Capítulo 06 – Pedra

A mente humana era algo surpreendente.

Peter nasceu lobo, e como lobo ele era imbatível, forte e rápido, talvez não o melhor do pack, mas ele sabia exatamente como usar todo o seu potencial. E ele sempre soube que era esse saber que o fazia realmente bom no que fazia e melhor do que muitos mais fortes e mais rápidos. Peter era inteligente e sabia como usar isso, apesar de reconhecer a inteligência, a razão e a sanidade como algo humano. Todo o resto era lobo.

E enquanto ele queimava, seu lobo urrava e sua mente lutava para buscar uma solução em meio a medo, fúria, fogo e fumaça. Ele sabia que havia encontrado algo. Anos de lenta e vagarosa cura depois, ele não conseguia se lembrar o que foi que sua mente encontrou em meio à dor, mas sabia que não havia sido o único sobrevivente por simples ironia da vida.

Sua mente se perdeu nesse processo. A morte, a cura, o ódio e a dor, em um ciclo infinito à margem da consciência, pode levar qualquer homem – ou qualquer lobo – à insanidade. E ele sabia disso. Ele sabia o que estava fazendo quando matou Laura, ele via em suas mãos e nos olhos vermelhos assustados da sobrinha que aquilo era insano, mas, em algum recanto de sua mente, tinha lógica, e foi seguindo essa mesma lógica que ele continuou agindo. Até sua segunda morte.

E ainda assim, ele sabia que voltaria. Em meio à destruição – que agora ele reconheceu que estava vindo quando Derek olhou o que restara de seu corpo no chão e fez com que Peter quase desejasse que fosse finalmente um fim de verdade. Mas sua mente ainda estava viva e inquieta porque ele via e ouvia e sabia de coisas que não se encaixavam e havia essa pequena e brilhante centelha que lhe dizia que ele precisava voltar.

Dessa vez a cura foi um pouco mais rápida, como se a ciência do que precisava fazer, do quanto precisava ser reconstruído em seu corpo e como estivesse marcado na memória da lua. Somente uma lua se passou entre sua morte e sua ressurreição, quando ele sentiu a segunda se aproximando, ele já sabia que, com a luz sobre seu corpo ferido, teria forças suficientes para se reerguer.

Mas ele precisava de ajuda. Não só a lua, mas sangue e veneno. Wolfsbane e Derek. E ele não tinha mais pack, não tinha mais ninguém em que pudesse confiar, sua mente, sozinha e enterrada em um corpo morto, não era o suficiente para ajuda-lo.

Mas a mente humana era algo surpreendente.

Havia sangue em suas mãos e seu próprio sangue corria nas veias de alguém que não era lobo, mas lhe pertencia. Ele a mordera e ela era dele, seu alfa, sua referência clamada em silêncio em meio à noite, ao medo e ao desespero das lembranças e da confusão de uma mente inteligente demais, mas que não conseguia entender, não conseguia acreditar, não conseguia se manter sã. Não o tempo todo.

Ele não sentia atração por adolescentes perdidas, não como seu sobrinho parecia sentir ao recrutar tantos do tipo em seu pack. Lydia era bonita, fato, mas o que realmente o atraía nela era sua mente. Rápida e letal. Peter quase podia saborear seus pensamentos quando eles se tornavam um durante as noites em que ela o servia, traçando o caminho para sua vida. E ele podia sentir de sua cova o cheiro doce de Lydia, aquela que todos supunham ser imune. Certamente não ao seu poder de convencimento.

Ela o temia e o temeria para sempre, assim como Derek e Scott e qualquer um que o vira em seu período sem controle sobre sua própria mente. Ele reconhecia o poder da loucura e como ela poderia domar um homem ou um lobo. Ele a temia também, e esse era o principal motivo para ele se manter são e não ferir Derek, Scott ou Lydia. Ele precisava de um pack. Precisava de mais do que dor e vingança e sangue para se manter são.

Ele precisava da lua. Da liberdade que ser lobo significava para sua mente cansada demais. E quando a lua atingiu o corpo ferido e o cheiro de sangue invadindo suas veias se fez mais presente do que qualquer coisa, Peter sentiu sua verdade transformação: foi a última vez que ele morreu para renascer em seguida. E dessa vez, ele não viveria somente em sua própria mente. Isso já o havia matado duas vezes.

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