Capitulo VI - Purification of Rivers

02 de Fevereiro de 2009.

Eu realmente não sei bem o que está acontecendo comigo. No dia 30 de janeiro, primeiro lembrei-me da casa em Sendai, e da bola de baseball. Depois senti uma dor forte e a lembrança de Yuu invadiu meus pensamentos de maneira arrebatadora. Logo após acordei no chão. A senhora Uke e duas de nossas funcionarias estavam preocupadíssimas comigo. Uma delas estava ao celular e com certeza falava com Kai, pois o cara apareceu aqui meia hora depois – deve ter voado baixo na estrada – muito preocupado. Foi impossível impedir que ele me colocasse no carro e me levasse direto para o hospital. Mas, eu não tinha nada.

Depois daquele desmaio a senhora Uke não me deu mais trégua. Minha alimentação foi todinha mudada, pois o animal do médico que me atendeu disse que eu estava muito magro, abaixo do peso. Que deveria descansar pelo menos por quatro dias! Imaginem em dois dias aquelas duas atrapalhadas que o Kai me arrumou devem ter assassinado minhas orquídeas. E eu cometo um homicídio duplo com certeza. Sim Kai ameaçou queimar minha estufa particular se eu pusesse os pés para fora da casa. Então eu estou aqui desde então. Minha carcereira me entope de comida de hora em hora. Não vejo à hora de voltar para minhas flores. Isso é ridículo!

Amanhã pelo menos vou para a cidade, tenho terapia com meu psicólogo. O cara vai surtar quando ficar sabendo, eu é que não vou contar, mas sei que aquele safado do Kai já se adiantou. Pelo menos vou poder ficar um pouco na Sayuri – é o nome da nossa floricultura – quero mesmo ver como estão cuidando das minhas criações lá. Sinto Yuu mais perto depois disso. E dói... Pois sei que não poderia tocá-lo além da lembrança...

Eu escrevo... E espero...

oOo

Assim que amanheceu eu saí sem nem mesmo chamar por Cass, que havia caído no sono, exausta de tanto pesquisar. Andei pelas ruas, quem sabe achava alguma pista ou mesmo cruzava com eles. Mas, mais uma vez foi tudo em vão. Voltei ao motel e achei Cass em cima do livro do feitiço do ritual.

- O ritual funcionou sim, a deusa respondeu, contudo o patuá atrapalha a localização exata. Com certeza eles passaram por aqui. Só alguém com amor no coração poderia obter resposta do espelho da deusa. Então vamos procurar a casa com mais paciência. Vamos perguntar para as pessoas. Eu sei que vamos conseguir. Sei também que mais cedo ou mais tarde vamos topar com eles na rua. Eles podem estar viajando...

Eu realmente não sei o que faria sem a ajuda de Cass. Durante mais de uma semana procuramos por informações que levasse a casa amarela. Em vão. Mas eu não ia desistir. Nem que eu tivesse que bater em todas as portas dali. Eu não conseguia sentir Kou ali, meus poderes de rastreador falhavam e eu já estava desconfiando da deusa quando encontrei uma senhora no jardim de uma casa bem parecida com a que eu procurava.

- Boa tarde senhora! Por favor, pode me dar uma informação? – Cumprimento respeitosamente enquanto falo.

- Sim claro meu jovem! – Ela pára seu serviço e sorri para mim.

- Conhece essa casa? Já viu alguma casa parecida com ela por aqui?

A velha senhora olha com cuidado o desenho de Cass. Coça a cabeça, olha novamente. Faz um sinal afirmativo.

- Sim nessa mesma rua, virou estacionamento foi derrubada há uns dois anos acho, sabe como é nossa memória. – Ela se desculpa vendo minha tristeza.

- E as pessoas que moravam lá? Sabe pra onde foram?

- O ultimo morador foi um senhor de idade avançada, saiu de lá para o cemitério, era seu parente? – Perguntou preocupada com o comentário a queima roupa.

- Não senhora, antes dele. Procuro por esses rapazes. – Mostro a foto da banda. Ela parece não lembrar, de súbito ela fala.

- Ah sim! Hayato-san, ficou pouco tempo, uma pena, tomamos muito chá juntas, ela era muito honrada, viúva, cuidava dos garotos com muito amor.

- Sabe pra onde foram? – Minha ansiedade era enorme e a velha senhora percebeu meu desespero.

