Meus docinhos,

mais um capítulo dessa fanfic maluca pra vocês.

Esse vai ser divertido, espero que gostem.

Aprendam com as lições da Ino. Coisas úteis pra vida toda. q

Aos que estão deixando reviews, muito obrigada, de novo. *-*

Agora, enjoy. :*


06 – Lições

"Repentinamente, meu coração havia se tornado um estranho dentro de mim."


Acordei na manhã seguinte com o ruído violento das cortinas do quarto sendo abertas, como se alguém as tivesse arrancado dos trilhos, e então o sol tímido e frio penetrou através do vidro da janela. A claridade ofuscante alcançou-me, obrigando meus olhos a procurarem a sombra mais próxima. Afundei o rosto no travesseiro, resmungando.

— Não me faça ir ao banheiro buscar água fria. — Ino ameaçou.

— Ei... — gemi, desfrutando dos últimos momentos com o travesseiro.

— O que aconteceu, Sakura? — perguntou ela com seu ar de mãe brava.

Pude imaginar uma estátua autoritária e loura parada diante de mim, de braços cruzados e olhos cerrados sobre meu corpo. Só então comecei a juntar os cacos da noite passada, e repentinamente meus instantes de amnésia haviam desaparecido. O jantar. Ele. Minha estúpida e desesperada fuga. Um gemido decepcionado escapou por meus lábios colados no travesseiro, e eu tomei coragem antes de encarar o semblante curioso de Ino.

Minha maquiagem devia ter escorrido por meu rosto, que agora se parecia com o de um ator de filme de terror. Percebi que havia dormido na cama improvisada que Ino havia preparado para mim no chão, ao lado da sua. Ainda usava o vestido da noite passada, estava descalça e coberta pelo longo casaco negro.

Imediatamente entendi o motivo da pergunta de Ino.

— Que horas são? — perguntei, na inútil tentativa de desviar o assunto.

— Não vi você chegar ontem à noite. Por que não me acordou? — sondou ela.

— Por que eu iria acordar você? — retruquei, arqueando uma sobrancelha.

— Para me contar como foi o jantar?

— Bom, foi ótimo. — disse, começando a ficar nervosa.

— Por que está corada? — Ino perguntou naquele tom de desconfiança.

— Estou com frio. — menti, saltando da cama e correndo para o banheiro.

Ino me seguiu, como se aquilo fosse uma caça ao tesouro.

— Não é verdade. — disse ela. E é claro que não era.

— É sim. — bufei, entrando no cubículo que era o banheiro.

Assustei-me ao ver meu rosto no espelho. Estava horrível. Comecei a vasculhar os armários do banheiro à procura de removedor de maquiagem, mas Ino não deixou que eu continuasse. Com as duas mãos, empurrou meus ombros para baixo e eu fui forçada a cair sentada sobre a tampa do vaso sanitário. Cruzei os braços, derrotada.

Eu estava sentenciada a falar a verdade, somente a verdade.

Ino abriu um dos armários, tirando dali uma bolsinha de cosméticos, a qual deixou sobre meu colo. Gemi quando ela começou a esfregar um algodão molhado — e gelado — pelo meu rosto.

— Ele me beijou. — confessei, deixando os ombros caírem com o suspiro.

— Como foi? — perguntou ela após uma risada.

— Foi perfeito. Mas eu senti que ele queria me devorar. — meu coração pulou só de lembrar. — Acho que tive medo de ficar ali e ser induzida ao pecado, você sabe. — revelei, sentindo meu rosto sendo repuxado de um lado para o outro.

— Devorar? — Ino repetiu incrédula, gargalhando. — E o que você fez?

— Bom... — pigarreei, hesitante. — Peguei minhas coisas e fugi.

Ino parou de limpar a bagunça em meu rosto e me olhou, chocada. Quase fui movida pelo instinto de colocar os braços em frente ao rosto para não apanhar. Ela poderia ficar bem brava às vezes.

— Fugiu? — ela arqueou uma sobrancelha desdenhosa para mim.

