionava com o treinamento e os estímulos que ela recebia. Uwaine soubera como estimular Teresa. Claro que ela já tinha o potencial dentro de si.

"E então, Uwaine, o que achou da garota?" Perguntou Rimuto assim que o rapaz de cabelos claros adentrou a caverna.

"Ela é impressionante. Tem a mente ágil! Porém não será como as outras. O Youki dela é diferente. Apesar de ainda muito fraco, é diferente das outras novatas." Uwaine respondeu com calma, olhando um a um os chefões da organização. "Agora digam, onde encontraram uma criança branca?"

"Uma guerreira a encontrou no vale de Rokut durante uma caçada a um Youma e a trouxe imediatamente a nós."

"Sempre pensei que os Brancos fossem lenda..."

"Todos nós sempre pensamos isso, mas aí está a menina Irene para provar que estamos errados," disse um outro encapuzado.

Não importava quem lhe falasse, para Uwaine eram todos iguais.

"E a menina disse como foi parar em Rokut?"

"Ela não lembra de nada até encontrar-se com a guerreira."

"Muito conveniente..."

"O que quer dizer com isso Uwaine?"

"Nada, apenas conjecturas sem muito sentido. O que esperam fazer com a criança?"

"Tudo dependerá do potencial dela. Valkiria nos disse que ela terá força suficiente para combater um despertado. "

"Honestamente, Rimuto, sem querer colocar minhas habilidades acima das de Valkiria, mas não creio que este será o poder da criança."

" Hum... E o que você acha que será, Uwaine?"

"Como disseram-me, ela acabou de receber a carne e o sangue de um Youma e nem humana é. Valkiria foi precipitada e é impossível predizer qualquer coisa a esse respeito. A Criança será uma mulher poderosa, mas não do jeito que esperam."

Os homens nada disseram, conheciam o poder de Uwaine e sabiam que outrora ele tinha sido o olho da Organização e estavam conscientes da extensão de seu poder. Não o contrariariam só por que uma guerreira da qual se gabavam tinha dito isso ou aquilo.

"Por hora é só, Uwaine—"

"Eu gostaria de saber sobre a garota que acabou de receber a carne e o sangue de um youma que estava no treinamento desta tarde."

"Todas elas são novatas, Uwaine, seja mais específico."

"A com o cabelo comprido e cacheado, que ainda está manchado."

"Teresa?!" Um dos homens pareceu bastante surpreso. "O que quer saber dela? A garota não passa de uma causadora de problemas... Duvidamos que ela sobreviva ao treinamento."

Causadora de problemas, aquilo chamou a atenção de Uwaine.

"Mesmo assim gostaria de ter com ela."

"Por que? Viu algo de especial na garota?"

O olhar de Rimuto fez Uwaine perceber que estava captando algo a mais em suas intenções. Como se ele se importasse com o que eles percbessem...

"Talvez, não tenho certeza." O fato era: ele tinha visto algo de especial na garota e queria saber o que era.

"Sinto muito, Uwaine. Teresa já possui idéias e temperamento demais. Uma conversa com você não fará bem a garota."

Estranho... Ele pensou. Normalmente quando Uwaine via algo de especial em alguma novata, eles permitiam que ele a visse e explorasse suas hipóteses, mas eles não queriam que ele se encontrasse com ela.

"Hum..." Ele resmungou, fazendo Rimuto arquear o semblante.

"Uwaine, suas ordens permanecem. Você continua proibido de encontrar qualquer guerreira até próxima ordem. Orsay lhe entregará suas pílulas. Está dispensado para voltar para a montanha onde vive."

Uwaine deu de ombros. "Como quiser."

"Uwaine... Obedeça as ordens. Apesar de tudo, eu não gostaria de me desfazer de você." Rimuto disse num tom de alerta.

Como se qualquer umas dessas guerreiras pudesse contra mim... Ele pensou e riu. Tudo bem, deixasse-os pensar que ele estava nas mão deles.

"Está bem, Rimuto, está bem... Não interromperei a rotina de qualquer guerreira." Disse e partiu.