- Sinto muito meu rapaz, eles saíram e nem se despediram. Simplesmente sumiram.

Eu agradeci e já ia entrando no carro, quando ela me chamou.

- Tente a casa Aoyagi é a antiga residência de Odano Naotake! É um museu. Um deles trabalhava lá.

Volto e beijo a gentil senhora. Corro para a casa Aoyagi. Eu não tinha esperanças de encontrar minha família naquela cidade, mas se houvesse uma pista sequer, eu com certeza acharia. Quando entrei no lugar senti a presença de Kou ali. Ele com certeza havia estado nesse lugar. Lá eles disseram que não sabiam de nada e que o funcionário havia deixado apenas uma caixa com poucos pertences pessoais que apesar de fazer muito tempo deveria estar na sessão de achados e perdidos.

Eu fui encaminhado a uma sala abarrotada de coisas inúteis nunca tinha visto tanto lixo na minha vida. Então o funcionário pediu desculpas e disse que não poderia me ajudar. Mas que eu poderia levar qualquer coisa que julgasse ser dele. Assim que me vi sozinho fechei os olhos me concentrei. Depois de alguns minutos um boné do time de baseball de Tóquio, onde meus irmãos jogavam amadoramente veio até mim. Apanhei o boné olhei no avesso dele, as letras escritas com caneta azul Kou. Uma lágrima marcou meu rosto.

- Onde está você meu amor? – Sai dali direto para o motel. Contei a Cass tudo que consegui levantar. Então a garota começou a guardar tudo.

- Cara se mexe ainda temos tempo para o ritual, mas se você ficar aí me olhando, só amanhã. Então? Vai ficar aí parado me olhando?

Ela sempre aprendia rápido. Sabia que eu ia querer sair daqui direto para a estrada se fosse o caso. Então comecei a recolher minhas coisas.

- Cass não temos mais as ervas para o ritual. As flores. Não vai dar tempo!

- Relaxa cara. Só vamos comprar as rosas, as ervas tenho um estoque considerável. Então anda logo!

Ela era fantástica. Descobri que dois dias antes ela havia encomendado rosas, pois na floricultura não havia. Ela pensava em tudo mesmo. Fizemos o ritual e da mesma maneira o espelho nos mostrou um caminho pela estrada litorânea. Kanazawa. A visão terminou diante de um templo budista local. Cass não achou quase nada na internet sobre a cidade. O que a deixou meio frustrada. Foi uma viagem curta. Curta e silenciosa.

oOo

14 de fevereiro de 2009

Eu realmente não sei o que está havendo comigo. Desmaiei novamente. Tudo aconteceu rápido. Exatamente como da outra vez, com uma diferença. A lembrança que tinha agora era do templo em Kanazawa. E tudo se repetiu. Mas agora aquele médico animal me deixou no hospital para exames mais complexos. Ninguém merece! Estou aqui há dois dias. Kai abriu nossa casa aqui na cidade e disse que vamos passar uma boa temporada aqui. Então acho que em alguns dias serei transferido daqui para o manicômio local. Não sei como vou ficar longe das minhas orquídeas. Akira foi bem legal, ele trouxe a orquídea que plantei para o Yuu, aliás, eu me esqueci de mencionar que a vagal daquela plantinha deu mais uma flor quando desmaiei a primeira vez. E quando ele a trouxe hoje ela tinha mais uma. Agora são três. Será que estou enlouquecendo junto com ela? Realmente não sei, apenas sinto Yuu com tanta intensidade que dói. Olhar para a planta me faz feliz.

O Akira sabe das coisas. Ele foi um dos idealizadores da nossa banda, ele me conhece bem desde a infância, agora lembro alguns detalhes dele que merecem ser escritos aqui. Ele detesta coisas muito doces e é alguém calmo, extremamente calmo - ao contrario do badboy que todos pensam que ele é por causa da faixa no nariz - fuma feito uma chaminé... Mas Kai jurou que ele ainda para de fumar. Em uma briga recente ele disse que só deixaria de fumar se Yuu assim pedisse. Todos ficaram em um silêncio mortal... Dificilmente se irrita, preferindo levar tudo pro lado da "zueira", é completamente "atentado", sendo que, com seu maior amigo e rival, Kai, já aprontou muitas coisas, como jogar lixo debaixo da cama, até colocar maionese na boxer dele, já tirou foto polaróide de todo mundo em situações "comprometedoras".