— É. Saí correndo. — baixei o rosto, decepcionada comigo mesma.

— Francamente, não posso acreditar que fez isso.

— Você não sabe como ele é assustadoramente persuasivo.

— E você é o que? Uma banana mole? — ralhou ela, revoltada.

Senti vontade de rir, mas resolvi guardar a ironia para mais tarde.

— É, sou uma banana mole.

— Estupidamente mole! — acrescentou ela, irada com meu nível de idiotice.

— Cretinamente mole... — resmunguei, sentindo-me mais baixa que o chão.

Ino parou, e eu pude perceber quando ela bufou. Aquilo tudo estava certo, e eu precisava concordar que tinha sido tão idiota como nunca antes. Uma onda de desprezo cresceu dentro de mim, reduzindo-me a uma inútil insatisfação. Por que eu havia estragado tudo?

Então ela, minha heroína e confidente, agachou-se diante de mim e envolveu-me num abraço. Tombei a cabeça sobre seu ombro enquanto Ino afagava minhas costas, como se faz com uma criança chorona.

— Tudo bem, vamos dar um jeito nisso. — prometeu ela.

— Eu... — comecei, mas meus olhos se encheram de água e eu gemi.

— Não chore! — Ino gritou, e eu rapidamente engoli o pranto.

— Da próxima vez, posso ser uma cereja ao invés de banana? — perguntei.

— Por que quer ser uma cereja?

— Ele disse que eu tinha cheiro de cereja.

— Ah, claro. — assentiu Ino, muito compreensiva.


Sasuke's POV

O despertador apitou sobre a mesinha de cabeceira, e eu estendi o braço sobre a cama para fazê-lo parar. As cortinas escuras do quarto ainda estavam fechadas, e o silêncio parecia adocicado na penumbra do cômodo. Espiei por cima do travesseiro, ainda sonolento. 9 horas.

Ao descer a escada curvilínea para o andar inferior, percebi a imagem ruiva de Karin, a empregada, preparando a mesa do café. Quando me aproximei enfiado dentro de meu "uniforme de corrida" — uma calça larga preta de tactel, tênis esportivos e um moletom cinza de algodão com capuz — ela baixou os olhos, submissa.

Puxei a cadeira e sentei, servindo-me um copo de suco de laranja.

— Bom dia, senhor. — cumprimentou ela em um tom de voz baixo enquanto terminava de preparar a farta mesa.

— Bom dia. — devolvi só por educação, como de costume.

Ela afastou-se até a parede e ficou ali, parada como uma estátua.

Comi duas torradas com manteiga, intercaladas com goles de suco natural, e constatei que a contratação de Karin havia sido perfeita. Ao levantar, percebi uma pequena poça d'água abaixo de uma das janelas da sala, provavelmente efeito da chuva violenta da noite passada. Ah, a noite passada.

— Você. Limpe isso. — apontei para a poça, afastando-me até a porta.

— Imediatamente, senhor. — assentiu ela, retirando-se da sala.

Antes de sair, meus olhos pararam alguns segundos sobre a lareira, agora em cinzas. A lembrança de Sakura retornou, e eu contemplei aquele pedaço de chão onde ela havia estado comigo algumas horas antes. Sorri numa ponta de sarcasmo.

Sakura, minha bela fugitiva.

Ao fim de uma hora de corrida pelas ruas frias e pouco movimentadas de Tókio, diminuí o ritmo de meu corpo até parar em um dos bares situados na grande praça central. Minha respiração era um sopro de fumaça vaporizada, e meu corpo suava por baixo da roupa, ignorando o frio do inverno.

Sentei em uma das mesas exteriores do bar e pedi ao garçom uma garrafa de água, que logo foi providenciada. Minha garganta seca clamava por água. A neve do chão derretia lentamente por conta do sol, mas o ar continuava cortante.

Imaginei que o cor-de-rosa de Sakura contrastaria perfeitamente com aquele cenário pálido e tenro, e quando percebi, estava sorrindo novamente. Era incrível como a frágil lembrança daquela mulher despertava em mim uma forte sensação de bem estar — e uma vontade de rir, em alguns momentos.

