Capítulo 5

Tatsuha

Tenho que confessar, sei que qualquer família possuí os seus segredos e falo isto por experiência própria, mas os Sakuma... Nossa, eles superaram todas as minhas expectativas. Depois da partida esbaforida de Ryuichi e o fato de que ele esqueceu o livro de feitiços da avó para trás, ou talvez eu tenha convenientemente esquecido de devolver a ele, consegui aprender muitas coisas usando aquele inocente caderninho preto como base. Obviamente que também tive que recorrer ao Livro das Sombras e outros exemplares que meu pai arquivou nos tempos em que era professor na Escola de Magia antes de dedicar a sua vida a ser monge após a morte da mamãe.

E o que eu descobri era de cair o queixo.

Começando pelo princípio, como era o clichê, os Sakuma descendiam de mitológicos dragões chineses chamados Shíguãng. E sim, eu falei dragões. Bestas enormes, com corpo de réptil, chifres, boca cheia de dentes e que vez ou outra soltavam fogo pelo nariz ou pela boca. Até aí normal, eu cresci com um pai que era um ex-anjo e uma mãe bruxa. Saber que dragões poderiam existir assim como unicórnios, trolls e o bicho papão não me abalava. O que me abalava era saber que eles possuíam forma humana e que a mesma era uma famosa estrela da música.

O símbolo que havia na contra capa do livro da avó de Ryuichi era o símbolo do clã e aparentemente o feitiço que Sakuma leu na noite em que foi atacado foi um feitiço de liberação de poderes. Agora, quais, não fazia a mínima ideia. No livro não havia muitas especificações sobre as capacidades desta família, mas ao menos saber o que eles eram me deu uma pista do demônio.

Dragões sagrados, que era o que eles eram, visto que eram idolatrados e temidos em várias culturas, tinham como único inimigo mortal os Caçadores de Dragões. Demônios existentes desde a antiguidade que dizimavam clãs inteiros em busca de seus poderes. Veja bem, a lenda diz que se uma criatura matasse um clã de dragões herdaria do mesmo os seus dons, o que pode ser uma benção e uma maldição. Primeiro porque dragões eram considerados em muitos povos como deuses, em outros como agouros, e independente disto matá-los era uma blasfêmia. E, traçando a árvore genealógica da família Sakuma, cheguei a conclusão que Ryuichi era o último de sua... Bem... espécie.

Bem, agora ninguém pode me contestar quando eu disser que Ryuichi Sakuma era um deus porque, tecnicamente, em algumas partes do mundo, ela era.

- Tatsuha! - pulei de susto, levantando-me do chão onde havia vários livros espalhados em um salto e ergui as mãos pronto para explodir o intruso, acertando somente uma caixa de roupas para a caridade quando o suposto demônio saiu da linha de ataque em um tilintar de pontos claros. - Você atira primeiro e pergunta depois? - Mika soltou contrariada, indo até o extintor de incêndio que mantínhamos no sótão e apagando o fogo que eu comecei nas roupas.

- Da próxima vez avise quando aparecer repentinamente... - me calei quando percebi que além da minha irmã e Eiri, uma terceira pessoa encontrava-se no recinto. - Vocês conseguiram convencer Sakuma-sama sobre protegê-lo?

- O quê? - Mika perguntou desentendida, terminando de apagar o fogo e virando-se para onde eu apontava com o dedo, vendo Ryuichi perto do pódio do Livro das Sombras com uma expressão surpresa no rosto. - Você pegou carona na minha orbitação? - ela rosnou e o pobre cantor encolheu-se atrás do pódio, achando que o Livro o protegeria da fúria dela. Tecnicamente poderia, já que o próprio tinha um escudo mágico contra o mal. Mas Mika, mesmo em seus piores dias, ainda não chegou a este status.

- Me perguntei quanto tempo levaria para você perceber. - Eiri resmungou do outro lado do sótão, me lançando um longo olhar que não me agradou em nada.

- O que foi? - perguntei quando percebi que ele parecia estar me avaliando, ainda mais que rodou os olhos a nossa volta como se procurasse por algo. Em alguns passos ele se aproximou de mim, sendo imitado por Mika, e fiquei ainda mais apreensivo. - Gente, o que está acontecendo? - Mika somente deu de ombros, parecendo tão confusa quando eu, mas Eiri fez um "sush" entre os dentes e silêncio recaiu sobre nós. Detestava quando ele ficava todo misterioso deste jeito, e detestava mais ainda que me mandassem calar a boca.

- Eiri... - tentei falar algo, mas antes que pudesse terminar de dizer alguma coisa, ele me segurou fortemente pelos ombros e gritando um "cuidado" que fez os meus ouvidos zumbirem, me arremessou no chão.

