A Crónica Perdida, por Elyon Somniare

Capítulo VI – David aterra na Caverna das Panelas

Apesar da urgência da missão (ninguém sabia o quanto a arma secreta dos gigantes ia ou não avançada e quanto tempo levaria a ser usada contra o Rei Cáspian), Lomocambúzio teve a pena suficiente para deixar as crianças dormirem o tempo que precisavam para se recomporem. Claro que assim que apanhou ambos acordados, desfilou a série de desgraças que aconteceriam – ou que poderiam acontecer – por esse simples acto. David achou especialmente graça à previsão de que seriam apanhados por um Gigante coleccionador de molares que lhes arrancaria os ditos dentes para fabricar um colar com eles, que entregaria depois à esposa como prenda de anos de casados (os Gigantes civilizados dão muito valor a essas datas importantes). Kim, que ultimamente se vinha a tornar ligeiramente mais agradável e parecia ter aceitado umas tréguas com David, confessou que o seu agoiro favorito havia sido o de serem capturados por um bando de galinhas gigantes depenadas e mortos à bicada. Este não era o efeito que Lomocambúzio pretendia que as suas previsões fizessem e, assim, passou o resto do caminho num silêncio amuado (e agradável, na opinião de David e Kim, mas isso, claro, não era o ponto de vista do Lingrinhas). Neste ritmo, passaram-se dois dias.

- Começo a ter sérias dúvidas quanto a esta missão – resmungou Kim, no início do terceiro dia – Ainda não vimos nada! Nem águias-vigias!

David viu-se obrigado a concordar com ela.

- Não duvido que Aslan tenha um intento com esta viagem – opinou. – Mas não se percebe muito bem…

Lomocambúzio encolheu os ombros.

- Aslan nunca é muito explícito mas sabe sempre o que faz. Sabemos o básico desta função: reunir informações. Isto deveria chegar-nos.

- Chegaria se houvesse informações para reunir! – argumentou Kim.

- Porque não fazemos aqui uma pausa para o almoço e discutimos isso depois? – sugeriu Lomocambúzio – Apesar de tal pausa poder ser fatal, nunca se sabe que criaturas aparecem por estes lados, não duvido que sejam todas mortíferas e…

- Ainda não apareceu sequer uma mosca!

- Claro, claro, Filha de Eva – apressou-se a concordar Lomocambúzio. No dia anterior fora o alvo de um ataque de fúria de Kim (que quando fica realmente chateada é muito pior do que costumava ser nos dias normais para David na Escola Experimental) e não estava disposto a repetir a terrível experiência (como vocês não estariam dispostos a repetir um castigo particularmente diabólico de livre e espontânea vontade).

- Que fome! – exclamou Kim, antes de dar uma trinca numa sanduíche de carne de veado não falante assada (estranhamente, Lomocambúzio sabia fazer sandes). Desde que chegara a Nárnia que perdera um bocadinho do seu peso habitual e, apesar de não o demonstrar e de nunca sequer o vir a admitir, estava bastante agradada com isso. – Que se passa? – perguntou ao ver o ar preocupado do Lingrinhas.

- Não sei bem – respondeu este. – Acho que falta aqui alguma coisa, mas não consigo ver o quê…

(Lomocambúzio andava a dormir menos que as crianças por receio de que fossem atacados à noite por um quartel de baratas assassinas, o que o tornava um pouco distraído).

Kim olhou em volta e revirou os olhos quando verificou o que deveria estar ali e não estava.

- É o David.

- O Filho de Adão! – exclamou Lomocambúzio, assumindo um ar de tremendo terror. – Onde está o Filho de Adão? David? DAVID!

- Deixa-o – interrompeu Kim. – Deve ter ido fazer certas necessidades.

- Certas necessidades? Que certas necessidades?

Kim engasgou-se. Com certeza não ia ter de explicar aquilo ao sapo!?

Como Lomocambúzio continuava a fitá-la com um ar de expectativa deduziu que sim, que teria.

- Ora, quando nós, humanos, bebemos líquidos, temos depois que os pôr fora do corpo sob outro aspecto…

- Ah, isso!

Kim suspirou de alívio (não se esqueçam de que estamos numa época do nosso mundo em que não se falam de coisas deste género em publico e Kim, apesar de mal-educada, recebeu também um mínimo de educação).

-Mas não estará a demorar demasiado? – insistiu Lomocambúzio – Pergunto-me se não terá sido surpreendido por um grupo de baratas das tropas de…

Kim encolheu os ombros e revirou os olhos. Desta vez não se deu sequer ao trabalho de o mandar calar, limitando-se a dar mais uma trinca na sua sanduíche.

O facto é que desta vez Lomocambúzio tinha uma certa razão em ficar preocupado. Não que David tivesse sido capturado por um batalhão de baratas guerreiras mutantes, não. David resolvera apenas explorar um amontoado de rochas um pouco adiante do local em que Lomocambúzio e Kim haviam parado para almoçar. Achava que tinham uma forma esquisita, como se fossem uma grande panela de pedra sem tampa. E, além do mais, não tinha Lomocambúzio afirmado que deviam estar atentos a tudo? Pois então! O problema surgiu (pois nestas ocasiões há sempre algum problema, seja ele grande, pequeno ou de tamanho médio) quando ao subir pelo amontoado de rochas, David colocou um pé em falso e acabou por escorregar por uma frincha que, apesar de ser suficientemente grande para uma pessoa com o dobro do seu tamanho caber lá dentro, não tinha estado visível até então.