Imediatamente decidi que queria vê-la outra vez.

Resgatei o celular no bolso da calça e busquei pelo número dela. A chamada se prolongou por algum tempo, até que alguém atendeu. E não era ela.

— Sim? — uma voz feminina e muito segura, pelo tom.

— Sakura está? — perguntei.

— Hum, quem deseja falar com ela? — quis saber a desconhecida.

— Uchiha Sasuke.

— Bom, espere um pouco... Vou ver se ela está aqui.

Ao fundo, pude ouvir murmúrios e ruídos, e então um sussurro muito baixo querendo gritar "Diga que eu não estou, diga que saí", seguido por um irritado "Cala essa boca e fala com ele". Sim, eu estava me divertindo com aquilo.

Pigarreei ao telefone.

— Então, acho que ela saiu. — mentiu a desconhecida.

Sorri.

— Como é seu nome? — perguntei.

— Yamanaka Ino.

— Enfim, Ino... — comecei, esbanjando aquela confiança profissional que parecia estar no sangue dos Uchiha. — Sei que ela está aí e provavelmente não quer falar comigo por algumas precipitações da noite passada, o que lamento sinceramente.

— Você parece esperto. — comentou ela, sarcástica.

— Acha que poderia me ajudar com isso? — sondei.

— E o que eu ganharia? — perguntou, avaliando a situação.

— Meu eterno agradecimento.

— Hum. — uma pausa. — Nunca se sabe quando vamos precisar de favores, não é?

— Exatamente. — sorri, gostando daquele jogo.

Em desespero, Sakura sussurrou do outro lado da linha algo como "O que está fazendo?" e a outra calou-a com um rápido "xiu".

— Pode levá-la ao shopping do Shinjuku hoje à tarde? — propus.

— Às 16hs? — sugeriu ela, com cautela.

— Está perfeito.

— Estaremos lá. — ela assentiu.

— Obrigado, Ino.

— Não fiz isso de graça, docinho. – ela riu sarcástica, então desligou.

Sorri e guardei o celular, levantando-me e deixando o dinheiro da água sobre a mesa. Idéias erguiam-se feito esqueletos de arranha-céus em minha mente, e a sensação que me tomava naquele momento não era apenas a satisfação, mas também a impaciência.

Abandonei o bar e coloquei minhas pernas em movimento novamente, desta vez de volta para casa. Era estranho, mas em poucos dias, eu já me sentia familiar o bastante para chamar aquela casa de minha.


Sakura's POV

Ino fechou meu celular e o jogou para mim, que o amparei com as mãos trêmulas. Ela sorria perigosa demais, e eu tive medo de perguntar sobre aquela conversa com Sasuke.

— Ele marcou um encontro com você amanhã.

Amanhã? Onde? — ofeguei, incrédula por ele ainda querer me ver depois daquilo.

— No shopping aqui perto. — ela sorriu, arqueando as sobrancelhas. — Está interessado.

— Eu acho que vou fugir de novo. — confessei, encolhendo-me no sofá da sala.

— Mas não vai mesmo. — Ino pareceu assustadora, depois sorriu. — Vou preparar você.

— Preparar como? — sondei curiosa.

— Lhe darei cinco aulas de sobrevivência. — ela riu engenhosa.

— Fala sério. — encarei-a, brincando com uma almofada entre as mãos.

— E a primeira começa agora. — Ino aproximou-se de mim e ergueu um dedo para o alto. — Vá às compras.

Por mais ridículo que fosse, resolvi aceitar.

Ino sempre fora uma pessoa madura e decidida, tanto que com oito anos estava discutindo com a professora da escola sobre o método como as crianças nasciam. Ela nunca acreditou naquela história da cegonha, enquanto eu e Hinata agarrávamo-nos cegamente ao conselho de que crianças não devem fazer perguntas embaraçosas. Com dez anos, Ino beijou pela primeira vez. Com onze, esbofeteou um menino na escola que disse que a amava. Com doze, teve o primeiro namorado, e com quase treze o chutou sem remorso algum.