Suas lembranças foram interrompidas pelas aura suave de Teresa. Ela estava logo atrás dele. Virou-se e viu-a usando o vestido marrom que adquirira para ela. Aquela fora a primeira vez em que ele a notou vestida com toda a maturidade que adquirira através dos anos. Até o dia anterior era apenas a sua pequena. Como não envelhecia, por vezes esquecia que as crianças cresciam, os adultos se tornavam velhos... Ainda há pouco tempo supreendera-se ao encontrar seu amigo Sean com a barba e os cabelos totalmente grisalhos. E lá estava Teresa, não mais aquela garota pequena que se lembrara. Era tolice sua, mas sempre esperava encontrar a garota, no máximo uma garota crescida e não uma mulher de porte altivo e o olhar carregado de memórias.

Piscou algumas vezes e confessou: "Você vai rir de mim, mas só hoje eu me toquei do quanto você cresceu."

E ela riu. Aquilo era um bom sinal. Ela estava mais calma.

"Está certo que eu mudei um bocado desde nosso último encontro em Rabona, mas eu já estava com vinte anos. O que esperava?"

"Honestamente, eu faço idéia."

Indicou com a mão que se sentasse ao seu lado. Teresa sorriu. Lá estavam eles sentados com as pernas balançando. Ela inclinou o corpo para frente e viu a altura a que estavam suspensos.

"É uma queda..." Ela concluiu.

"A gente sobrevive."

Um longo momento de silêncio e ele perguntou: "Como você está se sentindo?"

"Melhor..." Ela respondeu um tanto a contragosto. "Você tinha razão, mais um dia de descanço me fizeram bem.

Ele sorriu sinceramente para ela.

"Fico feliz... Que você esteja melhor. Fiquei assustado em te ver naquele estado."

"É o resultado de ver a futura número 1 despertar..."

"Mas pelo jeito nem despertada ela é páreo para você!"

Teresa olhou para ele de cenho franzido. "Não se gabe tanto assim. Eu não sei o que aconteceu, mas tive a certeza de que morreria nas mãos dela. Faltou tão pouco para ela me matar, não consigo imaginar motivo para ela não tê-lo feito."

"Hum... É um despertado a mais rastejando por essa terra, não importa... A Organização que dê um jeito nela."

Eles iriam criar outra com o mesmo potencial da que quase destruíra Teresa, aquilo era um fato que merecia preocupação.

"Não é tão simples, Uwaine. Ela tem o poder de um abissal. Eu e Irene devíamos tê-la destruído quando tivemos a chance."

"O que você acha que pode acontecer?" Ele já tinha suas idéias a respeito dessa despertada, mas não lhe custava nada ouvir o parecer de Teresa, mostraria a ela que se importava com sua opinião ao contrário dos porcos da Organização.

"Não sei... Temo que os abissais tomem conhecimento disso e voltem a se movimentar. A garota não está bem da cabeça... E eles não são idiotas. Darão um jeito de tirar vantagem disso. E depois... Só os Deuses sabem."

"Nos preocuparemos com isso quando for necessário. Nem que eu tenha que tirar o pó de minha espada."

Teresa sorriu. "Isso é algo que eu gostaria de ver."

"Bem, o que pretende fazer agora?"

Teresa encolheu os ombros. "Preciso encontrar uma pessoa e depois decidirei o que fazer. Talvez encontrar algum lugar para viver em paz, ou deixar o continente, já que não terei sossego se a Organização sabe que estou viva."

Uwaine não ficou muito satisfeito com as opções de futuro propostas pelas guerreira.

"Encontre essa pessoa e depois volte para cá. Você não precisa deixar o continente para ter sossego. Você pode viver tranquilamente suprimindo seu youki."

Teresa tocou de leve na mão dele. "Você não precisa se preocupar, depois de tanto tempo eu já vinha vislumbrando uma retirada silenciosa da Organização. E até ontem, eu nem fazia idéia que você estaria aqui para me acolher."

