Felizmente, James tinha reservado um carro para esperá-los no Aeroporto Mascot. A última coisa que Lily queria no momento era ter que esperar por um táxi em uma fila imensa.

Perguntava-se se sua aparência era tão ruim quanto seu estado de espírito quando passou pela alfândega, carregando Emma nos braços. Igualmente adormecido, Harry repousava nos braços do pai. A bagagem deles estava em um carrinho, que James empurrava com a mão livre que lhe restava.

Ele sempre dizia que aquela era a pior coisa sobre viver na Austrália... a distância que tinham de viajar para ver a família dele, ou para qualquer outra viagem de negócios. Mas também dizia que nunca ia querer criar as crianças em outro lugar, pois gostava do estilo de vida do país, do clima e da baixa taxa de crimes.

Daquela vez, o vôo parecera interminável para Lily, apesar de ambas as crianças dormirem durante a maior parte do trajeto. Ela também dormira, mas não tanto quanto pretendia. Tinham feito uma escala em Bangkok, mas Lily nem se importara em sair do avião. James tinha feito isso, dizendo que precisava esticar as pernas e levando as crianças consigo.

Lily ficara feliz por ter sido deixada a sós, sentindo a própria tensão diminuir assim que o marido se afastou. Mas como as coisas iriam ser daquele momento em diante? Essa era a preocupação que mais a atormentava.

O motorista do carro da companhia os esperava junto ao portão de saída, segurando um cartaz com seu nome. James se apresentou e então entregou ao homem o carrinho com a bagagem.

— Por aqui — o motorista indicou.

— O carro está muito longe? — James perguntou pouco depois.

— Não muito. — O homem os conduziu por uma porta de vidro que levava diretamente ao exterior do aeroporto.

— Que bom — James comentou. — Minha família está muito cansada, especialmente as crianças, pobrezinhas — emendou, sorrindo para Lily.

Ela detestou a si mesma por virar o rosto deliberadamente, mas simplesmente não podia enfrentar o olhar amoroso do marido. Era sua imaginação outra vez, ou James estava sendo atencioso em demasia com ela?

Seria injusto dizer que James não era um marido carinhoso, mas ele fora tão atencioso durante o vôo a ponto de despertar as suspeitas de Lily.

Culpa, ela concluíra ressentida. O que mais podia ser? Por que ele subitamente começara a agir de maneira diferente com ela?

— Está uma confusão na cidade — o motorista explicou quando chegaram na calçada. — Temos turistas demais por causa das Olimpíadas. Felizmente tudo voltará ao normal logo... o carro está logo ali, à direita.

O ar estava frio e seco do lado de fora do terminal, e não havia uma nuvem no céu. O sol de primavera certamente aqueceria a temperatura dentro de algumas horas.

O luxuoso automóvel estava estacionado perto da esquina. Uma limusine, ela notou surpresa. Mas se aquele era mais um dos truques de James para agradá-la, não ia funcionar...

— Mamãe? — Emma chamou com voz sonolenta assim que entraram no carro.

— Sim, doçura?

— Quero ir ao banheiro.

— Eu também — Harry secundou-a, olhando ansiosamente para o pai.

Lily teve que sorrir. Seus filhos, pelo menos, continuavam agindo normalmente.

— Certo — James disse contrariado. — Todo mundo desce outra vez...

Enquanto esperava por Emma no banheiro do aeroporto, Lily ajeitou os cabelos e lavou o rosto, examinando-se ao espelho e concluindo que a própria expressão não refletia o turbilhão emocional que vinha experimentando nos últimos dias.

Aquilo não deixava de ser surpreendente. James e Harry já estavam na limusine quando ela retornou com a filha.

— Você parece cem por cento melhor ― ele comentou ao vê-la. — Estava começando a ficar preocupado.

— Nós mulheres nos recuperamos facilmente — Lily replicou sem conseguir se conter. — Mas alguns danos podem ser irreparáveis, James. É melhor se lembrar disso...

A expressão aturdida do marido não a deixou satisfeita, nem a obvia falta de habilidade dele para responder àquela estranha observação.

Será que aquele era o começo do fim?

Minutos depois o automóvel saía da área do estacionamento do aeroporto, e Harry começou a importunar o pai por causa de seu gatinho.

— Podemos passar na casa da vovó para pegar o Teco, pai?

— Agora não, Harry. Sua avó vive em Turrumurra, uma viagem de mais de uma hora. Sua mãe poderá levá-lo até lá amanhã, enquanto eu estiver trabalhando.

