Hugo Reys odiava velórios, achava que era uma perda de tempo ficar prolongando o sofrimento dos parentes do falecido ao invés de se despedirem de uma vez já que nada poderia ser feito para trazê-lo de volta, principalmente no caso da terrível morte de Daniel Lively, carbonizado dentro de um carro, o caixão nem poderia ser aberto para que parentes e amigos pudessem se despedir.
Olhou para a esposa ao seu lado, arrumando cuidadosamente o colarinho da blusa preta que usava. Ela lançou a Hugo um olhar de reprovação e antes que adentrassem a capela onde o morto estava sendo velado, ela parou e endireitou o nó da gravata do marido com uma leve reprimenda:
- Hurley, quando é que você vai aprender a dar o nó da própria gravata?
- Libby, cê tá cansada de saber que eu não me amarro em gravata.
- Tá ok!- ela assentiu terminando de ajeitar o nó. – Vamos entrar!
Caminharam pelo extenso corredor da capela rodeado por bancos de madeira de verniz reluzentes e se aproximaram do altar. Conforme Hurley havia imaginado, o caixão estava fechado. Algumas pessoas se aglomeravam ao redor dele. Sorrindo amigavelmente ele reparou na figura de uma garotinha loira de no máximo cinco anos, sentada embaixo do banco que ficava mais próximo ao caixão. Ela parecia um pouco assustada, por isso enquanto Libby dava os pêsames a algumas pessoas, ele se abaixou com dificuldade devido ao peso de seu corpo e colocou-se no nível da menina.
- Olá, dude!
- Olá!- a menina respondeu.
- O que você está fazendo aí embaixo?- Hurley indagou fitando os olhos muito azuis da menina.
A criança deu de ombros. Hurley fez um gesto para que ela engatinhasse para fora do banco, com um pouco de hesitação a menina o fez.
- Muito bem, cadê a sua mamãe?- ele tomou a menina pequena no colo.
- Ela desmaiou.- respondeu enfática. – Igual nas novelas.
- E por quê ela desmaiou?
- Ficou triste porque o papai morreu.
- Oh!- exclamou Hurley. – Você é a filhinha da Ana-Lucia?
- Sou sim. Meu nome é Èrica Louise Lively.- disse a menina com orgulho.
- Muito prazer, eu sou o Hurley. Lamento pelo seu papai.
- Èrica, por Dios, onde estava querida?- indagou Raquel esbaforida, desde a hora em que tinha deixado a neta para ajudar Jack com Ana não vira mais a menina.
- Aqui mesmo.- Èrica respondeu.
- Dona Raquel.- chamou Libby, ao vê-la.
- Oh Libby!- exclamou a senhora Cortez abraçando-a com sinceridade. – Que bom que está aqui, Ana precisa muito de uma amiga agora.
- Sim, eu imagino como deve estar sendo difícil pra ela, fiquei tão chocada com o que aconteceu.- ela parou de falar e olhou para Érica com um sorriso. – Oh meu Deus, mas essa é a Èrica? Cresceu tanto e minha nossa, se parece tanto com o pai!
- Mesmo?- retrucou Raquel erguendo a sobrancelha de modo desafiador para Libby.
Notando que havia algo de estranho no tom que ela usou, Libby mudou de assunto: - Mas onde está a Ana, afinal?
- Ela passou mal e está na sacristia se recompondo com a ajuda do médico que esteve na ilha com vocês, Jack Shephard.
- O Jack está aqui?- perguntou Hurley com um brilho de contentamento em seus olhos castanho-claros.
A senhora Cortez limitou-se a assentir com um menear da cabeça.
- Anda Hurley, vamos até lá!
Ainda com Èrica no colo, Hurley a acompanhou. Assim que entraram na sacristia, Libby sentiu como se tivesse voltado no tempo em que estavam na ilha ao ver a dor estampada nos olhos de Ana-Lucia. Ela estava muito pálida conversando com Jack ao seu lado. Achou que apesar dos anos ela não havia mudado nada, apenas os cabelos estavam um pouco mais compridos, ainda conservava a mesma silhueta atlética dos tempos da ilha. Jack ao contrário dela, estava muito diferente. O corte de cabelo que agora usava lhe dava um ar mais rebelde e desafiador, a própria postura dele mostrava isso.
