Capítulo V

As primeiras semanas de Hogwarts transcorreram normalmente – pelo menos para aqueles que já eram estudantes há algum tempo: os primeiranistas ainda tinham aquele estupor de calouro, impressionados com tudo, e alguns ainda sem acreditar que realmente eram bruxos – e Harry já estava cansado.

Suas tarefas do dia incluíram: ir até a biblioteca com Mione para fazer um relatório de 60 centímetros para o professor Binns, depois ir para o treino de quadribol com Rony e Ginny e escolher suas matérias opcionais para aquele ano. Trato das Criaturas Mágicas era a primeira da sua lista, com certeza.

"Talvez Estudo dos Trouxas não seja tão ruim... Vamos ver o que os Bruxos realmente acham do mundo trouxa", Harry pensou enquanto anotava seu nome na lista de aulas. Essa matéria sempre acabava fazendo-o lembrar do pai de Ron, o bruxo mais curioso sobre o mundo dos trouxas que ele já vira. "Adivinhação eu quero passar longe... Se bem que acho que a professora Trelawney não vai mais ficar surtando sobre profecias me envolvendo... Ah, já fiz essa matéria por muitos anos, quero fazer algo diferente... Ta aí, Runas Antigas, pronto, resolvido" e anotou seu nome na última lista. Outra coisa a se preocupar eram o N.I.E.M.'s. Para isso não poderia ter a ajuda de Hermione... Ele e Rony teriam que se virar sozinhos algum dia. Então revisou as listas para ter certeza de que assinou seu nome: Trato das Criaturas Mágicas, Runas Antigas e Estudo dos Trouxas.

- Hey Harry, já escolheu suas matérias? – falando em Hermione, a garota apareceu e anotou seu nome em todas as matérias opcionais.

- Já. Mione, eu não sei como você consegue lidar com tantas matérias, sinceramente! Você realmente gosta de estudar, não é?

- Harry... Eu nunca falei pra você que, assim que soube que eu era uma bruxa, eu jurei pra mim mesma que iria conhecer cada detalhe, cada segredo da história bruxa? Eu nunca me permitiria não conhecer tudo que esteja ao meu alcance. Por isso eu amo estudar, amo aquela biblioteca e sinto muito orgulho das minhas notas do N.O.M's. A bruxaria me fascina e eu não sei como não fascina você também... Afinal, viemos do mesmo lugar, Harry... – o garoto nunca parou pra pensar que Hermione cresceu no mundo trouxa, igualzinho a ele. Ela era a única que poderia entender seus assuntos relacionados àquele mundo sem banaliza-lo ou ficar completamente embasbacada.

- Hermione, você tem razão... Minha preocupação com Voldemort, atender às expectativas de ser "o garoto que sobreviveu" parece ter me cegado para tudo à minha volta. Sinto como se tivesse vivido numa bolha até agora. É como se fosse tudo um sonho e eu fosse acordar no meu quarto debaixo da escada na casa dos Dursley a qualquer hora. Eu sou um bruxo, e isso é absolutamente incrível! Mione, você é incrível! Quando eu crescer, quero ser igual a você – o garoto deu risadas depois que Hermione deu-lhe um tapa no braço, de brincadeira. Eles se abraçaram e Hermione se mostrou emocionada pela admiração e pelas palavras sinceras do amigo.

- Durante todos esses anos, só você foi capaz de me compreender, Harry. Eu amo o Rony, mas ele viveu a vida toda aqui no mundo bruxo, ele não entende e não compartilha nossas experiências naquele mundo louco, por vezes cruel e mal. Acho que, no fim, cada mundo tem seu próprio Voldemort para derrotar... – com essa última afirmação, deixaram o papo filosófico para trás e conversaram sobre as aulas que fariam juntos. Não perceberam, nem ao sair, que um garoto loiro ouviu toda a conversa e se sentiu mais próximo ao garoto-que-sobreviveu, de alguma forma.