Os olhos de Lily arregalaram-se.

— Vai trabalhar amanhã? — ela perguntou, encarando-o com ar suspeito. — No domingo?

James nunca trabalhava aos domingos. Às vezes fazia isso em um ou outro sábado, mas nunca aos domingos. Aquele era o dia da família. Com frequência, ele o reservava para levar Lily e as crianças a algum lugar. A praia, ao zoológico, ao cinema... Por que tinha que trabalhar naquele domingo? O que era tão importante? Será que James precisava da privacidade do escritório para telefonar para sua amada Francesca?

A expressão dele, porém, permaneceu impassível.

— Hoje é domingo, Lily. Amanhã é segunda-feira. Perdemos um dia na viagem de volta por causa do fuso horário.

— Oh, claro. Eu esqueci... que estupidez! — Aquilo levantava outra questão. — Mas nesse caso, minha mãe também estará trabalhando amanhã.

James encolheu os ombros.

— Isso importa? Você tem as chaves da casa dela. Pode passar lá para apanhar o gato.

— Por acaso lhe ocorreu que eu poderia querer ver minha mãe? — Lily perguntou secamente. — Que posso ter sentido falta dela?

— Achei que talvez você estivesse muito cansada — ele replicou abatido. — Não é de seu feitio ser tão irritadiça. Além disso, Lily, nunca a vi tão ansiosa para visitar sua mãe.

O queixo dela ergueu-se em desafio.

— Minha mãe e eu somos mais íntimas do que você imagina.

Àquela altura, Lily começara a se perguntar se não era exatamente com a mãe que devia conversar sobre suas dúvidas. Porque certamente não iria conseguir manter a situação em segredo por muito tempo.

— Vou até lá hoje mesmo — ela informou brevemente. — Enquanto as crianças estiverem dormindo à tarde.

— Mas também quero visitar a vovó, mãe — Harry interveio.

— Eu também — Emma apressou-se em dizer.

— Hoje não — Lily disse. — Vão ficar em casa, e seu pai cuidará de vocês. Preciso discutir em particular com minha mãe sobre um assunto.

— Que assunto? — James perguntou intrigado.

— Coisas de mãe e filha — Lily replicou. — Coisas de mulher. Tenho certeza de que não vai interessá-lo.

— Está se referindo àquela enxaqueca que você teve recentemente? Minha mãe disse que você comentou que podia se tratar de um problema relacionado à TPM. Nunca desconfiei de que você sofresse disso, Lily. Pelo menos, nunca mencionou isso antes.

— O que é TPM? — Harry perguntou.

— O Tormento das Pobres Mães, uma sigla, meu querido — Lily disparou, encarando o filho.

James riu, aproximando-se dela de maneira perturbadora.

— Isso foi rápido. Sabe de uma coisa? Você está muito mais esperta do que de costume depois desta viagem.

A expressão de Lily tornou-se sombria.

— O que quer dizer com isso? Por acaso me considera uma ruiva burra?

O sorriso dele desapareceu abruptamente. James não estava acostumado com um comportamento tão reticente por parte da esposa.

— Você realmente anda irritadiça... espero que seja apenas por causa do vôo. Tenho esperança de que seu humor esteja melhor na quarta-feira.

— Quarta-feira? Por quê?

As sobrancelhas dele arquearam-se.

— É nosso aniversário.

— Oh... sim. Por um momento me esqueci disso...

James parecia cada vez mais intrigado.

— Aniversário de vocês? — Harry perguntou. — No mesmo dia?

— É, filho — James disse, mantendo os olhos em Lily. — Na quarta-feira vão se completar cinco anos desde o dia em que me casei com sua mãe.

— E vamos ter uma grande festa como quando eu fiz quatro?

— Não. Os casais não fazem esse tipo de festa até completarem vinte e cinco anos.

Lily quase riu. Da forma como as coisas estavam indo, teriam sorte se chegassem ao sexto ano!

— Até lá — James continuou —, os casais fazem comemorações privadas. Nesse ano, por exemplo, tenho um plano especial para sua mãe. Espero que ela tenha pensado em algo especial para mim também.

As entrelinhas da frase fizeram Lily corar profundamente.

— Vocês trocam presentes? — a esperta Emma perguntou ao pai.

— Claro — ele replicou, sorrindo.

— Vai dar um presente para o papai, mãe? — a menina perguntou excitada. Emma era uma consumista nata. Na verdade, fazer compras a deixava mais feliz do que brincar com bonecas.