Eu a invejava pela coragem e pela facilidade com que entendia o mundo dos homens, no qual eu nunca estive muito presente. Meu único namorado havia sido um garoto do curso de reciclagem de papel chamado Sai, com quem fiquei por três meses até descobrir que ele tinha outra pessoa. De qualquer modo, aquilo fazia tempo, e eu estava sob os cuidados da melhor conselheira amorosa do Japão: Ino.

Arrumamo-nos e fomos para o shopping do bairro Shinjuku, o mais movimentado de toda a cidade. Letreiros luminosos piscavam para todos os lados, o dia inteiro. Carros buzinavam e pessoas falavam alto, sempre esbarrando um no outro pelas calçadas. Uma bagunça interessante.

O gigantesco shopping estava cheio, como de costume. Eu não sabia ao certo o que iríamos comprar, mas enquanto Ino soubesse, estaríamos bem. Passamos direto pelo primeiro andar, alcançando as escadas rolantes e subindo para o segundo, e então para o terceiro, onde ficamos a perambular diante das vitrines iluminadas. Ino me puxava de um lado para o outro, e frequentemente seus longos cabelos esvoaçavam até atingir meus olhos, que sofriam.

— Lição número dois! — anunciou ela, parando diante de mim. — Jamais exagere nas compras, ou os homens irão afastar seus cartões de crédito de você.

Olhei para os manequins com suas perucas elegantes, exibindo lindos vestidos sobre seus sapatos incríveis. Uma delas vestia um longo casaco de camurça castanha com botões enormes, gola caída, plumas escuras nas bordas do tecido e um cinto de fita irresistível.

Voltei a encarar Ino ao meu lado, e acho que ela percebeu minha empolgação.

— Podemos comprar agora? — sorri, saltitando sobre meus sapatos altos.

— Depois. — ela balançou a cabeça, puxando-me para longe.

— Argh.

— Está vendo aquele homem se aproximando? — Ino cutucou-me discretamente.

— Sim. O que tem ele? — assenti, reparando que não o conhecia.

— Quando passarmos por ele, seja sensual. Vamos treinar seu auto-controle.

— O que devo fazer? Mandar um beijo? — ri sarcástica e rolei os olhos.

— Não seja idiota e faça logo. — ordenou Ino, atenta à minha performance.

Aquilo era realmente patético, e eu não tinha escolha. Preparei meu olhar mais profundo, meu sorriso mais cínico, e meu desfilar mais elegante. Por um momento, me senti Scarlett Johansson com seus lábios carnudos. O desconhecido passou sem ao menos reparar em mim, e eu desmoronei derrotada.

O que havia de errado com minha sensualidade?

— Está um terror. — Ino bufou, rindo-se por final.

— Obrigada por me lembrar. — abri um sorriso ferino.

— Lição número três: aja com naturalidade e suavidade, e mexa nos cabelos sempre que der. — ela piscou para mim, profissional no assunto.

— Homens gostam de cabelo? — perguntei, cética.

— Todos eles.

— Acha que devo deixar o meu crescer? — mexi sutilmente em meu chanel rosado.

Ela parou e me encarou, como se eu tivesse matado alguém.

— Lição número quatro: nunca desista do que você gosta por causa de um homem.

— Vou me lembrar dessa.

Continuamos a vagar pelo terceiro andar até pararmos diante da vitrine de uma livraria, onde havia um livro que me fez rir, mas que parecia algo que eu precisava ler. Namorados Imprestáveis, de Jessie Jones. Talvez ali tivesse algo que explicasse a natureza masculina, mesmo que fosse a parte imprestável dela.

— Do que está rindo? — perguntou Ino, curiosa a espiar pela vitrine.

— Acho que vou comprar esse livro. — sorri, apontando para ele.

— Qual?

— Namorados Imprestáveis.

E como se viesse do além, aquela voz me surpreendeu pelas costas.

— Você não precisa de algo assim. — disse ele, e eu estremeci antes mesmo de encará-lo.

