Meu é o céu, teu é o fogo que me consome

VI Capítulos

"Tudo se tornou negro, voltei àquela noite perdida na infância, onde sufocava nas águas geladas do mar da Sibéria sem conseguir emergir; esperanças e sonhos, todos desfeitos, sabia que agora o futuro seria solidão e desprezo".

***Flashback***

- Ikki Amamiya, esse é o meu nome e estou ao seu dispor!

Ele disse e saiu correndo pela areia da praia, deixando um Hyoga totalmente atônito. Entrou em casa fechando a porta lentamente, a mente ainda tentando entender a informação que há muito o seu coração já havia entendido, haja vista a dor latente que começou a sentir.

"Ele é meu paraíso porque é tudo que tenho na vida; meu referencial, meu porto seguro, ele é pra quem eu sempre volto, minha ilha particular de paz. Quando estou fraco, sujo e abandonado, é ele que me salva, é ele que vai me aceitar e curar minhas feridas, é nele que eu confio totalmente, o único. Meu paraíso..."

"Ele é meu inferno porque é a única coisa que me prende a essa cidade; é ele quem ocupa a minha mente, além da minha música... É ele que me persegue obsessivamente, me controla, me vigia..."

Sem que se desse conta; lágrimas quentes começaram a se formar em seus olhos, não sabia o que fazer, ou melhor, não havia o que fazer. O mal já fora realizado e por ele. Estava perdido; perdido porque não se sentia capaz de esquecer e fugir, perdido porque amava demais e sabia que seus sentimentos não seriam compreendido por nenhum dos dois; perdido porque queria Ikki em seus braços, perdido porque desejava Shun com toda sua força.

Ele já sabia. Não conscientemente, mas o seu inconsciente já lhe alertara daquela realidade e ele não quis acreditar. E por isso, no momento de lhe fornecer seu nome, mesmo não sabendo conscientemente porque, lhe deu um nome que Shun não conhecia. Era isso! Sua alma já sabia o que sua mente se recusava a aceitar e sua alma era suja porque o impelia a mentir e fugir do inevitável.

Voltou a se sentar no sofá e encheu novamente a taça, bebendo num único cole o sofisticado vinho. Tentava pensar numa saída, e só vislumbrou duas palavras: Mentira e fuga.

O que diria a Shun? Prometeu cuidar dele, lhe deu seu telefone, coisa que há muito não fazia com ninguém, e se ele ligasse? O que diria? Não poderia encontrá-lo; corria o risco de encontrar Ikki também e nem queria imaginar o que poderia acontecer. Partiria o coração de ambos. Por que aquilo estava acontecendo? Queria deixar aquela cidade com boas lembranças sem causar nenhum mal, como se envolveu naquela teia, por quê?

Hyoga tapou os lábios com a mão para evitar os soluços a última pedra de sua muralha de gelo acabava de cair.

***Fim do flash back***

Shun abriu a porta da casa, enquanto Ikki segurava a sacola com suas coisas. Respirou fundo, aliviado por estar finalmente em casa e também, pelos exames terem confirmado que estava tudo bem com ele, dentro do possível. Só uma coisa o incomodava, o sumiço de Hyoga, também não quis ligar, não ficaria pegando no pé, não gostava de fazer aquilo e era evidente que precisava se acostumar com a ausência dele, pois em momento algum, o russo demonstrou ter voltado atrás na decisão de ir embora.

- Shun, está pensando nele novamente, não é? – interrogou Ikki – Já disse pra esquecer esse cara, ele nem se quer foi visitá-lo.

- Deve ter acontecido alguma coisa... – disse o mais jovem, triste – Mesmo que... Mesmo deixando claro que irá embora, ele tem sido muito meu amigo, até agora, então... ele... ele deve estar com algum problema.

- Ah, irmão, você é tão ingênuo, às vezes. – aborreceu-se Ikki.

- Não estou sendo ingênuo, Ikki, e sim reconhecendo a qualidade de uma pessoa. Posso conhecê-lo há pouco tempo, mas sei que ele não é o mostro que você pinta e nem muito menos o insensível que ele próprio gostaria de ser.

- Eu só não quero vê-lo machucado, só isso... – disse Ikki começando a guardar as coisas do irmão – A June ficou de vir ficar com você. Quando ela chegar, sairei um pouco, teria algum problema?

- Claro que não, Ikki, que mania! Você mesmo ouviu que estou bem, pode ficar tranqüilo! Mas, aonde você vai, hein? – Shun perguntou sorrindo curioso – Estou reconhecendo esse olhar...

Ikki corou e tentou manter a cara de bravo de sempre, mas não conseguiu.

- Não é da sua conta! – esbravejou, mas o caçula dos Amamiyas conhecia muito bem quando o irmão queria fugir de alguma coisa, saía distribuindo "pontapés".

- Ikki; vou deixá-lo sair, porque estou cansado, quero tomar um banho e dormir, mas depois você mais me contar direitinho, o motivo desse seu sorriso.

- Certo. – Ikki ficou observando o irmão. Ele parecia um pouco melhor e isso o animava. Sabia que não era só isso, mas preferia não pensar porque sua cabeça se tornava confusa demais. Mesmo assim, reconhecia que o irmão nunca deixaria de ser a coisa mais importante em sua vida por mais apaixonado que estivesse. Ele era sua prioridade e tudo mais viria depois dele.

Ouviu a campainha e foi abrir a porta. June o cumprimentou com um beijo no rosto.

- Oi, Ikki, onde está nosso paciente? – brincou a moça.

- No quarto, venha June! – ele guiou a moça que beijou o amigo no rosto.

- Oi, Shun, você parece bem melhor! – disse e riu – Olha, o Ikki disse que hoje serei sua babá, então você terá que me obedecer, certo?

Shun riu e fez uma careta.

- Sem graça, todos dois! – disse e mirou o irmão – Sério, Ikki. Estou muito bem.

