Luzeiros Negros

Autora: Orchidée Riddle

Tradução (autorizada): Inna Puchkin Ievitich


Capítulo VI

Delírios

Dominado.

Olhando Harry Potter podia-se perceber o medo em seus olhos e a terrível submissão de sua alma. E Tom o sabia. Sabia que aquele garoto, de uma forma ou de outra, apesar de tudo, não o trairia jamais. Lord Voldemort era o seu Senhor e Harry a sua posse.

Pousou a mão delicadamente sobre a fronte pálida. Continuava muito quente.

- Eu te supliquei... - murmurou com voz frágil e sonolenta - Mas você não se importou... Por que me machuca tanto, por quê?

- Era necessário, não gosto que me desobedeçam. - respondeu friamente.

Harry soluçou.

- Ele retorcia-se de dor, gritava. E eu podia sentir o seu ódio sobre ele, você queria matá-lo, eu sei. Eu senti dentro de mim, em meu sangue. Tive medo... A cicatriz me queimava... Queria que parasse, mas você não se deteve. Não o fez...

Rompeu em lágrimas. Não era um pranto calado aquele, era desconsolado, amargo e frenético. Tremia sem controle algum.

- Perdoa-me, Tom. - disse entre lágrimas - Não queria desobedecê-lo... mas... eu...

Algo dentro do Senhor das Trevas rompeu-se naquele momento. Harry continuava chorando sem dar sinais de poder parar. As lágrimas, translúcidas como o cristal, desciam livres pelo suave rosto que tanto desejava, brilhando à tênue luz dos archotes que iluminavam o luxuoso aposento. Quis preservar essa imagem em sua memória para sempre: a doce figura de seu anjo emoldurada pela negra cama de dossel. Tão belo... tão quebrável...

Com cuidado, como se pudesse desfazer-se nesse instante, segurou a mão do garoto e a estreitou entre as suas, depositando um pequeno beijo na pele ardente pela febre.

- Está bem, Harry, está perdoado. Mas deixa de chorar e descansa. Os efeitos da maldição não passaram ainda e você está muito debilitado.

Harry dirigiu seu olhar até Tom. Suas fortes, porém nada rudes, mãos pareciam sentir-se bem onde estavam. Na verdade, essa cena sobrepujava os limites da imaginação humana. Lord Voldemort, o terrível assassino do mundo mágico, cuidava de um enfermo Harry Potter com uma suavidade extrema. Definitivamente, algo não estava bem com aquela imagem. Mas dava no mesmo, era agradável.

Tom envolveu o corpo do garoto e o trouxe para junto de si. Harry não rompeu a conexão dos olhares quando sentiu sua cabeça apoiada no peito do jovem homem. O olhar agora não guardava qualquer resquício de sua tonalidade vermelha, era claro como o mel dourando sob o sol... nunca pôde imaginar que fosse essa a verdadeira cor de seus olhos. Na Câmara Secreta não lhe importou minimamente mas, ainda assim, não compreendia como havia deixado passar esse detalhe.

Sentiu uma das mãos deslizar por sua face. Tom não podia ser o monstro que todos pintavam, era impossível. Ele estava limpando as lágrimas que haviam caído de seus olhos esmeraldas. Embalava-o com ternura, lentamente, como a uma criança pequena.

Harry acomodou-se naquele corpo solícito que o reivindicava para si.

- Tenho frio. Faz muito frio... - Foi a única resposta da parte do garoto.

Tom o estreitou ainda mais contra si, tentando confortá-lo um pouco mais. Harry fechou os olhos.

- Mãe, pai... por que não estão aqui comigo? Por que me deixaram sozinho?

Culpa? Não podia ser isso. O pai do menino, assim como ele mesmo, havia representado uma grande ameaça a seus planos, sua mãe se interpôs e teve que matá-la. Não tinha por que sentir-se culpado agora. Além do mais, se os pais estivessem vivos as possibilidades de tê-lo para si, seguramente teriam sido praticamente nulas. Eram um estorvo.

Acariciou, com os lábios, o sedoso cabelo azeviche.

Harry soluçava em seu peito. Estava delirando. As esmeraldas abertas o surpreenderam.

- Dorme, meu anjo...

- Não, não, não, não... você vai embora, você irá.

- Deseja que eu fique? - perguntou surpreso.

Assentiu soluçando.

- Shhhh, eu ficarei, prometo. Agora, dorme pequeno, dorme...

O menino fechou lentamente seus grandes olhos. Tinha sono, a febre alta produzia-lhe calafrios. Queria descansar... queria que ele o abraçasse e não o soltasse por nada do mundo, queria ficar ali eternamente, dominado e tranqüilo.

Recordou aquele olhar claro...

- Seus olhos são dourados, Tom...


Permanecia envolto por aqueles braços. Não lembrava muito o que havia acontecido até pouco tempo, porém tampouco lhe importava. O que conseguia perceber é que a sua mente encontrava-se um pouco mais relaxada que antes.

- Descansou?

De novo pousou sua mão sobre a fronte do garoto para comprovar que a temperatura havia baixado um pouco, mas não de todo.

Harry observava-o atentamente. Outra vez sentiu essa atração que o impulsionava até ele. Foi-se acercando lentamente, como que hipnotizado, e justo quando sentiu o primeiro contato dos lábios apartou o rosto bruscamente, afundando-o no peito de Tom. Ficaram assim durante um tempo até que a mão de Tom deslizou pelo rosto do garoto, erguendo-o em sua direção.

- Harry, por que não se rende de uma vez? Não pode lutar contra mim e muito menos contra si mesmo. Você não pode lutar contra o que está sentindo agora.

