Atos de Vingança III

Capítulo V

Os dias passavam lentamente na cidadela submersa. Livres de preocupações a respeito da segurança de Atena, e seus outrora desaparecidos companheiros os cavaleiros investiam suas energias em cuidar dos feridos, e se preparar para o inevitável combate final contra as deusas da vingança. Marin, Shina, Dohko e Camus investiam o máximo de tempo que podiam obrigando os cavaleiros a exercícios cada vez mais árduos. A mais insignificante evolução das habilidades dos treinandos era comemorada.

Em paralelo a tais esforços os cavaleiros se reuniam quase diariamente para debater estratégias de reconquista do Santuário. Shaka, Mu e Saga criavam inúmeros cenários ilusórios para cada proposta levantada, tentando garantir que nenhuma delas escapasse de criteriosa análise. Entretanto, os cavaleiros de Atena tinham muitas outras questões a resolver além de mera estratégia. Apesar dos esforços, Saori não conseguia esconder dos cavaleiros de ouro seu estado debilitado, fruto de meses de privações.

- O que faremos a respeito do Máscara da Morte?-perguntou Aiolia– Vamos deixá-lo do outro lado de vez?

- Eu o congelei assim que Shiryu e os cavaleiros de prata me explicaram a situação. – respondeu Camus – Isso deverá preservar seu corpo até Atena estar em condições de trazê-lo de volta, mas, definitivamente, não é algo que seja viável em longo prazo.

- Mesmo porque precisaremos dele para passar da Casa de Câncer. -lembrou Milo. – É verdade que a presença dele não é garantia de vitória, mas ele nos pelo menos nos daria mais tempo para tentar algo.

- Aproveitando o assunto, Mu, algum contato com ele? – perguntou Saori

- Pouco.– respondeu o cavaleiro de Áries– Shaka e eu desconfiamos que cada contato que ele faz com o mundo material o enfraquece. Por isso estamos limitando o contato a notícias do mundo exterior. Mas, mesmo elas estão esparsas.

- Ao que parece depois que Atena e Poseidon nos trouxeram para cá a erínia que atacou Jamir tentou descontar a frustração na população. Quando falamos com Máscara da Morte ontem a criatura ainda não tinha retornado ao Santuário, e vários focos de discórdia já haviam surgido entre a Índia e a Grécia. – completou Shaka.

- Eu já tinha notado esses focos. – murmurou Atena- Infelizmente, não estou forte o suficiente para combatê-los. O máximo que pude fazer até agora foi minorar seus efeitos.

- Atena, se continuar se esforçando desse jeito jamais teremos condições de recuperar o Santuário!-repreendeu Dohko.- Lembre-se que é um corpo mortal que a senhora está habitando!

- Eu sei, Velho Mestre, eu sei. Porém, me recuso a silenciar enquanto inocentes sofrem. Prometo tomar mais cuidado com minha saúde daqui por diante. Mas, antes, ainda temos algumas questões para resolver.- desculpou-se Saori - Quero que o senhor use a espada de Libra para soltar Câncer, e o traga aqui.

- Não seria melhor esperar um pouco mais?-questionou Aioros – Até que a senhora estivesse mais forte?

- Não. Nesse ritmo quando o trouxermos de volta ele estará incapacitado para lutar. Por favor, Velho Mestre.- disse a deusa, convicta - Shaka, Mu, precisarei da ajuda de vocês para guiá-lo de volta.

- Sim. –responderam os três preparando-se para desempenhar as tarefas que lhes eram confiadas.

XxxxX

Santuário

A apreensão com a demora de da erínia Tisífone aumentava a cada hora. Sem saber que atitude tomar cavaleiros negros, e nêmesis se voltavam para Thallas e Selene em busca de orientação. Porém, nem mesmo eles tinham certeza de como proceder. Alecto, Megera e Nêmesis ignoravam completamente seus pedidos de instruções, mantendo-se imóveis na décima - terceira casa, na mesma posição que estavam quando irradiaram seus cosmos pelo mundo. Reunidos com as tropas no coliseu, o casal tentava acalmar os soldados.

