— Não acredito que você fez mais pontos que eu! De novo! — exclamou Hiram indignado quando terminamos All You Need Is Love no Rock Band. Rachel bateu um high-five comigo enquanto Leroy tentava consolar o marido.

— Que tal pararmos um pouco, hein? — sugeriu Leroy. — Vocês estão jogando há quase duas horas.

Hiram me olhou e eu concordei um pouco chateada. O ponto principal de eu ter ido à casa de Rachel após a Barbravenção de Kurt no shopping era para perguntar se ela continuaria com a idéia da plástica ou não, mas aquela baixinha enjoada tinha dito ao pai que eu poderia jogar com eles sendo Ringo Star.

Não pude resistir à tentação. Além disso, se Hiram gostasse de mim ou me vencesse algumas vezes no videogame, talvez ele permitisse que eu passasse mais tempo na casa deles com Rachel. Contudo, o tiro saiu pela culatra, por que a maioria das músicas que tocávamos, eu conseguia tirar mais pontos que ele.

— Você é uma ótima jogadora, Quinn — elogiou Hiram a contragosto. Rachel arregalou os olhos. — Eu e meu marido iremos fazer o jantar, pode ficar se quiser.

Rachel olhou para mim, quase deixando cair o baixo de Paul. Retribui o olhar em igual incredulidade, imaginando o que Hiram teria preparado para mim de jantar. Talvez algo com muita alcachofra e espinafre. Era a mesma situação de Rachel com minha mãe, e ela não tinha feito nada envenenado para a garota, então eu poderia considerar aquilo como uma trégua.

— Claro, vai ser um prazer — respondi acanhada.

Hiram sorriu forçadamente e saiu da sala com o marido. Rachel ainda estava impressionada com o que tinha acabado de acontecer. Dei de ombros para ela. Agora, pelo menos, eu poderia voltar lá sempre para jogar o Rock Band deles.

— Vamos subir Quinn — Rachel disse finalmente, colocando o instrumento cuidadosamente no sofá. — Preciso de um banho depois dessa.

Dei uma risada, acompanhando Rachel pelas escadas. Ela passou num quarto e saiu de lá com uma toalha e seguiu o caminho para o quarto dela, que continha uma estrela dourada na porta, escrito Rachel Berry pomposamente. Entrei depois dela e fechei a porta.

Eu queria muito perguntar o que ela decidira, mas alguma coisa me falava que deveria esperar. Rachel teria o momento certo para dizer se faria a cirurgia ou não. Engoli em seco e sorri a ela bondosamente.

— O que foi? — ela perguntou, envergonhada.

— Nada — respondi abaixando os olhos. Esconder sentimentos sempre fora o meu forte, mas naquela ocasião não estava ajudando muito. — P-pode ir banhar, eu espero aqui.

— Só se você não fugir para jogar enquanto eu estiver no chuveiro — brincou ela, rindo. A risada de Rachel era tão fofa que não agüentei e ri também. — Meu banho demora um pouco, mas você pode ficar à vontade.

Rachel pegou algumas peças de roupa numa gaveta e entrou no banheiro. Sentei-me desconfortável na cama. O quarto era o mesmo que eu tinha desmaiado no começo da semana, ainda sofrendo com as memórias de Lucy. Observei a escrivaninha da baixinha, que ia desde partituras e versos incompletos até uma coleção de produtos da Apple e os materiais do colégio.

Franzi a testa a um caderno que não se parecia em nada com os outros, homogêneos e sem graça. Estava aberto e decorado com estrelas nas bordas, todo escrito numa caligrafia delicada. Lancei um olhar à porta do banheiro, indecisa. Rachel ficaria brava se eu olhasse seu diário?

Hesitando um pouco, levantei-me e fui à escrivaninha. Mordi o lábio, tocando suavemente a página onde o diário estava aberto. As palavras que estavam nele não eram na maioria de Rachel, descobri quando o folheei. Eram citações de cantores, atores, escritores e, é claro, Barbra Streisand. Surpreendi-me, no entanto, ao ver falas de pessoas da McKinley High, como Mr. Schue, Miss Pillsbury e inclusive de Coach Sylvester.

