Existe sempre um momento de calma que precede uma tragédia. O silêncio quase ensurdecedor antes que o caos irrompa como um pandemônio desenfreado.
Foi assim que começou.
A noite estava tranquila, os soldados cansados pela exaustão do dia falavam pouco e, quando bateu o toque de recolher, a maioria deles já estava em suas cabines. Como já era de costume, Ed conversava com Daniel. Descobriu ter mais em comum com o rapaz do que pensava, e se aproveitava da diferença de idade e da experiência do mais velho para pegar conselhos sobre a vida.
- E aí, marujo? Quantas milhas tem a carta que escreveu hoje para sua garota? - ele perguntou, zombando do tamanho das cartas que Ed escrevia. Parecia demais escrever cartas muito longas, mas para quem se via todos os dias, a conversa nunca acabava e uma semana era tempo demais.
- Muito engraçado, Daniel. Pelo menos Lorraine recebe mais do que bilhetes.
- Jane não tem do que reclamar, ela já me conheceu assim! Mandei todas as cartas que precisava durante nosso namoro - ele riu.
Ed o acompanhou no riso mas baixou a cabeça e sua expressão se tornou mais seria de repente.
- Daniel... Como soube que era a hora certa de... De pedir Jane em casamento?
Ele tornou a olhar para o amigo com expectativa e confiança. A diferença de idade entre eles era de seis anos. Daniel já passara por tudo aquilo, já vivera mais coisas do que Ed e, como o rapaz sempre foi adepto de aprender com as experiências dos outros, ele era uma enciclopédia da vida. Além de sincero e bem humorado.
- Não soube. - ele respondeu, olhando para o armário do seu lado do quarto. Ed sabia que ele tinha uma foto da esposa lá, uma que ela lhe mandou por carta, assim como ele também tinha uma foto de Lorraine no seu.
- Eu estava morrendo de medo, não tinha certeza de nada. Só de uma coisa: eu sabia que não conseguiria mais ficar longe dela. Eu queria ver o sorriso dela ao acordar de manhã, e abraçá-la à noite antes de dormir. E sentia que, não importa qual fosse o problema, eu me sentiria melhor para resolver com ela do meu lado. E um dia, eu simplesmente disse que talvez ela pudesse se tornar a senhora Harrys. E ela me passou um sermão porque eu devia ter feito a coisa direito, comprado um anel e pedido ao pai dela. - Ele riu com a memória, a nostalgia estampada no rosto.
- Acho que... Estou pensando em pedir a mão de Lorraine quando tudo isso acabar.
A confissão de Ed fez o amigo rir contente e jogar um travesseiro nele.
- É isso aí, marujo! E eu espero ser convidado!
- Mas...
- Tem um mas?
- É que... Ao mesmo tempo tenho um pouco de medo. Sabe, é tudo tão novo, tão... Eu não sei. E se eu não for tudo o que ela espera? E se for um marido ruim? E se ela se arrepender?
Daniel chacoalhou a cabeça em descrença, sorrindo enquanto aprumava-se na beirada da cama.
- Se tivesse dúvidas de que ela é a pessoa certa, eu diria "espere". Mas isso? Irmão, eu ainda me pergunto isso todos os dias. O medo do novo é bom. É um sinal de que está vivendo, de que está evoluindo. Viver é assustador. Mas também é maravilhoso.
Ed dormiu aquela noite com Lorraine em seu pensamento, um sorriso nos lábios e, em seu coração, a certeza de que estava no caminho certo. Gostava de ouvir os conselhos de Daniel sobre a vida, sobre o casamento, e algo nele inspirava confiança. Aquele rapaz, já adulto, mas com um sorriso tão franco e gentil quanto o de uma criança, com sua sempre presente positividade e a luta para dar o seu melhor mesmo através de tempos, aquele rapaz mostrara a Ed que a amizade pode romper as barreiras do preconceito e que, quando você está disposto a tentar, mesmo um navio no meio do nada pode ser uma grande experiência de vida. Tudo depende das lições que se aprende.
Ed dormiu pensando que, quando a guerra acabasse, ele pediria Lorraine em casamento.
Quando a guerra acabasse, eles procurariam uma casa aconchegante e colocariam dentro dela suas esperanças, desejos e amor.
Quando a guerra acabasse, ele pediria a Daniel para ser seu padrinho.
Quando a guerra acabasse e toda a luta chegasse ao fim, eles fariam churrascos e piqueniques aos domingos, e seus filhos brincariam com os filhos de Daniel, e eles poderiam relembrar esse período não pelos dias tenebrosos que certamente estavam por vir, mas apenas pelas lições que aprenderam, pela quantidade enorme de sacos de batatas que descascaram, e pelos amigos que fizeram.
E, acima de tudo, Ed foi dormir aquela noite sem jamais pensar, nem por um segundo, que talvez tudo aquilo pudesse nunca acontecer.
Começou no romper da madrugada, embora quem tivesse essa informação já não a pudesse repassar. Na noite escura, alguns raios cortavam o céu ao longe e nenhuma estrela agraciava com seu brilho e esplendor o negro tapete que se estendia ao longe. Todavia, a chuva caiu mansa, devagar, despretensiosa. Um convite a embalar a noite na cadência do oceano. Por isso os dois vigias se sobressaltaram e se exaltaram ao ouvirem o estrondo. Tanto que o primeiro galeio da fragata passou despercebido por eles, tido apenas como o titubear das próprias pernas ante o susto. Quando a segunda bala atingiu o casco da embarcação, foi com exatidão, deixando fagulhas e estilhaços em seu caminho, ascendendo a preocupação dos vigias e acordando alguns dos marinheiros nos dormitórios mais próximos.
