Capítulo 6 - Instinto
Inuyasha parou em frente a um pequeno sobrado de paredes alaranjadas, janelas vermelhas e porta marrom, era uma casa que não chamava atenção de jeito nenhum, sendo até bem comum. Ele olhou com desprezo para os papéis picados no chão e entrou pela porta. Aquela era sua casa.
A sala era escura, uma parede era azul-marinho e as demais eram de um tom claro de azul, tinha um sofá de três lugares preto e uma poltrona reclinável bege. A mesa redonda ficava na frente do sofá e estava lotada com potes de cupnoddles e embalagens de salgadinhos, existia também uma estante bege com uma TV preta, um rádio e alguns livros empoeirados. Não era o que se poderia chamar de elegante, mas de alguma forma era aconchegante.
Ele jogou as chaves na mesinha de centro e depois fez o mesmo; se jogando no sofá. Olhou para o teto e fez uma careta.
- Estou fedendo a lobo! – resmungou.
Inuyasha ergueu a mão direita, girou-a algumas vezes, enquanto a encarava, então a fechou com força.
- Qual é o problema comigo?
O hanyou deu um pulo, levantando-se do sofá e foi em direção à escada de madeira que levava ao segundo andar.
- "Você está ficando maluco, Inuyasha, quais as chances daquela tampinha ser capaz de matar yokais?". – pensou, enquanto ia tomar banho. – Que piada.
Inuyasha ouviu o barulho do despertador, mas não foi aquilo que o acordou. Ele passara a noite em claro, a conversa da noite anterior havia deixado-o com um milhão de perguntas na cabeça, mas mais do que dúvidas existia algo que ele não conseguia entender de maneira nenhuma: Porque ele se enfiara no meio de Kagome e Kouga? Quando ele parou para pensar naquela situação, compreendeu o quão sem nexo fora aquela reação de defesa em relação à garota. O problema com Kouga era óbvio; ele era um yokai lobo e bom, lobos e cachorros não eram exatamente um exemplo de amizade.
O problema entre as raças começou quando yokais resolveram interagir com humanos e tentaram criar uma sociedade pacifista, com ambas as raças vivendo em paz. Os lobos nunca aceitaram o acordo e se sentiram traídos pelos yokais cachorros, antes fiéis companheiros. Os cachorros foram os primeiros a aceitar a vida humana e graças a isso passaram a ouvir que haviam sido domesticados e que agora não passavam de animais de estimação, por isso os lobos insistiam em viver em vilarejos restritos somente à yokais, gostavam de demonstrar a pureza de sua raça. Diziam que sempre estariam em contato com o lado animal, para lembrar aos yokais de onde eles tinham vindo e o que eram.
Inuyasha achava aquilo tudo um saco, um bando de cachorros de rua, tentando provar que mesmo depois de abandonados conseguiam viver por conta própria, sem ajuda de ninguém. Mas a questão não era aquela, apesar de todo esse histórico com lobos ele sabia que esse não era esse o motivo daquela reação. Ele não se meteria em uma briga sem bons motivos e Kagome definitivamente não era um bom motivo.
Revirou os olhos impaciente ao ouvir o despertador tocando novamente e se perguntou o motivo de ainda ter aquela porcaria barulhenta no quarto, ultimamente a última coisa que ele precisava era de algo para acordá-lo. Levantou-se e deu um tapa no aparelho, silenciando-o e foi se arrumar, afinal, já estava atrasado.
Miroku estava sentado em um banco que ficava no pátio descoberto. A escola era enorme, o prédio onde eram as aulas tinha cinco andares e era uma construção antiga, com paredes grossas, salas espaçosas e tetos altos. As janelas eram enormes, tornando as salas de aula iluminadas sem nem precisar de energia elétrica.
Existiam três pátios, o da entrada que acabara servindo de estacionamento para os professores, o lateral que era coberto e era onde a cantina e as mesas para o intervalo ficavam e o traseiro, que era uma espécie de jardim descoberto, com um chafariz no centro.
O moreno olhava a água que jorrava da escultura, era cedo. Ele sempre chegava cedo na escola, gostava de ficar naquele lugar vendo o tempo passar, ali as árvores faziam uma sombra agradável e as flores deixavam o ar com um cheiro doce. Tirou os olhos do chafariz ao ouvir passos, arqueou a sobrancelha ao ver quem era e logo deu seu melhor sorriso:
- Bom dia, Sangozinha.
- Já te disse antes que é Sango Não é Sangozinha, nem querida, nem bombonzinho. Apenas Sango. – corrigiu a garota.