O som familiar de criaturas flamejando chegou aos meus ouvidos que ainda ecoavam o grito de Eiri e mirei por cima do ombro para ver que uma bola de fogo que me acertaria pelas costas agora tomava o caminho de volta para o demônio que a arremessou. O grito esganiçado de Ryuichi chamou a minha atenção para ele, ainda mais que agora uma bola de fogo ia na direção dele e por gesto instintivo Sakuma agachou-se atrás do pódio no instante que a bola estourou na barreira de proteção do Livro, fazendo o pobre cantor ser arremessado para trás sobre um velho sofá que tinha um dos pés quebrado.

- Bola de fogo. - ouvi Mika convocar e uma bola sumiu em luzes azuladas, fazendo o demônio piscar abobalhado diante deste feito mágico. É, minha irmã não tinha somente a telecinese, ela também sabia mesclar os dons dela de orbitar com mover coisas com a mente. E o demônio descobriu isto quando a bola reapareceu e estourou literalmente na cara abestada dele, o fazendo sumir em cinzas.

- Tatsuha! - o chamado de Eiri me fez acordar de meu torpor momentâneo e sacudir as mãos na direção de um demônio que corria até Sakuma e vi o mesmo explodir na metade do caminho. Aos tropeços levantei do chão e fui até o cantor, o ajudando a se erguer e congelando uma esfera de energia a meio caminho de nos atingir, explodindo em seguida o sujeito que nos atacou. Mika aproveitou a esfera congelada para arremessá-la contra outro demônio enquanto Eiri, com um chute bem dado arremessou através do vitral que enfeitava o sótão mais um demônio.

Por um momento achamos que o pior tinha passado, mas o meu coração veio a boca quando mais deles flamejaram em quantidade dobrada que o primeiro grupo. E então o meu sangue gelou nas veias, assim como todo o meu ser, quando percebi que eu já tinha vivido aquela cena antes e que o final da mesma não tinha sido nada bom.

Ryuichi

Os demônios surgindo em hordas logo assim que orbitamos no sótão da propriedade dos Uesugi não foi o que me apavorou. Também não foram as bolas de fogo, a demonstração de magia desenfreada ao meu redor ou o fato de que o livro velho e grosso sobre o pódio tinha seus próprios poderes mágicos quando me protegeu de um ataque. Mas sim, foi o fato de que ao vir ao meu socorro e quando pensamos que tudo tinha acabado para sermos provados errados, Tatsuha pareceu simplesmente congelar.

E o pior não foi a falta de reação dele, mas sim que os olhos negros ficaram largos e ele deu instintivamente um passo para trás, como se cogitando fugir, o que me assustou mais ainda. Onde estava aquele garoto que dias atrás não teve nenhum pudor de lutar contra esses mesmos demônios e ainda soltar piadas infames entre uma explosão e outra?

- Tatsuha? - chamei baixinho, mas ele não pareceu me ouvir, na verdade ele nem parecia neste plano.

E então, em meio a bolas de fogo e energia cruzando aquele espaço que obviamente não tinha sido projetado para tal embate, o pior aconteceu. Em um piscar de olhos o mesmo sujeito da noite em que conheci os irmãos Uesugi, tomei conhecimento de suas capacidades, apareceu. Mika e Eiri ofegaram, mas nada puderam fazer estando ocupados demais em se manterem vivos dentro do cerco que os demônios tinha feito ao redor deles e na minha frente, um Tatsuha imóvel e de olhos largos observou com a respiração suspensa quando a criatura aproximou-se passo a passo de nós com um sorriso macabro em seu rosto marcado, fechou os dedos que pareciam garras no pescoço do adolescente e o arremessou sobre uma estante de madeira e vidro.

Um grito ficou entalado na minha garganta ao ver o garoto cair como uma boneca de trapos no chão, ostentando, agora, um corte no supercílio que sangrava copiosamente. O demônio que me atacou da vez passada somente continuou sorrindo e deu um relance sobre o ombro para Tatsuha que ainda grogue diante da pancada que tinha levado na cabeça tentava se levantar e por isso não viu a dupla que surgiu em chamas na frente dele. Todo o meu ser congelou de pavor quando vi os dois demônios erguerem as mãos com bolas de fogo crepitando em suas palmas e as arremessando ao mesmo tempo na direção de Tatsuha.

- NÃO! - o grito saiu, sendo ecoado por Mika e Eiri, no mesmo instante em que eu estiquei a mão na direção do adolescente como se tal gesto fosse fazer alguma diferença. E surpreendentemente fez.

Por alguma razão que agora a magia podia explicar, a cena diante dos meus olhos foi desacelerando gradualmente, como em um filme em câmera lenta, com as bolas de fogo parando a centímetros do rosto aterrorizado de Tatsuha. Do outro lado do sótão, Mika e Eiri também desaceleravam em sua luta frenética de desfazer-se do círculo de demônios até pararem de vez e por um momento considerei que em um ato de desespero o poder do mais jovem dos Uesugi tivesse se expandido. Entretanto, pelo pouco que sabia dele, creio que a magia de Tatsuha não inclui-a congelar a si próprio e nem aos irmãos, visto que eles eram representantes da magia branca, se bem me lembro se eram essas as limitações dos dons do garoto.

