Capítulo Seis

Aboard The Hogwarts Express

(A Bordo do Expresso de Hogwarts)

— Está brincando, né? — perguntou Harry.

— Não — disse Moony.

— Definitivamente, não — adicionou Padfoot, parecendo anormalmente sério.

— Passar por ela? — repetiu Harry. Uma mulher muggle parou e olhou para Hedwig, que batia o bico impacientemente de dentro da gaiola sobre o malão de Harry, que estava no carrinho. Tonks se virou e a olhou com a mesma quantidade de interesse até a mulher ajeitar a bolsa e se afastar. Tonks se voltou para eles, sorrindo tão largamente que seu rosto de oito anos corria o risco de rasgar.

Era a primeira vez que Moony saia de Grimmauld — exceto pela vez que fora passar a lua cheia em sua cabana, ou visitara os Tonks ou fora almoçar na casa de Matt — desde o ataque no final de julho, e por mais que Padfoot — que não se deu ao trabalho de se disfarçar — fosse ficar de olho nas coisas, Tonks era a segunda barreira de proteção, por precaução.

— Pode correr — disse Padfoot, dando de ombros. — Também funciona. — Harry o olhou, duvidoso. Se Padfoot tivesse lhe dito para atravessar uma parede aparentemente sólida no dia que ele o tirara da Rua dos Alfeneiros, podia ter acreditado... Com bruxos sendo quem eram, Harry não ficaria surpreso que fosse necessário atravessar uma parede para chegar à plataforma. Mas Harry também não ficaria surpreso se essa fosse a ideia que Padfoot tinha de uma piada; Padfoot nunca faria algo que realmente machucasse Harry, mas provavelmente acharia engraçado convencê-lo a correr de encontro a uma parede.

— ... cheio de muggles, é claro...

Harry e os outros se viraram para ver outra família, uma família claramente mágica; estavam completamente equipados com os malões de Hogwarts e o garoto mais alto até tinha uma coruja. Eles, também, eram conhecidos.

Ginny foi a primeira a ver Harry e, enquanto a senhora Weasley falava algo sobre o número da plataforma, ela se soltou de sua mão e cutucou Ron. Os dois sorriram e acenaram, enquanto os outros — Harry reconheceu os gêmeos de quem ouvira falar, e o garoto mais velho era Bill ou Percy (Charlie era um amigo de Tonks que trabalhava com dragões) — os seguiram mais lentamente.

— Oi, senhor Black — disse Ron, acenando timidamente para Padfoot, enquanto Tonks mudava seu nariz (sutilmente, porque estavam cercados de muggles), fazendo Ginny guinchar e a abraçar. — Oi, senhor Lupin.

— Professor Lupin esse ano — disse Harry, sorrindo. O sorriso de Ron se abriu na mesma hora.

— Brilhante! — disse, animado. — É novo professor de Defesa? Fred disse que o último professor pediu demissão no fim do ano...

— Fred está certo — disse Moony. Um dos gêmeos (provavelmente Fred) os olhou. O outro (se sua memória estivesse certa, era Greg ou George, ou algo parecido) brigava com o irmão mais velho, e a senhora Weasley observava Moony e Padfoot, sem jeito, como se não soubesse se deveria cumprimentá-los ou não. Harry não sabia se eles já se conheciam. Mas ela sorriu gentilmente quando percebeu que ele a olhava e ele retribuiu.

— Animado por estar indo para Hogwarts? — perguntou ela, e ele sorriu, assentindo, mas seus olhos foram para Padfoot e seu sorriso diminuiu um pouco. Era difícil imaginar não o ver todos os dias, não ouvir sua voz ou seu latido...

Eu vou mesmo sentir falta dele, pensou não pela primeira vez. Padfoot olhou para o Auxiliar, antes de olhar para Harry, questionador. O garoto balançou a cabeça e Padfoot o olhou por mais um momento, antes de falar com os outros.