- Ok, Shun. Agora vou sair, certo? Descanse por favor, eu volto antes de anoitecer. Vê se come alguma coisa. Qualquer coisa me liga, ok?

- Ok, e boa sorte! – disse Shun vendo o irmão deixar o quarto. Suspirou, queria na verdade que fizesse um lindo dia de sol para andar um pouco, contudo, estava frio e sabia que o irmão teria um ataque se ele saísse de casa.

Consultou o relógio e percebeu que já passava do meio dia. Ficou curioso pra saber com quem Ikki se encontraria naquele horário, mas depois afastou os pensamentos. Pegou o violino e começou a ensaiar, faria aquilo até o irmão voltar, tinha que se concentrar em dar o melhor de si no próximo concerto.

ooooooOOOooooooOOOoooooo

"Embora minha mente esteja perdida em confusão. O perfume do amor anima minhas horas e me faz esquecer quem sou; esquecer as dúvidas e as incertezas. Quem dera a vida só fosse um momento, esse momento que vivo agora e que não existisse um passado triste e nem um futuro incerto. Seria apenas eu e você Alexei, nós dois, sem nada a dizer, sem olhares e maldições e sem nenhuma explicação para dar a respeito de nossos sentimentos."

Quando Ikki chegou à casa de Hyoga, encontrou a porta somente encostada, mesmo assim bateu, mas não houve resposta. Então ele entrou, parando novamente no meio da sala e mirando o quadro dos cisnes.

- Onde eu morava na Espanha havia um parque com um imenso lago, aonde nadavam cisnes maravilhosos... – ele ouviu a voz do russo e se virou o encontrando sentado no chão ao lado do sofá.

Ficou preocupado, ele aparentava que não dormira e ainda estava com a mesma roupa da noite anterior. Além disso, continuava com a taça de vinho na mão, ao lado de uma garrafa vazia.

- Mas, eu não podia entrar... – continuou Hyoga – Eu via tudo isso por um imenso portão de ferro, era uma área destinada à alta sociedade e isso não me incluía.

Ikki se aproximou dele o puxando pelos braços para que se levantasse, vendo pasmado, as olheiras que se formavam sob seus olhos.

- O que aconteceu com você, Alexei? – perguntou aflito.

- Nada que mereça sua atenção... – disse Hyoga tentando se recompor. De nada adiantaria ficar daquela forma – Sinto muito, mas não preparei o almoço, eh... caso queira, tem um restaurante aqui perto e...

Ikki o beijou e ele se entregou aos seus lábios; desesperado e vencido, se agarrando a camisa jeans que ele vestia. Quando ele se afastou, o tomou pela mão para que se sentasse no sofá e sentou ao seu lado.

- Não quer mesmo me dizer o que aconteceu? – perguntou – Porque é evidente que aconteceu alguma coisa.

- Não, não por enquanto... – tornou o louro num fio de voz – Desculpe, deveria ser nosso almoço romântico...

- Não tem problema, isso é o que menos importa no momento. – falou o moreno, afagando os cabelos louros e rebeldes dele – Agora me fale desse quadro, você o comprou por que se sentia como o patinho triste do canto da tela, é isso? Excluído dos demais por ser diferente?

Hyoga se surpreendeu por ele ter reparado no ganso, pois o mesmo, estava escondido entre vários arbustos, formando uma espécie de grade, somente alguém muito observador o veria.

- Na verdade... – hesitou – Sim, talvez... Acho que é isso que sou um pato querendo ser um cisne...

- Para mim, você é um cisne, só que ainda tem síndrome de pato... – riu Ikki o puxando mais contra o peito e beijando seus cabelos.

- Não, Ikki, eu não sou... – suspirou o russo – Minha alma é tão baixa e suja quanto à desse pato da tela.

Ikki levantou-lhe o queixo, olhando dentro de seus olhos azuis cinzentos.

- Que bobagem está dizendo! Eu nunca me apaixonaria por alguém assim, você não é nada disso.

- Você não me conhece.

- Conheço sim, conheço alguém só de olhar e sei que você não é assim, talvez até queira ser, mas não é.

Hyoga baixou a cabeça se sentindo ainda mais miserável por enganá-lo, entretanto, se sentia tão bem em seus braços que não conseguia confessar a verdade, pelo menos não naquele momento.

- Você deve estar me julgando pela aparecia. – suspirou – Eu sei que sou bonito e tudo, mas isso não quer dizer que minha alma seja assim, também.

- Você é muito metido, isso sim! – riu Ikki e Hyoga riu também.

- Sou menos do que gostaria, e você não deveria confiar tanto em mim.

- Mas, eu não confio, sei inclusive que nunca devo deixá-lo responsável pela comida, corro o risco de morrer de fome!

- Ah, você é implicante, já o convidei para almoçar fora, mas caso não tenha muita pressa, preparo algo para nós dois.

- O quê por exemplo?

- Posso fazer um salmão ao molho de alecrim.

- Como sabe que é meu prato favorito?

Hyoga sorriu sem jeito. Era impossível! Seus pensamentos se confundiam, mas a plena sensação de paz que sentia ao lado do irmão de Shun fazia com que hesitasse em recuar. Por quê? Por que não tinha coragem?

- Possa ser que eu já estivesse de olho em você há muito tempo e atirei meu carro contra o seu, só para ter uma desculpa e me aproximar... – disse se afastando um pouco e mirando o rosto divertido do moreno.

- Não acho que você faça o tipo que fique olhando alguém. Você me parece mais aquele que recebe os olhares.

- Também, como já disse, sei que sou bonito... – brincou Hyoga e Ikki o derrubou no sofá, prendendo seus braços.

- Bonito sim, Bonito e arrogante, e eu adoro subjugar pessoas arrogantes. – sussurrou e o beijou novamente. O louro fechou os olhos saboreando seu beijo, tentando esquecer que teriam poucos momentos como aquele, mas tomando a decisão que os viveria enquanto pudesse.

