N/A: Olá a todos ! Eu decidi adiantar em um ano os acontecimentos da história. Um ano em que a tensão "sexual" entre elas foi aumentando, mas nenhuma das duas se atreveu a dar o primeiro passo. Um ano em que ambas continuam ignorando os verdadeiros sentimentos uma da outra.

Nico, Nozomi e Eli estão no terceiro ano do colegial. E o Japão está coberto por uma densa neve de dezembro. Um bonito inverno, no qual muitas coisas vão acontecer.


Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Lembro-me da primeira vez que vi os seus olhos, da primeira vez que senti uma aura diferente ao seu redor. A primeira vez que algo me surpreendeu. Alguém, mais precisamente.

Era uma fria tarde de inverno, as férias de Natal tinham acabado de começar para nós, estudantes. Eu gostava de desfrutar da sensação de segurança e calor do meu pequeno apartamento, enquanto olhava e ouvia o vento, a neve, o granizo e o frio da rua. Eu estava sentada sobre uma almofada, olhando o álbum de fotos que me fora dado de presente no meu último aniversário pelas minhas amigas.

Minhas amigas.

Parecia fantástico. Soava tão bem, que não parecia real; mas era. Porque, desde um pequeno deslize que acontecera na classe no ano passado, nós pudemos conhecê-las. E, desde o começo, tudo parecia feito para e por nós.

Lembro-me também da primeira vez que as vi; cobertas de tinta, irritadas, chateadas e assustadas. Lembro-me de como Eli acalmou-as e começou a realizar com perfeição o seu trabalho como presidente do Conselho Estudantil.

Eram três: Maki, Hanayo e Rin. Três estudantes que tinham ido visitar aquela que seria a sua próxima escola, e, graças a um mal-entendido, se meteram em uma confusão. Elas moravam no mesmo bairro que nós, e, coincidentemente, nós nos encontrávamos nas ruas, nos supermercados e até mesmo no templo. Elas eram garotas muito boas. Garotas que tinham alguma coisa que faziam-nas se destacar, que fazia com que se sentissem diferentes dos outros. Algo que, é claro, não passou despercebido, e algo que, de um jeito ou de outro, acabou nos unindo.

Nós costumávamos nos encontrarmos para conversar , caminhar ou tomar algo naquela lanchonete em que Kotori trabalhava. Eu não sabia muito bem como, mas ela, Honoka e Umi acabaram também se juntando a nós.

Éramos um grupo de nove garotas. Nove musas. Nossas personalidades não tinham nada a ver umas com as outras, nem nossos pensamentos, nem mesmo a nossa forma de ver o mundo. Mas todas nós tínhamos algo em comum. Todas nós nos estimávamos, e formávamos uma família. A família que eu sempre quis ter. Porque nelas eu encontrava o que meus pais nunca tinham me dado: carinho.

No meu aniversário, todas elas me deram de presente aquele álbum de fotos, que eu olhava quando me sentia nostálgica. Eu não podia evitar sorrir quando via fotos tiradas pelas costas de Nico e Maki, em que ambas estavam coradas até à raiz dos cabelos, com aquelas caras de tsunderes que elas exibiam na maior parte do tempo. As fotos em grupo, quando fazíamos excursões a qualquer lugar que nos ocorresse, ou as fotos das férias de verão que passamos na casa de praia de Maki. Eu até caía na risada quando olhava as fotos de Rin e Honoka brincando. Eram minhas amigas. Minha família. Eu gostava tanto delas, que não podia evitar que meus sentimentos viessem à tona quando algo tinha a ver com elas. Eu não podia evitar rir, chorar, suspirar. Não podia evitar dar um suave beijo nas fotos de Eli, tentando acalmar o fogo interno que a cada dia crescia mais e mais.

Deve-se ressaltar que, desde aquela ocasião, desde que conhecemos as três garotas do primeiro ano, desde aquela semana tempestuosa, Elichi e eu estreitamos mais os nossos laços. Freqüentemente ela ia dormir em minha casa. "Não quero que você fique sempre só; não é bom para a saúde mental", ela dizia à modo de justificativa, mas eu sempre soube que ela adorava que eu fizesse a sua comida favorita para jantar, ou assasse bolinhos de chocolate para a sobremesa. Eu sabia muito bem que ela gostava de dormir abraçada junto a mim à luz das velas que eu sempre tinha preparadas, e como ela apreciava cada um dos pormenores que eu tinha com ela. No fim das contas, eu a conhecia mais do que ninguém, e o sorriso que ela mostrava ao passar algum tempo a sós comigo era o mais sincero que ela mostrava. Ela parecia feliz, realmente feliz.