- Mas que mau humor é esse? – perguntou Miroku, ainda sorridente.
- Me diz uma coisa, como é que você consegue ser tão bem humorado a essa hora da manhã?
- Eu sou sempre bem humorado.
- Me diga algo que eu já não saiba! – disse Sango, revirando os olhos. – Quero saber como você consegue...
Miroku pulou para o lado, dando espaço para a garota sentar no banco, ela jogou pesadamente o corpo e sentou-se. Tombou a cabeça para trás e fechou os olhos, bocejando.
- Embora você tenha um prazer desumano em duvidar dos meus sentimentos, o motivo do meu bom humor matinal é saber que vou te ver. – disse Miroku, parecendo pensativo. – Já a tarde, eu fico feliz por ter tempo para fazer o que gosto, me deixa feliz estar livre. De noite, é porque posso dormir e eu gosto bastante de dormir, porque vou acordar e terei motivos para estar feliz pela manhã... É mais ou menos isso.
- Isso ainda não explica seu bom humor. – retrucou Sango.
- É simples. – disse Miroku. – Se você não ficasse tão rabugenta toda vez que chego perto, talvez conseguisse entender como é agradável a presença de outras pessoas.
Sango abriu os olhos, levantou a cabeça e virou-se para o rapaz, encarando.
- Então, você me acha rabugenta? É isso? – disse com tom impaciente.
- Não foi isso o que eu disse! - disse Miroku.
- Como não? – retrucou Sango. – Agora, além de tudo, eu sou louca? Ouço coisas?
- Porque está tão irritada? – perguntou Miroku, de maneira inocente.
Ela levantou-se rapidamente e começou a falar, enquanto balançava impacientemente o braço:
- Eu tento, Miroku, juro que tento ser simpática com você, mas deve existir algo errado aqui.
- Você poderia se acalmar? – perguntou Miroku.
- Não! Eu não vou me acalmar. – retrucou Sango. – Desculpe se não sou um monge budista igual você...
- Monge budista? – interrompeu Miroku.
- ... mas eu tenho o direito de me sentir ofendida com seus comentários sem noção! – Sango continuava falando, ignorando Miroku. – Então, se está insatisfeito, mude de lugar, de classe, de escola, ou melhor... Vá morar com a Nuriko e seja feliz para sempre, seu pervertido insuportável.
Miroku que até então a encarava quase sem piscar, abriu um sorriso. Percebendo a atitude do rapaz, Sango parou de falar e levou as mãos até os lábios, com uma expressão de surpresa, como quem diz "opa, falei demais". Aquela era a oportunidade perfeita para Miroku jogar na cara na dela que ela sentia ciúmes dele, para dar mais um de seus sermões sobre como ela o amava e tentava inutilmente negar, Sango até já esperava por aquela enxurrada de melosidades que ele iria soltar. Mas a enxurrada nunca veio.
- Desculpe, mas senhoras massagistas centenárias e caolhas, como a Nuriko-san, não fazem muito o meu tipo. – disse, dando ombros.
Sango ficou ali parada em pé na frente dele, os lábios levemente entreabertos, piscando algumas vezes e tentando entender o que fora aquilo. Miroku fez uma expressão pensativa e olhou para cima, encarando Sango.
- Então esse é o problema comigo? – disse. – São os centenários que fazem seu tipo? Hm será que devo pintar meu cabelo de branco, então? Se quiser posso dormir na banheira e vir enrugado pra escola todo dia de manhã, o que acha?
Por algum motivo que nem ela conseguia entender, Sango começou a rir.
- Miroku, você é um idiota.
- Eu sei.
E Miroku sorriu. A verdade é que o garoto conseguia ver perfeitamente ele mesmo se vangloriando com aquele comentário de Sango, conseguia ouvir as palavras "você está com ciúmes!" saindo de sua boca, mas ele não precisava daquilo, não agora. Se ele reagisse daquela forma sabia que Sango fugiria, iria embora. Sua satisfação pessoal era imensa e ele queria aproveitar um pouco mais daquela sensação, fazia questão de tê-la ao lado, só para ter a certeza de que não havia imaginado aquilo.
A questão é que Sango era considerada uma das garotas mais bonitas da escola. O que lhe trazia tal posição não era o corpo - embora fosse alta, magra e tivesse mais curvas que a maioria das outras garotas da escola – nem o seu cabelo liso, negro e muito bem cuidado. Eram seus olhos. Sango tinha os pares de olhos castanho-claros mais expressivos que qualquer um já vira, era muito difícil mentir olhando para eles, assim como era muito difícil para ela própria mentir, todas as suas emoções transbordavam pelos olhos. E como se não bastasse tudo isso, sim, ela tinha um rosto muito bonito e uma personalidade agradável, ou quase isso. Era só saber o que falar e a hora para falar.