— Veremos, querida — Lily respondeu, feliz por ter uma desculpa para evitar o olhar penetrante de James.

— Sua mãe não vai ter que me comprar um presente nesse ano, Emma — ele murmurou com voz sedosa. — Espero algo que o dinheiro não pode comprar.

— E o que é, pai? — Harry perguntou. — O nono Charlus disse que não há nada que o dinheiro não possa comprar.

— Disse mesmo? Bem, até mesmo o nono erra às vezes. Estou falando sobre amor, filho. Não se pode comprar amor.

Não, Lily pensou desesperada. Aquilo era verdade. Caso contrário, seria capaz de vender tudo o que tinha para comprar o amor do marido de volta.

Mas na verdade, James não estava falando sobre amor. Ele falava sobre sexo. O sexo quente e selvagem que Lily lhe proporcionara noites atrás. Apesar do que sentia por Francesca, aparentemente ainda gostava dela na cama, talvez agora mais que nunca. Ela lhe mostrara um outro lado de si mesma na outra noite, e James estava ávido para rever aquela faceta da esposa.

— É verdade, James — Lily murmurou com amargura, ficando feliz por poder mudar de assunto logo em seguida. — Ah, nós chegamos. Até que não demorou. É mesmo uma vantagem viver tão perto do aeroporto, não é? Vamos lá, crianças, soltem o cinto de segurança e vamos logo ver se está tudo em ordem na casa.

Ela já segurava as chaves da casa na mão quando chegou à porta da frente. James tinha ficado para trás para descarregar a bagagem e liberar o motorista. Logo que a porta foi aberta, as crianças correram pelo hall, subindo imediatamente a escada para irem até seus respectivos quartos.

Enfim estava no lar. O seu lar.

O exterior da casa não chamava a atenção. James a comprara por questões de conveniência. O lugar ficava a cinco minutos do armazém e dos escritórios da Potter Internacional. Mas, na verdade, Lily achava a casa adorável, principalmente por causa da vista grandiosa para a baía Botany...

— Mãe, está tudo bem em meu quarto — Emma informou, descendo a escada apressada. — Todas as bonecas estão lá.

— Claro que estão, sua boba — Harry disse, apesar de ele mesmo ter ido checar o próprio quarto. — Mamãe estava apenas brincando — continuou, sorrindo de forma inocente para Lily.

— Sim, mamãe estava apenas brincando, querida— ela disse, abaixando-se para abraçar ambas as crianças.

— Posso ver que voltar para casa melhorou seu humor — James comentou ao passar pela porta, colocando as malas que carregava no chão e juntando-se à família. — Espero que a mamãe tenha guardado alguns beijos para mim — disse para Harry.

— Não! — o menino protestou, envolvendo o pescoço de Lily com os braços pequeninos. — Eu quero todos eles.

— Haverá beijos suficientes para todo mundo — Lily informou, pensando somente na expressão ciumenta de Emma.

— É bom ouvir isso — James sussurrou.

O tom malicioso das palavras irritou Lily profundamente. Então tinham voltado a questão do sexo, não era? Será que ele só conseguia pensar naquilo? Ou talvez toda aquela revigorada paixão só servia para fazê-lo esquecer momentaneamente a mulher que realmente desejava...

— Será que pelo menos posso esperar por um café decente? — ele indagou.

Lily levantou-se para encarar o marido.

— Claro que pode esperar... — ela murmurou por entre os dentes cerrados. — Mas isso não significa que vá conseguir.

Os olhares dos dois se encontraram. Algum tempo antes, a expressão dura de James a teria espantado, mas não agora.

— Vão lavar o rosto e as mãos, crianças — ela instruiu-os friamente, voltando a ignorar a presença do marido. — Depois vocês vão para a cozinha para tomarem o café da manhã.

As crianças correram para o banheiro, deixando momentaneamente marido e mulher a sós.

— Que deu em você? — James murmurou.

— Não sei sobre o que está falando — Lily replicou fingindo doçura, começando a caminhar para a cozinha.

James não ia desistir tão facilmente.

— Você sabe exatamente sobre o que estou falando — ele resmungou, seguindo-a de perto. — Não banque a obtusa comigo, Lily.

— Por que não? — ela indagou, parando para encará-lo com uma expressão de desdém. — Sempre gostou disso antes...

A expressão de James demonstrava verdadeiro estupor.