Em pouco tempo os alarmes soaram, mesclando-se ao estampido de tiros. Ed acordou com o som da sirene de emergência, levantando-se e constatando que Daniel já estava de pé junto à porta.
- Treinamento?
Daniel lhe devolveu um olhar confuso, assustado, e continuou com o ouvido colado à porta.
Não era incomum terem simulações de ataque, mas todas as anteriores foram avisadas.
- Não sei. Mas as coisas estão agitadas lá fora. É melhor ficar preparado.
Daniel acenou para os armários e Ed assentiu. Rapidamente colocaram as calças grossas do uniforme e as botas.
- O navio está balançando.
- É, não acredito que tenham simulado isso. - Daniel comentou pouco antes de outro estrondo irromper e ouvirem-se sons de vidro quebrado e gritos do lado de fora.
Eles saíram pela porta juntando-se a alguns outros recrutas que se dirigiam apressados para o convés. A água já começava a se espalhar pelo corredor, muito baixa, porém presente.
- Estamos sendo atacados! - alguém gritou lá de cima.
Eles continuaram seguindo a fila de recrutas até o convés, tentando não escorregar e cair, e não ser atingidos. Alguém conseguiu mirar os holofotes na embarcação que estava atacando. Era uma fragata de casco escuro, fácil de se camuflar no escuro, principalmente no mau tempo. Homens corriam para todos os lados, gritando ordens, tentando desviar das balas, recarregar armas, proteger o navio, cuidar dos feridos.
Ed e Daniel acabaram se separando, e, enquanto Ed ajudava a recarregar as balas dos canhões do convés, Daniel se ocupou em subir à cabine e procurar pelos sinalizadores de emergência. O imediato estava na cabine, caído, provavelmente ao tentar ele mesmo enviar um pedido de socorro. Observando o painel, ele viu a pequena tela negra brilhando em verde e um rádio. Depois Recolheu depressa os sinalizadores e, sabendo que tinha pouco tempo, saiu da cabine para o posto de observação onde lançou dois dos sinalizadores em sequencia. Sabia que não fazia sentido, mas ele queria que a ajuda chegasse rápido, esperava contra a própria esperança, que conseguissem fugir, escapar com nada mais que alguns feridos e danos ao navio. Esperando que o destino que os aguardava não fosse tão obscuro quanto a noite que eles agora enfrentavam.
A chuva piorava a cada minuto, fustigando o rosto de Ed, entrando em seus olhos e atrapalhando-o a recarregar e mirar os canhões. Gritos, disparos, estrondos, trovões, o barulho da batalha se anunciava juntamente ao cheiro de pólvora, água salgada, metal queimado e sangue. Seu próprio sangue, Ed notou, ao perceber a trilha escura que descia por seu braço. Não havia tempo para checar a origem, não agora. E também não importava pois, no instante seguinte, uma bala irrompeu o casco logo abaixo dele, empurrando madeira, ferro e chumbo em sua direção, arrastando-o juntamente com o canhão para a parede oposta, contra a qual sua cabeça chocou-se violentamente.
Uma dor lancinante irrompeu por seu corpo, começando na base do crânio e espalhando-se pelas costas, ombros e peito.
Por um segundo sua visão ficou turva e ele temeu cair na inconsciência mas uma pontada em seu lado o despertou de novo. Ele levou a mão ao local sentindo o líquido quente e viscoso ao toque de seus dedos e uma ponta ainda quente do que parecia ser metal. Ele puxou sem pensar muito, removendo o estilhaço que se instalara pouco abaixo de suas costelas. O sangue jorrou livremente e ele teve certeza de que acabara de fazer algo muito estúpido. Enquanto tentava não desmaiar pela dor, ele ouviu um gemido abafado de dor e, ao olhar ao redor, avistou Daniel caído atrás de uma pilha de destroços alguns metros adiante. Com os últimos esforços de seu corpo, Ed se arrastou até Daniel. Seu amigo havia sido acertado no peito e jazia sob uma poça do próprio sangue... Talvez mesclado ao sangue se seus companheiros. Ed notou que a perna direita dele estava em um ângulo nada natural, com uma ponta de osso que escapava pela pele da panturrilha, o bastante para perfurar o tecido da calça.
- Daniel... Tudo bem?
Era uma pergunta tola, e ele sabia.
Daniel demorou para responder, a respiração rasa, acompanhada de uma tosse quando ele puxava o fôlego com mais força. Ed tentou ignorar a informação de "pulmão perfurado" que brilhava em sua mente.
- Já... Já estive melhor. - Daniel respondeu com dificuldade.
- Precisamos tirar você daqui.
Daniel chacoalhou a cabeça em negativa.
- Não da, irmão. Eu... Não vou longe. Tem que ... Que se salvar... Pela sua garota.
- E você pela sua filha. Vamos sair os dois daqui, Daniel.