Podia sentir seu olhar intenso pousando sobre meus ombros, analisando-me, invadindo-me sem permissão. Percebi que havia petrificado quando Ino beliscou discretamente minha mão, antes fechada com força, e eu relaxei num gemido baixinho. Ela soltou uma risadinha infame e deu de ombros enquanto escapava dali.

— Ah, acabei de lembrar que preciso ir ali! — disse ela, sorrindo cínica.

— Ei, Ino! — gritei, entrando em desespero.

— Lição número cinco: mostre quem você é! — acenou ela, correndo para longe.

— Maldita... — grunhi.

Imediatamente, tudo começou a fazer sentido e eu me senti uma palhaça sem saber o que fazer no meio do circo. Ino e Sasuke haviam combinado aquilo tudo, e eu havia sido facilmente conduzida para o picadeiro.

Lentamente, me virei para ele, que aguardava paciente por minha reação. Imaginei minha expressão patética e assustada, o que me fez voltar à realidade. Seus lábios desbotados ainda pareciam atraentes, e eu corei violentamente.

— Vamos tomar um café? — sorriu ele, discreto e sombrio como sempre.

— Ahn, claro. — assenti tão natural quanto pude.

Ele tirou uma das mãos pálidas do bolso do casaco azul marinho e apontou para uma cafeteria do outro lado do corredor de lojas, arqueando uma das sobrancelhas numa pergunta muda. Fiz que sim com a cabeça enquanto apertava os lábios nervosamente, e assim nos dirigimos até a cafeteria. Me encaminhei a uma das mesas perto da janela enquanto Sasuke ia pegar os cafés no balcão. Tudo ali cheirava a café com creme.

Eu imaginava o que faria com Ino quando voltasse à casa dela. Talvez escondesse por uma ou duas semanas seu par de scarpins preferidos. E antes que eu tivesse percebido, Sasuke estava ali, acomodando-se na cadeira à minha frente. Sobre a mesa, duas xícaras de café fumegante e cremoso.

— Me perdoe. — pediu ele, e eu não soube se ele estava sendo irônico ou não.

Agarrei-me a uma das xícaras com um furor descontrolado, fazendo tilintar a louça frágil e branca com a pequena colher prateada enquanto mexia o café. Senti como se aquele homem estivesse lendo meus pensamentos.

— Pelo quê? — perguntei, embora já soubesse ao que ele se referia.

— Ter feito sua amiga te trazer aqui hoje.

— Você é muito persuasivo. — deixei escapar com um suspiro desolado.

Beberiquei o café, evitando ao máximo olhar nos olhos de Sasuke, que me encarava a todo momento, até que aquilo se tornou algo constrangedor.

— Sinto que você ficou assustada... Ontem. — comentou ele, provocando-me.

— Ah, impressão sua. — menti, fitando a xícara entre minhas mãos.

— Então olhe pra mim. — Sasuke pediu em um tom de voz baixo e firme.

Como se algo nele forçasse meu olhar em sua direção, eu o fitei. Podia sentir todo o meu corpo vacilando, e então a fascinação por aquele par de olhos negros me atingiu com profundidade.

— Estou fazendo algo que você não goste? — perguntou ele.

— Não. — murmurei, sem saber como reagir àquilo.

— E não me acha um usurpador perigoso? — brincou, sorrindo com malícia.

— Acho que não. — corei. Era óbvio que ele me intimidava.

— Você mentiu. — Sasuke sorriu com o canto dos lábios, cruel.

— Você está sendo inconveniente. — e desta vez meu olhar não recuou.

— E você está fugindo de mim.

— Porque você está me perseguindo. – rebati rapidamente, meio chocada.

— Isso não te diz nada? — arriscou ele, baixando o rosto para sorrir, irônico.

— Não!

Tudo bem. Quem eu queria enganar?

— Está mentindo de novo.

O que é você, afinal? Uma máquina da verdade? — e então eu já estava alterada e nervosa, pronta para pegar minha bolsa e sair dali.

— Um admirador. — ele corrigiu, lançando-me seu olhar de soslaio.