Ela sentou-se novamente, voltando para a mesma posição anterior, estava quase dormindo. Miroku não começara nenhum assunto, estava apenas aproveitando a companhia da garota. Ficaram em silêncio por alguns minutos, até um hanyou nada amigável chegar batendo os pés.
- Não dormiu de novo? – perguntou Miroku, vendo as olheiras de Inuyasha.
- Não, não dormi. – retrucou, irritado.
Sango abriu levemente os olhos e procurou o hanyou.
- O que foi dessa fez? O cheiro de novo? – perguntou.
- Pior. – disse Inuyasha, logo depois gritando. – Consegue ser pior que o cheiro!
- Aconteceu alguma quando você estava voltando pra casa? – perguntou Miroku.
- Tudo, aconteceu tudo. – disse Inuyasha. – Lobos, dá pra acreditar nisso? LOBOS! É muito azar pra uma pessoa só!
- Você foi caçar lobos? – perguntou Miroku, sem entender nada.
- Nossa! Você vive em que mundo? – perguntou Sango, sentando-se direito no banco. – Ele está falando de yokais lobo!
- Ah. – disse Miroku que ainda parecia perdido naquela conversa.
- Tem yokais lobo rondando a cidade, Inuyasha? – perguntou Sango receosa.
- Não, não precisa se preocupar com isso. – disse Inuyasha. – Foi aquela garota estranha que mais uma vez atraiu um yokai!
- Garota estranha? – perguntou Miroku. – Então a Arashi...
- É, a esquisita resolveu voltar da caminhada noturna dela no meio da floresta. – disse Inuyasha. – E achou que seria interessante trazer um desses selvagens pulguentos junto com ela!
- Como assim caminhada noturna? – disse Miroku.
- Eu não queria falar nada antes, porque caso ela aparecesse morta no meio do mato você certamente iria me culpar, mas há quatro dias atrás eu a vi saindo da cidade, de noite e se enfiando no meio da floresta. – disse Inuyasha. – Mas que seja, isso não muda em nada ela ter colocado todo mundo em perigo!
- Você diz pra eu não me preocupar e depois diz que a Arashi colocou todo mundo em perigo. – disse Sango. – Inuyasha, esse yokai foi embora, não foi?
- Foi, mas eu tenho certeza que aquele saco de pulgas vai voltar. – disse irritado.
Sango mordeu de leve o lábio inferior e olhou para Miroku, ele continuava com a mesma expressão de confusão, pelo visto, ele não entendia nada sobre yokais lobo. Inuyasha que estava em pé, olhando para os dois, virou-se rapidamente para trás e cerrou os olhos. Sango e Miroku olharam para a mesma direção e para surpresa de ambos, encontraram Kagome. Ela caminhou lentamente até o trio e disse:
- A aula já começou. Acho que vocês não conseguem ouvir o sinal daqui, então o professor me mandou dizer o seguinte "se não for incomodar demais, gostaria que os três mosqueteiros viessem assistir a minha aula. Isso, claro, se eu não for atrapalhar nenhum assunto muito importante".
Inuyasha a encarou alguns segundos, antes de sair batendo o pé, sem dizer nada. Sango levantou-se pegando a mochila que estava no chão, deu um tapa de leve no braço de Miroku e disse:
- Pelo visto, seu professor favorito sentiu sua falta na aula, vamos subir.
Ele imitou o movimento da morena, com sem típico sorriso nos lábios, e disse:
- Quanto tempo, Arashi. É bom vê-la bem, pensamos que talvez você estivesse doente.
- Bom dia, Miroku. – respondeu Kagome sorridente. – Obrigada por se preocupar, mas eu não fiquei doente, nem nada do tipo, estou ótima na verdade. Eu só precisei resolver uns problemas em um vilarejo vizinho.
- Ah... – disse Sango.
Sango sabia que um desses vilarejos vizinhos era habitado por yokais lobo, eles raramente saíam do convívio yokai, por isso nunca foram um problema para a cidade ou os outros vilarejos. Apesar de bastante hostis, aquela alcatéia em especial nunca tocava em humanos. A morena caminhou até Kagome, parando ao lado dela, Miroku que ainda estava perto do banco analisou as duas garotas e pela primeira vez notou que a aparência de Kagome era praticamente infantil.