Draco Malfoy observou as listas de matérias opcionais. Detestava aquela Trelawney maluca, então sua matéria estava riscada na sua lista. Firenze era legal, mas a Adivinhação em si não valia a pena. Runas Antigas parecia ser interessante, já que ele adorava coisas antigas, misteriosas, dialetos incríveis que pareciam esconder segredos em suas linhas. Aritmância era incrivelmente atraente para ele. A maior parte das pessoas nem se dava ao trabalho de conhecer a matéria porque achavam que era muito difícil e complicada, mas o garoto gostava dos números tanto quanto das letras. Mais uma matéria em potencial. Estudo dos Trouxas. Encarou a lista por um tempo, lembrando da conversa que Harry teve com Hermione há poucos minutos. Sentiu então um desejo muito forte de conhecer mais o mundo de onde Harry viera. Nunca antes tinha se interessado pelos trouxas; fora ensinado a odiá-los, acha-los repulsivos e achar que não passavam de um bando de sangues-ruins. Trato das Criaturas Mágicas estava fora de cogitação por motivos óbvios. Decidido então, colocou seu nome em Runas Antigas, Aritimância e Estudo dos Trouxas. Ele iria ficar com Potter em duas dessas matérias e sentiu a palma da mão suar. Ele estava completamente bagunçado por dentro e isso causava um estado de ânsia e nervosismo. Precisava fazer algo a respeito disso, e logo.

Na semana seguinte, as aulas opcionais começariam. Harry e Hermione descobriram mais tarde que Ron se enrolou a semana toda para escolher suas matérias, então acabou sobrando vagas apenas em Adivinhação, Trato das Criaturas Mágicas e Estudo dos Trouxas. "Bom, pelo menos não vou ter que estudar Aritmância. Essa matéria me dá arrepios, não sei como você aguenta Mione", reclamou o ruivo. Harry gostava quando os amigos ficavam reunidos nas aulas. Não que não tivesse outros amigos em Hogwarts, mas a companhia daqueles dois fazia dele uma pessoa mais alegre, fazia o tempo passar rápido e fazia o período em que ficava em Hogwarts mais divertido. E agora ele havia criado um novo vínculo com Hermione, que Rony nunca poderia compreender totalmente.

Naquele fim de semana, os alunos foram convocados para ir à Hogsmeade para uma das visitas do ano. Ninguém estava mais animado que Ron, que sonhava com os doces do Dedos de Mel e beber cerveja amanteigada. No dia marcado, os alunos se reuniram para viajar nas carruagens guiadas pelos Testrálios. Várias exclamações, oohs e aaahs se seguiram quando muitos dos alunos puderam realmente ver os seres que puxaram suas carruagens durante anos. Harry apenas observou Luna, que recebia diversos pedidos de desculpas de outros alunos por terem dito que ela era uma lunática mentirosa. A garota olhou para Harry e deu uma piscadela e um sorrisinho, e ele retribuiu. Um dia as pessoas aprenderiam a gostar e a respeitar Luna. Ela era uma pessoa maravilhosa demais para andar com certos tipos de bruxos.

No caminho para a cidade, Harry ficou pensando em como os bruxos eram semelhantes aos trouxas, em relação à parte ruim do ser: eram egoístas, cruéis, críticos e intolerantes. Eram as mesmas características que criticavam nos não-bruxos e seria até cômico, se não fosse trágico. A única diferença real entre os dois era a magia.

A cada ano que se passava, a distância entre Hogwarts e Hogsmeade parecia diminuir cada vez mais. Assim que chegaram, Ron arrastou Hermione e Harry para o Dedos de Mel, e passaram algum tempo escolhendo doces, conversando e se divertindo com as novidades que o casal Flume tinha para aquele ano. Depois foram até o Três Vassouras e tomaram algumas canecas de cerveja amanteigada. Passearam um pouco por Hogsmaede, cumprimentando os moradores, donos de lojas, e Harry recebia agradecimentos aqui e ali pela queda de Voldemort. Ele apreciava a gratidão das pessoas, mas não gostava de receber todo o crédito pela derrota do inimigo. Sem falar que, de qualquer forma, ele sabia que ainda havia muito pelo que lutar naquele mundo cheio de bruxos que decidiram seguir o caminho do mal. Tom Riddle era apenas um mal maior. Seus seguidores mais loucos e fiéis poderiam estar por aí, de qualquer forma.