- Afinal, o que devemos fazer? Ir atrás de Atena?Continuar aqui? – questionou um dos cavaleiros negros – Vocês estão nitidamente perdidos!

- Não tanto quanto você estará se não controlar sua língua. – respondeu Thallas. – Disciplina militar é um tópico sobre o qual Selene e eu não temos a menor dúvida.

- Alto lá!- disse outro – Ele pode ter se excedido um pouco, mas a verdade é que desde que a Senhora Tisífone saiu para cumprir a missão que os Nêmesis deveriam ter executado estamos batendo cabeça aqui neste lugar.

- E você acha que gritar com seus comandantes ajudará em alguma coisa?- perguntou o nêmesis de Capricórnio. – Vocês são soldados, comportem-se como tal!

- Permitam-nos lembrar aos nossos companheiros cavaleiros negros que eles, também, fracassaram em suas missões. – disse Leão - contavam com o auxílio de Leviatã, Selene e de dois dos Ventos, ainda assim foram incapazes de eliminar seus alvos.

- Sem falar na quantidade absurda de vocês que os sobreviventes de bronze e prata eliminaram após a conquista deste lugar.- completou Escorpião – Podemos não ter eliminado os cavaleiros de ouro de imediato, mas, pelo menos, garantimos que eles fossem incapazes de retaliar por um longo tempo.

- Grande coisa. Seus esforços não impediram que Zéfiro morresse. – falou Notus, provocando espanto tanto nos companheiros quanto em Thallas e Selene.

- Sejamos francos. - comentou Peixes – Pouco importa quantos dos cavaleiros negros ou ventos morram, eles são dispensáveis. Devemos nos concentrar nos cavaleiros de ouro, e em Atena.

Com o comentário de Peixes, a tensão explodiu. Touro tentou impedir que os cavaleiros negros mais próximos agredissem Peixes, mas Escorpião e Leão preferiram controlar os agressores usando a força. O que começou com troca de acusações evoluiu rapidamente para troca de golpes.

Tentando ao mesmo tempo controlar a situação e reparar a ofensa sofrida, os três Ventos levantaram vôo e avançaram sobre a multidão usando seus poderes sobre o ar na tentativa de encerrar o combate. Apesar de a investida inicial ter sido bem sucedida, com os nêmesis e cavaleiros negros sendo jogados em direções opostas e mantidos à distância por violentas correntes de ar, não demorou muito para que os três fossem atingidos e neutralizados.

- JÁ BASTA!

Irritados com a situação Thallas e Selene lançaram seus cosmos contra todo o coliseu. Imobilizados pelos poderes dela não foram capazes de escapar dos tremores e gêiseres criados por ele. Com os fragmentos de gelo criados por Bóreas e Aquário e condensando a umidade do ar não tiveram dificuldades em aprisionar seus soldados em uma gigantesca esfera de água para, em seguida, arremessá-los violentamente contra o chão.

- Vocês vêm sendo esmagados como insetos dia após dia e, ainda assim, conseguem encontrar tempo para brigar entre si. Absurdo!– disse Selene para o grupo, que tossia e arfava dolorosamente em busca de ar ao serem libertados. - Prestem bem atenção em minhas palavras: todos os aqui presentes são dispensáveis! Não nos olhem com essas expressões de desprezo. Muitos de vocês nem sequer tinham um corpo, não passando de um fragmento reprimido da personalidade de seus opostos. Peixes está corretíssimo ao afirmar que a morte dos Ventos e dos cavaleiros negros não faz diferença nenhuma. MAS!-disse, erguendo a voz e o cosmo para conter novos protestos – Também seria correto dizer que vocês, nêmesis, também são absolutamente inúteis. Exceto, é claro, por Andreas, sem o qual nenhum de nós estaria reunido aqui hoje.