Talvez fosse a comparação com Sango, que já era uma mulher, mas aos olhos do rapaz Kagome aparentava ter no máximo 15 anos. Ela batia pouco a baixo da altura dos ombros de Sango, o que era uma estatura muito baixa. O rosto tinha um formato meio arredondando, como aquelas crianças com bochechas gordinhas, boca carnuda e olhos grandes. E que olhos! Os olhos da garota eram de um azul profundo, tão profundo que Miroku jurava nunca ter visto aquela cor em nenhum outro lugar no mundo. Ele reparou, também, que hoje ela estava com o cabelo solto e percebeu que era um cabelo muito bem cuidado, pois toda a longa extensão de fios negros brilhava. Era muito magra, dando a impressão de que quebraria a qualquer momento, não tinha nenhuma curva, deixando o moletom do uniforme bem largo. As pernas que saiam da saia verde eram finas, mas não chegava a ser como aquelas garotas que exageram e se tornam esqueléticas. Ele concluiu que, apesar de tudo isso, ela era realmente bonita, mas de uma forma angelical, ao contrário de Sango, que possuía uma beleza adulta, de mulher.
- Vai ficar muito mais tempo ai? – disse Sango.
Miroku acordou do seu transe e sorriu.
- Desculpem, mas é difícil raciocinar com duas mulheres tão bonitas na minha frente. – disse.
Kagome começou a rir e Sango a olhou, de maneira curiosa.
- Obrigada, Miroku, você também é uma graça. – respondeu.
E dizendo isso, Kagome começou a andar voltando para a sala, sendo seguida por Miroku e Sango. Quando os três chegaram, Myouga reclamou do descaso de Miroku com suas aulas e repreendeu Sango, por ultimamente estar se deixando levar pelo moreno. Os dois se entreolharam, antes de ir sentar.
- Obrigada, senhorita Arashi. – disse o velho yokai.
- Não foi nada. – respondeu a garota.
Inuyasha, que já estava sentado em seu lugar, completamente emburrado e sonolento, reparou que quando a garota passou perto do professor para poder se sentar, ele deu um passo para trás e arregalou os olhos quando a viu de costas.
- "Isso só pode ser algum tipo de piada". – pensou enquanto virava o rosto para o outro lado e tentava dormir.
O hanyou tentara dormir não só naquela aula, mas como nas outras duas. Mas algo não lhe permitia o tão sonhado sossego. A voz de Kagome conversando com Miroku e Sango lhe irritava de uma maneira que ele nunca imaginara ser possível irritá-lo, era aquele tom de voz sereno, até mesmo baixo que o impedia de deitar a cabeça na carteira e roncar, como sempre fazia, não que ela estivesse conversando algo relevante, eram só besteiras do dia-a-dia, mas a presença dela fazia isso com ele.
Ele evitava o trio, embora Miroku sempre tentasse enturmá-lo na conversa. A única vez que Inuyasha virou o rosto para encarar os amigos foi quando um ouviu um barulho estranho, tentou identificá-lo, mas ele parecia ser o único a poder ouvi-lo. Até Kagome erguer o braço e pedir para ir ao banheiro, fazendo assim com que ele entendesse na hora aquele som: era um celular vibrando.
Kagome, ao ser liberada, levantou-se rapidamente e caminhou até a porta fechando-a atrás de si, começou a correr procurando um banheiro, enquanto o aparelho tremia no bolso de sua saia. Ela sabia perfeitamente quem era, somente Kikyou ligava para ela, o que a fazia correr era saber que iria ouvir um sermão enorme por não ter dado notícias por três dias. Quando viu a porta que levava para o banheiro, abriu um sorriso de alivio. Entrou correndo e se trancou em uma das cabines, pegando desajeitadamente o celular no bolso.
- Alô? – disse ofegante.
- Ah, resolveu atender? – disse a mulher de voz fria.
- Estou em aula, então fale rápido. – retrucou Kagome, tentando fugir do sermão.
- Eu já estou sabendo da briguinha entre cachorros que você causou! – disse Kikyou. – O que pretende fazer sobre isso? Eu disse pra você resolver um problema e não me trazer mais!
Kagome revirou os olhos.
- Não se preocupe, o Kouga já voltou para o vilarejo dele e não acho que vá voltar tão cedo. – disse, começando a sorrir. – E quanto ao Inuyasha, bom, você nunca me deixou ter um cachorrinho, essa me parece uma ótima oportunidade!
- O que quer dizer com isso, Kagome? – a voz de Kikyou tornou-se, de algum modo, apreensiva.