"Hum... Eu já estava planejando ir atrás de você." Teresa levantou as sobrancelhas "Rubel tende a falar demais e deixou escapar que você já estava dando trabalho."

"Ainda assim, eu verei o que fazer..."

Eles ficaram em silêncio e as mãos ainda se tocavam.

"Eu posso ir com você procurar essa pessoa..."

Teresa suspirou. Clare era seu ponto fraco. Seu coração já estava despedaçado só de pensar no que poderia ter acontecido a garota nesse tempo em que estivera se recuperando. Não gostava nenhum pouco da idéia de Clare próximo a ele. Não que ele fosse causar algum mal à criança, mas ele era louco o bastante para usá-la para atingir Teresa caso quisesse.

"Não... Eu farei isso sozinha."

"Deve ser uma pessoa bem especial para ter-te feito atirar o livro de regras longe."

Teresa não respondeu, apenas abaixou os olhos. Uwaine ficou imaginando quem seria essa pessoa que Teresa teimava em não dizer-lhe quem é. Será que tinha encontrado um homem que suportava as terríveis marcas que os meio-youmas carregavam pelo corpo e se apaixonou por ele? Que os Deuses permitissem que não. Seria uma grande decepção saber que ela estaria abrindo mão de tudo por algo tão pequeno. Talvez fosse uma outra guerreira, uma desertora, quem sabia. Milhares de opções saltavam em sua mente, mas nenhuma o convencia. Provavelmente não se tratava de um interesse prático, como ir contra a organização. Se fosse, ela o contaria. Era algo sentimental. Teresa tinha encontrado o amor verdadeiro em alguém. Ele mesmo em vários momentos de sua vida se apaixonara completamente por mulheres e homens que lhe ofereceram o carinho e mostraram não se importar com suas origens.

"Eu tenho que ir." Ela disse puxando-o de seus pensamentos e se levantou.

Uwaine assistiu ela se afastar. Não conseguiria convencê-la a ficar por mais tempo. Claro que se quisesse poderia força-la, como sempre fazia quando precisava algo dela. Mas exigiria demais, seria lutar com toda a força de vontade que ela possuía. Era melhor deixá-la ir atrás da tal pessoa e viver o amor que lhe fora oferecido. Teresa voltaria. Ela sempre voltava. E se não fosse com suas próprias pernas, o destino a traria para ele de novo.

Teresa passara a tarde desmontando a armadura de seu uniforme a fim de retirar o que era útil. A malha fora para o lixo. Continuaria usando as botas, eram confortáveis e principalmente resistentes, continuaria usando-as por muito tempo. Poderia continuar usando as luvas e os bracelhetes, assim como as ombreiras. Porém, estes apenas quando houvesse necessidade. No momento queria apenas a bainha da espada. E precisava pensar num meio de disfarçá-la. Não era como esconder seus cabelo claros e seus olhos prateados sob um véu. Uma espada daquele tamanho causaria muitas perguntas e não podia se dar ao luxo de respondê-las. Se qualquer guerreira soubesse de sua existência seria incomodação na certa e não poderia procurar por Clare em paz. Paz... Era a única coisa que desejava. Paz em sua alma e ao seu redor para poder cuidar de sua pequena Clare da mesma maneira que a pequena merecia. Tão brava, valente e... insistente. Mas jamais ousaria reclamar se não fosse pela persistência da menina permaneceria lutando por uma causa que nem ao menos acreditava, entregando seu sangue por um grupo de salafrários que mal se importavam para as mulheres que exploravam. Um dia quem sabe daria a eles o troco por todo o mal que estavam causando. Mas não agora, precisava descançar de todo o caos que estivera submetida por tanto tempo, toda a matança, todos os anos de solidão. Desde o final de seu treinamento que não sabia o que era ter a amizade de alguém. A partir do momento em que recebiam seus símbolos e números do ranking de força, parecia que as guerreiras se tornavam rivais entre si. E honestamente jamais conseguira imaginar o porquê. Mas era assim que as coisas aconteciam, cabia a ela apenas aceitar e esperar pela afeição de alguém. Quando Clare entrara em sua vida fora como se tivesse resgatado um pouco daquele antigo sentimento, era quase como se sentir mais humana. E queria estar lá por ela, protegê-la de todo o mal que aquela terra carregava, impedí-la de sofrer e vê-la feliz. Independente do que tivesse que fazer para garantir isso. Clare seria feliz. Como humana, e ao seu lado. Era tudo o que importava e era a única razão que ainda lhe restara para viver.