Ao vê-lo, Hurley colocou Èrica no chão que correu para o colo da mãe. Seus olhos estavam marejados de lágrimas e a voz saiu embargada quando ele pronunciou o nome do médico:
- Jack!
Jack abriu um sorriso sincero para ele e se levantou indo ao encontro do amigo.
- Hurley, que bom te ver!
Os dois se abraçaram calorosamente.
- È, parece que o velório do meu marido serviu para alguma coisa afinal.- comentou Ana-Lucia, amarga.
Libby puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela antes de estreitá-la nos braços junto com Èrica.
- Eu sinto muito amiga, estou tão triste por você. Me perdoe por não ter mantido contato durante os últimos anos, é que eu e Hurley estivemos ocupados com os investimentos e outras coisas, mas agora nos fixamos em Los Angeles e eu prometo que compensarei a minha ausência.
Ana-Lucia assentiu, retribuindo o abraço dela. Libby havia sido sua única amiga verdadeira na ilha, e sentia muita falta dela. Enxugando as lágrimas, Ana perguntou:
- E o seu filhinho, como está?
- Ele está ótimo, crescendo muito rápido e comendo demais, como o pai. Tenho que controlar aquele menino. Mas nossa, estou impressionada com a beleza da sua menina!- Libby olhou para o lado enquanto falava, viu que Jack e Hurley conversavam entretidos e segredou: - Mas fiquei impressionada mesmo foi com a semelhança que ela tem com o...
- Cale-se Libby, por favor!- pediu Ana-Lucia. – Não preciso que pronuncie esse nome para mim outra vez, passei os últimos cinco anos sem ouvi-lo e é assim que deve continuar.- ela acariciou o cabelo da filha. – Não importa o quanto ela se pareça com ele, tudo isso já passou e agora que Danny se foi Èrica é só minha!
Nesse momento, um homem alto, corpulento e de pele retinta entrou na sacristia usando uma batina negra.
- Olá!- ele saudou a todos.
Os olhos de Ana-Lucia voltaram a se encher de lágrimas, dessa vez de emoção: - Eko!
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O almoço com Shannon e Sayid, apesar do desentendimento do casal no aeroporto estava sendo muito divertido. Kate se apaixonara completamente pelos filhos deles e sem querer pegou-se alisando o próprio ventre sonhando com o bebê que teria em breve. Jasper, era o espelho de sua mãe, tagarela e exibido, com seus olhinhos claros, os cabelos loiros e o nariz empinado. Jade, já se parecia com o seu pai, tinha lindos cachinhos escuros, a pele amorenada e um amplo sorriso, não parava quieta um minuto. A única coisa que a fazia ficar calma, apesar de só ter dois anos era montar e desmontar o celular do pai, coisa que ela fazia até de olhos fechados.
- Mas sim, vocês não nos disseram quais são seus planos aqui em Los Angeles, Sawyer?- indagou Sayid bebericando um copo de suco de frutas.
- Bem, eu e Kate viemos até Los Angeles para resolver um problema de família dela, mas quem sabe a gente não se anima e fica por aqui também?
- Acho que não James.- disse Kate. – Eu gosto da tranqüilidade do Texas.
- Talvez a Kate esteja com medo de ficar muito tempo aqui e reencontrar o Jack.- alfinetou Shannon colocando Jade no colo.
Sayid deu-lhe um cutucão, o que a fez reclamar. Kate ficou branca como um papel ao comentário de Shannon, era como se ela tivesse adivinhado seus pensamentos mais secretos. Ela olhou para James um pouco temerosa, mas ele deu um sorriso tranqüilo e respondeu a Shannon:
- Pois eu acho que seria uma boa reencontrar o doc pra jogar um carteado ou ping- pong, estou com saudades dele.