Kagome começou a rir.
- Nada não, vou voltar para a aula agora. – disse, mais uma vez fugindo da mulher. – Obrigada por se preocupar e até logo.
Como da última vez, antes que Kikyou pudesse retrucar, Kagome fechou o aparelho. E então ela sorriu, a idéia de ter um cachorro parecia-lhe, realmente, maravilhosa.
Um mês havia se passado desde a chegada de Kagome na cidade, ela logo havia se enturmado, Miroku tinha feito um maravilhoso trabalho apresentando-a para todos. Kagome era uma garota agradável, estava sempre sorrindo, era educada e prestativa, como sua aparência denunciava, era frágil, usando isso como desculpa para fugir das aulas de educação física ou qualquer outra atividade que envolvesse esforços físicos. Ela havia faltado, pelo menos, uma vez por semana sem dar grandes explicações para os sumiços, usava uma suposta doença como desculpa.
Como Inuyasha já presumira na primeira semana de aula, ela havia se tornado amiga de Sango e de Miroku e isso criara uma situação um tanto quando desagradável, pois desde o incidente da floresta ele se recusava a trocar qualquer palavra que fosse com Kagome. E ela parecia tão empenhada em falar quanto ele. Esse descaso da parte dela havia criado em Inuyasha uma curiosidade quase doentia em relação à garota, ele ouvia todas as suas conversas, na esperança de conseguir filtrar algo relevante, já sabia identificar seus passos, mesmo esses sendo leves e quase inaudíveis, conseguia perceber as oscilações em seu tom de voz, podendo até dizer quando ela mentia, mesmo que nunca a tenha conhecido de verdade para julgar a veracidade de suas palavras. E o principal, sabia que aquela garota frágil e delicada que todos conheciam, na verdade, não existia.
Ele não sabia dizer ao certo quão verdadeira era aquela história dela ser capaz de matar Yokais, mas tinha que confessar que desde que ela chegara começara a sentir o cheiro de várias espécies rondando a região, como se existisse algo naquela cidade que os atraía. Algo que não existia antes.
Por motivos óbvios Inuyasha olhava emburrado pela janela. Ele criara esse hábito, já que se olhasse para o lado iria se deparar com Kagome e ter de suportá-la o dia inteiro fofocando com Sango e Miroku já era o bastante para ele. Inuyasha andava mais mal humorado do que nunca, Miroku concluira que o motivo disso era o fato do hanyou não conversar com ninguém há meses, afinal, ele se recusava a participar de qualquer diálogo em que Kagome estivesse presente.
Fazia sol e isso estava irritando Inuyasha, ele até agüentava aquele calor, mas os carros passando na rua e refletindo aquela luz cegante em seus olhos estava deixando-o a ponto de explodir. Resolveu virar o rosto, deparando-se com Sango, que sentava ao seu lado.
- Eu já ia mesmo perguntar como você estava agüentando olhar tanto tempo lá pra fora! – disse a morena sorrindo.
Ao ouvir Sango falando, Kagome e Miroku que copiavam a matéria que estava na lousa, olharam para trás, quase ao mesmo tempo. O hanyou cerrou os olhos.
- Acho que prefiro ficar cego olhando lá pra fora! – resmungou.
Kagome piscou os olhos demoradamente, a luz do sol deixara seus olhos brilhantes, como se tivessem vida própria. Ela olhou para o Miroku e sorriu:
- Viramos juntos!
Sango, que continuava olhando para Inuyasha, balançou a cabeça negativamente. Ela achava que ultimamente o hanyou estava agindo mais infantilmente do que o normal e essa era uma coisa que todos achavam ser impossível de acontecer. Ele percebeu a desaprovação nos olhos da morena, mas deu de ombros.
- Só para te avisar, você vai ficar horrível usando óculos. – disse Miroku.
- Muito engraçado, Miroku, muito engraçado mesmo. – retrucou Inuyasha.
- Ah, qual o problema com óculos? – disse Kagome. – Eu já tive que usar!
- Então esse seu olho azul é lente, Kagome? – perguntou Sango em tom risonho.
Inuyasha revirou os olhos de forma impaciente. Aquele era outro motivo para sua irritação, além de amiguinhos de Kagome, Sango e Miroku agora também a chamavam pelo primeiro nome. Toda aquela intimidade parecia ser de propósito, já que Kagome mesmo havia pedido para que a chamassem pelo seu nome e não de Arashi.
- Ah, essa pergunta estava demorando! – disse Kagome. – Todos me perguntam isso, meu olho é tão falso assim?