Ikki se afastou dele, olhando aquele rosto exausto, e sorrindo.

- Acho que você está muito cansado, por que não toma um banho e descansa um pouco? Deixa que eu faça alguma coisa para comermos, tudo bem?

- Ah, que vergonha, eu o convidei e ... não preparei nada...

- Nada disso, eu me convidei e eu quero que descanse.

Hyoga balançou a cabeça concordando, e seguiu para o banheiro. Estava totalmente confuso com suas próprias atitudes. Por que estava insistindo naquele relacionamento, sabendo que ao final ele se transformaria em ódio? Sim, pois embora Ikki não soubesse, ele o conhecia muito mais por Shun, do que pelos seus poucos encontros e ele era exatamente como o irmão lhe revelara; uma pessoa intensa e apaixonada, e pessoas assim também sabiam odiar até as entranhas e eram donas de um rancor absoluto. Será que resistiria se, ao final, só sobrassem esses dois sentimentos entre eles? Tudo com ele foi mágico; um lúdico e apaixonante momento que tiveram a chance de repetir. Não seria melhor fugir naquele momento, quando ainda poderia guardar boas lembranças?

A imagem de Shun se formou em seus pensamentos: tão doce; tão terno e quente; um sonho, e sentia saudades dele... Vontade de acarinhá-lo nos braços, e havia desejo, muito desejo, a textura de sua pele de deus de marfim; lindo, suave, delicado... Como podia amá-lo tanto e assim mesmo amar tanto seu irmão? Eles eram o oposto um do outro, tanto físico, quanto em gênio e mesmo assim, os sentiam tão semelhantes...

Saiu do banheiro e foi para o quarto, vestindo-se com uma regata e uma calça leve, sentindo o cheiro delicioso que chegava da cozinha.

Estava muito cansado realmente, o banho acabou relaxando seu corpo que pedia por algumas horas de sono, ainda assim, caminhou até a cozinha e encontrou o moreno cozinhando alguma coisa.

- O que está fazendo? – perguntou e ele se virou sorrindo. O russo ficou meio hipnotizado, o rosto dele era geralmente tão sério, tão duro, mas quando ele sorria, iluminava tudo.

- Molho de ervas, para o salmão.

- Não acredito que você ainda sebe cozinhar, eu tirei a sorte grande mesmo! Você é o homem ideal!

- Você está enganado... – tornou Ikki abaixando o fogo e se aproximando dele – A maioria das pessoas me chama de encrenqueiro, mal educado e arrogante. Mas espero que você não tenha a chance de descobrir essas minhas "virtudes".

Hyoga deixou escapar um suspirou angustiado.

- Eu também espero que não, mesmo por que... Acho que não teremos tempo.

- Eu havia me esquecido disso... – disse o moreno sem parecer dar muita atenção ao fato – E quanto tempo temos?

- Eu não sei, não muito.

- Está em dúvida? – provocou – Na estrada, você me parecia muito seguro.

- E ainda estou.

Ikki não retrucou o pegou pela mão e o levou para o quarto.

- Você está exausto, descanse. – disse e beijou levemente os lábios dele, Hyoga fechou os olhos, relaxando.

- Só um pouquinho... – murmurou.

- Acho que precisará dormir a tarde toda, não se preocupe, quando acordar o jantar estará pronto.

- Eu não mereço tanto...

- Merece sim, meu patinho, agora descanse... – ele disse e o louro sorriu, fechou os olhos e adormeceu.

ooooooOOOooooooOOOoooooo

- Aiii! – gemeu Shun ao fazer um movimento brusco com o braço após encerrar a música. Seu punho doía, seu ombro também. Sabia que exagerara no ensaio e não poderia ter uma lesão antes da apresentação. Teria que tomar cuidado.

- Shun, já pedi para ir mais devagar. – reclamou June e ele suspirou arriando o instrumento.

- Eu preciso estar pronto, June, temos só mais quatro semanas, esqueceu?

- Por que você não descansa essa semana? Nada de ensaios e na próxima, volta com força total, hein?

- Tenho que ensaiar, June, não estou bom o suficiente, tenho que me dedicar mais...

- Shun, você é o melhor violinista da orquestra, se você não é bom o suficiente, imagino o que não dirão de mim!

- Que droga, droga! – reclamou – Por que eu tinha que ficar doente? – escondeu o rosto. Não gostava de se comportar como um coitadinho, sabia que seu jeito frágil faziam com que as pessoas duvidassem de sua força, mas não se incomodava. A usava somente quando necessário e aquele era o momento. Nem que sangrasse no palco, ele se apresentaria.

- Você ficará bem, Shun, tenho certeza. – disse a moça.

- Eu sei que sou um bobo pensando assim, os exames mostraram que estou melhor do que pensava.

- Não, você não é nenhum bobo. – June acariciou-lhe o rosto – Eu não sei... às vezes... tenho vontade de cuidar de você...

- June, eu não sou tão frágil assim... – sorriu incomodado.

- Eu sei, mas, deve ser que é porque gosto demais de você, Shun e você sabe. – a moça disse corando.

- Eu também gosto muito de você, June, muito mesmo.

- Você entendeu o que quis dizer.

A moça aproximou mais o rosto ao dele, enquanto Shun recuava até sua cabeça pressiona-se contra o encosto do sofá.

- June...

Foi salvo pela aparição de Ikki; correu até ele se atirando em seus braços e o irmão ficou atônito sem entender aquela reação.

- Ah, irmão, estava preocupado com você, por onde andou?

- Estava visitando alguém e... Shun, você quer soltar meu pescoço? está me sufocando! - reclamou o mais velho, empurrando levemente o irmão.

- Ah, desculpe. – ruborizou Shun, soltando o pescoço do irmão e se virando para June – Eu acho que... agora não poderemos mais ensaiar.