Abaixo de cada citação havia um pequeno comentário. Rachel escrevia o que ela achava de cada um ali e de sua frase, explicando como usaria ela no futuro. Identifiquei os nomes de membros do Glee, tal como Kurt, Mercedes, Finn, Santana e...

Meu coração parou. Meu nome também estava lá. Naquela letra delicada e bonita, o único nome que tinha uma estrela no final, algo que ela fazia exclusivamente em sua assinatura. Engoli em seco, procurando ler minha citação que ela tinha escrito.

"Quantas vezes precisa cometer o mesmo erro pra perceber que não vai dar certo?"

As minhas entranhas pareceram dar uma volta completa. Como ela poderia ter guardado aquelas palavras tão más que eu tinha dito naquele caderno? Desci o dedo pela página, lendo o comentário que Rachel tinha feito sobre o meu momento de pura perversidade.

Mas não tinha comentário. Apenas meu nome e a data. Passei a mão outra vez pela letra de Rachel e meu tato notou pequenas texturas sobre o papel. Reconheci prontamente, pois a maioria dos meus textos era daquela maneira: Rachel tinha chorado enquanto escrevia.

Mais embaixo, tinha outra frase minha, a célebre frase que eu tinha usado à noite no dia anterior para convencê-la a não sair com Finn.

"Você não pertence aqui, Rachel, e você não pode me odiar por te ajudar a seguir seu caminho."

A próxima página tinha sido arrancada, e presumi que seria a folha que ela tinha entregado a Mr. Schuester com a canção que nos fez ganhar as Regionais. Então, na folha seguinte, havia um comentário de Rachel, escrito há pouco mais de um mês, no exato dia da Regional — também o dia em que assumi o namoro com Finn para o Glee.

"Eu nunca te odiei, Quinn, espero que saiba disso. Você não pode ser odiada, jamais. Você é perfeita. Eu sei que há dor nesse seu coração, mas eu estaria disposta a ajudar você. É possível que eu seja a única a pensar assim, por que você não expõe seus sentimentos para ninguém, nem mesmo o Finn — quem você está namorando agora. Eu não posso odiar uma das poucas pessoas que acredita que vou sair dessa cidade. Espero que saiba disso, Quinn."

— Eu espero que você coma salada além de bacon Quinn, porque meus pais n-

Levantei os olhos para a porta do banheiro, aterrorizada. Rachel saía dele enxugando os cabelos com a toalha, seu tom era casual até notar no que eu estava mexendo.

Ela abriu a boca em espanto, e eu rapidamente larguei seu diário na escrivaninha. Ficamos nos encarando pelo que me pareceu muito tempo. Rachel foi a primeira a quebrar o enorme silêncio e a tensão que havia se instaurado entre nós.

— O que está fazendo?

Sua voz era contida, mas observei que seus punhos se fecharam sobre a toalha, e tremiam. Engoli em seco, tentando me recuperar do susto. Não era possível fugir ali, Rachel me pegara no flagra, não havia nada que eu pudesse fazer para me ajudar naquele momento.

— Rachel, eu... — Tentei avançar alguns passos na direção dela, porém a garota me atropelou ao mover-se de forma rápida à mesa. Ela pegou seu caderno rosa e o balançou na minha cara.

— O que você viu? — Desviei o olhar, porém Rachel pegou meu queixo e me forçou a encará-la. — Quinn, o que você viu?

Talvez eu nunca tenha visto Rachel tão desesperada. Sua confiança, que sempre me dava vontade de seguir em frente, parecia despedaçada. Mordi o lábio, perdida. Não sabia o que fazer.

— Rach, me desculpe, foi impulso, eu não vou contar a ninguém o que vi, é sério! — tentei dizer enquanto ela caía na cama, devastada. — É só um caderno com suas frases favoritas, só isso.

— Você não entende... — Rachel disse por dentre os travesseiros. — Todas as pessoas nele significam algo para mim, muito. As frases me ajudam a acordar todos os dias, me ajudam a ver o outro lado dos seres humanos... Meus comentários...

Sentei-me ao lado dela, sem ter plena certeza se ela ainda queria minha companhia. No dia anterior tínhamos prometido que nós seríamos a protetora uma da outra, então eu não estava errada ao continuar ali. Só iria embora se Rachel me obrigasse.