Quando Lily caminhou na direção do refrigerador, James segurou-a pelos braços e girou-a, forçando-a a encará-lo. Ela olhou para as mãos fortes, depois para os olhos furiosos do marido. Sua expressão era fria como gelo.

— Tire suas mãos de mim — disse, pontuando cada palavra.

James soltou-a imediatamente, suas feições eram angustiadas. Instantes depois, ele deixou escapar um suspiro e passou os dedos por entre os cabelos. Lily nunca o vira tão perturbado.

— Sinto muito — ele murmurou. — Não queria magoá-la. Só queria que conversasse comigo, dissesse o que há de errado.

Lily genuinamente queria poder falar, porque pensar em Francesca a envenenava por dentro. Poderia até suportar a idéia de saber que o marido já fora noivo da italiana. Como Charlus tinha dito, aquilo era apenas passado. Mas continuar apaixonado? Alimentar aquele amor por tantos anos...

Era inevitável que um dia tivesse de falar sobre Francesca. Mas agora queria evitar o assunto. Ainda não era a hora certa. Logo as crianças estariam de volta, e Lily não tinha intenção de discutir na frente delas.

Pensar nos filhos trouxe de volta alguma sanidade para sua alma atormentada.

— James... por favor, vamos deixar isso de lado por enquanto...

— Não — ele disse teimoso. — Está zangada comigo por algum motivo, e não sei qual é.

— Acho que esse é o problema, James — ela replicou de maneira pausada. — Você não sabe o motivo...

— Está falando por enigmas, mulher!

Aquilo era a coisa errada para James dizer.

— Pare de me chamar desse jeito — ela disparou irritada. — Meu nome é Lily. Lily! Você entendeu? Pare de me chamar de "mulher".

— Oh, entendo — ele murmurou devagar. — Deve ser algum tipo de problema feminista. É por isso que você quer ir correndo para sua querida mamãe. O que foi, Lily? Está insatisfeita por ser apenas esposa e mãe, é isso? Você quer mais? Uma carreira, talvez? Ou é comigo que está insatisfeita? Não tenho lhe dado o conforto sexual que você subitamente parece ter começado a querer? Se esse é o problema, querida, então pode acreditar, sou seu homem. Acredita honestamente que não notei como as coisas andavam entre nós na cama no último ano? Mas tenho que lhe dizer que o marido pode suportar muitos orgasmos fingidos antes de procurar consolo em outro lugar.

Lily encarou-o, aturdida pelo ataque dele, furiosa por James usar uma desculpa daquelas para sua infidelidade. Certo, na verdade ela realmente fingira alguns orgasmos nos últimos tempos. Isso não era melhor do que simplesmente dizer "não, estou com dor de cabeça"? Pelo menos ele ficara satisfeito.

Estava abrindo a boca para argumentar quando Emma correu cozinha adentro.

— Mãe, já estou limpa agora — a menina anunciou, puxando a barra da saia de Lily. — Quero sanduíche de pasta de amendoim e suco de laranja.

Reunindo forças de maneira surpreendente, Lily abaixou-se e pegou a filha nos braços.

— Tudo que quiser, amor.

A súbita interrupção deixou James abatido, sem saber o que fazer.

— Vejo que você vai ter que cuidar das crianças agora. Vou telefonar para meus pais e avisá-los de que chegamos bem.

— Ótimo — Lily concordou, infinitamente satisfeita por vê-lo sair da cozinha. Quando James reapareceu, já bem mais tarde, ela recuperara temporariamente o autocontrole.

— Não irei para a casa de minha mãe até que as crianças estejam dormindo — avisou devagar, servindo-se uma caneca de café. — Eles não vão incomodá-lo.

James permanecia parado na porta, observando-a.

— Lily, vai ter que me dizer o que a está incomodando.

— Sim, eu sei — ela admitiu. — Mas não agora.

— Por que não? Estamos sozinhos.

Aquilo era verdade. As crianças tinham terminado o café da manhã e estavam na sala de estar assistindo à televisão.

— Quando, então?

— Hoje à noite. Quando as crianças já tiverem ido dormir.

— À noite, então — James concordou com relutância, deixando escapar um suspiro.


Huuum será que James está se revelando? Ele realmente seria capaz de trair Lily? Seria uma boa ela conversar com Sirius não é ;D mas o melhor mesmo é ela conversar com a mãe, a voz da experiência. Muito obrigada Joana Patricia, Anne Marie Le Clair e Nanda Soares pelos comentários, até mais meninas :*