Ed sabia que só a esperança o fazia dizer aquilo. Ele precisava de tratamento médico imediato, e a única coisa que se via ao redor deles eram os rastros indescritíveis da batalha que ainda acontecia, embora com muitas baixas para os dois lados. Eles estavam cercados por uma barricada de sacos de areia cobertos por estilhaços e destruição, a água já chegava a seus pés. No ar, o cheiro de pólvora, metal e morte.
Ele não teria forças para sair de lá, muito menos com Daniel. Além disso, com o navio afundando a única opção seria arriscar-se em mãe aberto, e só deus sabe quando tempo ele agüentaria antes de sucumbir, ou ser atingido por algum inimigo. Sua mente girava com mais pensamentos do que ele era capaz de conter, e nenhuma resposta saia de tudo aquilo.
- Ed... Diga... Diga à Jane que eu a amo. Por favor. Diga... Que eu sempre vou amá-la... E à nossa filha.
- Não, não, Daniel... Agüenta... Você precisa aguentar firme.
Não teve tempo de manter o amigo acordado, no entanto, porque no instante seguinte outra granada explodiu perto deles, e ele se sentiu escorregar para os braços doces e aconchegantes da inconsciência.
Lorraine podia adivinhar que algo estava errado não só pelo olhar de Laura Warren, mas por seus sonhos com Ed. Alguma coisa estava muito, muito errada.
A notícia de que a fragata USS Maddison-22 havia sido abatida em combate atingiu Lorraine como um soco no estômago. Mais desesperador que isso, porém, era a falta de maiores informações. Não falava sobre vítimas ou a situação dos sobreviventes. Tudo que havia na mensagem era um pedido para que familiares fossem até a unidade hospitalar de atendimento pós guerra para reconhecer ou identificar as vítimas ou corpos. Simples assim.
Ela se ofereceu para ir prontamente. Como poderia deixar de ir? Como poderia ficar em casa sabendo que algo assim havia ocorrido?
Casa... Com tudo aquilo ela se esqueceu completamente. precisava avisar a mãe, ela ficaria preocupada.
E desde então o tempo era um borrão. Ela só foi capaz de relaxar um pouco ao chegar ao hospital e constatar que o nome de Ed estava na lista de sobreviventes.
Muitas outras famílias, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Ela passou por inúmeras mulheres chorando, algumas com crianças ainda pequenas, outras sendo amparadas por amigos ou parentes, outras ainda sozinhas. Lorraine se sentiu mal por essas pessoas, por seu sofrimento, e pela forma quase hostil com que eram tratadas. "Lamentamos informar, mas seu marido não sobreviveu."
Frio. Distante. Impessoal. Sem o mínimo de compaixão.
Acompanhada dos pais de Ed, ela estava esperando do lado de fora junto com os outros familiares de vítimas pelo momento em que a ala seria liberada para visitas. Os Warren foram chamados novamente, ela não tinha muita certeza de com qual finalidade, mas se limitou a mandar seu posto, esperando obedientemente, o coração mais apertado a cada minuto, temendo pela vida de seu amado. Ela aproveitou que estava sozinha para fazer uma prece. Fechou os olhos e entregou seus pensamentos e esperanças a deus. Quando tornou a abri-los, as portas também foram abertas.
Quando Ed finalmente acordou foi com um trinado doce que ele reconheceria em qualquer lugar. Era a risada de Lorraine. Não se lembrou de imediato o que havia acontecido, ou porquê seu corpo todo doía e a cabeça parecia pesar-lhe uma tonelada. Ao abrir os olhos ele notou seus arredores. Não estava em seu dormitório, mas em uma espécie de galpão com várias camas, uma ao lado da outra, dispostas em quatro fileiras. e então a lembrança o inundou com imagens do ataque. Pânico e confusão correram por seu sangue, aquela ferroada característica da adrenalina sendo injetada em seu organismo.
Correndo os olhos pelo local, ele avistou uma massa de cabelos castanhos algumas camas adiante. Se Lorraine estava ali, é porque foram resgatados, o auxílio chegou e eles estavam a salvo. Ele chamou por ela, mas a voz saiu fraca e alquebrada pelo desuso.
Mesmo assim, a dona dos fios castanhos o ouviu e virou-se em sua direção imediatamente, recepcionando-o com seu sorriso característico.
Ela se desculpou com o senhor com quem estava conversando e aproximou-se de Ed. O olhar aflito e, ao mesmo tempo, carregado de amor e afeto. Aproximou-se devagar da cama, cautelosa.
- Lamento ter interrompido seu momento com o cavalheiro. Vocês pareciam estar se dando tão bem, estou com medo de ter saído da jogada - ele brincou.
- Oh, claro. Porque eu desenvolvi uma atração irresistível por senhores com idade o suficiente para serem meus avós durante a sua ausência, e o Tenente Haskell ali se encaixa perfeitamente no perfil.
Ela usou um tom terno e bem humorado, feliz por ele estar ali, mas tentando se manter sob controle. Inclinou-se e lhe deu um beijo suave, tentando evitar o corte em seu lábio superior para não lhe causar dor.
Ao se afastar e sentar-se à beira da cama, a moça fez uma careta, para diversão de Ed.
- Tão ruim assim?
- Você tem gosto de remédios. - ela disse, e ele assentiu. - E anti-séptico... E...
- Já entendi. - ele a interrompeu, rindo - Não estou no meu melhor dia. Você, por outro lado, continua tão doce como sempre.