Imediatamente, as palavras fugiram de mim e minha voz secou como uma fonte estúpida. Um admirador. Por um momento, esqueci de que precisava respirar, e o fôlego ficou preso em minha garganta por algum tempo.

Focado em meu rosto, ele elegantemente bebeu um gole de seu café e tornou a depositar a xícara sobre o pires. O sorriso em seu rosto havia sumido, deixando apenas as curvas desbotadas de algo que eu defini como malícia, a mais sutil malícia.

Antes de começar a ficar azul, soltei o ar, desconcertada.

— Olhe, Sakura. — começou ele, muito calmo. — Não sou nenhum maníaco procurado pela polícia, e gostaria que você não me olhasse como se fosse o predador, e você minha presa.

— Eu... — murmurei, perdida no tempo e espaço.

— Acha que pode fazer isso? — perguntou ele, fitando-me curioso.

— Vou tentar. — engoli à seco, deixando os ombros caírem pesadamente.

— Já é um bom começo.

Beberiquei o café cremoso novamente, que se encontrava quase frio. Como o silêncio havia caído sobre nós dois, aproveitei para distrair meu olhar com uma série de detalhes inúteis. Arrumei o cachecol felpudo em meu pescoço, depositei a minúscula colher simetricamente na lateral do pires, apertei as mãos sobre o colo, como se aquilo fosse me deixar mais calma.

Quando olhei para Sasuke, ele estava sorrindo discreto, em silêncio.

— Do que você gosta? — ele quis saber.

— Ahn, em geral? — sondei, assegurando-me de ter entendido bem a pergunta.

— É.

Por um momento, meu cérebro mergulhou num branco inóspito. Pensei se ficaria ridículo demais confessar que gosto de meias e chuva. Sim, ficaria.

— Gosto de fotografia. — uma pausa. — É uma das coisas que faço nas horas vagas. Também gosto de neve e chocolate. — sorri, brincando com minha xícara de café, girando-a sobre o pires.

— O que você fotografa? — perguntou ele, parecendo interessado.

— Ah, tudo. — pestanejei. — Uma vez fotografei uma senhora cochilando em um dos bancos da praça. — dei de ombros.

— Parece interessante. — Sasuke riu. — Por que você não trabalha com isso, se é o que gosta?

— Bom, não é algo com que eu possa me manter, sabe?

— Conheço um fotógrafo, ele é bom no que faz. Se quiser, posso apresentar você a ele. Quem sabe não surge alguma coisa?

— Você faria isso? — repentinamente me senti uma desesperada.

— Claro. Ele é sobrinho de um professor que conheço por aqui.

— Entendo... — mordi o lábio, impaciente.

Sasuke me olhou silenciosamente por algum tempo, e eu me perguntei se ele estava apenas pensando ou se estava se divertindo com meu comportamento imaturo. Enfim, ele ergueu-se da cadeira e ladeou a mesa, aproximando-se de mim. Tentei prever que coelho sairia de sua cartola daquela vez, mas no reflexo de seus olhos foscos eu apenas podia ver o brilho dos meus.

— Vamos? — perguntou ele, inclinando-se na minha direção enquanto apoiava uma mão sobre a mesa e a outra no encosto de minha cadeira.

Ou eu tinha mesmo uma irresistível queda por ele para tremer com sua proximidade perigosa, ou era ele quem tinha a adorável mania de me fazer vacilar com seu hálito frio.

— Para onde? — perguntei, confusa e perdida.

— Você vai gostar, eu prometo. — e sorriu daquela maneira aliciante.

Antes que seus lábios tocassem os meus num beijo, o qual meu coração queria e minha mente evitava, ele afastou-se e caminhou lentamente até o balcão da cafeteria. Seu contorno sombrio afastando-se elegantemente; meu pobre coração debatendo-se em desespero.

E antes que ele percebesse meu total estado de nervosismo, eu joguei a bolsa sobre o ombro e o segui apressadamente, com medo de que aquele momento se quebrasse.


"Mais ainda, havia se tornado uma criatura facilmente enfeitiçada."