Dezenas de faces se viram para o nêmesis de Câncer. Algumas com respeito, já outras, com desdém.

- Oh, a arrogância!- disse Thallas num suspiro exasperado ao ver as expressões de seus subordinados –Porque se preocupam com detalhes tão irrelevantes? Será possível que vocês são tão infantis e estúpidos quanto os originais? A verdade é que vocês existem apenas para servir a um propósito maior, para que o castigo de Atena e de seus cavaleiros venha não de um golpe anônimo, mas de dentro de suas próprias almas! Mas, apesar disso, nenhum de vocês é tão importante que não possa ser substituído. Permitam-me demonstrar.

Diante de olhares curiosos e apreensivos Thallas aponta para um dos vários cavaleiros negros caídos.

– Você aí! Hércules, correto? Se bem me lembro, você foi capaz de eliminar o cavaleiro de prata de sua constelação, não foi?

- S-sim.

- Meus parabéns! Isso que significa que sua missão já foi cumprida. – disse - Logo, você não é mais necessário.

A um gesto de Thallas o corpo do homem foi erguido no ar em meio a violentas convulsões. Sem controle suas articulações se dobravam em várias direções, formando arcos grotestos e impossíveis.

Apavorados com a cena tanto os outros cavaleiros negros como alguns nêmesis tentaram argumentar, pedindo que o homem fosse poupado.

- SILÊNCIO! - gritou Leviatã- Nosso controle sobre este mundo está em risco, mas vocês parecem que ainda não se deram conta disso. Parecem preferir perder tempo conjecturando a respeito de uma superestimada importância de suas ridículas existências. Vocês não são, nunca foram, nem nunca serão nada!Não fosse Andreas invocar as deusas da vingança em busca de auxílio vocês continuariam sendo fragmentos de personalidade, um conjunto de emoções reprimíveis com o mais simples dos antidepressivos!

Presos por um fascínio mórbido nenhum dos presentes no coliseu conseguia desviar os olhos do cavaleiro flutuante cuja pele, músculos e ossos ardiam e derretiam em velocidade impressionante. Com um teatral estalar de dedos Thallas encerrou o sinistro espetáculo, fazendo os pedaços da armadura caírem rolando pela arena do coliseu.

- Sei o que pensam. Que eu poderia ter exterminado qualquer criatura viva da mesma forma que eliminei seu companheiro. – disse- Talvez. Mas esse pequeno teatro do grotesco não era o que eu queria demonstrar. Mas, isto!

Com um novo gesto, tão imperioso quanto o primeiro Thallas reúne os irreconhecíveis restos do cavaleiro negro que giram no ar, se fundindo e expandindo; dando origem novamente a um homem, indistinguível do anterior, exceto por um detalhe: os olhos. Apesar de não haver nenhuma diferença discernível entre eles e os do corpo anterior, ou mesmo do verdadeiro cavaleiro de Hércules, algo neles indicava que por trás deles, havia uma nova pessoa, uma nova personalidade. A mera expressão de curiosidade infantil no rosto do cavaleiro já deixava claro que, para ele, o mundo não tinha mais do que alguns segundos de existência.

- Espero que isso resolva a questão da importância de cada um de nós dentro desse exército. -disse com um sorriso de triunfo diante do espanto dos demais

XxxxX

- De quem foi a idéia estúpida de me congelar?- reclamava Máscara da Morte entre espirros, alguns minutos após recuperar a consciência.

- Você preferia que deixássemos seu corpo apodrecer?-perguntou Camus.

- Poderiam ter perdido menos tempo para me trazer de volta. Ou quem sabe tentado entrar em contato uns com os outros de maneira mais eficiente!

- Você também poderia não ter tentado enfrentar o nêmesis de Áries de peito aberto. – disse Shaka-. Seu resfriado é o menor de nossos problemas.