— Vamos passar?

— Como chegamos na plataforma? — perguntou Harry a Ginny em voz baixa; ela era quem estava mais perto, porque Ron tinha ido parar atrás de Tonks (apesar de ficar mais alto agora que ela estava nessa forma em particular) para ficar fora do campo de visão da senhora Weasley e poder fazer um gesto grosseiro para os gêmeos. O irmão mais velho parecia dividido entre desaprovação e animação.

— Pela parede — disse ela, apontando.

— Achei que Padfoot estivesse brincando — disse e Ginny riu ao ver a expressão magoada de Padfoot.

A senhora Weasley conseguiu fazer seus filhos passarem pela barreira — Harry parou ao lado de Padfoot, parcialmente para não ficar no caminho, parcialmente para ter certeza que Ginny também não o zombava — e, depois, eles os seguiram; Padfoot primeiro, depois Harry, Moony e, por fim, Tonks.

— Uau — disse Harry, sem conseguir se parar. Mesmo parcialmente obscurecido pela fumaça, o Expresso de Hogwarts, brilhante e vermelho, era uma visão e tanto. As pessoas reunidas... Harry achava não ter visto tantas pessoas desde o julgamento de Padfoot, no ano anterior. O barulho (vozes, algumas felizes, outros chorosas; pios de corujas; miados de gatos) era esmagador. Hedwig bateu as asas, e Harry se aproximou de seu padrinho, que colocou uma mão em seu ombro. Felizmente, ninguém pareceu notá-lo ou, melhor, quem eles eram.

— Vó, perdi meu sapo de novo. — Harry ouviu um menino de rosto redondo dizer ao seguir Padfoot pela multidão. Os Weasley seguiram o próprio caminho, mas Harry sabia que iam voltar a se encontrar depois, quando o trem estivesse em movimento, e Moony e Tonks também tinham sumido em meio à multidão.

— Eles vão nos achar — disse Padfoot de modo tranquilizador. — Venha, vamos achar um lugar para você se sentar. O fundo é melhor, eu acho; os Monitores não costumam ir muito até o final o trem. — Harry riu e passou o carrinho para Padfoot (que conseguiu manejá-lo melhor pela multidão do que Harry). Mas Harry continuou com uma mão no carrinho, para que não se separassem.

Harry viu vários rostos conhecidos; Amelia Bones com uma garota ruiva — a garota se escondeu atrás dela ao vê-los, mas Bones assentiu na direção deles — e a família Malfoy, acompanhada por um grupo. De onde estava, Harry não conseguiria distinguir Draco e Hydrus, apesar de suspeitar que Draco era o que estava mais próximo a senhora Malfoy. Ele os perdeu na multidão um momento depois.

— Padfoot! — Harry reconheceu a voz de Moony sobre o barulho e viu Tonks, que estava mais alta do que Moony no momento (mas que, estranhamente, ainda tinha feições infantis) e com o cabelo rosa, como um farol. — Lembra de ser tão ruim assim? — perguntou, e Padfoot balançou a cabeça.

— Eu... — Padfoot arregalou os olhos, forçou Harry a abaixar a cabeça e esticou uma perna para fazer Moony tropeçar. Moony caiu com um baque e levou Tonks consigo. Harry ergueu os olhos a tempo de ver um feitiço azul-escuro explodir inofensivamente na lateral do trem. Padfoot sumiu do lado de Harry um segundo depois, e Tonks voltara ao seu tamanho e forma normais, guiando Harry na direção de Moony. Os dois tinham sacado as varinhas e, depois de ter certeza que mais ninguém iria atacá-los, Tonks foi atrás de Padfoot.

Padfoot encurralara o atacante, que estava com o filho — um garoto de olhos arregalados que Harry achou ter a sua idade. O garoto parecia surpreso e um pouco envergonhado, mas o homem parecia impenitente; ele cruzara os braços e olhava para Moony com claro desgosto.

