6. Lamentos de uma Fênix.
Aquele era um domingo muito especial para Shun e Shiryu, afinal, já havia se passado uma semana desde que June ligou e Shunrei enviou a carta, ambas noticiando sua mudança definitiva para a cidade dos cavaleiros. O melhor de tudo é que Saori organizara uma festa surpresa para recepcionar as garotas, que chegariam em vôos das 18:00 horas daquele domingo.
Em seu apartamento, Shun não deixava de pensar em seu reencontro com sua "amiga" de Andrômeda. Ele andava de um lado para o outro tentando descobrir coisas que fizessem June estar feliz com sua nova cidade. Comprara inúmeros presentes e decorara o apartamento da garota com belos quadros e enfeites, e ainda assim achava que não era suficiente.
Será que ela ficará feliz quando ver a surpresa? – Shun pensava alto enquanto revisava tudo que havia preparado – Talvez fosse melhor comprar mais alguns presentes...
Ah, pare com isso Shun, já comprou quase uma loja toda de presentes para June. Além do mais, você está muito preocupado com a chegada dela, afinal ela é só uma garota comum... – dizia Ikki mais mal-humorado que nunca, acabando de acordar e indo até a geladeira pegar um copo de leite.
Ela não é uma garota comum, Ikki. Você sabe o que ela significa para mim... E qual é o seu problema? Parece ter acordado com dois pés esquerdos hoje...
É, talvez seja isso. Mas, na verdade, a minha vida não tem contribuído muito para minha felicidade... – Ikki parecia estar realmente com problemas.
Precisamos conversar, Niisan... – Shun agora se entristecera, preocupado com a situação do irmão mais velho – porque não divide um pouco da sua tristeza comigo?
Tristezas não foram feitas para serem divididas, e sim as alegrias... Não quero estragar esse momento especial pra você, e te contando meus problemas só vou acabar te desanimando também.
Não gosto quando pensa assim... Afinal, além de irmãos também somos amigos. Por favor me conta um pouco de seu sofrimento.
Ikki encarou o irmão, realmente sentia que precisava conversar com alguém. Ele se sentia só e abandonado. Por mais que seu irmão estivesse sempre próximo, ele não conseguia acabar com essa tristeza em sua alma. Isso porque somente o amor e o carinho do seu irmão não eram suficientes para suprir todas as necessidades de seu coração, claro, pois havia um outro tipo de amor que Shun não podia oferecer a Ikki. Esse amor especial é o que Fênix vem procurando a tempos, mas não encontra em parte alguma e é esse amor que vem corroendo Ikki por dentro.
Prometo então que em outra ocasião conversaremos – Ikki tentava formar um falso sorriso no rosto para disfarçar suas angústias – Mas por favor não se preocupe, não há nada de errado comigo. Agora vá terminar de arrumar suas coisas pois precisa ir até a casa de Saori para ajudá-la com os preparativos da festa.
É verdade, ela pediu para que eu fosse até lá. E então você vai a festa a noite, não vai?
Ah, não sei, não estou muito a fim...
Irmão, precisa parar de se trancar em casa. Ou você começa a sair e se divertir ou vai acabar ficando doente. Anda vai, prometa que irá a festa. Convide Pandora para ir com você. Faça isso por mim...
"Pandora", Ikki odiou escutar esse nome. Gostaria de não precisar se enganar tanto assim com uma garota que não gostava. Além do mais, isso já estava ficando cansativo.
Certo, vou fazer um esforço para ir – mentiu só para agradar o irmão.
Você ir�, e não aceito desculpas. Também não esqueça que prometeu conversarmos depois... Agora preciso ir – disse Shun dando um tapa de leve no ombro do irmão.
Ikki ficou olhando o irmão sair, de uma certa forma se sentia um pouco feliz, não por si mesmo, mas por Shun: sofrera tanto, e Fênix se esforçou tanto para que, depois da terrível batalha contra Hades, seu irmão caçula voltasse a ser o mesmo cavaleiro doce de sempre, que aqueles momentos de felicidade de Andrômeda eram como um bálsamo de consolo para seu coração petrificado. Terminou de tomar seu leite sem pressa, afinal, não tinha nada de importante para fazer. Se dirigiu a seu quarto, eram 11:00 da manha, prometera a seu irmão que iria a recepção das garotas, jurou a si mesmo que faria esse esforço para agradar Shun. Olhou para o telefone, em um instante de alucinação, pensou que poderia ligar para Pandora e resolver sua situação...
Talvez Shun tenha razão – pensava Fênix – talvez o problema seja realmente comigo. E se eu tentasse ser mais compreensivo com Pandora? Talvez descubra que a amo e que, apesar de tudo, podemos ser felizes juntos. Talvez eu esteja realmente complicando as coisas e dificultando tudo para mim mesmo. Sim, Pandora merece mais uma chance, e eu vou tentar ser feliz com ela...