Lorraine não conseguiu evitar o sorriso que se estampou em seu rosto, ou o rubor em suas bochechas. Ela riu baixinho, acomodando-se melhor no espaço vago na cama e sua mão deslizou pela dele com facilidade.
- Como está se sentindo?
- Como se tivesse sido atropelado por um caminhão.
- Ah, Ed. Não imagina como eu fiquei preocupada. - ela aumentou o aperto na mão dele, observou os arranhões, esperando que não ficassem cicatrizes- Eu achei... Achei... Que fosse perder você.
- Eu também achei. Mas estamos aqui, não é? Tudo deu certo no final. - ele sorriu, tentando tranquiliza-la.
Lorraine lhe devolveu um sorriso tímido, passando a mão livre pelo rosto dele, afastando de sua testa os cabelos desalinhados e amassados, com cuidado para não arranhar os machucados em sua face.
- Você tem notícias dos outros soldados?
- Ahn... Não. Não nos passaram muitas informações sobre outras pessoas.
Ela parecia nervosa, evitou o olhar dele e olhou em volta como que esperando por algo ou alguém. Ed pensou que essa atitude se devia ao local, se ela ficara nervosa por conta do ambiente, se tinha algo a ver com seus dons. Jamais desconfiou de outra coisa.
- Os seus pais estarão aqui em breve. - ela anunciou numa voz uma oitava mais alta, que soou estridente e falsa até para seus próprios ouvidos.
Ele sabia que tinha algo errado. Lorraine estava preocupada com alguma coisa que não queria contar a ele.
- Você teve notícias do Daniel? Viu se a mulher veio vê-lo?
- Ed... - ela pareceu querer dizer alguma coisa, mas desistiu no último minuto, chacoalhando a cabeça em negativa. - Não. Desculpe. Mas eu não os conheço, também, então...
- Ele estava muito mal, precisava de atendimento urgente. Estou preocupado com ele, Lorraine. Será que pode procurá-lo e me trazer notícias?
Ed a olhou com expectativa e esperança no olhar, e isso partiu o coração de Lorraine. Ela queria que os pais dele chegassem logo, que deixassem para trás a maldita papelada e ficassem junto do filho, pois mesmo que eles não fizessem ideia da amizade do filho com Daniel, ele precisaria de conforto, precisaria ter por perto pessoas que o amavam. E ela não podia ser a responsável por fazer isso sozinha.
- Lorraine? - ele insistiu, vendo-a ficar calada e sem reação.
- Ed, eu acho que não posso fazer isso.
- Por quê? É só uma informação.
- Porque haviam duas listas. Uma com o nome dos sobreviventes, e a outra...
- O Daniel estava na lista de sobreviventes, não estava? Fomos resgatados, ele está bem, não está?
Ela respirou fundo antes de negar com a cabeça.
- Eu sinto muito. Sinto muito mesmo. Foi tarde demais para ele. Daniel não resistiu. Só houve sete sobreviventes da sua fragata, contando com você.
Ela segurou a mão dele entre as suas, acariciando a pele ferida, quente, com as marcas da batalha recente. Ed ficou em silêncio, acomodou-se nos travesseiros e deixou o olhar vagar fixando-se num ponto aleatório no teto. Lorraine sabia que ele estava triste, que havia se afeiçoado ao rapaz, que estava pensando em tudo que aconteceu há apenas poucas horas. Era demais para assimilar até para ela, e ela não fazia ideia do que eles passaram durante o combate. Ele continuava em silêncio, mas Lorraine viu uma lágrima errante escapar-lhe pelo canto do olho e se perder entre os cabelos fartos e escuros.
Se antes ela queria que os Warren chegassem logo para que não contasse a ele sobre Daniel sozinha, agora tudo que queria era que não viessem mais. Que dessem a ele o tempo de que precisava. Sentindo-se exausta de repente, a jovem curvou-se ao lado de Ed e ele chegou-se mais para a beirada para lhe dar espaço e a recebeu em seu abraço, um gemido deixando seus lábios pela dor causada ante o esforço. Ela ficou próxima, embora mantendo a maior parte de seu peso longe dele, e deixou sua palma vagar pelo peito forte de seu namorado, com músculos que não estavam ali antes. Seus movimentos eram calmos, para relaxar e confortar, enquanto ela sussurrava doces palavras sem sentido, com o único propósito de garantir-lhe que tudo ficaria bem.
Quando os pais de Ed finalmente chegassem, encontrariam os dois jovens dormindo juntos. Veriam que estavam de mãos dadas apesar da posição desconfortável. Veriam que, antes de pegar no sono, seu filho tinha pousado um beijo no topo da cabeça da jovem, pois seus lábios ainda pairavam muito próximos da testa dela. Incapazes de acordá-los, falariam sobre oportunidades, sobre o que não dariam para serem jovens de novo e ter o mundo na palma da mão. Concluiriam, por fim, que nenhuma outra garota teria saído de casa no meio da madrugada para conversar com a mãe do namorado e confessar seu medo, sua preocupação, e apenas isso.
E então, sentar-se-iam nas cadeiras ao lado da cama e esperariam que eles acordassem. Tinham seu filho de volta, ferido mas inteiro, e isso era mais do que muitas famílias tiveram a sorte de conseguir. No momento isso bastava. Haveria tempo para o resto quando acordassem.