Uma vez colocou-me dentro de um latão de lixo e saiu empurrando ele pelos corredores da escola em Tóquio, e de outra passou a mão na bunda do Aoi em meio a uma entrevista sobre a banda para um jornal local. O Yuu não tinha muito senso de humor, nem sei como o não o acertou de jeito quando chegamos em casa. Durante uma prova de álgebra ficou apertando a bunda do Ruki, varias vezes, e não parou nem depois que o baixinho pegou em suas "partes baixas"... É um crianção! Também adora gatos, mas não tanto quanto eu. Temos dois gatos na Villa. Tenshi e Ryu, nunca acertamos tanto o nome de dois animais, Tenshi realmente é um anjo, mas o Ryu vive aprontando e enfrenta os outros animais da fazenda não se importando com o tamanho.

Ele também adora carros conversíveis e computadores, sendo um dos mais nerdizinhos entre nós. Vive reclamando da comida do Kai, diz que ele cozinha mal, quando a okaa-san sai para compras ou algum compromisso, e deixa-o no comando da cozinha, mas nunca dispensa o lanche que ele nos prepara de vez em quando. Mas isso foi antes... Foi antes de Yuu nos abandonar. E o fato é que Akira se tornou o oposto do que era. Está apagado. E a culpa é toda sua YUU!!! Eu sei... Sei exatamente porque isso aconteceu, mas... Ainda confesso que fico furioso com ele. Se ele não tivesse se exibido naquele show... Não tinha jeito... Eu com certeza teria morrido. E não estaria preso nessa cama de hospital. Por causa disso fiquei sozinho... Ele nos deixou... Quanto mais eu penso pior fica. Não tínhamos escolha eu sei disso, o que não me impede de ficar com raiva.

Nossa vida mudou para sempre e temos que nos contentar com o que temos. Mas trocaria tudo isso, até minhas orquídeas para ver Yuu novamente. Ah minhas orquídeas, estou realmente preocupado com elas, ou deveria me preocupar com a vida daquelas duas desastradas? Eu acho que cometo um crime antes do final desse mês, ah eu vou matá-las se acontecer alguma coisa com minhas preciosas flores. Nem mencionei nada para o psicólogo sobre as flores e sobre as lembranças... Nem pra ele e nem pra ninguém. Ele me trancaria no hospício com certeza, se soubesse. Okaa-san está me estragando, me mimando de todas as formas possíveis... Ela lembra mamãe. Nisso tivemos sorte: Sempre tivemos muito amor. E agora não é diferente.

Eu escrevo... E te espero...

oOo

Minha vontade era de invadir o templo e revira-lo de cima abaixo. Eu já sabia que eles não estariam naquela cidade. Com certeza passaram por ali e visitaram o templo. Ou a deusa queria me mostrar alguma coisa. Lapidar minha alma purgar meus pecados. Fazer com que eu suasse sangue a procura do meu chibi. Eu realmente não sei.

Registramo-nos em uma pousada na orla. A maresia sempre me acalmava. Naquela noite dormi embalado pelo som doce do mar. Sonhei com flores. Eram muitas flores, de todas as espécies. Nunca havia visto tanta flor na minha vida. Acordei com o cheiro doce de uma noite calma e tranqüila.

Tomamos nosso café-da-manhã em uma lanchonete perto do templo. Chegamos cedo e o templo ainda estava fechado.

- Eu disse pra você, que pessoas normais dormem. E que a maioria dos lugares públicos tem hora certa para abrir. Mas não... Você teve que me tirar da cama aos berros...

A garota continuou a falar sem parar. Eu não registrei muito da conversa dela depois de cinco minutos de monólogo. Quando ela percebeu ficou mais furiosa ainda. Mas a essa altura nosso pedido chegou à mesa. Era um fastfood estilo ocidental. Um tipo de negócio cada vez mais comum no Japão. O estilo de vida americano havia tomado conta não só do Japão, mas do mundo todo.

Eu fui praticamente o primeiro a entrar no templo. Mostrei a foto deles para alguns monges. Mas eles não sabiam quem eram as pessoas da foto. Seria um milagre lembrarem-se deles depois de tanto tempo.

- Quem são eles meu filho? Eu posso sentir sua dor. – O velho me olha com certa compaixão.

- Minha família senhor...