"E, se ela era feliz, eu também".

Com o passar dos dias, semanas e meses, e acabei-a conhecendo muito mais do que ela a si própria. Descobri partes tolas e imaturas que a Eli perfeita escondia dos olhos de todos.

"Mas eu amava as suas perfeitas imperfeições".

A cada dia, eu dava mil e uma voltas a tudo. Absolutamente tudo. Eu não estava certa do porquê, mas, desde que ela apareceu em minha vida, tudo ficou confuso, e tudo me implorava por uma explicação, que eu nunca encontrava.

Comecei a me questionar sobre a vida, a encontrar a magia nos pequenos milagres da natureza, como a escuridão e a chuva. Eu comecei a ver ouro onde antes via pedras, e a ver o céu refletido naqueles lindos olhos azuis pertencentes ao anjo de cabelos loiros que me fazia sorrir até mesmo em meus piores momentos. Era mais do que um simples desejo. Não se tratava do seu corpo; embora, em parte, fizesse-a parecer ainda mais bela, de um modo como nenhum ser humano jamais pudesse imaginar, era algo parecido, algo similar a uma razão ou destino. Eli era, é e sempre será o meu destino. Todas as almas deste planeta são colocadas na Terra por uma razão, todas nascem sós, com um objetivo em comum: encontrar a sua outra metade. Encontrar a pessoa que lhe complementa, a outra pessoa capaz de revolucionar a ordem conhecida até então. Uma pessoa causadora do caos interno que são as emoções descontroladas e os sentimentos puros. Nossa outra metade. Eu nasci para encontrá-la, e, a cada dia que passava, isso ficava mais claro, mesmo sem ter respostas para nada.

"O amor não precisa ser entendido, só precisa ser demonstrado".

Amor ? Era amor o que eu sentia por Eli ? Esse estranho sentimento, do qual todo mundo falava de uma maneira tão terrivelmente subjetiva ? Porque, nesse caso, eu nunca descobriria. Se essa fosse a resposta à todas as minhas perguntas, eu nunca me livraria da dúvida, a única coisa que estava clara era que eu estava apaixonada. Eu nunca tinha experimentado algo assim, eu nunca tinha ouvido de fontes confiáveis e próximas sobre como se assemelhava, mas sabia que, para cada alma, era algo diferente. Às vezes era algo bom, algo maravilhoso, viciante, e outras vezes era doloroso, curto e cansativo. Eu não sabia em qual das muitas versões acreditar.

"O amor é uma força selvagem. Quando tentamos controlá-lo, ele nos destrói. Quando tentamos aprisioná-lo, ele nos escraviza. Quando tentamos entendê-lo, ele nos deixa perdidos e confusos.".

Destruída, escravizada, e, principalmente, confusa. Assim estava eu, assim eu me sentia todos os dias, a cada vez que meu cérebro pensava nisso quase sem querer, ou tentava procurar uma solução. Sensações que desapareciam quando eu via os seus olhos. Porque seus olhos eram como o Sol, o maior e mais brilhante sol que existia em todo o Universo, um sol que derramava tamanha quantidade de luz que nunca produzia sombras, e, assim, dissipava todas as minhas dúvidas.

Mas, então, se o amor era algo tão extremamente complicado e irracional, o melhor a fazer era deixá-lo fluir. Se por acaso o sentimento que inundava o meu corpo e alma era esse, a coisa mais inteligente e salutar que eu podia fazer era deixá-lo ser. Porque assim era o amor, não é ? Livre.

Enquanto eu olhava cuidadosamente uma foto em grupo que nós tínhamos tirado na praia, durante o verão, bateram à porta. Com relutância, eu me levantei para abri-la, e duas garotas me surpreenderam com a sua inesperada visita.