A vida tem um jeito engraçado de fazer as coisas acontecerem. E às vezes parece que testa os indivíduos apenas para ver quão longe vai o orgulho, a teimosia.
No período em que Ed ficou afastado se recuperando, Lorraine ia a casa dele todos os dias. Ajudava a mãe dele com as bandagens, lhe fazia companhia enquanto comia, ouvia as histórias dele e lhe contava as suas. Falou sobre o serviço com as famílias necessitadas da paróquia. Lia para ele. Por vezes conversava com Laura e, em outras oportunidades, chegou a ficar para o jantar.
Os Warren se mostraram uma família diferente da dela, porém mudaram alguns hábitos. O Sr. Warren trocou algumas palavras com Lorraine e, depois disso, pareceu encará-lo com mais seriedade, sem a reprovação de um pai que só vê no filho um garoto teimoso.
"Qual mágica você usou para deixá-los assim?" Ed lhe perguntou certa vez, quando seu pai lhe entregou um livro de poesias de Whitman, e ela simplesmente lhe sorriu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e respondeu: "A mágica do amor."
Ao fim de três semanas, uma cerimônia foi oferecida em homenagem aos mortos e feridos no USS Maddison-22 e Ed recebeu uma medalha por bravura. Com Lorraine prostrada a seu lado, procurou por uma moça com uma criança pequena, sem sucesso. Quando o nome de Daniel foi chamado, ele se levantou para receber a medalha juntamente com as placas de identificação do amigo depositadas sobre uma bandeira dobrada em formato triangular. Uma medalha e uma bandeira. Era só isso o que tinham a oferecer às famílias daqueles que tinham dado a vida por uma luta que não era deles. Uma recompensa inútil para aqueles que pagaram um preço alto demais.
Após o fim da cerimônia, Lorraine sentiu em Ed uma expressão sombria, quase de culpa, enquanto ele carregava os objetos dedicados ao amigo morto. Antes que chegassem onde estavam os pais dele e a mãe dela, Lorraine o puxou pelo braço fazendo-o reduzir o passo.
- Ed... O que vai fazer com essas coisas?
- Entregar à mulher dele. - Direto. Quase brusco.
- Quer companhia? - ela ofereceu, num tom de voz gentil, parando e esperando que ele parasse também.
E conseguiu, pois ele deu mais alguns passos e, notando que ela ficara para trás, virou-se para ela.
- O quê?
- Posso ir com você. Está com raiva, inconformado. Talvez precise falar com a mulher de seu amigo. - ela deu um passo a frente, aproximando-se dele. - Talvez ela também precise falar com alguém que o conheceu. Podemos ir essa tarde, você tem o endereço?
Ele assentiu, lembrando que estava com as placas de Daniel. Elas tinham o endereço.
- Ótimo. Vem - ela estendeu a mão coberta por uma luva de renda branca - vamos falar aos seus pais e à minha mãe que temos um compromisso.
Ele olhou para a jovem à sua frente, a mão estendida para ele. Os lábios rosados curvados num sorriso acolhedor. Os olhos azuis e gentis dizendo-lhe que estaria ali por ele, para o que quer que ele precise. Ed segurou a mão dela, pousando um beijo suave, sentindo a pele quente e macia sob a renda.
Ele não podia descontar nela as frustrações causadas pela guerra. Não se permitiria se fechar para ela como tantos homens fazem. Lorraine não merecia isso. Ele seria diferente, e aceitaria a ajuda que ela agora oferecia.
Depois de falarem com os pais, pegaram o bonde até a casa de Daniel. Não era perto, mas ficava numa vizinhança agradável e simples. A casa em si era pequena, mas aconchegante, com flores num jardim modesto e uma cerca branca ao redor. Eles passaram juntos pelo portão e pararam à porta onde Lorraine bateu após perguntar-lhe se estava pronto.
Alguns momentos de silêncio se seguiram e então a porta se abriu, atendida por uma mulher de cerca de 25 anos. Bonita, a pele escura da cor do cacau, olhos grandes e bonitos. Estava visivelmente abatida, mas era claro que se tratava de uma mulher bonita.
- Posso ajudar?
- Você é Jane Harrys? - Ed perguntou, meramente por educação, ele a reconhecia da foto de Daniel.
A moça concordou com a cabeça.
- Eu sou Ed Warren. Essa é Lorraine, minha namorada. Eu... Era amigo de Daniel.
- Oh... - ela fez uma pausa como se estivesse considerando a ideia. - Bem, entrem.
Ela abriu espaço para que passassem e, após fechar a porta, os conduziu para a sala de estar, onde encontraram uma garotinha de aproximadamente um ano sentada sobre grossos tapetes e cercada por brinquedos coloridos. Sentindo o coração se apertar, Ed sentou-se com Lorraine no sofá enquanto a moça foi acomodar-se numa poltrona de frente para eles.
Assim que se acomodaram o silêncio se instalou e Ed estava nervoso, pensando em como começar a conversa. Como que sentindo a deixa, Lorraine começou por um assunto seguro e trivial o bastante.
- Sua filha é linda, Sra. Harrys.
Talvez sentindo que era o assunto da conversa, a pequena olhou para a mãe com um sorriso banguela e estendeu a mão de pequenos e perfeitos dedos rechonchudos.
- Obrigada. Lucy é a coisa mais importante da minha vida, e de Daniel também.