Ao ouvir isso Máscara da Morte se acomodou o melhor que pode com as cobertas que Sorento havia lhe trazido. Realmente, havia muito a ser discutido e pouco tempo para fazê-lo, por isso, resolveu não prolongar a discussão.

- Afinal, onde está Atena?- perguntou, a ninguém em especial.

- Com Poseidon. Aliás, isso ainda me assusta. – comentou Milo. – Eu até entendi quando ele enviou as armaduras de ouro aos Elíseos por não querer que Hades destruísse toda a vida na Terra. Mas ainda não vejo porque nos ajudar agora.

- Bem, as deusas da vingança não reproduziram as escamas dos marinas, como tentaram se apossar da urna, segundo vocês contaram. – sugeriu Shura –Já são um bons motivo para Poseidon querer interferir. Sem contar que elas por pouco não feriram o antigo hospedeiro dele. Então, razões para ordenar que Sorento e Tétis entrassem em combate não faltam.

- Isso nos leva a outras perguntas: até onde Atena está disposta a aceitar essa ajuda, e o que Poseidon exigirá em troca?-disse Afrodite - Duvido que o deus dos mares fosse interferir nos assuntos das deusas da vingança de graça. Não que eu não seja grato por ter tido minha vida salva por ele, apenas acho esse altruísmo divino um tanto inacreditável.

- Que diferença faz o que o velho deus vai pedir? - perguntou Máscara da Morte – Dos sete Generais Marinas só um está vivo, e aquela loira só conseguiu assustar o Kiki. Como aliados eles são dispensáveis, e como adversários são irrelevantes.

- Tanto Tétis quanto a Sereia Negra disseram que você lutou lado a lado com a marina, a ajudou nas investigações, até. – Comentou Aiolia.

- Hmmm... Viajar o mundo atrás de inimigos super poderosos ao lado de uma loira escultural ou fazer a mesma viagem sozinho?- perguntou o cavaleiro de Câncer com uma expressão de dúvida teatral estampada no rosto – Ó dúvida cruel! Você é um péssimo irmão mais velho, Aioros, nem ensinou ao garoto sobre... Aioros?

- Hm? - foi a resposta de Aioros que não tirava os olhos da entrada da câmara para aonde Saori tinha se retirado com a urna contendo o deus dos mares. – Desculpe, vocês disseram alguma coisa?

- Encarar a porta não vai fazê-la abrir mais rápido. – disse Saga. – Mais do que ninguém você deveria confiar em Atena. Já conversamos sobre isso antes, só nos resta esperar. Independente do que for decidido por eles, temos de nos recuperar para a batalha que virá.

XxxxX

Dentro da câmara Atena meditava. Suas conversas anteriores com Poseidon se deram graças aos esforços do deus em superar o selo que o mantinha preso na urna. Foi por pura sorte que no esforço conjunto para resgatar os cavaleiros espalhados pelo mundo que o deus dos mares não havia se libertado. Infelizmente, essa sorte parecia estar acabando.

- Noto preocupação em seu cosmo.

- Como não me preocupar? Nem eu nem meus cavaleiros estamos em condições de combater e é inviável que esperemos todo o tempo necessário para que nossos corpos se recuperem. E cada dia que passa o mundo sofre mais e mais nas garras das Erínias e Nêmesis.

- É por isso que ofereço minha ajuda, Atena. É verdade que discordamos desde a era mitológica, mas isso não significa que devamos estar sempre em campos opostos. Retire o selo, e permita que eu faça muito mais do que já fiz. Juntos podemos acabar de vez com essa loucura.

- Sou grata pelo que fez por mim e meus cavaleiros, mas não vou libertá-lo, Poseidon. Sei muito bem que os próximos passos após sua libertação seriam reunir novos marinas e reivindicar novamente Julian Solo como seu hospedeiro. Não posso permitir que isso aconteça.