- Sinto dizer, mas sim. Ele é. – disse Miroku fingindo seriedade. – Eu não queria dizer nada, Kagome, mas você parece um daqueles malucos com olho de vidro.
Sango começou a rir baixo. E Kagome fez um biquinho, cruzando os braços.
- Que maldade! – reclamou.
- Feh!
Miroku, Sango e Kagome olharam juntos para o dono daquele som. Inuyasha estava resmungando com a cabeça baixa, deitado na mesa. E ao mesmo tempo, os três soltaram um "aff", virando-se para frente e continuando a copiar a matéria. Mentalmente o hanyou agradeceu por aquela ser a última aula do dia, pegou uma caneta e começou a rabiscar o caderno, tentando inutilmente fazer o tempo passar mais rápido. Depois de cinco folhas rabiscadas e uma caneta bic estourada em sua mão, Inuyasha olhou para o relógio de parede e sorriu, agora só faltavam 10 minutos.
Começou a arrumar seu material, jogando os cadernos e livros dentro da mochila de uma só vez, pegou o estojo, mas antes que pudesse guardá-lo, encontrou os olhos de Kagome, encarando-o. Ele sabia o porquê, largou o estojo na mesa e olhou pela janela e lá estava ele, com seus cabelos refletindo o sol e seus olhos dourados. O yokai olhou na direção de Inuyasha e encostou-se na parede, ao lado do portão de entrada, cruzando os braços.
- Pelo visto, sua amiguinha estranha tem visita. – disse Inuyasha, cutucando Miroku e apontando para fora.
Kagome abriu a mochila, colocando o caderno e o estojo lá dentro, tirou o celular do bolso vendo o horário, faltava menos de 5 minutos.
- Inuyasha?
O hanyou encarou-a, aquela era a primeira vez que ela se dirigia à ele.
- O que você quer? – respondeu.
- Preciso que você fique aqui dentro até ele ir embora. – disse Kagome calmamente.
- E porque é mesmo que eu deveria fazer? – disse Inuyasha.
Kagome começou a rir.
- Eu já ouvi isso antes. – disse. – Agora é o momento em que me levanto irritada e digo "Ótimo! Eu não vou ficar aqui te explicando as coisas, faça o que bem entender. Tenho mais o que fazer do que ficar aqui tentando descobrir porque você é tão teimoso".
E o sinal tocou, fazendo Kagome se levantar rapidamente e correr até a entrada. Sango olhou para Miroku e disse:
- Você entendeu alguma coisa?
Ele apontou para fora.
- Parece que o Sesshoumaru anda um pouco enjoado da vida nas montanhas.
- Inu... Ahn? Cadê o Inuyasha? – disse Sango, olhando para os lados.
- Já foi. – disse Miroku. – Essa será uma reunião bastante interessante, você não acha?
- Eu vou para casa, Miroku, não vou ficar aqui fuxicando a conversa alheia. – disse Sango. – E você deveria fazer o mesmo!
- Isso é um convite? – disse Miroku sorrindo de forma maliciosa.
Sango revirou os olhos e o ignorou. Ele suspirou deprimido e foi arrumar sua mochila.
Kagome passou por Sesshoumaru, sem falar nada, sem sequer olhá-lo. Ele acompanhou a garota com os olhos.
- É assim que você trata um yokai que vem de tão longe só para te ver? – disse. – Eu precisei chantagear meus anões, sabia disso?
- Aposto que eles te chutaram de lá, você é muito chato. – disse Kagome, que ainda andava.
Sesshoumaru desencostou da parede e caminhou até a garota, andando agora ao seu lado. A visão era um tanto quando cômica, pois Sesshoumaru era um yokai muito alto e Kagome batia um pouco acima do cotovelo dele. Era como se ela fosse uma anã.
- Porque está me seguindo? – disse Kagome.
- Instinto? – disse Sesshoumaru.
- Mudou de nome é? Eu chamo isso de falta do que fazer.
- Olha, eu já disse isso antes, mas vou repetir: eu não quero me misturar com vocês. – disse Sesshoumaru.
- Engraçado, porque é você quem está me seguindo. Eu agradeceria se você voltasse para a sua casa e não descesse de lá de novo! – disse Kagome. – A vida na montanha é perfeita pra você, ouvi dizer que faz bem para a pele!
- Poderia calar a boca e me deixar terminar de falar? – disse Sesshoumaru. – Eu vim aqui porque seus amiguinhos lobos resolveram acampar perto da minha casa, eu não suporto aquele cheiro o dia inteiro, eles sujam tudo, sem contar a barulheira que fazem durante a noite.