Andando distraído, mergulhado em pensamentos e sem prestar atenção nos amigos, Harry acabou por esbarrar em Draco Malfoy e caiu no chão.

- Ei, Potter! Olha por onde anda, seu testa-rachada – o garoto loiro deu uma risada mais parecida com aquela que costumava dar, mas estendeu a mão para ajudar o moreno. – Na próxima vez eu vou te deixar largado aí.

Assim que suas mãos se tocaram, Harry sentiu algo diferente novamente. Aquele não era O Draco Malfoy. Ele realmente era outra pessoa. Antes que Malfoy fosse em direção contrária a ele, Harry o chamou.

- Malfoy. – Draco virou-se e o encarou com uma cara de "eu achei que já tínhamos terminado a conversinha", mas que também podia ser "o que você quer Harry-tonto-testa-rachada?" – Eu queria perguntar uma coisa pra você.

O garoto loiro congelou por dentro. Não demonstrou em sua expressão facial, mas sentia suas mãos voltando a suar e um nervosismo tomar conta do seu corpo inteirinho.

- Fala logo, Potter. Está ficando frio e eu quero voltar pra algum lugar aquecido. – ele tentou parecer indiferente, mas sentiu que não estava conseguindo. Sem que ele soubesse, Snape observava os dois ao longe, com um sorriso brincalhão no rosto.

- Lembra no primeiro ano, quando você me ofereceu sua amizade? Chegou a hora de eu oferecer a minha amizade a você. Draco Malfoy, você aceita ser meu amigo? – e estendeu sua mão para o outro garoto.

Muitos alunos pararam para observar aquela cena bizarra. Harry Potter e Draco Malfoy, amigos? Depois de tantas mudanças, essa ainda parecia a mais esquisita de todas.

- Claro, Potter. Que seja. – Mais uma vez, Draco tentou ser indiferente, mas por dentro, estava dando pulinhos e gritinhos igual aos que Pansy fazia quando via alguma foto daquela banda, Weird Sisters. Deu sua mão para o novo amigo e a apertou – Até mais então, Harry.

Era estranho quando Malfoy o chamava de Harry. Mas parecia tão diferente quando ele falava. Que loucura, onde estava com a cabeça quando fez aquilo? Não importava. O que Harry queria, na verdade, talvez sempre tivesse querido, era uma amizade saudável com o sonserino, e não todas aquelas brigas e intrigas. Sentiu que aquela velha história de "quem provoca, ama" tinha algo a ver com toda aquela situação.

- Uau, o garoto-que-sobreviveu da Grifinória e o Príncipe da Sonserina. Que dupla imbatível, em – Seamus comentou, dando um tapa nas costas de Harry, que apenas reagiu com um engasgo ou algo parecido e fez o amigo irlandês rir. – Harry, você não tem jeito, pode estar com 40 anos e vai ser sempre o garoto besta que é.

Harry riu e deu um empurrão no amigo, que caiu sobre uma pilha de folhas outonais e secas. Uma nova guerra foi formada. Uma guerra de folhas entre os dois atraiu olhares e os outros alunos então começaram a usar seus novos aparatos de travessura para deixar aquilo mais divertido. Em meio a folhas, fogos de artifícios, fumaças coloridas, um Lupin e um Snape desesperados em tomar o controle da situação, estava um Draco Malfoy, encarando aquela cena com um sorriso sincero em seu rosto. Era aquele tipo de amizade que ele queria ter, sua vida toda. "E eu hei de consegui-la, custe o que custar... Me aguarde, Harry Tonto Potter", pensou divertido o garoto, os olhos enevoando-se, sonhadores com a visão daquele moreno tonto.