- Prefere então ver o mundo mergulhar no caos? Você está sendo orgulhosa, minha sobrinha!- exclamou Poseidon, cujo cosmo exaltado fazia o selo vibrar. – Ofereço uma chance de interromper a loucura que as filhas da Noite espalharam pelo planeta! Você está pensando mais como deusa da Guerra do que como deusa da Sabedoria.

- Pelo contrário. Ajo não como a guerreira, mas como a sábia. Talvez uma guerreira sábia, se assim preferir. Um dos motivos pelos quais não aceito sua proposta é por saber que não importa quantos soldados mais você possa acrescentar às minhas fileiras, eles não terão serventia nenhuma. Mas, há um meio de você me ajudar, mesmo sem que eu precise libertá-lo.

- O que está sugerindo?

XxxxX

Do lado de fora da câmara, os cavaleiros trocavam notas:

- Recapitulando – disse Aldebaran – O rapaz que Afrodite matou no Saara e o guerreiro com quem conversei no Egito fazem parte do grupo de cinco guerreiros que visitaram Shion no dia em que Aioros fugiu com Atena, foram mortos pelo Máscara da Morte e agora ressuscitaram, correto?

- Quase. - respondeu Saga – Câncer matou apenas quatro deles, o líder eles mesmos mataram quando foram impedidos de me expor.

- Você não sabia que a sacerdotisa do templo de Selene era sua ex? – perguntou Shura à Máscara da Morte.

- Ela não era minha "ex". – respondeu o cavaleiro, com certo desconforto – Não havia exatamente um relacionamento...

-Ela teve um filho seu. E pelo que deu para entender o contato não foi forçado. - falou Ikki, arrancando, por motivos totalmente diferentes, caretas de Máscara da Morte e Shaka – Você pode negar o quanto quiser. Mas que havia um relacionamento entre vocês havia.

- Dane-se o que você acha!-respondeu Máscara da Morte,irritado- Não,Shura, eu não sabia nem desconfiava que ela estava lá. Depois que ela sumiu não tivemos contato nenhum até o dia em que a matei. Sem contar que existem dezenas de pequenos templos e santuários espalhados pelo mundo. Conhecer a líder de um culto decadente a uma titânide não é trabalho para nós, cavaleiros, é função do Grande Mestre!

- Deixando de lado as aventuras sexuais de Máscara da Morte e o extenso rol de inocentes que ele matou. – disse Afrodite erguendo a voz – Onde entra o nêmesis de Gêmeos? Saga estava inegavelmente junto de nós o tempo todo, não havia como aparecer no Brasil sem que nós soubéssemos.

- Vocês poderiam estar sob controle dele.-sugeriu Milo- Ou talvez só o Mu. Ambos tem poder suficiente para criar ilusões.

- Você realmente acha que Saga seria capaz de controlar um de nós sem chamar a atenção dos outros quatro? – perguntou Aioros.

- Bom...

- Basta dessa conversa. – interveio Saga - Não sou um traidor.

- Então, quem matou Kanon? – perguntou Hyoga. – Aquela pessoa era totalmente diferente dos outros nêmesis. Mesmo o filho de Máscara da Morte é extremamente parecido com ele, praticamente idêntico pelo que vocês disseram.

- Podemos botar essa semelhança extrema na conta das Erínias. – falou Dohko.

- Saga, estive notando que sua personalidade maligna não tem se manifestado mais. – comentou Camus.

- Sim, é verdade. Já faz algum tempo que não perco o controle – respondeu o cavaleiro de Gêmeos- Não me sinto assim desde que fui banhado pela luz do escudo de Atena... Você acha que as Erínias deram forma àquilo?

- Bem, nós já conversamos um pouco sobre isso antes. De todos nós é você quem tem os maiores traumas e emoções reprimidas. Eles foram fortes o suficiente para dar origem a outra personalidade. Se Shaka e sua teoria de que os nêmesis são nossos medos mais profundos sua dupla personalidade seria um alvo tentador demais para ser ignorado. - respondeu Camus.