— Maldito lobisomem! — Harry o ouvir dizer, antes de não conseguir ouvir parte da conversa, mas ouviu novamente quando o homem disse: —... não vai ensinar o meu filho...

Ele e Padfoot trocaram mais algumas palavras — Padfoot disse algo em voz baixa que fez o homem se esticar (ele ainda era bem mais baixo do que Padfoot) e parecer desconfortável —, antes de Padfoot se virar e voltar para onde estavam, parando apenas para segurar Tonks; ela parecia prestes a explodir, com o cabelo vermelho, rosto rosado e olhos alaranjados.

Padfoot não falou nada sobre o assunto ao voltar, mas seu maxilar estava tenso e Harry percebeu que ele não estava impressionado. Moony estava quieto — se Harry conseguira ouvir o comentário sobre o lobisomem, então ele certamente ouvira — e não prestou muita atenção a Tonks quando ela acariciou a lateral de seu rosto e murmurou algo que Harry não ouviu.

— Que tal aquele ali? — perguntou Harry, apontando para um compartimento vazio. Padfoot o ajudou a subir e, juntos (com Moony logo atrás, caso Harry não aguentasse a sua ponta), ergueram o malão e o colocaram no compartimento de bagagem. Harry guardou a gaiola de Hedwig em um canto, passou um momento estudando a multidão pela janela, procurando a cabeça cheia de cachos de Hermione, a cabeça vermelha de Ron ou a platinada de Draco, antes de se virar.

— Não vai ficar? — perguntou Harry quando notou que Moony não guardara o próprio malão. Moony pareceu surpreso, antes de sorrir e trocar um olhar com Padfoot. Tonks estava no corredor, com seu rosto normal (ou, pelo menos, o que ela usava normalmente), conversando com o Monitor-Chefe (ou era o que estava escrito na insígnia, de todo modo). Harry não deixou de notar o olho que crescera em sua nuca e que estava fixo em Moony.

— Posso dar uma passada por aqui depois — disse Moony. — Pensei em ir encontrar os Monitores, os Chefes e o maquinista por agora. — Olhou para Padfoot. — Você vai ficar bem?

— Não sou eu que tenho que te perguntar isso? — suspirou Padfoot. — Dora. — Ela assentiu e seguiu Moony. — Tome cuidado!

— Você se preocupa demais! — disse Moony.

— Eu... — começou Padfoot, provavelmente prestes a lembrar que Moony tinha sido atacado, mas o som de Dora batendo em Moony e um "ai!" abafado passou pela porta aberta. — Idiota — disse Padfoot, carinhoso. — Então, como está se sentindo?

— Estou bem — disse Harry.

— Vai ficar bem — garantiu Padfoot, e Harry acreditou nele; estava no mundo bruxo há dois anos, ouvira mais histórias sobre Hogwarts do que podia lembrar e já fazia alguns anos que tinha sua varinha, o que significava que sabia tanto quanto todo mundo (e definitivamente mais do que alguns). O resto podia aprender com todos os outros.

Estava ansioso, mas não preocupado, sobre a Seleção; tinha descartado Corvinal, porque não achava que se encaixava, mas achava que as outras três casas eram possíveis. Queria Grifinória, como seus pais, e como Padfoot e Moony, mas Tonks tinha sido da Lufa-Lufa e tinha amado, e Sonserina não era totalmente ruim, apesar de Harry particularmente não querer dividir um dormitório com Hydrus Malfoy.

— Você, er... — Padfoot correu uma mão pelo cabelo, parecendo desconfortável. — Você sabe que eu vou aceitar qualquer Casa em que você acabar, certo, garoto?

