Part VI: Reinforcement

Um mês. Apenas o suficiente para que uma peça tão simples pudesse ser um sucesso. A cada apresentação, Layla se convencia mais de que, definitivamente, estava no lugar certo, na hora perfeita. Cada conjunto de aplausos que recebia fazia o seu corpo, mesmo tão cansado, tremelicar e ganhar novas energias para o dia seguinte. Tamanha sensação a fazia fechar os olhos em pleno momento de agradecimento ao público, como se quisesse sentir cada bater de palmas chegar até ela, como se fosse apenas ela ali em cima e mais ninguém.

Tão grande foi o sucesso que o principal patrocinador do Kaleido Star, Sr. Kenneth, cuja corporação patrocinadora leva o seu nome, resolveu visitar Kalos, para ver com os próprios olhos as novidades do circo. Foi perto do fim das apresentações que Layla o viu pela primeira vez. Saltava em barras elásticas ao ouvir o seu nome ser pronunciado por Kalos no corredor e, em seguida, ver seu semblante. Ambos paravam para verem o elenco e assim que o rumo da conversa entre os dois mencionou seu nome, ela deu-se a liberdade de se aproximar para se apresentar.

- Muito prazer, Sr. Kenneth, sou Layla Hamilton - estendia a mão para ele, dando um leve e sincero sorriso, observando-o com atenção.

- Ora... Estou vendo que nossa Sininho não é tão emburrada quanto parece. Muito prazer, senhorita. - falava em um tom sarcástico, porém em tom de brincadeira, cumprimentando-a. - tenho ouvido muito falar de você e do famoso Peter. Mas onde ele está?

Ela percebia o desviar de seu olhar para a sala atrás de si, mas quando também olhou, Yuri, que há poucos minutos treinava com ela, havia desaparecido dali. Sem entender, mas também não fazendo muita questão, virava-se para ele novamente, com o mesmo sorriso simpático.

- Que bom que o sr. gostou da peça. Meu pai já havia me comentado seu nome, fico contente em poder conhecê-lo - ela continuava. A última coisa que ela precisaria naquele momento era "puxar o saco" de alguém, quem diria dele, que era tão ligado financeiramente com seu pai, em questões do Kaleido Star. Mas nada como ser agradável, e melhor, ser agradável por querer fazê-lo, não por ser obrigada a tal. Afinal, o modo como ele falava era-lhe interpretado como singelos elogios, que naquele momento, soavam como idolatração, vindo de quem vinha.

- E eu espero ainda ouvir muito falar de você, mocinha. Terei ainda mais prazer em bancar este lugar, se houver tantos acrobatas talentosos assim.

- Não a enalteça demais, Sr. Kenneth, ela tem muito a aprender ainda. - aquele comentário de Kalos poderia ter sido um mais positivo, como talvez uma indireta de que, apesar de não estar completamente encaixada no palco, já havia se reconhecido nele, mas seu tom não sugeriu nada que fosse além do fracasso, provocando-lhe a ausência de qualquer possível sorriso que pudesse ter durado mais alguns segundos, depois do comentário do Sr. Kenneth. Ele ainda não havia se convencido sobre ela? Até mesmo os maiores jornais e revistas do mundo da arte haviam publicado pelo menos um artigo sobre a nova peça, por menor que fosse, sendo que pelo menos 90% deles mencionavam o papel interpretado por ela. Então, o que ainda faltava? Por um momento, pensou em mostrar raiva, mas apenas o fitou demonstrando certo desconforto e a mesma indignação do dia do teste, exceto que não tão clara, com o que ele havia dito, mantendo-se em silêncio e observando-o caminhar o resto do corredor com o empresário, até desaparecer por completo. Até aquele momento, havia ficado em um silêncio profundo, pensando no que poderia ter feito errado, e de que maneira poderia consertar aquilo, faltando apenas 3 apresentações para fechar a temporada. Foi surpreendida, como sempre, por um comentário ao pé de seu ouvido, inesperado, já que estava tão distraída naquele momento.

- Ele perturba a todos, não deveria se sentir tão ofendida por conta de um comentário que não passou de algo maldoso e estúpido da parte dele... - fitava-a em seguida, dando um sorriso amarelo para ela, sendo que o olhar demonstrava certo desprezo, mas não por ela.

- Onde... Estava? Perdeu a chance de conhecer o Sr. Kenneth e se apresentar, se fazer conhecido e reconhecido! - virava-se para ele, inconformada em quão lento ele poderia ser para ir tomar água, ir ao banheiro, ou qualquer que fosse o motivo pelo qual ele havia sumido justo naquele momento, e quão rápido ele era em aparecer só para implicar com ela. Mas então, lhe ocorreu que, apenas talvez, ele já estava ali. Afinal, ouviu o que Kalos disse. Então, a expressão mudou, alguns segundos depois, para uma mais séria e preocupada do que o de costume. - Espere... Você.. Ouviu a conversa, não ouviu? Por que não se apresentou?