— Vi seu comentário sobre mim — admiti relutante. Rachel tirou a cabeça dos travesseiros e me encarou. — Eu não sou perfeita, Lucy Caboosey prova isso. Obrigada por pensar assim, de qualquer forma. E acho que ontem mostra que você pode me ajudar qualquer hora. Somos meio que amigas, não somos?

Dei um meio sorriso orgulhoso, tirando Rachel de seu amontoado de travesseiros e puxando-a para um abraço de lado. Pude sentir o rosto dela ficando quente em meio peito, e de algum jeito, aquilo me deu forças para encarar o jantar cheio de verduras que viria.

— Só meio amigas — respondeu Rachel após nos soltarmos. Ela também tinha um sorriso enorme no rosto. — Pronta para um pouco de verde?

Levantei-me sem responder à pergunta e segurei a mão dela, balançando-a distraidamente.

É, acho que eu estava pronta.


Todos os membros do Glee já estavam no auditório para a apresentação de Born This Way, exceto por Santana e Rachel. Eu não tinha visto a baixinha desde que minha mãe me ligara desesperada para saber onde eu estava na noite anterior durante meu primeiro jantar na casa dos Berry. Tive que sair apressada, o que foi ótimo, por que eu continuava impressionada com as palavras do diário de Rachel.

Não consegui dormir à noite por causa das palavras dela. Achei que tínhamos resolvido tudo, mas suas frases e o que ela tinha dito para justificá-las eram fortes demais, me faziam querer pular da janela do meu quarto. Eu nunca disse que acreditava em Rachel durante a semana das Regionais, mas ela tinha captado aquilo de apenas uma única frase que eu tinha dito. Eu nunca disse que queria ela fora de Lima para ela seguir seus sonhos, não por que iríamos ter uma disputa eterna por Finn. Eu nunca tinha dito aquilo nem para mim.

De alguma maneira estranha, eu estava apoiando Rachel no meu inconsciente.

Ninguém questionou muito minha camiseta, que estava escrita Lucy Caboosey. Zizes me olhou ressentida, e pude jurar que também continha uma ponta de orgulho. Puck e Sam ficaram impressionados, e o segundo me confidenciou que havia pensado que eu usaria a palavra Mãe. Peguei-me pensando mais tarde que aquela era a melhor definição de mim, mas Lucy tinha sido minha primeira grande transformação, e era algo que eu ainda não conseguia esquecer.

Mr. Schue veio com sua preleção pré-show, dizendo estar muito orgulhoso do grupo, e acabou por nos mostrar sua camiseta, escrita ironicamente Queixo de Bunda.

— Estão todos aqui? — perguntou ele após as risadas terem acabado.

— Nem todo mundo.

Meu sorriso abriu automaticamente. Procurei por Rachel e a identifiquei vindo pela entrada lateral do auditório com um sorriso enorme no rosto. Ela demorou o olhar em cada um do grupo, parando por último em mim, me dando uma piscadela.

— Eu queria agradecer todo mundo pela Barbravenção no shopping — disse Rachel, descendo as escadas. — E tenho um comunicado a fazer. Fui ao médico e... Cancelei minha cirurgia.

Ela parecia dizer aquilo especialmente para mim, olhando diretamente nos meus olhos, como se soubesse o quanto eu havia lutado para que ela permanecesse com seu nariz gigante. Kurt deu tapinhas nas minhas costas, feliz, enquanto eu apenas abaixei os olhos e sorri contida.

Rachel expôs sua camiseta escrita apropriadamente Nariz para todos, que riram junto com ela. Quando todos aprontavam suas posições no palco para começar a apresentação, o meu olhar encontrou o dela e Rachel murmurou um obrigado. Acenei positivamente para ela, retribuindo.

Então era oficial, Kurt tinha contado para ela o que eu havia feito. Era a única alternativa. Percebi que não importava, enquanto cantava e dançava com os outros garotos do Glee, mostrando nossos piores defeitos que acabaram se tornando qualidades naquela semana. Eu tinha me livrado de um mal do meu passado, havia arranjando uma melhor amiga — dessa vez de verdade, uma que realmente se importava comigo — e estava a caminho de uma coroa de rainha do baile.

Meu ano não poderia terminar melhor.