Ikki virou o irmão pra si, pelo braço, olhando-o irritadíssimo.

- Será que terei que quebrar esse maldito violino para você descansar, Shun? - esbravejou.

- Ah, irmão, foi só... um pouquinho...

- Shun, você quer morrer, é isso? Será que terei que cuidar de você a vida inteira!

- Tenho certeza que não. – disse Shun sério e Ikki se afastou dele e pegou o violino.

- Confiscado até segunda ordem! – disse e Shun engoliu em seco, não adiantava discutir com o irmão, não conseguiria convencê-lo.

- Eu já vou indo... – sorriu sem jeito June, e se virou pra Ikki – Desculpe, Ikki, eu não deveria tê-lo deixado pegar o violino.

- A culpa não é sua, June, meu irmão é um teimoso! – disse o mais velho e a menina se aproximou de Shun e beijou-lhe os lábios suavemente.

- Cuide-se, certo?

- Pode deixar, June... – tornou Shun, ruborizando e acompanhou a amiga até a porta e em seguida voltou à companhia do irmão.

- Por onde andou, Ikki? – perguntou curioso.

- Por aí e nem vem com interrogatório!

- Você está cheio de segredos comigo, comigo, irmão! - irritou-se o mais jovem.

- Não é nenhum segredo, só não gosto e nem quero ficar dando detalhes da minha vida que não lhe diz respeito!

- Mas, gosta que eu dê da minha, não é?

- É diferente, você é meu filho, esquece? – ironizou Ikki, ele gostava de ver o irmão nervoso. Shun ficava com um rosto adorável quando estava ruborizado de raiva como naquele momento.

- Não, sou não! - bradou o mais jovem – Você é um pai de mentira e um irmão muito CHATO!

- E esse mau humor todo é saudade, é isso? Porque do jeito que você se atirou em meus braços, parecia que não me via há séculos!

- Ah... É que a June... ela estava me cantando...

Ikki riu do rosto envergonhado do irmão.

- Pare de fugir dessa garota, não seria a hora de dizer a ela que... Não tem chances ou então lhe dar uma chance?

- Ikki, eu não gosto de garotas, você já sabe disso há bastante tempo e eu já disse isso várias vezes a June, ela que insiste.

Ikki riu; recordando-se do medo do irmão quando lhe dissera aquilo pela primeira vez. Shun tremia e ficou totalmente surpreso por sua reação ter sido tranqüila. Claro que sim! Já sabia há muito tempo que seu irmãozinho gostava de garotos; mas nunca achou necessário ter aquela conversa e nunca teria se ele não tivesse se sentido na obrigação de falar. Naquela época, nunca imaginaria que algum dia, seu tímido irmãozinho lhe falaria as coisas tão abertamente como agora.

Balançou a cabeça.

- Se ela insiste é porque gosta mesmo de você. Shun, eu adoro a June e acho que ela faria muito bem a você...

- Ikki, vou repetir de novo... – tornou Shun irritado – EU NÃO GOSTO DE GAROTAS!

- E eu achava que não gostava de garotos! – disse o mais velho – Mas, estou revendo meus conceitos, você deveria fazer o mesmo!

Shun ruborizou, esquecera daquele fato. Para ele ainda era muito difícil acreditar que Ikki realmente estivesse apaixonado por um homem.

- Mas, e você, irmão? - perguntou – Você saiu daqui super feliz e agora parece preocupado, o que aconteceu?

- Não é nada, só precisarei sair mais tarde, você pode ficar sozinho por algumas horas? Promete que não vai aprontar nada, Shun?

- Ikki, por favor, eu sempre fui muito mais tranqüilo e responsável que você. Por mim, você já estaria em sua casa e cuidando da sua vida.

Ikki ainda hesitou.

- Por todos os deuses, Shun, tome os remédios na hora certa, ok?

- E você, por todos os deuses! Vá cuidar do seu rancho que deve estar abandonado, ficarei bem.

- Só voltarei pra ele quando me certificar de que você ficará realmente bem.

- Ikki, eu tenho que voltar para a faculdade amanhã, e para o trabalho também.

- Shun, cale a boca! - falou Ikki, ríspido e o caçula estremeceu, odiava quando ele falava daquela forma – A única coisa que fará nos próximos dias é descansar, está entendido?

- Perderei o emprego, Ikki!

- Você arranja outro, quando ficar bom!

- Ikki!

- Shun, ouça o que eu digo, se você insistir nessa história, juro que arrasto você daquela boate pelos cabelos e você passará a maior vergonha de sua vida.

Shun resmungou vencido e se sentou no sofá emburrado. Contudo, olhando mais demoradamente para o irmão e vendo aquele brilho em seu olhar acabou sorrindo.

- Você o encontrou novamente, não foi isso?

- Já disse que não é de sua conta! - ruborizou Ikki, desviando o olhar.

- Ah, Ikki, me conta! Então, ele voltou?

- Shun, não falarei sobre isso, não insiste!

- Ah, você pode ter segredos e eu sou obrigado a contar tudo que acontece comigo!

O olhar que Ikki lhe lançou fez com que se encolhesse no sofá e baixasse a cabeça. Estava envergonhado por exigir do irmão, aquilo que ele não fizera.

Uma batida na porta desfez o clima pesado, e Ikki foi abrir; seu rosto crispou e Shun viu por cima do ombro do irmão a figura de Jabu que trazia um pacote nas mãos.

- O que você quer? – perguntou Ikki, hostil.

- Olá, Ikki, soube que o Shun esteve hospitalizado e vim fazer uma visita.

- Escuta aqui, garoto...

- Obrigado, Jabu, entre, por favor... – Shun interrompeu o irmão que o olhou zangado, ele sorriu – Ikki, é só uma visita, ok?