- Eu lamento muito pelo que houve. Daniel e eu... Nos tornamos amigos.
A voz de Ed estava embargada, grave, com uma seriedade que não lhe era comum.
- Ele me falou sobre você. Disse que você era um bom rapaz, que se davam bem.
- Ele me falou sobre você, também. Sobre vocês duas. Ele tinha muito orgulho da família.
Lorraine apenas os observava. Tudo aquilo era surreal, e ela sentiu que não fazia parte da conversa. Não naquele momento.
- Você não foi à cerimônia - ele começou devagar, como se pensasse em cada palavra - então eu tomei a liberdade de aceitar a medalha dele. Trouxe para você.
Lorraine entregou para ele a bandeira dobrada que segurava, com a pequena medalha acima dela. Ed a pegou, colocou a mão no bolso retirando as placas de identificação do amigo, que colocou junto com a medalha, e a estendeu de forma solene para Jane. A mulher parecia estar se controlando para não chorar enquanto pegava os objetos. Os analisou um a um, passando a mão por eles delicadamente.
- Eu não quis ir à cerimônia. Agradeço o gesto, Sr. Warren, e não leve para o lado pessoal, mas eu não quero medalha nenhuma. Eu só queria meu Daniel comigo.
- Eu sei. – ele assentiu, a voz pouco mais que um sussurro.
- Lamentamos muito, Sra. Harrys. – Lorraine se juntou à conversa, tentando não tornar mais difícil o momento. – Nem posso imaginar o que está sentindo agora. Mas quero que saiba que estaremos aqui para qualquer coisa que precise. Eu não tive a chance de conhecê-lo, mas pelo que Ed me contou ele parecia ser um bom homem.
Jane baixou a cabeça e, apesar do silêncio, Lorraine viu as lágrimas caírem por suas bochechas.
- Daniel era a melhor pessoa que eu conheci. – ela levantou o olhar para Lorraine. – Estamos... Estávamos juntos há seis anos, e em todo esse tempo eu nunca o vi ser egoísta ou mesquinho ou guardar rancor de ninguém. Ele não merecia isso! Ele tinha o direito de viver. Ele tinha o direito de ver Lucy crescer, e agora ele não pode porque alguém decidiu que o meu Daniel tinha que lutar em uma guerra que ele não começou!
Ao terminar de falar, Jane estava exaltada, praticamente gritava, e as lágrimas corriam livres por seu rosto. A perda de alguém que se ama é uma ferida que nunca cicatriza por completo. Nada que digam é capaz de consolar. Nenhuma palavra ameniza. Nada substitui, nada é capaz de preencher o vazio de uma outra vida com a qual acostuma-se tanto que passa a ser parte da sua própria. Lorraine levantou-se e se ajoelhou à frente de Jane, recebendo-a num abraço solidário. Lembrou-se do pai, de como sentia saudades dele. Pensou que poderia estar passando pela mesma situação agora, e agradeceu a Deus em seu coração por ter protegido a vida de Ed. E enquanto Jane se deixou acolher no abraço da jovem desconhecida, soluçando e pranteando sua dor, a própria Lorraine sentiu seus olhos arderem com lágrimas que ela não impediu. Não havia fraqueza em chorar. Fracos eram, na verdade, aqueles que não se compadeciam dos outros. Ela olhou para Ed e o viu abaixar a cabeça, limpando as próprias lágrimas. Foi quando um arrepio percorreu todo seu corpo e ela puxou o ar com força, afastando-se da outra mulher.
- Jane, eu... Me desculpe, acho que não estou muito bem.
Ed notou que ela ficara pálida de repente e estava ao seu lado em um segundo, apoiando-a pelo braço.
- Lorraine, tudo bem?
Ela lhe lançou um olhar assustado que queria dizer mais do que aparentava. Era uma sensação nova até para ela, e a presença de Jane Harrys a impossibilitava de dizer a Ed exatamente o que sentia.
- Vou buscar um copo d'água para você. - Jane fungou, contendo o choro e levantando-se enquanto Ed ajudava Lorraine a se por de pé novamente.
- Podem olhar o bebê para mim um minuto? Eu volto logo.
Ela saiu passando ao lado de Ed, e Lorraine aproveitou o momento para falar com ele.
- Eu senti uma presença. Aqui.
- Como na casa da garotinha?
- Não. Foi diferente. Mais... Brando. Acho que é seu amigo. Acho... Acho que ele sente saudades e quer dizer adeus. - ela sussurrou, a respiração presa na garganta de repente.
Foram surpreendidos pela risada da criança e viraram-se para vê-la levantando um bloco colorido, como faria se um adulto estivesse em pé na frente dela e ela tentasse lhe entregar a peça.
- Lorraine...?
- Aqui está - a mulher voltou com um copo d'água que entregou a Lorraine. - Beba um pouco, vai te fazer bem.
Ao pegar o copo das mãos da mulher, Lorraine acabou encontrando seus dedos nos dela. O mesmo arrepio a percorreu de novo, mas dessa vez ela teve um vislumbre de Jane em um vestido branco, bonita e feliz, ao lado de um rapaz que, ela sabia, só podia ser Daniel.
Passado o contato, ela sorriu para Jane, sentindo ainda a presença de outra pessoa no cômodo, mas dessa vez foi como se sussurrassem em seu ouvido. Ela tomou um gole da água, baixando o copo em seguida.