Harry tremeu.

- Não trairei a minha gente. Não quero. Eles merecem mais. Tenho que lhes dar o que esperam de mim.

Os olhos de Tom centelharam em vermelho. Harry assustou-se ao senti-los sobre si. Havia raiva a ponto de explodir naquele olhar carmesim. Uma pontada atravessou a cicatriz.

- E o que eles esperam de você? Que vença Lord Voldemort para sempre? Diga-me que seria capaz de me matar! Eles clamam pelo amor, mas não o compreendem! Você faria caso desse estúpido velho que o tem enganado durante quatorze anos e que apenas vê em você uma arma a dirigir? Você me mataria, Harry! DIGA-ME!

Tom apertava-o com força sobrenatural, o machucava. Harry chorava sem reprimir-se, enquanto as lágrimas banhavam-lhe o rosto.

- Não... eu... não poderia.

- Todo esse tempo você tem sido um marionete, meu anjo. Eles o moldaram e manejaram a vontade, e você se deixou levar sem dar-se conta de nada. Tão inocente é você, Harry... Mas não vou permitir, não vou deixar que a Ordem da Fênix e toda essa quadrilha de inúteis voltem a manipulá-lo, jamais.

Num descuido, porém, conseguiu libertar-se daqueles braços. Precisava fugir. Como da outra vez, a porta do quarto abriu com uma estrondosa explosão. Traspassou o umbral e pôs-se a correr. Tinha uma vaga idéia de que Tom o perseguia, mas isso não era muito importante. Os corredores estavam desertos.

Uma parte de si sabia que Tom tinha razão, porém não queria admitir. Estava desesperado.

Queria morrer. Precisava morrer. Acabaria com tudo. Com sua vida. Com o pesadelo. Descansaria por toda a eternidade. Tudo era demasiado cruel para que sua inexperiente e jovem mente pudesse suportar por mais tempo.

Iria para junto de seus pais. Nunca deveria ter sido separado deles. Devia ter morrido naquela noite.

O frasco de cristal diáfano, que já estava em sua mão, deixava transparecer uma substância azulada. Deteve-se bruscamente.

Os passos se aproximavam mais, salvando a distância que os separava.

Girou a tampa do vidro e deixou-a cair ao chão, onde se desfez em pedaços. Por fim, seria livre. Levou o frasco aos lábios vermelhos e fechou os olhos...

Bebeu.

Uma mão apartou o cristal de sua boca.

E Harry Potter caiu inconsciente sobre o Senhor das Trevas.


Nota da Tradutora para:

- MEL MorganWeasley: Primeiramente, permita-me dizer que é uma honra tê-la por aqui. :-D Eu sou uma fã confessa de suas fics H/D, sobretudo "Cruel", que a meu ver é a melhor fic brasileira do gênero, e das clássicas "Harry Potter e o Dragão Vermelho" e "Harry Potter e o Amuleto Proibido". :-) Eu diria que você é mais uma estrela no meu pequeno paraíso astral de bons fic-escritores nacionais – e isso não é babação de ovo, é a pura verdade, ao menos a minha. ;-)

Segundamente, muito obrigado pelos elogios! Em nome da autora eu agradeço. :-) Quanto aos elogios dirigidos à esta complexada tradutora que vos digita, só posso dizer um encabulado "bondade sua" e "muchas gracias, linda!". :-)

Por último, mas não menos importante, a resposta para sua pergunta ("Onde encontrar a fic na sua versão original") é: infelizmente, não há como encontrar. A fic foi retirada do ar há muito tempo. Eu, que tenho a mania de arquivar no PC aquelas histórias que merecem entrar para o meu particular "livro de memórias", é que tive a sorte de salva-la. Tempos depois, fiz uma primeira tradução não revisada como mero passatempo, porém somente agora resolvi publica-la, claro, depois de ter obtido a autorização expressa da autora – a qual, diga-se de passagem, foi difícil de contatar. Segundo ela, por motivos pessoais (a mim não revelados), a fic foi retirada do ff(ponto)net, como uma das três condições impostas para a publicação da versão em português, eu não poderia publicar a fic (nem na versão original nem na traduzida) em qualquer outro lugar, exceto aqui, mantendo a versão em espanhol somente para mim – por segurança. Logo vê-se, daí,que a história possui um grande valor sentimental para a autora. No entanto, Orchidée Riddle, como hoje é conhecida, muito simpaticamente cedeu o direito de tradução/publicação de sua fic, dando a entender que, num futuro próximo, virá a re-publica-la em sua versão original.

Era só o que eu tinha a dizer? Hm, deixe-me ver... (relendo)... não, ainda falta algo:

Um grande abraço, Mel! E muito obrigado pela review:-)

- Mathew Potter Malfoy: Está achando linda a tradução desta humilde caloura que vos digita? Pois muito obrigado pela gentileza:-) Porém, o fato é que a história e a forma como foi escrita ajudam muito. Então, tudo o que faço é traduzir e adaptar o mais fielmente possível. E sim, não demorarei a atualizar, não se preocupe. A média para as atualizações é de 2 em 2 dias a 3 em 3 dias e, no máximo, de 1 semana. Motivo? Dois: O trabalho (que me toma o dia inteiro) e o fato de eu estar traduzindo/publicando mais duas fics (bem maiores que esta aqui). Mas daqui a dois dias eu postarei o próximo capítulo. :-)

Besotes por mil a ti!

- Felipe Potter: Só uma coisa, filhote: Cadê a fic nova? ;-)

Com isso me despeço, com a promessa de voltar brevemente.

Abraço a todos!

Inna