Pegou o telefone, discou o número da garota. Quando ela atendeu, suas forças desapareceram e ele acabou desligando. "Acho que estou enlouquecendo, o que vou fazer é me enganar mais uma vez, sei que não a amo, nem poderei amar, Pandora não é o tipo de mulher que vai aquecer meu coração..." Lembrou da promessa feita a Shun e seus amigos: tentar ser feliz... "Tudo bem, uma última tentativa..." Pegou novamente o telefone e ligou para Pandora, desta fez, não desligou:
Alo, quem fala?
Sou eu Pandora, Ikki...
Ah, achei que não ia mais me ligar. Me sinto completamente abandonada por você. Estou estressada e deprimida. Meu pai me deu um novo cartão de crédito sem limites para que eu me alegrasse um pouco. Comprei vários pares de sapato, fui ao cabeleireiro e.. – Ikki tirou o telefone do ouvido para não escutar. Ficava impressionado com a capacidade de Pandora para ser tão fútil, suas preocupações eram apenas com sua estética: cabelo, unhas, sapatos e roupas caras. Fênix acredita que as mulheres tem tudo para serem especiais, pois são inteligentes e muito competentes. Mas aquela que conversava com ele era um poço de futilidade, tinha a cabeça vazia e só pensava em si mesma. "Depois dizem que o culpado sou eu... Quem ficaria um segundo ao lado de uma pessoa como esta?" Pensava enquanto fazia um esforço para voltar ao telefone.
Desculpe Pandora – disse fingindo ter escutado todas as lástimas da garota – para compensar meu erro quero convidá-la para almoçar e passar a tarde comigo. Depois a noite vai haver uma festa na mansão Kido, que temos que ir... Então você aceita? – no fundo, o cavaleiro rezava para que a resposta fosse não.
Claro! Mas com que roupa devo ir? – essa pergunta de Pandora fez Ikki perder as esperanças de ser feliz, ao menos ao lado daquela garota isso não seria possível. Decidiu que naquela noite terminaria tudo de uma vez por todas entre eles...
Escolha qualquer uma. Droga, acabei de me lembrar que não posso almoçar com você, prometi a meu irmão que... – e Ikki ia desenrolando uma grande mentira para voltar atrás aquele convite que havia feito, se arrependera mil vezes por tê-la convidado para almoçar com ele. – ...Portanto, me perdoe. Só poderemos nos ver a noite, passo em sua casa ás 18:00. Tudo bem?
Claro, assim tenho mais tempo de escolher que roupa devo vestir...
Ótimo, Pandora. Então até mais...
Fênix deitou em sua cama. Ligou o som do quarto e deixou que suas canções favoritas purificassem sua alma. As melodias lentas falavam de amor impossível, de corações despedaçados, de solidão... Ikki se identificava com todas elas. Fechou seus olhos e imaginou sua "mulher perfeita": inteligente, simpática, amorosa, carinhosa, doce, esperta... Será que era muito pedir alguém que o fizesse sentir que viver valia a pena? Seus devaneios foram longe, seu desejo subia todo o corpo e seu coração queimava como uma fogueira: precisava de amor, sim, estava realmente carente. Nem ao menos viu a hora passar, nem percebeu que já sentia a fome corroer o estômago, olhou o relógio, 12:30. "Bom, melhor parar de sonhar... Já estou com fome e o pior é que Shun não deixou nada pronto para o almoço, acho melhor me arrumar e ir até um restaurante!" Se levantou sem pressa, mas antes de ligar o chuveiro, aquela imagem veio a sua cabeça, foi inevitável: Esmeralda aparecia nos sonhos mais doces de Ikki, sempre sorrindo como um anjo. "Se meu destino é viver separado de você, então creio que isso é um eterno castigo pelos erros que cometi. Vou viver a vida na mais profunda solidão, meu único consolo é sonhar em te reencontrar em um lugar onde nada estará entre nós: o paraíso, para onde Zeus com certeza te levou. Se não fosse por meu irmão, juro Esmeralda, que desejaria todos os dias a minha morte, para voltar a ver seus belos olhos, voltar a sentir seu perfume, sentir seus carinhos... Mas prometi que estaria ao lado dele sempre, e não posso desistir agora. Quanto a você, só posso te prometer que jamais amarei outra como amo a ti e assim esperar que você cuide de mim aí de cima, como um verdadeiro anjo..." Ikki deixou as lágrimas rolarem por seu rosto, ele mesmo se surpreendia com o fato de estar tão sensível, achava que toda aquela solidão o deixava completamente abalado. Vez ou outra se perguntava onde estava aquela Fênix poderosa e destemida, cheia de ódio e de angústia, sem sentimentos, fria, solitária como um lobo. Ligou o chuveiro e deixou a água quente lavar sua face, gostaria que aquele banho pudesse lava-lo profundamente, seu coração e sua alma... sentia-se como uma criança abandonada pela mãe, ou com um pequeno filhote que perdeu de seu bando. Estava só, só e amedrontado.
(continua...)