- Sei que pode parecer muito estranho eu dizer isso a você, mas Daniel a amava muito. Ele sentiu muito por não ter tido a chance de se despedir.
- É, eu acho que sim. - ela deu de ombros.
- Eu tenho certeza. - ela olhou para Ed, que ainda mantinha uma mão apoiada na parte baixa de suas costas, procurando por aprovação. - Ele... Ele estará sempre em seu coração, e cuidará de você e Lucy para sempre. E ele sentirá saudade, assim como você. Mas acima de tudo, ele quer que você seja feliz. Sei que pode parecer estranho, mas, por favor, acredite no que digo.
Jane lhe lançou um olhar curioso, entre a dúvida e o ceticismo, mas, talvez pela necessidade de ter algo a que se agarrar, apenas assentiu.
Lorraine entregou o copo a Ed, ainda a seu lado, e abraçou a outra mulher novamente, tentando confortá-la e, talvez, passar para ela um pouco do que sentia.
Quando se separaram, Ed a abraçou também, dizendo-lhe novamente que tinha orgulho de ter sido amigo de Daniel.
Após saírem, reiterando as palavras de que estariam lá se elas precisassem de qualquer coisa, Ed reparou em como Lorraine respirou fundo, parecendo cansada.
- O que foi aquilo?
- Aquilo... Fui eu conhecendo seu amigo.
Ed a olhou sem reação por um momento. Sentiu sua pulsação aumentar e respirou fundo, registrando completamente o que ela dissera.
- Ele era boa pessoa. - ela acrescentou.
- Você... Foi a presença do Daniel que você sentiu?
- Sim.
- Está conseguindo controlar? - ele parecia maravilhado, feliz por ela estar conseguindo desenvolver o dom.
- Mais ou menos. Na verdade, é a primeira vez que acontece desde a mulher na casa de Grace. Mas foi diferente. Eu soube logo que era ele, que não era uma ameaça. E foi mais claro também.
- Isso é fantástico, Lorraine! - Ed exclamou, irrompendo em sorrisos.
- E, quando ela me entregou a água, e eu toquei na mão dela, eu vi... Vi o dia do casamento deles. Estavam tão felizes, Ed! Acho que Jane estava pensando nisso, e eu acabei vendo através dela.
Ela falava empolgada, como uma novidade que não aguentasse mais conter só para si. Ed a ouvia com atenção, a tristeza pelo amigo momentaneamente esquecida. E, quando Lorraine parou de falar, ele apenas olhou para ela com reverência.
- Estou muito orgulhoso de você, Lorraine.
Ele estendeu os braços e ela pulou em seu pescoço simultaneamente. Segurou-a pela cintura e a levantou enquanto ela enchia seu rosto de beijos. Como se fizessem aquilo a vida toda. Como se nunca houvessem se separado. Quando a colocou no chão, Lorraine pareceu lembrar-se de que ele ainda estava se recuperando, e olhou para ele preocupada.
- Desculpe! Eu machuquei você?
- Não. Está tudo bem. - ele voltou a abraçá-la com mais calma, caminhando ao lado dela pela rua quase deserta.
- Eu quero continuar a fazer isso, Ed. Quero ajudar as pessoas.
- Acha que podemos fazer isso?
- Acho. Bom, ainda não posso garantir que vai funcionar sempre, mas quero continuar fazendo isso. Sei que existem pessoas que acreditam no que posso fazer. Estudarei, e me dedicarei, vou aprender a controlar e poderei ajudar mais pessoas. - novamente o jeito feliz, animado, o tom de quem faz planos.
- Vamos fazer isso, Lorraine. Juntos. Como sempre.
- Sim. Juntos, como sempre!
E foi assim que retomaram os estudos. Voltaram a ler sobre os mistérios do mundo sobrenatural, e Ed até ajudava Lorraine a treinar seu dom. Ao fim de outras duas semanas, ele a levou para a colina a fim de fazer um piquenique. Sentaram-se sobre um cobertor, onde ela havia colocado a cesta cheia das coisas que prepararam.
Estavam deitados sob o sol fraco, lado a lado, de mãos dadas. Era como se precisassem compensar o tempo que perderam, todos os beijos, os toques que ficaram mais ousados. Lorraine fechou os olhos e esticou o rosto em direção aos raios de sol, sentindo Ed beijar de leve seu pescoço e acariciar sua cintura com a mão livre. No entanto, repentinamente ele se levantou, e ela sentiu falta do contato imediatamente. Eles estiveram praticamente em silêncio pelos últimos minutos. Tempo o suficiente para Ed pensar de novo em tudo que já vinha pensando antes.
- O que houve? - ela perguntou, apoiando-se nos cotovelos e olhando para ele com apenas um olho aberto.
- Lorraine... Eu quero... Preciso perguntar uma coisa.
Ele parecia sério, então a moça sentou-se adequadamente no cobertor. As pernas dobradas abaixo de si. Ela ajeitou a saia sobre os joelhos e olhou para ele, esperando.
- Aconteceu alguma coisa?
- Na verdade, aconteceu, sim – ele sorriu. – Sabe que eu conversava muito com Daniel. E ele me deu vários conselhos. E eu pensei muito sobre algo que queria fazer. Achei que devia esperar a guerra acabar, mas a verdade é que eu não tenho certeza... Bom... A vida é curta, certo?