- Venha. Vamos caminhar um pouco. Posso ver que você está no caminho traçado pela deusa. Ela o acompanha e tenta traçar um caminho através do amor de vocês. Tenha paciência. Mantenha a esperança em seu coração. Essa é a mensagem da Deusa. Acredite nela meu rapaz, ela com certeza acredita em você.

- Mas... É tão difícil... – Eu olho para ele que me sorri.

- Você encontrará o caminho, só você poderá fazer isso. E se fizer bem, mais de uma vida encontrará um sentido. Medite um pouco sobre isso.

Ele nos deixa e eu volto à sala de oferendas. Sento no chão e fecho meus olhos. Penso em Kou. Começo a ponderar tudo o que se passa em meu coração. Encontrar Kouyou tornou-se minha obsessão. Tento me concentrar. Nada. Não consigo usar meus poderes ali. Mas, sem o próximo objeto como posso conjurar o próximo feitiço?

Era a pergunta que eu não sabia responder. Durante quinze dias eu voltei ao templo todos os dias, invadi o local durante a noite pelo menos três vezes. Eu já estava perdendo o juízo. Cass lia dia e noite, já havia decorado aquele livro que ela roubou – digo tomou emprestado – daquela sensitiva. Depois de mais um dia no templo, cheguei ao Hotel e peguei meu violão. Havia tempos que não tocava.

Seems like it was yesterday when i saw your face

Parece que foi ontem que vi seu rosto

You told me how proud you were, but i walked away

Você me disse o quanto estava orgulhoso, mas eu fui embora

If only i knew what i know today

Se eu apenas soubesse o que sei hoje

Ooh ooh

I would hold you in my arms

Eu te seguraria em meus braços

I would take the pain away

Eu afastaria toda a dor

Thank you for all you've done

Agradeceria por tudo que você fez

Forgive all your mistakes

Perdoaria todos os teus erros

There's nothing i wouldn't do

Não há nada que eu não faria

To hear your voice again

Para ouvir sua voz de novo

Sometimes i wanna call you

As vezes eu quero te chamar

But i know you won't be there

Mas eu sei que você não estará lá

Ooh, i'm sorry for blaming you

Ohh, me desculpe por te culpar

For everything i just couldn't do

Por tudo que eu não consegui fazer

And i've hurt myself by hurting you

E eu feri a mim mesmo ao ferir você

Some days i feel broke inside, but i wouldn't admit

Alguns dias eu me sinto destruído por dentro, Mas eu não vou admitir

Sometimes i just wanna hide, cuz it's you i miss

As vezes, eu apenas quero esconder, Porque é de você que eu sinto falta

And it's so hard to say goodbye

E é tão difícil dizer adeus

- Tristeza não vai te ajudar em nada. Tem que confiar na deusa meu irmãozinho. Ela é dona do tempo. Então vê se anima essa carinha. Apesar de que adoro quando você canta mesmo que seja uma música tão triste assim.

- Tudo bem meu anjo eu vou me entregar ao tempo dela. Quando ela me julgar digno sei que ela vai me mostrar o caminho certo até ele. – Olho para Cass e coloco um arremedo de sorriso nos meus lábios e continuo a música.

When comes to this, ooh

Quando isso traz essas regras

Would you tell me i was wrong?

Você me diria que eu estava errado?

Would you help me understand?

Você me ajudaria a compreender?

Are you looking down upon me?

Você está me subestimando?

Are you proud of who i am?

Você está orgulhoso de quem eu sou?

There's nothing i wouldn't do

Não há nada que eu não faria

To have just one more chance

para ter apenas mais uma chance

To look into your eyes

De olhar em seus olhos

And see you are looking back

e ver você olhando para os meus

yeah

Ooh, i'm sorry for blaming you

Ohh, me desculpe por te culpar

For everything i just couldn't do

Por tudo que eu não consegui fazer

And i've hurt myself

E eu feri a mim mesmo

Oo-ooh

If i had just one more day

Se eu tivesse apenas mais um dia

I would tell you how much that

Eu lhe diria o quanto sinto

I missed you since you went away

sua falta desde que você se foi

Oo-ooh

It's dangerous

É perigoso

It's so out of line

É tão inseguro

To try and turn back time

Tentar e voltar no tempo

I'm sorry for blaming you

Ohh, me desculpe por te culpar

For everything i just couldn't do

Por tudo que eu não consegui fazer

And i've hurt myself...

E eu feri a mim mesmo...

...by hurting you

...por ferir você