— Eu sei — disse Harry e era verdade. Não era nenhum segredo que Padfoot não gostava particularmente dos Sonserinos com quem ele tinha frequentado a escola (sendo justo, a maioria tinha sido Comensal da Morte), mas também deixara igualmente claro que vários bruxos e bruxas talentosos tinham vindo dessa Casa; Andromeda, Regulus, o Auror parceiro de Padfoot, Hemsley, e até Snape. E Harry só precisava ver a forma que Padfoot tratava Dora para saber que ele não tinha problemas com os Lufos.

— Bom — disse Padfoot com a voz rouca. Tão rápido que Harry mal teve tempo de registrar o que estava acontecendo, Padfoot o puxou para um abraço apertado. — Vou sentir sua falta.

— Também vou sentir a sua — disse Harry, a voz abafada pela camiseta de Padfoot. A dog-tag bateu nos óculos de Harry.

— Lembrou de pegar o Espelho?

— Tá na minha mochila — disse Harry. A única resposta de Padfoot foi apertá-lo ainda mais.

— Você vai se divertir — disse Padfoot, e Harry conseguia ouvir o sorriso em sua voz. — Não dificulte muito para o Moony durante as aulas... Mas, dito isso, se precisar de ajuda para planejar alguma coisa, então é só me mandar uma coruja ou me chamar no espelho. — Harry riu e Padfoot o soltou, mas continuou segurando seus ombros. — Aproveite — disse, antes de ficar um pouco sério. — Só... — Hesitou. — Só mantenha a cabeça no lugar, certo?

— É, tudo bem — disse.

— Com tudo o que está acontecendo com Gringotes, Moony e...

— Vou tomar cuidado — disse Harry. — Prometo. — Padfoot sorriu e o abraçou novamente. Um apito agudo soou, e Padfoot o soltou. — Chegou a hora — disse e, de repente, Harry não queria que ele fosse embora. — Cachorros não podem ser levados para Hogwarts? — perguntou sem muita esperança.

Padfoot riu e disse:

— Ainda não, mas se eu mandar cartas o bastante para Dumbledore, é provavelmente que ele acabe concordando. — Olhou para a porta. — Eu preciso ir, garoto, ou vou pular de um trem em movimento e isso nunca é divertido...

— Quando foi que você... — começou, mas Padfoot já tinha ido. Harry se aproximou da janela, esperando que ele reaparecesse.

Outro apito soou e a família Weasley se aproximou do trem. Ginny segurava na mão de Ron como se sua vida dependesse disso, mas foi forçada a soltar quando a senhora Weasley começou a mandar seus filhos entrarem no trem. Os três embarcaram e, ao lado da senhora Weasley, Ginny começou a chorar.

— Não chore, Ginny, vamos te mandar várias corujas. — Harry ouvi a promessa de Ron.

— Vamos te mandar um assento de privada de Hogwarts — disse um dos gêmeos.

— George! — Ginny, parecendo incapaz de se conter, gargalhou e Ron riu, zombeteiro. Uma risada meio latida soou e Harry viu Padfoot, que encontrara Tonks, se apertar por meio da multidão para chegar à frente.

— É brincadeira, mãe — disse um dos gêmeos. A senhora Weasley crispou os lábios, e o trem começou a se mover.

— Divirta-se! — gritou Tonks, acenando. Seu cabelo mudou de cor, passando por cada uma das quatro Casas, fazendo Harry sorrir e as pessoas na plataforma se virarem e apontarem.

— Coma os vegetais! — avisou Padfoot, caminhando ao lado trem. Ginny corria um pouco a frente dele, rindo, chorando e acenando para seus irmãos. — Não comece nada com os Lufos ou os Sonserinos sem seus amigos; eles caçam em bando! — Harry apenas riu. — Diga oi para Pirraça, para a velha McGonagall, e diga a Snape que quero a porcaria do meu livro de volta! — Padfoot já estava trotando. — E cause problemas, mas não seja pego!

O trem ficava cada vez mais rápido e Padfoot se transformou em um cachorro para poder acompanhar. Harry o ouviu latir até o trem fazer a curva e a plataforma sumir.