Tinha acabado desmontar tudo e preparava as alças para prender o suporte da espada nas costas. Agora só precisava disfarçá-la, mas nem se preocupava tanto com isso, já tinha planejado seguir pela floresta até o ponto onde se separara dela. Muito provavelmente ela teria regressado à última cidade ou estaria vagando sem rumo por aí. Rezava para que ela tivesse consciencia suficiente para ter voltado a cidade.

O sol se punha atrás da montanha enquanto ela jogava o resto de seus pertences dentro de uma bolsa de couro que Becca tinha lhe arranjado. Uwaine não viera lhe falar o dia todo e ela sabia que ele estava insatisfeito com sua partida, porém nada podia fazer. Não desistiria de Clare. Nem Uwaine nem nada naquela terra a fariam desistir de Clare. Seus planos eram simples, encontrar a garota e se esconder em algum lugar com ela.

Quando estava para descer a montanha, seu antigo tutor a encontrou. O olhar dele era sempre uma incógnita, mas naquele momento. Teresa podia ver o pesar nos olhos castanhos. Ele tocou de leve em sua mão e então guiou-a até a vila. Lá, tomou seu braço no dele e a conduziu até o fim da vila. A guerreira reparou que as pessoas olhavam curiosa para ela e quando tentou cobrir os cabelos claros com o véu, Uwaine a impediu dizendo que não havia necessidade e ao olhar para um grupo em frente a um casebre, notara que eles a miravam com curiosidade e não com o medo usual. Talvez não a reconhecessem pelo fato de não estar usando sua armadura. Ou então nem mesmo tiveram contato com uma Claymore. Pelo que ouvira de Becca, Uwaine estava naquela vila há muitos anos, entretando imaginava se fora o suficiente para perceber sua verdadeira natureza. Será que o cumprimentariam com tanta cordialidade se soubesse que era um monstro? Provavelmente não. Em relação a isso, humanos sempre foram muito radicais. Monstros ou meio monstros não tinham espaço em sua sociedade.

"Eles sabem de sua natureza?" Ela perguntou baixinho.

"Sim, eles sabem..."

Teresa mirou-o curiosa, surpresa. Talvez humanos dessem espaço para monstros. Não disse absolutamente nada, apenas permaneceu refletindo em silencio. Seria interessante viver em uma vila em que sua natureza de meio youma não fosse desprezada, um lugar onde Clare poderia ter a companhia de outros humanos e Teresa pudesse apenas acompanhá-la em seu crescimento.

Atingiram o fim da vila e Uwaine parou. Teresa olhou para ele.

"Se quiseres, posso te acompanhar."

Teresa sorriu. "Já disse que não é necessário. Além do mais, preciso fazer isso sozinha."

"Uma prova pessoal..." Ele murmurou. "Bem, vá, encontre a pessoa que tanto ama."

Teresa se assustou, mas sem saber o motivo, já devia saber que Uwaine perceberia. Tornou a sorrir-lhe e ele pegou a mão postando um beijo delicado nos dedos.

"E quando encontrar, volte para cá, estarei lhe esperando."

"Eu não sei, Uwaine... A organização jamais me dará paz..."

"Eu me entenderei com eles se for o caso."

"Apesar de tudo eu tenho muita afeição por você." Ela confessou.

Ele levou a mão até a nuca dela e beijou-lhe na testa.

"Vá... Independente do caminho que tomares, tome seu tempo, estarei esperando por você do mesmo jeito."

E então Teresa pôs-se a andar, tomando a direção do bosque.