- E isso é culpa minha? – disse Kagome.
- Escute, garota, eu estou aqui apenas para mandar você tirar aquela gente de perto de mim. Eu sei exatamente como as coisas funcionam, se uns 50 yokais aparecem mortos na sua região - que diga-se de passagem, na verdade, é minha, eu comprei! – eu sei que aquela insuportável vai vir para cá.
- Por acaso você está falando da Kikyou? – disse Kagome.
- Você sabe que sim! – retrucou Sesshoumaru. – Ou vai me dar a boa notícia de que finalmente ela morreu?
- Mais viva do que nunca. – disse Kagome. – Eu vou ver o que posso fazer em relação aos lobos.
- Você não está entendendo, eu quero que você tire aqueles imundos de lá agora. – disse Sesshoumaru.
- Agora eu não posso, tenho mais o que fazer. – disse Kagome, dando de ombros.
Sesshoumaru parou de andar e pegou o braço de Kagome, ela revirou os olhos.
- Você vai agora resolver isso! Você atraiu essa gente, agora você tira! – disse Sesshoumaru.
- Sério, qual o problema com vocês, yokais cachorro? Sempre agarrando os outros e arrastando por ai! – disse Kagome.
Sesshoumaru ignorou-a e voltou a andar, arrastando-a.
- Você sabe que isso não vai funcionar! – disse Kagome.
- Tente me parar então! – desafiou Sesshoumaru.
Kagome fez uma careta, Sesshoumaru era realmente o yokai mais convencido que já havia conhecido. Olhou distraída a marca que seus pés sendo arrastados fazia no chão.
- O que pensa que está fazendo, Sesshoumaru?
Sesshoumaru parou de andar, Kagome fez uma expressão de desanimo, enquanto resmungava.
- Foi por isso que eu pedi pra você ficar lá dentro.
- Alguém não está conseguindo se controlar? – disse Sesshoumaru. – É isso mesmo?
A poucos metros do dois estava Inuyasha, mais uma vez ele assumira uma posição defensiva. Soltou um rosnado ao ouvir as palavras do yokai.
- Parece que você ganhou um cão de guarda. – disse Sesshoumaru.
- Você não me respondeu ainda, o que pensa que está fazendo? – disse Inuyasha com os olhos semi cerrados.
- Estou roubando um anão pra minha coleção! – disse Sesshoumaru.
Inuyasha encarou-o confuso, Kagome explicou tediosamente, enquanto balançava as mãos:
- Não tente entender... Piada interna.
- Eu não sei por que você resolveu sair do buraco onde você esteve enfiado todos esses anos, mas não vou deixar que destrua tudo o que eu demorei anos pra construir! – disse Inuyasha que logo apontou pra Kagome. – E não vou deixar que você leve-a embora!
Sesshoumaru deu um passado à frente, se posicionando em frente à Kagome.
- Então você acha que pode me impedir de levá-la comigo? – disse.
Kagome revirou os olhos, cruzando os braços.
- Maravilha. – resmungou. – Me sinto no meio de uma briga por causa de território, só falta mijarem em mim.
E como se acordasse ao ouvir as palavras de Kagome, Sesshoumaru virou-se para a garota.
- Isso é ridículo. Eu não vou me desgastar por causa de você! Eu já dei meu recado, se até amanhã aquele bando de lobo não sumir do meu quintal você sabe o vai acontecer!
- Fico feliz que não tenha se feito passar por esse ridículo. – disse Kagome aliviada. – Não se preocupe, vou cuidar de tudo pra você nunca mais ter motivos pra sair daquela montanha e, consequentemente, não me encher mais o saco.
- Eu já vi muitas de você por ai. – disse Sesshoumaru. – Mas você... Você é especialmente odiosa.
- Claro, claro. – disse Kagome. – Sei que sou um amor de pessoa, agora volte pra sua casa. E eu não estou pedindo isso.
Sesshoumaru deu de ombros.
- Se esforce mais da próxima vez – disse Sesshoumaru. – E você, Inuyasha, não precisa se preocupar, eu não pretendo destruir essa vida ridícula que você leva nesse fim de mundo.
E dizendo isso, ele começou a andar. Inuyasha continuou parado até ele sumir de vista e quando isso aconteceu, ele correu até Kagome.
- O que você está fazendo com a minha cabeça? – gritou.
- Eu disse antes que você precisava entender muitas coisas. – disse Kagome dando de ombros. – Mas você não fez questão nenhuma de ouvir o que eu tinha pra dizer, então porque eu te explicaria alguma coisa?