David nunca tinha andando em nada maior do que os escorregas dos parques infantis, não é portanto de admirar que a sensação que sentiu ao escorregar por aquele comprido escorrega de pedra fosse nova e coberta de entusiasmo, tendo sido o final deste visto com uma certa tristeza. Mas, claro, David não teve muito tempo para pensar nisso. Naquele momento, sabia que tinha de ser racional e, assim, fez rapidamente um apanhado da situação:

"Primeiro: separei-me do Lomocambúzio e da Pearl", pensou. "Segundo: descobri uma abertura na rocha que me levou até uma caverna – ou pelo menos parece uma caverna – cheia de panelas velhas e inutilizáveis. Terceiro: tenho de descobrir como sair daqui e como me juntar ao resto do grupo".

- Sair daqui é o mais fácil, meu rapaz.

David virou-se bruscamente na direcção da voz roufenha. Não que estivesse espantado por haver ali mais alguém – ou alguma coisa – (pois como já dissemos vezes sem conta, é um rapaz que não se espanta com facilidade), mas sim porque não estava particularmente alegre por lhe invadirem os pensamentos.

- Isso é muito má educação – fez ver o Filho de Adão com a mais absoluta razão.

- Eu sei – respondeu a voz agora com um tom mais divertido. – Mas tu não falavas e eu queria saber o que estavas a pensar. És um rapazinho muito metódico.

- Quem…o que és tu?

- Eu? Sou a Escuridão.

- Vai-te lixar.

- Francamente, rapaz, ainda há pouco me admoestaste pela minha má educação e agora fazes o mesmo? Isso não são maneiras de um rapazinho educado falar, não são não. Mas tens razão. Não sou a Escuridão nem qualquer de um desses seres estranhos. Sabias que há uma lenda acerca do Tempo? Diz-se que quando o Tempo acordar, Nárnia acabará. Mas isso não te interessa nada, pois não? Pois bem, eu sou… um coelho.

Como David parecia duvidoso e como os seus pensamentos confirmassem isso, o Coelho Falante deu um salto para a luz (deitando abaixo uma pilha de panelas douradas), comprovando a veracidade das suas palavras. Já não era um coelho jovem, daí o ter a voz roufenha, e tinha também o dobro do tamanho de um coelho normal, mas não deixava de ser um coelho.

- Vês? Desta vez não te menti, meu rapaz.

- Estou a ver que não.

- Mas, agora que já te disse o que na verdade sou e que já acreditas em mim, vamos às coisas mais importantes. Normalmente não costumo meter-me nessas vossas intrigas.

-"Vossas"?

-Vossas, meu rapaz. Dos de lá de cima. Não sabes, por acaso, que estás debaixo da terra? Não te incomodes a responder, já percebi que não sabias. Continuemos. Normalmente não interfiro nas vossas intrigas, mas devo admitir que está na hora de abrir uma excepção. Primeiro porque tenho uma certa "dividazinha" a saldar com os Gigantes…

David preferiu ignorar qual a natureza da tal divida. Isso era algo com o coelho.

- E segundo porque me começo a aborrecer aqui em baixo, sem nada para fazer.

- Então e…?

- Como sais daqui? – interrompeu o coelho. – Não sais. Ou pelo menos não directamente lá para cima. Deixa-me explicar-te, meu rapaz, como é que isto funciona. Sei tudo sobre a tua missão e a dos dois que estão lá em cima esbaforidos à tua procura (sim, porque naquela altura já Kim e Lomocambúzio desconfiavam de que David não fora fazer as necessidades…). Sei quem és e de onde vens. Não perguntes como que não te vou responder, seria um desperdício de palavras. Passando isso à frente, é preciso que entendas o quanto é inútil procurares o que queres encontrar acima do solo, percebes?

- Receio que não.

O coelho suspirou, como se aquilo fosse um terrível fardo. Não que o fosse porque, como já o disse o coelho, estava a fazer aquilo, em parte, para se livrar do tédio que tinha acumulado ao longo daqueles anos todos, mas já estava tão habituado a que as suas falas e suspiros fossem de tédio que não conseguia, pura e simplesmente, fazer com que deixassem de o ser assim de um momento para o outro.

-Muito bem. Vou-te explicar. Os Gigantes não são parvos. Quer dizer, esta espécie de Gigantes não é parva, porque existe uma espécie que o é, mas isso não te interessa nada. Assim, as coisas realmente importantes, realmente secretas, são feitas debaixo da terra, percebes rapazinho?

- Acho que sim. Quer dizer que há toda uma rede de túneis e cavernas como esta?

- Isso mesmo! – confirmou o coelho, obviamente satisfeito pela perspicácia do "aluno". – Esta é a Caverna das Panelas, usam-na como reservatório de lixo das panelas estragadas e sem uso. Ás vezes aparece um Gigante com a mania de que é inventor em busca de uma panela que possa usar num dos seus inventos. Quase nunca funcionam, mas não desistem. São teimosos que nem burros! Embora eu não perceba muito bem o uso desta expressão, já que os burros, pelo menos os Falantes, não são assim tão teimosos. Já os Não-falantes não sei, mas acho que... Ah, não deixes que me perca nestas divagações, rapazinho!

- Sim, senhor Coelho.

- Temos de nos pôr a caminho. O tempo urge e é preciso que chegues à Gruta das Operações da Arma Secreta o mais rápido possível.

- Preciso de avisar o Lomocambúzio e a Pearl – lembrou David. – Eles também foram encarregados desta missão.

- Sim, claro – respondeu o coelho, meio distraído. – Mas eles fá-la-ão pela superfície. Aproxima-te aí desse buraco meio metro à tua esquerda… Sim, esse redondo lá em cima.

- Como chego lá? – perguntou David, olhando para o buraco que estava um bom bocado mais acima da sua cabeça.

-Ora, subindo para as panelas, não é obvio, rapazinho?


N/A: Sem tempo para responder às reviews, desculpem. Bjs