- Como queira, Shun. Estarei na cozinha, vou preparar alguma coisa pra nós dois! – disse e lançou um olhar homicida ao jovem de cabelos castanhos, antes de deixar a sala.

- Sente-se, Jabu, por favor. – pediu Shun – Desculpe o Ikki.

- O que é isso, Shun?! Já estou surpreso por ele não ter me arremessado no meio da rua! - riu o rapaz e Shun também.

- não ligue pra isso, o Ikki é assim, ele ainda pensa que sou uma criança.

- Mas, como você está?

- Melhor.

Jabu segurou a mão de Shun, que o olhou surpreso e incomodado.

- Fiquei preocupado com você... – continuou o rapaz.

- Não precisava. - falou o jovem de olhos esmeraldas, tirando a mão rapidamente da outra que a envolvia – Eu já estou bem.

- Trouxe isso pra você, abre.

Shun pegou o pacote e engoliu em seco, começando a abrir com cuidado; observou surpreso o porta-retrato com uma foto dos dois, e uma caixinha menor transparente que continha um anel prateado em formato anatômico.

Ficou estupefato olhando o anel.

- Jabu... eu não sei o que dizer...

- Diga sim, isso é um pedido, Shun... – sorriu o rapaz.

- Jabu, como pode me pedir algo assim? Você sabe, entre nós dois não é mais possível...

- Shun, por quê? Se o problema é o Ikki, eu mesmo falarei com ele.

- Não é pelo Ikki, Jabu, sinto muito... eu não posso! – gaguejou Shun. Não tinha coragem de dizer ao rapaz que não o amava, não conseguia magoar as pessoas e isso já lhe causara tantos problemas.

- Mas...

- Jabu, eu não estou mais zangado com você... – continuou – Mas... também não consigo... não dá mais... me desculpe.

Shun entregou o pacote de volta para ele e baixou os olhos para não mirar o olhar tristes do ex-namorado.

- Shun, o jantar está pronto! - Ouviu o brado irritado do irmão.

- Bem... eu...

- Eu voltou outro dia, Shun. – falou Jabu triste – Fico feliz que esteja bem.

- Obrigado. – Shun o acompanhou até a porta e suspirou depois que ele saiu. Estava mesmo num dia de sorte, primeiro June e agora Jabu. Foi para a cozinha, onde o irmão preparara o jantar.

- O que é isso?

- Macarrão com legumes, precisava me ocupar, para não voltar lá e quebrar a cara daquele pirralho!

- Ah, Ikki, você é tão bobo, às vezes!

- Irmão, não vou discutir agora com você, porque tenho que sair...

- De novo? – Shun olhou o irmão, curioso.

- Sim, de novo, vai ficar me patrulhando agora?

- Não, mas seria justo, você faz o mesmo comigo.

Ikki emudeceu e depois olhou o irmão cruzando os braços, zangado.

- Certo, Shun, eu o encontrei novamente, quer mais alguma informação?

- Não, quero que vá cuidar da sua vida, volte para sua vida, Ikki! Se quiser o leve junto, mas não quero que fique aqui bancando minha babá, por favor.

- Acho que você não gosta da minha companhia – retorquiu o mais velho.

- Você sabe que não é nada disso, o que sempre desejei foi vê-lo feliz novamente e estou vendo isso agora, então não importa que seja com um homem, um viajante ou com o diabo que o parta, eu quero vê-lo assim! – Shun se aproximou e abraçou o irmão – Sempre, Ikki, sempre.

Ikki acarinhou os cabelos cacheados dele e suspirou.

- Não se preocupe, irmão, eu sei o que faço. – se afastou, não gostava quando Shun ficava tão sério e emocional, lhe dava uma sensação estranha – Não se preocupe, eu volto ainda hoje. Não quero que fique sozinho por muito tempo e por Deus! Ligue se precisar de alguma coisa!

- Não se preocupe com isso! - sorriu Shun, vendo o irmão desaparecer pela porta; foi até a sala e pegou o telefone, se perguntando se deveria ou não ligar para Hyoga. Colocou-o no mesmo lugar e resolveu jantar.

ooooooOOOooooooOOOoooooo

Hyoga acordou se sentindo bem melhor. Nada como algumas horas de sono para consolar uma alma machucada. A casa estava na penumbra, só uma tênue luz vinha da sala e ele achou que deveria ter esquecido alguma luminária acesa. Espreguiçou-se virilmente e se levantou caminhando até a sala. Sorriu maravilhado:

"Até quando você fará surpresas que aquecem meu coração e hipnotiza meu consciente?"

Ikki estava lá, parecia que havia acabado de sair do banho, vestia uma calça jeans e uma camisa branca. Seus cabelos estavam úmidos; Hyoga percebeu mesmo na parca Luz das velas que estavam espalhadas pela sala.

- Nosso jantar romântico... – ele disse e o louro se aproximou devagar, olhando a garrafa de vinho sobre a mesa, os talheres e as taças dispostos em harmonia, ficou sem saber o que dizer.

- Eu... é... estou sem palavras e confesso que isso é muito difícil! – riu o russo.

Ikki se aproximou dele e segurou suas mãos a beijando e convidando-o a se sentar de frente à mesa.

- Vou servi-lo. – falou indo para a cozinha.

O louro ficou a observá-lo, enquanto ele preparava o prato, mesmo de onde estava, percebia o tamanho do amor com que ele executava sua tarefa:

"Tão rude em alguns momentos, tão delicado em outros; tão intenso todo o tempo. Que cores indóceis e maravilhosas são as suas; como me fascina essa combinação de impetuosidade e generosidade. Chamas! Vermelho de chamas crepitantes, chamas daquela fogueira sob a neblina. Esquenta e salva, não queima e mata. E há o índigo, esse azul tão escuro quanto seus olhos, esse azul que norteia a cor inflamante que sai de você..."

- Pato? – ele lhe serviu o salmão com ervas finas e Hyoga aspirou o cheiro saboroso da refeição.