As palavras do cavaleiro de Aquário trazem silêncio à assembléia reunida. Instintivamente os presentes se vêem desviando os olhos de Saga que, visivelmente abalado com as palavras de Camus, esconde o rosto entre as mãos.

-Finalmente ele conseguiu...Não... Ele não. –murmurou entre lágrimas - Eu. Eu matei meu irmão...

XxxxX

Santuário

Apesar do que pensavam os mortais que lhes serviam as deusas da Vingança não estavam inertes. Do momento em que Tisífone levantou vôo até a fuga dos cavaleiros de ouro as quatro divindades mantinham ativa e intensa comunicação. Por suas mentes fluíam imagens, idéias, sons e cheiros daquilo que seus corpos físicos experimentavam.

Assim como saborearam cada segundo do sofrimento vivido por Saga, Afrodite, Aioros e Aldebaran quando enfrentaram Tisífone, as três deusas que permaneceram no Santuário foram obrigadas a sentir o amargo sabor de frustração da Erínia combatente quando teve as presas retiradas de suas garras.

Não havia nada que impedisse as quatro de varrerem o mundo atrás do responsável por tal ousadia, mas, por mais que se esforçassem, não conseguiam encontrar a origem da interferência. A recusa de Tisífone em retornar ao Santuário não ajudava a diminuir a frustração das outras três.

- Meses já se passaram e nada conseguiste, irmã... – criticava Alecto.

- E por isso deveria retornar à Grécia? Aceitar a afronta que me foi feita?Nunca!- defendia-se Tisífone

- ...ALECTO TEM RAZÃO, TISÍFONE. TEU FRACASSO ENVERGONHA TUAS IRMÃS...- Megera, a líder do trio, apesar de partilhar da fúria das irmãs tinha outras preocupações em mente.

- COMO SE ATREVEM? VÓS SENTISTES TÃO NITIDAMENTE COMO EU A INTERVENÇÃO DE COSMOS ESTRANHOS. ALGUÉM TENTA NOS FAZER DE TOLAS!NÃO PODEMOS PERMITIR TAL COISA!

- Acalmem-se, irmãs.- interveio Nêmesis- De que adiantará perdermos tempo em discussões? Temos de nos concentrar em encontrar Atena e seus cavaleiros.

- Paradas nessa terra fétida que é o Santuário de Atena não conseguirão coisa alguma! Juntem-se a mim! Varramos o mundo em busca dos malditos cavaleiros!

- JÁ BASTA, TISÍFONE...-ralhou Megera.-... SE TEU INTERESSE FOSSE O DE ENCONTRAR OS CAVALEIROS DE ATENA JÁ OS TERIA DESTRUÍDO...

- ...Como te atreves... ?

-...Estais a brincar com os mortais ao invés de desempenhar vossa missão!Haverá tempo no futuro para repreender a humanidade...!

- NÃO! VOCÊS JÁ BRINCARAM DEMAIS COM AS VIDAS HUMANAS!

Um poderoso brado psíquico atinge a mente das quatro deusas, fazendo-as cambalear. Tisífone, que voava sobre a costa líbia,observando os combates, por pouco não caiu nas águas do Mediterrâneo.

- QUEM SE ATREVE?–bradaram as quatro deusas quando um segundo ataque, menos potente, porém mais claro é sentido. Visões oceânicas e celestiais invadem a mente das quatro deusas.

- Poseidon, Senhor dos Mares e Palas Atena, deusa da Sabedoria e da Guerra se atrevem. – replicou Atena. Com o máximo de suas forças tentou ocultar suas preocupações das deusas da Vingança. Se elas desconfiassem mesmo que por um instante a precariedade da condição em que ela e Poseidon se encontravam o blefe seria rapidamente descoberto.

- Poseidon?Poseidon? Então, sois vós o responsável por nos privar de nosso justo prêmio?...