Sayid sorriu, Sawyer continuava o mesmo dissimulado de sempre afinal.
- Além disso, porque eu teria ciúmes do Jack se a sardenta me escolheu.- completou James beijando Kate levemente nos lábios.
Ela correspondeu ao beijo, meio incerta com a afirmação do marido e mordeu uma batatinha de seu prato, se apressando em mudar de assunto.
- Mas sim Shannon, Sayid estava nos contando sobre a escola de ballet que pretende abrir em Los Angeles, eu tenho uma boutique em Bexar County- ela falava tranqüilamente e Shannon começou a se empolgar ao falar de sua escola de ballet.- a empolgação dela pelo assunto havia sido providencial, pois Kate não queria falar de Jack, principalmente sobre o seu medo de reencontrá-lo e não poder resistir caindo outra vez em seus braços. Olhou pra James rindo e conversando com Sayid, coisa que ela imaginou que jamais aconteceria tendo em vista a animosidade que existiu entre os dois na ilha. Ela o amava, definitivamente o amava, mas não havia sido por isso que o escolhera há cinco anos atrás naquela tarde fatídica, entregando-se a ele numa jaula cercada por câmeras.
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- Que Deus o abençoe e dê descanso à sua alma pela eternidade. Amém!
A voz de Mr. Eko soou grave e cândida ao mesmo tempo, o enterro de Daniel Lively estava no fim. Ana-Lucia despediu-se mentalmente, seus lábios murmurando silenciosos um Eu te amo tragado pelo vento. Ao seu lado, Jack e Libby confortavam-na como podiam, mas sabiam que só o tempo a fariam superar a dor da perda.
Dois dias se passaram e Ana-Lucia tentava retomar sua rotina como podia, apesar da falta que o marido lhe fazia. Mesmo assim estava difícil, Raquel estava muito preocupada com ela, com medo de que ela tivesse uma recaída da depressão que tivera na época que foi parar na ilha. Reparava no modo hostil como ela andava se comportando e colocou-se em estado de alerta para ver até que ponto seu comportamento a estaria prejudicando.
Ela não aceitou de jeito nenhum os dias de luto que a polícia lhe ofereceu e mergulhou de cabeça no trabalho. Quando não estava trabalhando passava a maior parte do tempo com Èrica, apenas com a filha ela não se comportava de maneira hostil. Naquela manhã de quarta-feira, Ana-Lucia havia acordado ainda mais cedo do que de costume apesar de ter patrulhado até altas horas da madrugada. Não conseguia dormir. Sentou-se displicente no sofá e checou a correspondência sobre a mesinha de centro, ainda era muito cedo para acordar Èrica para a escola.
Olhou os papéis sem dar muita atenção, a maioria contas e propagandas quando de repente um envelope timbrado lhe tirou de seu estado letárgico. Era uma carta convocando-a para ingressar na Swat.
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Kate chegou cedo ao Hospital St. Sebastian, estava nervosa porque ia rever a mãe depois de cinco anos. Não conseguia acreditar que ela estava morrendo e que a última vontade dela era revê-la e pedir perdão. James vinha ao seu lado, segurando sua mão.
- Quer que eu entre com você?
- Não, prefiro ir sozinha.- Kate disse a ele se dirigindo ao elevador.
James assentiu e procurou uma cadeira estofada para sentar enquanto esperava por ela. Depois que Kate resolvesse isso, em alguns dias voltariam a Bexar County. Lembrou-se sobre os comentários a respeito de Jack no almoço com Sayid e Shannon e sentiu um aperto no coração porque mentira, tinha muito medo sim de que Kate reencontrasse Jack e o deixasse, mas jamais admitiria isso para alguém.
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Jack vinha correndo pelo corredor principal do hospital St. Sebastian. Tinha uma cirurgia marcada para aquela manhã e estava muito atrasado porque passara noite a na farra e acordara tarde. Avistou de longe uma mulher entrando no elevador e correu esperando que ela o segurasse.
- Hey, por favor, segure o elevador!- gritou.
Continua...