-x-

Ron o encontrou quase na mesma hora.

Ele arrastou um malão gasto até a porta, bateu uma vez no batente e, quando Harry o olhou, perguntou:

— Você se importa se eu...

— Vá em frente — disse Harry e Ron sorriu, parecendo aliviado. Arrastou o malão para dentro. — Quer uma ajuda? — Erguer um malão pesado não foi tão fácil com Ron quanto tinha sido com Padfoot; um dos trincos cedeu e um suéter caiu, assustando Ron, que derrubou o malão, que pousou no pé de Harry. Seus olhos ficaram lacrimejados e um dos xingamentos mais pesados que aprendera com Padfoot escapou. Hedwig piou, desaprovadora.

— Parece que vocês vão se dar bem, então. — Os gêmeos tinham seguido Ron e agora estavam apoiados no batente, observando a cena a sua frente com diversão.

— Vocês compartilham do amor por xingamentos — adicionou o outro gêmeo.

— Eu os aprendi com vocês! — protestou Ron.

— Ah, e que aluno você foi. — Os gêmeos trocaram um olhar carinhoso, antes de se virarem para Harry, que tentava tirar o pé de baixo do malão.

— Precisa de uma ajuda? — perguntou um deles. Juntos, conseguiram arrumar o trinco e colocar o malão no compartimento de malas. Então, um dos gêmeos ofereceu a mão para Harry.

— Não nos conhecemos direito antes — disse. — George Weasley.

— Fred — adicionou Fred, depois de Harry ter apertado a mão de George. Então, os dois se viraram para Ron. — Lee tem uma tarântula gigante...

— ... deve até ser uma Acromântula pequena — adicionou George, animado.

— ... em algum lugar no meio o trem. Estamos indo pra lá.

— Pode vir junto — ofereceu George com um sorriso dissimulado.

— Não, obrigado. — Ron parecia passar mal.

— Harry? — Harry olhou para Ron e balançou a cabeça. Ron pareceu grato. — Azar o seu.

— Até mais! — Os gêmeos foram embora, fechando a porta do compartimento ao saírem, e Harry os ouviu rir ao atravessarem o corredor. Sorriu.

— Não está interessado? — perguntou Harry, curioso.

— Odeio aranhas — murmurou Ron. Ele não parecia querer explicar o motivo, então Harry não insistiu. Em vez disso, acomodou-se de um jeito que poderia ver quem passasse por seu compartimento (ou seja, Moony, Hermione, Draco ou Blaise) e começou a falar de Quadribol, o que manteve os dois entretidos até o trem ter saído completamente de Londres, entrando na zona rural.

Por volta do meio-dia e meio, Harry estava prestes a perguntar a Ron se ele queria dar uma volta para tentar encontrar mais alguém, quando a porta foi aberta para mostrar uma mulher com covinhas nas bochechas e um sorriso enorme.

— Algo do carrinho de lanches, queridos? — Harry tomara um café da manhã reforçado e Monstro guardara comida em sua mochila, mas decidiu que tinha espaço para doces. As orelhas de Ron ficaram vermelhas e ele murmurou algo sobre ter trazido o almoço de casa e, por isso, Harry foi o único deles a se levantar e seguir a mulher até o corredor.

Comprou Feijãozinhos de Todos os Sabores na mesma hora (tinha que agradecer a Dumbledore por essa predileção em particular), assim como Sapinhos de Chocolate e Varinhas de Alcaçuz. Comprou, também, Tortinhas de Abóbora, porque, ainda que não estivesse com vontade de comê-las, sabia que era muito provável que Moony passasse por seu compartimento e o pegasse comendo apenas doces, e ele contaria a Padfoot. Ron, nesse meio tempo, tinha pego alguns sanduíches e os mordiscava com uma expressão resignada.