- Ah, você ainda não se esqueceu disso! – riu o russo – Olha que encontro um apelido desagradável pra você também!

- Eu não vou nem me importar... – deu de ombro o moreno, sentando-se em frente a ele e lhe servindo o vinho.

- Você acertou no vinho! – espantou-se Hyoga – Poucas pessoas escolheriam o vinho certo para acompanhar o salmão – ele experimentou – Isso é uma surpresa.

Ikki sorriu:

- Imaginava que eu fosse um homem tão rude a ponto de não saber que um Dolcetto D'Alba combina maravilhosamente com um salmão ao molho de alecrim?

- Confesso que não esperava que tivesse um paladar tão sofisticado.

Ikki experimentou o vinho e olhou para os olhos do louro.

- Na verdade, você acertou, todo esse conhecimento se deve a minha esposa... quero dizer... a minha falecida esposa... – ele se corrigiu constrangido, mas isso não significou nada para o russo, há muito tempo que ele conhecia aquela história.

- Sei, então, você é viúvo? – Hyoga se sentiu péssimo por ser tão dissimulado, em outros tempos acharia aquilo uma virtude, mas perto dele, se sentia um traidor.

- Sim, há mais ou menos cinco anos, nos casamos ainda no colegial – disse Ikki com um sorriso triste – Ela me ensinou sobre vinhos, inclusive fizemos uma pequena vinícola...

- Se preferir, não falaremos mais nisso. – o louro falou, mirando o rosto triste dele, mas Ikki fez um gesto negativo com a mão.

- Tudo bem, não há mesmo muito a contar, ficamos casado por alguns anos até que... decidimos ter um filho e deu tudo errado. Ela morreu ao dar a luz e o bebê algumas semanas depois.

- Sinto muito... – Hyoga baixou os olhos para o prato, voltando a comer em silêncio.

- E você, russo? Qual a sua história? – perguntou Ikki tentando quebrar aquele clima melancólico – Já sei que você tem a síndrome do patinho feio, mas e o restante?

- No meu passado não há histórias de amor. Não é belo e nem trágico como o seu... – replicou Hyoga, desconfortável.

- Tudo bem, se não quer falar...

- Não, não quero! – sua voz soou hostil até pra si mesmo e ele suspirou – Me desculpe, é que... realmente não gosto de falar do passado.

- Tudo bem... – respondeu Ikki sério, voltando a comer.

Terminaram a refeição num silêncio tenso e o louro começou a recolher os pratos e talheres, sendo ajudado por ele.

- Deixe que eu lavo a louça, afinal você fez o jantar... – sorriu Hyoga.

- Tudo bem. – concordou o moreno se apoiando na porta e ficando a olhar o louro enquanto ele lavava a louça.

- Você mora sozinho? – perguntou Hyoga sem jeito.

"vamos lá, a pergunta de um milhão. Fale-me do Shun, me mostre à forma que você o ver. Sei que isso é uma loucura quase masoquista, mas é uma necessidade maior que não compreendo, ou seria ao contrário, o mais perverso sadismo? Estou brincando com ele e sei que ele me odiará quando souber de tudo. O que se passa pela minha cabeça afinal? Você está louco, Alexei?"

- Moro sim, mas eu tenho um irmão.

"Xeque- mate! Sou tão bom em chegar aos meus objetivos, por que sou tão ruim em definir meus sentimentos? Em saber o porquê continuo nessa farsa se... se meu coração se entrega a cada gesto, cada olhar, e eu tenho vontade de cair aos seus pés, implorar seu perdão, dizer que errei, que continuo errando e que o amo ao mesmo tempo em que amo tanto seu pequeno irmão... Deus! É impossível saber um é minha alma ou outro a vida pulsante que quero viver e não tenho coragem!"

- Um irmão... – continuou Hyoga engolindo um suspiro de angústia – F...fale-me dele...

Ele percebeu que o olhar do moreno mudou, se tornou mais sonhador e apaixonado e um sorriso lindo aflorou-lhe os lábios. Hyoga sentiu seu coração apertar, porque já vira aquela mesma expressão. Era o rosto de Shun que ele via agora e começava a compreender porque achou Ikki tão familiar quando o vira pela primeira vez. Eles eram tão iguais em meio a tão gritantes diferenças.

A essência, a essência suave de Shun estava marcada a fogo pela essência rude de Ikki e a dele igualmente pela nuance de rosa do irmão. Isso não admitia negação, eles eram um do outro, aquelas almas se conheciam e se amavam mais do que qualquer possibilidade de razão.

- Ah, meu irmão! – sorriu Ikki, ignorando a comoção mental do louro – Meu irmão é tudo pra mim, ele... Eu não gosto muito de falar dessas coisas! Eu tenho um irmão mais novo que é como se fosse meu filho. Só isso.

- Tudo bem, não precisa então...

- Mas, sinto que com você, posso falar de tudo... – interrompeu Ikki o enlaçando pela cintura, Hyoga quase gemeu de angústia.

- Há coisas, que é melhor que fiquem guardadas, apenas em nossos corações... – insistiu aflito, sabia que não suportaria ouvi-lo falar de Shun. Queria, mas não suportaria; se sentia cada vez pior na teia de sedução que se tornou sua vida naquela cidade.

- Eu sinto é que você não quer me ouvir... por quê? – riu Ikki e Hyoga se virou pra ele aturdido, desde quando se tornou tão transparente.

"Pare, respire e imagine o que você sente..." - A voz de Camus ecoou na sua mente – "lembre-se, seus sentimentos não devem ser percebidos nem em seu olhar e nem em seu rosto, apenas na tela, coloque todos os seus sentimentos na tela, não sinta, imagine o sentimento, cabeça e não coração..."

- N...não é isso, eu... eu não sou muito bom em falar de sentimentos, prefiro apenas... senti-los! – mentiu.