- Olá, Nozomi-chan, nya ! - Rin, uma das garotas do primeiro ano, gritou eufórica.

- Boa tarde, Nozomi - cumprimentou-me com um sorriso, Umi, a garota do segundo ano que tanto gostava de Eli. Antes, eu sentia ciúmes dos olhares que ela lhe dava, mas, durante um acampamento, descobri os seus verdadeiros sentimentos por Kotori, sua colega de classe, nossa amiga e a lendária maid da lanchonete do bairro de Akiba, onde nós sempre tomávamos os nossos parfaits.

- Olá, garotas. Que surpresa; eu não estava esperando visitas, a que se deve ?

- Estávamos precisando de conselho-nya . E quem melhor do que a magnífica Nozomi-chan, que sempre tem respostas para tudo-nya !

"Nem tudo".

Eu respondi com um risinho, enquanto ambas deixavam os seus casacos nos cabides atrás da porta e tiravam os sapatos. Nos três fomos à sala de estar, onde eu estava vendo o álbum de fotos antes, e nos sentamos ao redor da mesa.

- Bem, contem-me. O que está incomodando vocês ?

Eu pude ver uma expressão de tristeza em seus olhares, elas não sabiam como abordar o assunto.

- Bem, veja... você sabe que em breve será Natal, e... eu estava pensando em presentear Kotori com algo especial... mas não sei com o quê, eu não quero ser muito clara, nem que ela entenda como uma indireta, mas, mesmo assim... quero que seja diferente.

"Ah, o amor. Sempre causando problemas, mesmo nos corações mais puros".

- Um presente, uh ? - eu coloquei um dedo no meu queixo, pensativa. Tentando ajudar, tentando dizer algo que lhes servisse, tentando parecer a garota que, segundo elas, sabia de tudo. Mas, de amor, eu não sabia nada.

- Nós só queremos um conselho-nya. Não há necessidade de estar correto, mas, desde que seja você, será confiável.

Eu sorri. Parecia incrível e exótico aquele modo que elas tinham de fazer com que os outros se sentissem melhor. Eu me senti bem menos pressionada sobre o assunto, e disse-lhes o que achava.

- E se você disser a ela o que sente ? Seria o melhor presente que ela poderia receber.

- O-o-o quê !?

- Sim, Umi-chan, é uma idéia fantástica !

O rosto de Umi cobriu-se de um tom de vermelho, muito mítico nela. Essa garota nunca iria mudar.

- N-Nozomi ! Você fala com muita segurança... alguma vez você já passou por isso ?

Eu não soube responder. Mentir não é algo em que eu seja muito boa e Umi não era uma garota estúpida, ela poderia perceber. E, caso isso acontecesse... o que eu lhes diria ? O que elas pensariam ?

- Nozomi-chan ?

- Eu preferia não responder a essa pergunta.

Ambas notaram a minha repentina mudança de humor e em meu tom de voz, e decidiram não insistir.

- Mas, Nozomi-chan, nós só queremos um conselho. Nós confiamos em você-nya ! Você não tem de nos contar o que aconteceu ou com quem, só queremos saber como você encarou isso - o sorris seu tom de voz sempre alegre me arrancaram um leve sorriso.

- Rin-chan, o problema é que eu nunca cheguei a encarar, sabe ? Acho que não posso ajudá-las com este assunto. Me desculpe, Umi-chan.

Elas trocaram olhares com expressões de preocupação. Depois olharam para mim, e eu lhes sorri. Mas elas eram minhas amigas, me conheciam sensivelmente, e não acreditaram em meu falso sorriso.

- Você não tem de passar por dificuldades sozinha, Nozomi. Nós somos suas amigas e vamos ajudá-la, independente de tudo. Sempre vamos estar aqui umas para as outras, entende ? Isso significa que você tem de parar de resolver problemas sozinha e dividir conosco as suas dificuldades, para assim simplificá-las.

As palavras de Umi foram encorajadoras, mas, desta vez, eu não sabia se alguém conseguiria me ajudar. Eu precisava de respostas, e ninguém as possuía.

- Eu sei, Umi-chan. Eu não tenho nenhum problema, tenho apenas dúvidas.

- Que dúvidas-nya ?