— Carne enlatada — suspirou. Harry, que almoçara com Ron várias vezes antes, sabia que ele não gostava de carne enlatada e da tendência da senhora Weasley esquecer disso e fazê-los para ele mesmo assim.

— Coma umas dessas — disse Harry, passando as Tortinhas para ele. — Só não joga as embalagens fora, para que eu possa mostrá-las para Moony se ele passar por aqui. — Ron protestou, mas Harry não lhe deu ouvidos e, por fim, Ron foi convencido a comer. Harry abriu a caixa de Feijãozinhos, e procurou suas cartas velhas de Snap Explosivo em sua mochila.

Ele e Ron se divertiram jogando o Jogo da Torre — no qual os jogadores adicionam cartas à torre até que ela exploda e o perdedor tem que comer um Feijãozinho —, enquanto comiam outros doces. Pouco depois da visita de um menino que perdera seu sapo e o procurava, Ron pegou um Feijãozinho de queijo, o que fez seu rato sair do bolso.

Harry congelou ao vê-lo; não gostava mais de ratos depois de tudo o que acontecera, e esse não tinha o mesmo dedo que Wormtail. Apesar de saber muito bem que Wormtail estava em Azkaban — e ficaria lá pelo resto da vida —, Harry ainda ficou inquieto o bastante para precisar se certificar.

Ostendere me omnia, pensou e piscou para se ajustar quando a magia invadiu seus olhos. O trem, como o Beco Diagonal, Hogwarts e até Hogsmeade, estava tão coberto de magia que seus olhos chegavam a doer. A magia de Ron era dourada, com manchas verdes e uma textura fina e espinhosa, um pouco parecida com um fio de arame. E seu rato — Perebas — era uma mancha preta, completamente desprovido de magia. Harry deixou o feitiço perder a força e relaxou.

— Acho que nunca o vi tão animado — disse Ron, fazendo Perebas correr pelo banco, caçando o Feijãozinho de queijo. Harry notou que Hedwig observava o progresso do rato com interesse mortal. — Ele só dorme. — Harry assentiu, rindo quando Perebas pulou atrás do Feijãozinho e conseguiu tirá-lo da mão de Ron. Então, ele foi comê-lo no peitoril da janela. — E tentei deixá-lo amarelo ontem — disse Ron. — Todo mundo tem coisas legais, como corujas — indicou Hedwig com a cabeça — e gatos, e tenho só o idiota o Perebas, então achei que se ele fosse colorido...

— Você tentou deixá-lo amarelo? — perguntou Harry, sorrindo. — Com uma Poção ou...

— Não, um feitiço — disse Ron. Sacou a varinha (como o resto de suas coisas, ela estava gasta). Ela estava lascada e quebrada na ponta; Harry conseguia ver o pelo de unicórnio brilhar na ponta. Ron notou seu olhar e suas orelhas ficaram vermelhas.

Alguém gritou do lado de fora. Ron se assustou e derrubou a varinha, que rolou para debaixo do banco do outro garoto. Harry se ergueu num pulo, incerto do que estava fazendo — mas a voz de Padfoot ecoou em sua mente, dizendo que era para manter a cabeça no lugar —, e, quando olhou para baixo, viu que estava com a varinha na mão. O grito foi seguido por risadas e uma garota dizendo:

— Hydrus!

Harry revirou os olhos, guardou a varinha no bolso, deu um sorriso envergonhado a Ron e se abaixou para procurar a varinha dele. Havia algumas coisas interessantes sob o assento, Harry percebeu; uma insígnia do Pegas de Montrose, metade de um artigo do Profeta Diário sobre remoção de verrugas, um amontoado de chiclete e, por fim, atrás de uma cópia gasta de Semanário das Bruxas, estava a varinha de Ron. Ao se esticar para pegá-la, Harry ouviu a porta do comportamento ser aberta.

— Alguém viu um sapo? — perguntou uma voz mandona e extremamente conhecida.