- Você é tão bom com as palavras. Se pudesse, ouviria você o tempo inteiro, meu cisne... – ele beijou-lhe o pescoço e Hyoga riu.

- Decida-se de uma vez! sou um cisne ou um pato?

- Depende, às vezes, você se comporta como um pato e outras...

- Ikki Amamiya, o expert em comportamento animal! - caçoou e os dois riram.

- Não, o único animal que quero estudar é um pato problemático... que me seduziu na forma de um cisne, e agora quer me deixar.

- Ikki...

- Certo, não vamos falar disso, agora que você já está disposto e alimentado, eu quero gastar um pouco da sua energia...

O moreno puxou o louro pela cintura o arrastando da cozinha e deixando a louça por lavar. Acabaram no quarto se amando ardentemente mais uma vez.

Hyoga repousou a cabeça no peito forte de Ikki e suspirou enquanto o moreno lhe afagava os cabelos.

- Ikki...

- Hum?

- Eu quero contar-lhe uma história...

- Adoro te ouvir, já disse isso.

O louro engoliu em seco e suspirou.

- Eu vou lhe explicar por que gosto de cisnes...

- Certo, Patinho, estou ouvindo. – provocou, Ikki e Hyoga riu também, socando-lhe o peito.

- Escuta, sério!

- Hum...hum, conta.

- Certa feita, um caçador surpreendeu três jovens lindas que se banhavam num lago. Na verdade, elas eram cisnes que se despiram de seus mantos de plumas para entrar na água. Então, o astuto caçador pegou um dos trajes pra si, o que possibilitou que ele desposasse uma das jovens. Ele então escolheu a mais bela e a desposou, um casamento que mais era uma prisão...

Hyoga respirou fundo, sentindo os olhos lacrimejarem; não entendia porque a necessidade de falar daquelas coisas, mas, era a primeira vez em anos que tocava naquele assunto, que falava naquilo e sua alma sentia uma necessidade incrível de se confessar... Bem, ao menos aquilo...

- Esse cisne deu dezessete filhos ao caçador e depois disso, retornou a sua plumagem o que lhe permitiu se libertar. Ele alçou vôo em direção ao céu... – continuou Hyoga – E disse ao caçador essas palavras: "vocês seres terrestres, permanecerão na terra, eu, porém, pertenço ao céu e é pra lá que voltarei..."

- Isso ainda não explica por que você gosta tanto de cisnes e patos, e por que você ficou tão triste ao recordar dessa história... – Ikki continuava a afagar-lhe os cabelos.

- Ikki, quando eu tinha sete anos, perdi minha mãe num naufrágio. Eu também quase morri, passei uma noite inteira vagando num bote salva-vidas até que me resgataram; estava com hipotermia e bem... sem ninguém no mundo... Aí... fui parar num orfanato, mas... quando tinha uns doze anos, fugi de lá e fui viver nas ruas...

Ele engoliu em seco, pensou que ouviria alguma pergunta, mas, o moreno continuava calado. Então resolveu continuar também, embora não soubesse o porquê.

- As ruas de Moscou são cruéis e frias para uma criança e eu acabei caindo nas mãos erradas... – suspirou com amargura – Um homem me aliciou e me levou para a Espanha. Não sei como, não me lembro muito bem, quando dei por mim, estava num lugar estranho, falando outra língua e...roubando e me prostituindo para ele.

- Alexei... eu... eu sinto muito... – balbuciou o moreno, pasmado.

Hyoga enxugou o rosto, ainda doía lembrar-se daquele período de sua vida, período que ele fez questão de esquecer e que agora voltava forte a sua cabeça.

- O homem que me aliciou era um poeta frustrado e se fazia de professor para mim e outras crianças na mesma situação. Ele nos ensinava a recitar poesias, nos comprava livros, nos ensinava a fazer obras de artes em cerâmica e cristal, por sinal, era assim que o chamavam, Mestre Cristal. Eu só soube o seu verdadeiro nome depois de muito tempo. Era um explorador de menores, um pedófilo sádico... Bem, mas de qualquer forma, ele me ensinou muito, não há mal de que não se possa tirar uma lição...

- E como você conseguiu se libertar de tudo isso? – perguntou Ikki apertando ainda mais o louro contra seu corpo. Sentia uma imensa vontade de protegê-lo, para que nunca mais aquelas lágrimas voltassem ao seu rosto.

- Aí é que entra a lenda do cisne que te contei. Eu me sentia exatamente como ele, um prisioneiro e queria voar. Eu te falei do parque, eu sempre que podia, ficava olhando os cisnes nadando e lembrava-me dessa história que li num livro de mitologia, não me lembro qual, e eu sonhava com minha liberdade, sempre acreditei que meu destino era voar...

- Ele era violento com você? - perguntou Ikki já sentindo tanta raiva daquele homem que ele não conhecia que se surpreendeu.

- Não, ele não, só... Ah, é melhor mudarmos de assunto! – disse Hyoga incomodado por falar tanto de si mesmo.

- Diz só como você conseguiu se libertar, então... – pediu Ikki.

- Nos domingos íamos para a grande Praça de Madri, para vender e roubar... – riu – Não que me orgulhe, mas eu era muito bom nisso, era fácil seduzir os turistas e lhes tirar tudo. Nessa época eu já estava com uns dezesseis anos...

- Você fala como se isso fosse há muito tempo! – riu Ikki beijando os cabelos dele.

- Pra mim, parece uma eternidade, são quase dez anos.

- Sim, mas o que aconteceu?

- Uma pessoa se interessou por mim e me salvou. – disse Hyoga incomodado, percebendo que sem querer estava se revelando para Ikki, contudo, o moreno parecia ainda não associá-lo ao amante do irmão. Estancou em dúvida, será que ele não sabia dos dois? Será que Shun nunca falara seu nome ou o que fazia? De qualquer forma, era questão de tempo até aquele palácio índigo e rosa que construiu com as ilusões daqueles dois irmãos, desmoronar sobre a sua cabeça.