- Não me sinto à vontade em falar com alguém do escalão dele. Apenas isso. Ele vai me reconhecer de qualquer forma, quando eu fizer mais apresentações por aqui e, quando for a hora certa, me apresento. - respondia-a de forma espontânea e indiferente, dando de ombros. Mas o seu olhar não mentia. Sabia que havia algo por trás de toda aquela calmaria de seus olhos azuis acinzentados, o que a fazia olhá-lo com ainda mais atenção e falar um tanto mais baixo.

- Yuri, sei que não é da minha conta, mas... Aconteceu al...?

- A propósito, eu sei o que lhe falta. - Interrompia-a, antes que pudesse completar a frase, mudando completamente o olhar e a expressão. Sorria de canto ao notar a mudança de expressão também vinda dela. De uma forma ou de outra, ela lembrava uma criança, quando esquecia um assunto qualquer e se focava em outro de maior interesse. Além de, claro, ser tão curiosa quanto uma, apesar de não admitir - Mas, não vou lhe dizer, não adianta nem perguntar. Apenas observe o resto do elenco no palco. Vai perceber o que falta.

- Mas... Eu só tenho 3 dias!

- E acha isso pouco? - soltava um leve riso, virando-se para voltar a treinar. Pensou em impedi-lo de ir e insistir por respostas, devido à nova irritação que surgia, mas achou melhor não fazê-lo... Apenas desta vez. Durante o resto do dia, concentrou-se, então, apenas na técnica, já que a atuação ficava difícil de sair, graças à preocupação que sentia por conta das palavras de Kalos, que desde o dia do teste, mostrou-se alguém completamente frio e irredutível, diferente do que ela imaginava que o dono de um lugar tão maravilhoso seria. Lembrar-se de seu pai, na maioria das vezes, simplesmente não a ajudava em absolutamente nada.

Passados dois dias e chegado ao último dia de apresentação, seu desejo era que tudo corresse perfeitamente, mas não conseguia evitar a preocupação. Não havia entendido nenhuma das duas dicas que recebera ao longo dos dias e, por um momento, parecia se desanimar, além de se sentir culpada por talvez não estar trazendo o brilho que aquela peça merecia. Yuri, por outro lado, não conseguia evitar de vê-la daquela forma. De certo ângulo, ela parecia perdida e de outro, tão forte que fora capaz de segurar a expressão no palco pelos últimos dois dias sem que a qualidade de sua atuação diminuísse. Mesmo assim, via-a em um certo sofrimento e em um dilema,que como sempre não conseguia esconder dos olhos dele. Então resolveu ajudá-la mais um pouco, apenas no último dia, quando finalmente começou a vê-la decair em inconformismo e tristeza, pro não encontrar uma solução.

"Tente se distrair... Não, espere, não estou dizendo para se desconcentrar... Quis dizer para ser mais espontânea, reagir mais livremente ao que o público lhe oferece...". As palavras dele, por mais estranhas que lhe parecessem, haviam feito alguma diferença. Tanta, que exatamente as palavras que ele lhe disse, mesmo com suas próprias interrupções irritadas naquele dia, haviam ficado na sua mente como algo a ser perseguido e conquistado.

"Reagir ao que o público me oferece...", pensava ela, enquanto, já distraidamente, realizava os movimentos mais livremente, em pleno palco. Quase havia se esquecido de atuar quando pensou nas palmas. Naquele momento, naquela primeira cena em que aparecia, o pensamento dos aplausos lhe arrancavam o mais contente sorriso, de satisfação e alegria por estar ali, de ansiedade e desejo de poder fazer a melhor apresentação e receber os melhores aplausos que alguém poderia receber. Aquele pensamento lhe ganhou força a cada acrobacia. Forças para que o ciúmes também se tornasse mais forte, assim como a pequena raiva, as traquinagens e, por fim, que a ajuda a Wendy fosse por completo amor a Peter. E deste amor, surgiu uma consideração maior do lado de fora do palco, em que ela reconheceu algo verdadeiro no que ele havia lhe dito, a ponto de sorrir para ele em pleno palco e agradecê-lo de forma gentil e feliz, sem pensar duas vezes. Havia, afinal, acreditado nas palavras dele, acreditado que ele estava sendo verdadeiro, e não apenas irritando-a mais ou pregando-lhe uma peça. Havia, finalmente, aberto os olhos e conseguido enxergar um amigo naquelas mãos que a seguravam no ar, ao invés de um simples e duro rival, que a qualquer momento, poderia deixá-la cair. A união de forças; o primeiro ponto positivo de Yuri havia sido finalmente conquistado.

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Nota da Autora: Yuri está começando a deixar os motivos que o levaram ao Kaleido Star aparecerem. Para quem se lembra bem, ele quer vingar o pai. Portanto, estou traçando toda a trajetória até sua "conquista"... Incluindo os bastidores das conversas entre ele e Layla. Aguardem.