- Como assim? – retrucou Inuyasha, cerrando os olhos. – Está me dizendo que eu ter agido feito um idiota tem a ver com essa história maluca que você inventou?
- Exatamente. – disse Kagome sorrindo. – Mas veja bem, você só agiu como um idiota porque é um, se tivesse me ouvido poderia ter se poupado dessa cena vergonhosa.
Inuyasha andava de um lado para o outro, balançava o braço impacientemente enquanto falava.
- Me diz o que diabos é isso!
- Instinto. – disse Kagome.
- De novo essa história de instinto? Mas que droga é essa de instinto?
- Deixe-me ver como posso te explicar isso. – disse Kagome pensativa. - Como eu já disse antes e você não acreditou, eu mato yokais, então eu preciso de alguma defesa, concorda? Eu nasci assim, não foi como se eu resolvesse em algum momento da minha vida sair por ai matando yokais feito uma maluca que você acha que eu sou, ou seja, junto comigo nasceu isso. Quando um yokai se encontra comigo, ele se sente atraído por mim. Às vezes, não é nem um atração que acontece, é algum tipo de curiosidade, pode acontecer de ser uma amizade ou algum tipo de interesse. Como você deve ter notado na aparência nós somos como as outras humanas, mas vocês yokais conseguem perceber a diferença logo de cara, por isso chamamos de instinto. Essa ligação que criamos com vocês é a nossa defesa, pois vocês se tornam incapazes de nos matar.
Inuyasha passou a mão pelo rosto, demonstrando cansaço. Mais uma vez Kagome vinha com histórias estranhas sobre coisas que ele desconhecia, mas que de alguma forma fazia sentido.
- Só que existe um detalhe... – disse Kagome.
- Ah, que ótimo, existe mais algum detalhe sobre esse meu radar pra pessoas estranhas que eu não saiba? – disse Inuyasha.
- Vocês têm a mesma defesa. – disse Kagome.
- E isso significa o quê exatamente? - disse Inuyasha.
- Significa que eu tenho o mesmo instinto que você. – explicou Kagome. – A defesa de um yokai contra nós é ser capaz de nos fascinar.
O hanyou a encarou por alguns minutos e então deu um meio-sorriso. Não que ele soubesse o motivo de fazer aquilo, foi mais como uma reação natural, mas ele iria descobrir o porquê mais cedo do que imaginava.
Boa tarde, queridas pessoas :) Como estão? Eu estou bem! :D
Como eu disse que iria acontecer mais pra frente, os capítulos estão ficando maiores e só tende a aumentar, quero compensar a uma semana sem atualização com posts grandes, até porque a história tem muita coisa pela frente e se continuar com capítulos curtinhos assim, dá pelo menos mais uns 30! XD Gostaria de pedir que vocês comentassem dizendo se estão achando a história confusa demais e não estão entendendo nada, tenho medo de vocês se perderem! _
Aricele: Olá querida, não se preocupe, fico feliz que tenha aparecido de novo, achei que tinha me abandonado mimimi ;_; HAHAHAH Ok, sem drama! Comente sempre que quiser :)
H. Quinzel: Bem vinda 3 Obrigada pela review. Então, eu até poderia atualizar todo dia, mas os capítulos seriam minúsculos, iguais esses de comunidades do orkut, sabe? Acho que daria uma página ou até meia página do word por dia e eu pretendo escrever umas 15 e postar todo domingo :) Então, apesar da demora, acho que vale mais a pena esse esquema que estou fazendo, o que você acha?
Biia-Sama: Bem vinda² 3 Muito obrigada pela sua review, sério, fiquei muito feliz em ler que você está gostando, porque eu tenho a idéia dessa fic há anos na cabeça e me derreto toda em saber que escrevê-la depois de tanto tempo vale a pena! :3 E sim, você está certíssima! Logo mais os climinhas vão começar a virar algo mais, acho que nesse capítulo mesmo já dá pra notar isso! Sobre a história dos anjos, isso é algo realmente complicado, desculpe por deixá-la confusa ;_; Mas prometo que com o tempo eu vou explicar isso direitinho e então, tudo fará sentido (eu espero! XD)
Então, é isso :) Mais uma vez agradeço às meninas que adicionaram minha fic aos favoritos, mas se não for pedir demais, dêem um oizinho pra mim ;_; Eu gosto de receber oizinhos amigos, juro que não mordo! Até domingo, queridas e claro: Feliz dia das mães! Beijos :*