Ela o olhou desconfiada.
- Certo. – respondeu devagar, como se o analisasse.
- E ontem eu... enfim... Acho que o que eu quero dizer é que...
- Ed, pelo amor de Deus, pare de balbuciar. – talvez pela primeira vez, o rapaz notou que ela estava perto de perder a calma. - O que houve?
- Talvez pareça cedo para você, mas eu não quero deixar pra amanhã. Não quero esperar mais do que o necessário... Principalmente depois da notícia de ontem.
- Que notícia? – o coração dela gelou. Ele parecia nervoso e isso fazia com que ela ficasse nervosa também. Seu coração estava acelerado, e ele não dizia logo o que era, só aumentava o mistério.
Ela o observou pegar alguma coisa no canto da cesta atrás de si.
- Ed!
Ele se virou para ela, uma caixa de veludo preto na mão, mostrando um lindo e delicado anel.
- Quer se casar comigo?
A expressão de Lorraine mudou para uma de total surpresa. Seus olhos estavam quase arregalados, a boca levemente aberta, que ela se obrigou a fechar. Piscou os olhos várias vezes como se não estivesse certa do que estava vendo.
- Se eu aprendi alguma coisa com tudo isso, foi que não se pode confiar no amanhã. Ele pode nunca chegar. E eu não quero passar mais nenhum dia da minha vida sem você ao meu lado; sem ter dito que te amo. Que você é minha melhor amiga, e que eu faria tudo por você, qualquer coisa que você quisesse. Porque, se houver amanhã, não ter você ao meu lado será meu único arrependimento. Nenhuma outra pessoa seria capaz de despertar em mim os sentimentos que sinto por você. Você acreditou em mim quando ninguém mais acreditou. E eu estou abrindo meu coração para dizer tudo isso porque quero muito que você diga sim. Então, por favor, diga sim.
Ela estendeu a mão e segurou o anel entre os dedos. Eram pequenas pedras delicadas, uma brilhante no centro e outras azuis em formato de losangos ao redor, o mesmo azul dos olhos dela, formando uma flor.
- É lindo, Ed! – ela olhou o anel, retirou-o da caixa e o colocou no dedo da mão esquerda, depois olhou para ele, olhos brilhantes como o sol refletido na água do mar. – Eu acho que não podemos mesmo confiar no amanhã. E não quero que faça tudo por mim, só quero que me ame. E que seja bom, como eu sei que você é. Eu entendo tudo o que disse porque a verdade é que também não tem um dia em que não queira tê-lo ao meu lado para sempre. E eu acho que, se você abriu seu coração para me pedir, o mínimo que posso fazer é dizer sim. Porque a vida toda eu também esperei por alguém que acreditasse em mim. E aqui estamos. Finalmente nos encontramos. E eu sei que vou passar o resto da minha vida com você, Ed Warren. Então, sim. Eu me caso com você.
Ela olhou para o anel de novo, então se jogou nos braços dele, os dois caindo no cobertor em meio a risos e algumas lágrimas. O sol refletia na grama atrás deles e, daquele ângulo, ela parecia uma pintura. Irreal demais para se tocar. Até que ela juntou suas bocas num beijo que lhe tirou o fôlego.
- Tem outra coisa. - ele continuou. Lorraine ficou em silêncio, apenas olhando para ele, aguardando. - Recebi outra carta ontem. Avisando que meus dias de licença expiraram.
- Expiraram...?
- Preciso voltar.
Ela apoiou-se em um cotovelo, olhando fixamente para ele. Sabia que aquele momento chegaria. Conversaram sobre isso quando ele saiu do hospital. Foi liberado apenas até se recuperar, com a ressalva de que podiam chama-lo de volta. E lá estava o momento que ela não queria que chegasse. Sua expressão ficou séria e triste. Ed sabia o que ela sentia, pois ele sentia o mesmo. O medo, a apreensão, a aversão.
- Quando você embarca? - sua voz era pouco mais que um sussurro.
- Em dez dias.
- Não quero me despedir de você de novo. Eu não vou aguentar, Ed! - Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas, e Ed a puxou para si, estreitando-a contra seu peito.
- Eu também não. Não vamos nos despedir. É temporário. Eu vou voltar. Prometo, Lorraine. Vou ficar vivo por você.
- É bom, mesmo. Não posso ficar viúva antes de me casar.
Ele riu, e a puxou para si selando seus lábios novamente. Se pudesse, ele nunca a deixaria. Nunca partiria. Não por ele, mas por ela. Era sua obrigação cuidar dela, protegê-la. Ser sua fortaleza, seu refúgio quando o resto do mundo lhe virasse as costas. E ela era o mesmo para ele. Seu porto seguro, seu farol em meio à tempestade, sempre guiando-o de volta para casa.
Quando se separaram, ela encostou a cabeça em seu peito e fechou os olhos. Ed segurou sua mão e pousou um beijo no ponto onde o anel quase encostava em sua palma. E naquele momento, ela sentiu algo desabrochar em seu peito, uma sensação que se espalhou por todo o seu ser com a certeza de que nem a guerra, nem o tempo, nem a distância, nada disso os separaria. Eles ficariam juntos para sempre.
Estamos perto do fim, só faltam mais dois capítulos e é isso
Obrigada por acompanhar :)