Então isto só poderia significar uma coisa...

- Bom... - segurei a respiração quando o demônio se aproximou mais de mim, tocando com as pontas dos dedos frios o meu rosto paralisado de choque. - Mas não o suficiente. - rosnou em um tom como se o que eu tinha acabado de fazer o tivesse desapontado ao extremo. E eu não tinha nem ideia do que tinha feito e porque não o estava afetando. Ofeguei quando foi a minha vez de ser arremessado sobre algum móvel velho, sentindo todos os meus músculos protestarem diante da agressão. - Como posso matá-lo se você ainda não está pronto? - o demônio rosnou sobre mim e a minha única reação idiota foi a de pedir desculpas. Pelo que, nem eu sabia.

E isto pareceu enfurecê-lo mais.

- Eu esperei trinta anos! Talvez consiga o que quero mesmo não estando pronto. - eu queria mais que ele não conseguisse nada, se o que quer que fosse envolvesse a minha morte eminente quando o vi fazer surgir aquela adaga sinistra e nada amigável, erguendo o braço em um gesto brusco e começando a descê-lo em minha direção.

Ofeguei de novo, mas foi porque pela segunda vez estava tendo a minha pele salva por um adolescente. Isto se a explosão que fez o demônio cambalear seguida de várias outras fosse alguma indicação. Dei um relance para o outro lado do sótão e comprovei que estava certo na minha teoria. Tatsuha tinha saído de sua posição, sabe-se lá como visto que todos os outros ainda estavam paralisados, e sacudia as mãos em gestos frenéticos atingindo o meu atacante com bordoada seguida de bordoada. Mas, infelizmente, o poder dele não era o suficiente para eliminar aquele sujeito que pareceu estranhamente feliz ao ser atacado.

- Interessante... - o desconhecido murmurou com uma voz rouca e com um último sorriso macabro em minha direção e depois na direção de Tatsuha, desapareceu.

Segundos de silêncio tenso preencheram o lugar, comigo mirando Tatsuha de pé e com as mãos ainda erguidas, como se esperando a criatura voltar até que a atenção dele pousou sobre a minha pessoa.

- Tudo bem com você? - perguntou com uma voz quase sumida e eu assenti levemente com a cabeça, até porque não confiava em minha própria voz. - O que diabos... - soltou quando mirou ao seu redor e viu todos imóveis.

- Não foi você? - consegui fazer as minhas cordas vocais funcionarem o suficiente para perguntá-lo.

- Não. Meus poderes não afetariam Mika e Eiri. - declarou, somente confirmando as minhas suspeitas de mais cedo. - Foi você? - me mirou incrédulo e eu somente dei de ombros, me levantando vagarosamente e vendo com curiosidade que a cena ao nosso redor, antes pausada, voltava a adquirir movimento lentamente até chegar a velocidade normal, como um filme saindo do slow motion.

Os demônios que cercavam Mika e Eiri, assim como os próprios, piscaram confusos como se tivessem saídos de um transe, assim como os demônios que atacaram Tatsuha e agora viam as suas bolas de fogo estourarem na estante velha, a destruindo de vez. E por falar em Tatsuha, o mesmo pareceu voltar ao que era antes e com gestos rápidos foi explodindo um por um até que os poucos demônios que ficaram resolveram não se arriscar mais naquele ataque e desapareceram dentro de chamas.

- O que foi exatamente que aconteceu? - Mika perguntou, ainda atordoada, fulminando Tatsuha com o olhar. - Você congelou em um ataque, foi isto mesmo o que eu vi? - ele somente deu de ombros, indo até o livro que ficava no pódio e que agora encontrava-se caído no chão, o recolhendo e o colocando de volta no lugar.

- Memórias ruins. - foi a única resposta dele e isto pareceu ter sido o suficiente para calar qualquer sermão de Mika e receber um olhar de compreensão de Eiri. - Então, o Caçador deu as caras, hum? - continuou e todos nós olhamos para ele em confusão. - Era isto o que eu estava pesquisando antes de vocês aparecerem, antes do ataque acontecer. - ele recolheu mais um livro que estava largado no chão, folheando as páginas do mesmo até encontrar o que queria e o virando para nós lermos.

O que parecia ser uma árvore genealógica sob o título "Clã dos Dragões Shíguãng" estava impressa na página e percorrendo os olhos pela mesma vi que vários nomes familiares encontravam-se escritos nas ramificações da árvore, até que um nome mais do que conhecido fechava aquela lista. O meu nome.

- Está querendo dizer o quê? Que Sakuma é parte de uma família mágica que se considera o clã dos dragões? - Eiri perguntou com deboche e Tatsuha somente sorriu de canto de boca, o que eu não gostei em nada.

- Não... Estou dizendo que ele é um Dragão.