-...Como te atreves a comungar com criminosa de tal laia? A assassina de teu irmão?...

-Meus motivos não lhes dizem respeito, ruínas do passado –replicou Poseidon – Ordeno que cessem seus ataques contra a humanidade e retornem ao Santuário de Atena, onde nós, em nome do Olimpo haveremos de julgá-las pelos crimes contra a raça humana.

- HAHAHAHAHAHA! –gargalhou Megera – CREMOS QUE A PRISÃO O ENLOUQUECEU, Ó SENHOR DOS MARES...

- ... Que autoridade é essa que invoca para nos julgar?...

- ...Se tiveres interesse em participar da condenação de Atena, será um prazer atender vossa vontade...

- ...MAS NÃO TESTE NOSSA PACIÊNCIA COM PILHÉRIAS...

- O que pretendem com essa demonstração inútil de força? – perguntou Nêmesis – Não podem realmente crer que conseguirão ocultar seu esconderijo por muito tempo.

- Não pretendemos nos esconder. – disse Atena – Estamos aqui para fazer uma proposta.

- ... Proposta?...

- ...Loucos! Ambos loucos!...

-...ACALMAI-VOS. A PETULÂNCIA DESSAS CRIANÇAS ATIÇA MINHA CURIOSIDADE...

- Nem eu nem meus cavaleiros fugiremos mais de vocês. Aceitaremos o julgamento.

- Porque continua a nos desafiar, então? – perguntou Nêmesis

- Aceitar o julgamento é diferente de aceitar a condenação.- replicou Atena.- Pretendo retornar ao meu Santuário junto com meus cavaleiros. E lá meus cavaleiros passarão pelo julgamento de Nêmesis e eu pelo da das Erínias.

- Mas, para isso, as quatro terão de concordar em dar trégua aos homens.-disse Poseidon- Deste exato instante até o fim dos julgamentos.

- ... E se não concordarmos?...

- O jovem Apolo conseguiu colocá-las para dormir. O que acha que eu, um dos três mais poderosos deuses olímpicos poderia fazer com vocês, mesmo sem a ajuda de Atena? Estamos dispostos a destruir o Santuário da Grécia se isso significar eliminar seus soldados.

- ...QUAL O TEU PAPEL NESSA FARSA, POSEIDON?...

- Atena solicitou que eu advogasse em sua defesa. Mas, como disse antes: meus motivos não importam. Qual é a resposta?

- ...Não há julgamento sem juiz...

- ...Se a nós caberá a acusação, e a ti a defesa...

-... QUEM PRETENDE ACORDAR PARA PRESIDIR SUA EXECUÇÃO, ATENA?

- Nêmesis Adratéia.- disseram os olimpianos.

A resposta foi dada com tamanha naturalidade e segurança que as deusas da Vingança não souberam como reagir. Após um longo silêncio, finalmente Nêmesis se pronunciou.

- Coloquei minhas forças à disposição da missão das Erínias. Juntas estamos punindo o planeta, a começar por seus defensores... Como podem pensar que eu serei imparcial?

- Você poupou a irmã de Seiya. – respondeu Saori - Isso é o suficiente para eu ter certeza de que jamais cometeria a injustiça de condenar inocentes.

- ...VAIS ACEITAR ?...

-...É o mesmo que nos trair!...

-...Adratéia...

- Não posso me esquivar de atender àqueles que clamam por justiça.- respondeu Nêmesis por fim.- Tisífone... Volte imediatamente ao Santuário.

-...O QUE? – questionaram as Erínias a uma só voz.

- Não vou me repetir.-disse Nêmesis, calmamente – Quanto a você, Atena, tenha isso em mente: meu julgamento é final, e à sentença de minhas irmãs se somará a minha. Se em doze dias você e seus cavaleiros não se apresentarem diante de nós no Santuário, não haverá poder no universo que possa protegê-la de nós!


Continua...