— Hermione?! — Harry pulou para se virar e bateu a cabeça no assento. — Ouch! Maldição...

— Harry? — perguntou a voz de Hermione, soando surpresa e deleitada. — Eu estava te procurando mais cedo! O que está fazendo aí embaixo?

— Pegando a varinha de Ron — disse Harry, levantando-se. Devolveu a varinha para o dono confuso. — Ah, desculpe. Hermione, esse é o Ron Weasley. Ron, essa é...

— Hermione Granger — disse Hermione prontamente. Ela fez sinal para o garoto que perdeu o sapo entrar no compartimento. — Esse é o Neville Longbottom. — Neville acenou para eles, mas não encontrou seus olhos. Por outro lado, ele olhou para Harry e sua testa.

— Prazer — disse Ron, parecendo um pouco confuso, enquanto Hermione arrastava Neville até o assento, antes de ela mesma se sentar.

— Você encontrou a plataforma, obviamente — disse Harry; ele e Padfoot tinham oferecido encontrar os Granger para ajudá-los, mas eles queriam ficar sozinhos na primeira vez e se despedir apropriadamente de Hermione.

— Sim, tivemos um pouco de problemas quando chegamos na parede, mas demos conta — disse ela.

— Eu achei que Padfoot estivesse brincando — comentou Harry.

— Nós recebemos as instruções da professora McGonagall, e eu não acho que ela seja de brincar — disse Hermione. — Eu poderia ter te dito se tivesse perguntado, ou podia simplesmente ter lido o capítulo sobre a Plataforma 9 ¾ e o Expresso de Hogwarts em Hogwarts: Uma História ou em A História Detalhada dos Transportes Mágicos...

— Parece divertido — murmurou Ron, e Harry riu. Hermione os olhou feio, antes de olhar para Neville, como se esperasse que ele também risse; Neville, entretanto, estava quieto com as mãos cruzadas sobre o colo.

— ... que são livros que valem a pena ler — terminou ela. Olhou para os outros três. — Oh, isso é tão animador! Hogwarts é uma das melhores instituições educacionais mágicas e estamos indo para lá! Eu...

— Sapinho de Chocolate? — disse Harry, oferecendo os doces a ela e a Neville, antes de que ela começasse a dar uma aula.

Neville aceitou com um agradecimento tímido e Hermione pausou, parecendo interessada.

— Um o quê?

— Um Sapinho de Chocolate — disse Harry, entregando a caixa. — São doces. — Ela experimentara Feijãozinhos de Todos os Sabores em uma de suas visitas a Grimmauld, mas não gostara muito deles, então foi com um pouco de hesitação que ela aceitou o doce e o virou em suas mãos.

— Oh — disse ela, olhando para Neville. — Sapo!

— O quê? — perguntou ele. Ron olhou para Harry, confuso, mas ele apenas deu de ombros.

— Ainda precisamos procurar nos outros compartimentos — disse. — Venha, Neville. Voltaremos depois! — disse, levando Neville para fora. Harry a ouviu bater no compartimento ao lado do seu e ouviu: — Desculpe, vocês viram... — antes da porta ser fechada.

— Essa é a Hermione — disse Harry.

— Certo — disse Ron num fio de voz. Voltaram a jogar cartas, conversando amenidades por um tempo. — Ei, ficou sabendo de Gringotes? — perguntou Ron.

— Sim, um pouco — respondeu Harry. — Padfoot está trabalhando nisso. — Mas não falou nada além disso; não era para ele saber tanto quanto sabia e certamente não tinha permissão para contar para as pessoas. Ron pareceu impressionado.

— Sabe o que foi que roubaram?

— Nada — respondeu. — Nem ideia do que estavam procurando, também — adicionou honestamente, prevendo a próxima pergunta de Ron. — O cofre tinha sido esvaziado, mas os duendes não querem falar de quem era ou o que estava nele.