- Dúvidas que ninguém pode resolver - eu suspirei, olhando novamente para o álbum de fotos. Eu virei a página, e, como que por obra do destino, lá estava Eli. Sorrindo para a câmera, usava uma camisa branca e uma calça jeans azul-claro. Estava radiante, ela e sua querida calça. Não pude evitar suspirar de novo.

- Porque isso é o que significa ser livre, você não acha ? Ter o direito de ser feliz.

Lembrei-me daquela vez, quando, de uma maneira bastante peculiar, eu perguntei a sua opinião. Eu tinha lhe perguntado para tirar a dúvida, e as palavras dela sempre ressoavam em minha mente, quando alguma dúvida me assaltava.

- Não posso me rebaixar tanto a ponto de dar atenção a alguns ignorantes que não sabem o que é esse sentimento de satisfação consigo mesmos e com o ambiente ao redor.

- Talvez Eli estivesse com a razão, e, desde aquela vez, sempre esteve. Talvez o melhor que eu pudesse fazer para entender tudo fosse parar de procurar respostas, deixar de entender. E começar a viver, a sentir, a querer.

- Não posso parar de sorrir só para satisfazer a alguns infelizes.

Talvez só o que eu tinha de fazer era aquilo o que me fazia feliz. E ela, Eli, me fazia feliz. Mais feliz do que tudo no mundo.

- Por isso, eu usaria as minhas calças até no fim do mundo, se necessário.

- "...por isso, eu iria com ela até o fim do mundo, se necessário..."

- Nozomi ?

- Nozomi-chan ?

Eu levantei os olhos da foto, encontrando-me com os seus olhares ainda preocupados e confusos. Eu sorri para elas, mas, desta vez, de verdade.

- Acho que não tenho mais dúvidas.

Rin sorriu e olhou para Umi, que continuava sem entender nada.

- O que significa isso, então ?

- Eu não tenho certeza - eu ri - Não tenho nenhuma idéia, e nem quero tê-la.

Eu continuei rindo, me levantei, e, por reflexo, as abracei. Saí correndo até a janela da sala e puxei as cortinas, deixando à vista a linda paisagem de inverno do Japão.

- Não entendo, Nozomi... por que, de repente, você está tão contente ? Por acaso nós a ajudamos ? Nós não dissemos nada !

Eu continuei rindo, pulando, abraçando-as, porque estava feliz. Uma felicidade que elas não podiam entender, porque não eram eu, não tinham os meus problemas, e não encontraram a resposta no mesmo lugar em que a dúvida lhes surgira.

- Garotas, garotas, dentro de dois dias é Natal ! E eu tenho o presente perfeito para a pessoa perfeita ! Talvez desta vez eu só tenha podido ajudar a mim mesma, mas tenho certeza de que todas nós conseguiremos alcançar os nossos sonhos !

- Nozomi-chan realmente está muito contente. Fico tão feliz-nya ! - riu Rin.

- Acho que nós não podemos evitar estar contentes por vê-la assim - sorriu Umi, olhando-me com ternura - De que presente se trata ?

- Da verdade.

- ...Da verdade ?

- Um presente de amor, de gratidão, pelo fato de ela existir, e de eu ter esperado tanto tempo para encontrá-la.

Rin e Umi voltaram a se olhar, olhares confusos e desorientados, mas, de algum modo, felizes. Nós três começamos a rir, e a falar sobre Kotori e Hanayo, algumas vezes. Falamos sobre passar a véspera de Natal. Falamos sobre passar a véspera de Natal juntas, sobre o que elas poderiam dar de presente às suas amigas. Falamos sobre tudo, e sobre nada. Porque, comparando com Eli, nada tinha importância, eu já não procurava dar um sentido a nenhuma dessas coisas. Nada fazia sentido, e isso era o melhor. Aproveitas as coisas porque sim, porque elas existem, porque ela existe. Porque assim é a vida, e é disso que se trata. De ser feliz.


N/A: Eu espero não estar tornando a minha história muito estranha, capítulos muito lentos ou muito rápidos, é que não consigo evitar divagar sobre sentimentos e outras coisas. Aguardo suas opiniões, idéias e tudo o mais, são adoráveis.

Até breve !


N/T: Continua no Capítulo 7.