- Um amante?

- Algum problema? – sorriu erguendo a cabeça para olhar dentro dos olhos azuis escuros dele.

- Não, é... Ah, não sei! – gaguejou Ikki sem jeito e Hyoga riu.

- Você é ciumento mesmo, não é?

- Meu irmão diz que sou possessivo, como o Shun nunca mente, devo ser mesmo! – riu.

Hyoga suspirou: "Shun nunca mente, Shun é totalmente puro e verdadeiro, sinto nele a mesma fascinação que senti no Shun ao falar dele, eles nunca me perdoarão..."

O louro pensava angustiado, se lembrando das palavras do mais jovem:

"Ikki é meu modelo, ele é sincero, é forte, é bonito, pode haver essa tal fascinação que você fala..."

- Pato, você está aí? – Brincou o moreno.

- Ah, desculpe, você falou alguma coisa?

- Não, estava esperando ouvir sua voz, eu adoro sua voz, fala pra mim alguma dessas coisa bonita você tanto gosta, meu poeta... – Ikki o virou na cama ficando sobre ele enquanto beijava delicadamente seu pescoço – Vamos, eu quero ouvi-lo sussurrar poesias e meu nome a noite toda.

Hyoga ficou olhando o sorriso dele, fascinado.

- "Quando o amor o chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta em suas plumas possa ferir-vos, e quando ele vos falar, acredite nele, embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos, como o vento devasta o jardim".

Ele sentiu as lágrimas escorrerem mais uma vez por seu rosto e Ikki as limpar. O moreno não sabia que ele estava vivendo todas aquelas palavras; o russo sabia que uma espada aguada o esperava pacientemente ao virar da esquina, e que ela traspassaria seu coração com crueldade e ao final, todos os homens sobre a terra teriam a certeza que ele foi o único culpado de sua própria desgraça.

- Eu acredito em você, pato.

- Quê? - Hyoga perguntou sem entender.

- Você é o amor que me fala e eu acredito em você.

Eles se beijaram e Hyoga resolveu esquecer o tempo, esquecer à hora, viver aquele instante de alegria imensurável em que tudo se fazia brisa, antes da temível tempestade.

Continua:

N/A: Ta aí! Mais um capítulo em menos de 24 hs!!! Quero acelerar a fic.

Obs. Acho que deixei bem claro que essa fic não seria reta e previsível. Então dispenso as críticas quanto à moral dos personagens e da história, mesmo porque a história não quer ter moral alguma. Aqui, ao menos na opinião da autora, não há anjos e nem demônios, somente pessoas confusas, perturbadas e que muitas vezes, podem agir totalmente ao contrário do que acham certo e errado como acontece com qualquer ser humano. Tento ser fiel as característica dos personagens, mas a verdade é que sabemos muito pouco delas (tipo: O Shun é sensível e puro, só? O Hyoga tenta ser frio, mas é emocional, só? O Ikki é inteligente e arrogante e daí?). Então dentro dessas características coloquei muito do que vejo de cada um e gosto do resultado que estou tendo. Se isso não agradar a todos, sinto muito é como vejo e peço apenas que me respeitem. Sei que estou longe de ser perfeita e aceito ajuda no sentido de melhorar. Agora como eu falei no início da fic, se você gosta de "foram felizes para sempre"... Pare de ler, caramba!

Sobre o capítulo: Gente! Que povo leso, hein? Isso está mesmo parecendo novela, o Hyoga disse quem era para o Ikki e o Amamiya mais velho está tão lesado de paixão que nem percebeu. Sabe quando a gente ouve e finge que não ouve? XD!

Os fãs do Shun devem ter odiado esses dois capítulos. Sorry, mas por enquanto o foque será no pato e no frango sim... Prometo que não demoro muito a resolver a questão.

Outra coisa... O Ikki romântico é tudo... pena que isso vai durar pouco! HHahahahahah (risada maligna). Não queira matar o pobre do Pato, tadinho! Ele está confuso.

Puxa, essa fic está polêmica e a polêmica é sempre em torno do Ikki, oh ave encrenqueira!

Vamos lá réplicas e agradecimentos as pessoas que realmente valem à pena!

Amamiya fã: É eu acho que não vai ter jeito do russinho escapar de uns sopapos, quanto mais depois desse cap de você acaba de ler, não é? Obrigada pelo review de verdade! Ah, deixa eu lhe dizer uma coisa legal. Reeditei "Amores que matam" e coloquei algumas de suas sugestões, tendo um tempo passa lá! (pisca).

Pandora Black: Que coisa menina! O Shun estava fazendo exame e o Ikki não poderia acompanhá-lo. Ele foi andar na praia para espairecer e tchanran! Encontrou o russo. Transou e voltou para o Shun!Rsrsrsrs. Shun é e sempre será sua prioridade!

E POR ZEUS! EU NÃO VOU MATAR O Shun!

Olha eu não vou mexicanizar e por isso mesmo, já estou aguardando as críticas porque as pessoas criticam tudo que diferem de sua moral. Fazer o quê? Eu não escrevo para agradar ninguém. Fico feliz quando as pessoas gostam e gosto de receber críticas que possam me ajudar a melhorar ou mesmo rever erros que cometo. Porém, jamais mudarei o que escrevo e nem meu ponto de vista se não achar a opinião dada relevante. Sendo assim, fique tranqüila, eu não vou mexicanizar mesmo e garanto que o final será surpreendente!

Mais agradecimentos:

Milo77, Mefram, Suellen-san, Kojican, Mamba Negra, Amaterasu Sonne, Amynah-Kate-chan Storys, perdoe se esqueci alguém!

E a todos aqueles que leram, meu mais profundo muuuuuuito obrigada!

Sion Neblina 2010