— E não sabem quem está por trás? — perguntou Ron. Harry balançou a cabeça. — Estranho — disse. — Meio assustador, também, né? Quer dizer, era para Gringotes ser um dos lugares mais seguros do mundo, ou foi o que Bill disse e ele trabalha para eles, então deve ser verdade. Mas aí alguém invade e não é pego nem nada...

— Assustador — concordou Harry. — Então, o que é que o Bill faz?

— Oh, ele é um Desfazedor de Feitiços. Ele está no Egito no momento, trabalhando com todos os tipos de armadilhas mágicas e não-mágicas, procurando por tesouros. — Ron começou a explicar melhor (Harry perdeu a próxima rodada e precisou comer um Feijãozinho sabor musgo) e tinha começado a contar sobre o trabalho de Charlie quando a porta foi aberta. Harry ergueu os olhos, esperando Hermione, mas viu que o visitante era mais alto, estava com o rosto vermelho por arrastar seu malão e carregava uma gaiola ocupada por uma coruja na outra mão.

— Então — disse ele —, é verdade; todos estão falando que o famoso Harry Potter está nesse compartimento... Você não é lá uma celebridade, né? — O comentário foi acompanhado por um sorriso afetado, mas a zombaria não foi tão maldosa quanto poderia ter sido; Draco ofegava, e não costumava ser grosseiro com Harry; não de propósito, pelo menos. — Seu rosto está coberto de cinzas e tem chocolate em volta da sua boca.

— O Profeta teria um dia e tanto, tenho certeza; Harry Potter se comporta como uma criança normal — disse Harry sarcasticamente. Draco o encarou.

— Sabe, Potter, acho que nunca te ouvi falar tantas palavras de uma vez só. — Harry suspirou. Draco continuou parado na porta, olhando para Harry com expectativas, antes de ser ele a suspirar. — Não fique sentado aí, Potter, me ajude.

— Com...

— Meu malão — disse Draco. — Por favor. — Harry se levantou e o ajudou a colocar o malão dentro do compartimento. Draco colocou a coruja ao lado de Hedwig e as duas se olharam com curiosidade. — Obrigado. — Draco escolheu o assento que era o mais longe de Ron quanto fisicamente possível. — Os Elfos Domésticos deviam ser obrigatórios no trem, para nos ajudar com nossas coisas, não acha? — Ron revirou os olhos, mas não respondeu. — Elfos Domésticos são umas criaturas que temos em casa — disse Draco —, que nos ajudam com tarefar diárias.

— Eu sei o que é um Elfo Doméstico — disse Ron, fechando a cara.

— Mas você é um Weasley — disse Draco, parecendo surpreso. — Achei que não teria ouvido falar deles. — As orelhas de Ron ficaram rosadas e ele abriu a boca (Harry tinha certeza que ele ia explodir e não podia culpá-lo), mas Draco continuou falando; ele notara Perebas, que dormia no peitoril da janela. — Esse rato é seu? — perguntou, sua expressão se alegrando.

— Perebas — disse Ron, cauteloso.

— Perebas...? — zombou Draco. — Não é um nome muito legal, né?

— Meu irmão Percy...

— Tudo bem — disse Draco. — Você é um Weasley. — Harry gemeu baixinho do seu canto o compartimento, certo de que as coisas só piorariam. — Posso? — Ron piscou. — Eu gosto de ratos — disse. Harry o olhou.

— Er, claro — disse Ron, parecendo confuso. Ele pegou Perebas e o entregou. Draco imediatamente permitiu que ele se sentasse na dobra de seu cotovelo e começou a acariciá-lo.

E assim ficaram; Draco brincando com Perebas, Harry e Ron jogando cartas, e Draco e Ron trocando olhares nada impressionados. Não era confortável, mas ainda não tinham duelado nem trocado socos, então Harry achou que, considerando tudo, eles estavam se dando bem.

Por enquanto, pelo menos.

Continua...