Capítulo 5
Escrita por Blanxe
Revisada por Andréia Kennen
Capítulo dedicado a Ana Shirley Luna, meu presente de aniversário pra lá de atrasado.
E eu perdi quem eu sou, e eu não posso entender
Porque meu coração está tão quebrado, rejeitando seu amor
Sem, amor que não deu certo; palavras sem vida continuando
Mas eu sei, tudo que eu sei, é que o fim está começando...
Trading Yesterday - Shattered
oOo
Kiseki ajudava com os preparativos da homenagem. Havia uma mobilização em que muitos se habilitavam para a tarefa de organização e manutenção da festa. Moichi e Kaede conversavam entre si enquanto terminavam a checagem de uma enorme lista de afazeres já cumpridos e os que ainda precisavam ser feitos.
Tsuki estava em meio a toda a agitação que antecedia do evento. Ele observava a Hyuuga com cuidado. Ela estava aérea, não que não estivesse cumprindo com suas obrigações, mas passou o tempo todo com os olhos meio estreitados, como se pensasse constantemente em alguma coisa.
Não era difícil vê-la compenetrada, mas desta vez algo diferente pesava nos olhos da morena. Preocupação, talvez. Isso instigou sua curiosidade também. Longe de ser o tipo que se intrometia nos problemas alheios, mas não o impedia de se questionar.
Para sua surpresa, quando a primeira pausa para um lanche surgiu no trabalho, ela se aproximou. Kiseki não era uma garota que expressava muita delicadeza ou bom-humor, pelo contrário. Mas ela sempre era sorridente e muito educada consigo. Nem mesmo ao seu irmão mais velho — a quem todos sabiam ser o melhor amigo — tratava com tamanho zelo.
— Onde está o Hoshi? — a Hyuuga questionou, sem muitos rodeios, mas amenamente.
Então, era o irmão quem trazia preocupação a Kiseki?, perguntou-se estranhando mesmo que parecesse plausível. Os dois viviam se bicando e muitas vezes até paravam de se falar por pura birra, mas Kiseki nunca dera o braço a torcer, Hoshi era quem buscava engolir o orgulho e pedir desculpas, com aquele sorriso bobo e atitude expansiva. Lembrava muito seu pai Naruto com seus bicos e resmungos, mas que no final resolvia tudo sem grandes estresses.
— Não o vi. — respondeu e curioso por entender a postura da amiga perguntou: — Vocês brigaram de novo?
— Não. Só tenho achado ele um pouco estranho… — ela lhe confessou, colocando delicadamente uma mecha do cabelo liso e castanho para trás da orelha alva — Você não percebeu nada fora do comum?
Parando por um segundo para rever as ações e atitudes de Hoshi dos últimos dias, poderia concordar com Kiseki. Mas não havia nada de grave na conduta do irmão que considerasse alarmante e tinha uma boa razão para acreditar no motivo que ofereceu a garota.
— Essa separação dos nossos pais está afetando a todos. Hoshi não é uma exceção. Ele pode parecer um tanto avoado e bobalhão, mas ele está se corroendo com a possibilidade de nosso pai não desculpar o otou-san. — explicou, basicamente refletindo o que ele próprio sentia em relação ao problema familiar que vivenciavam.
— Eu sinto muito, Tsuki. — ela falou em simpatia — Mas, sem querer ser pessimista, acho que essa é uma situação definida.
Sequer poderia discordar da Hyuuga, não baixou os olhos ou foi arrogante ao replicar, mas sentiu que seu sorriso não a convenceria.
— Provavelmente você está certa. Mas não faz ser menos difícil.
Ele usou de um menear de cabeça como despedida e se virou.
— Tsuki!
O chamado dela o fez olhar sobre o ombro e avisou:
— Vou tentar encontrar meu irmão. Não se preocupe.
Vislumbrou o rosto arrependido da garota antes de continuar seus passos. Deveria ter dito algo que fizesse com que ela não ficasse atribulada, mas do que adiantaria? Como o resto de sua família, ainda guardava aquela pequena chama de esperança dentro si e não estava pronto para enfrentar a realidade.
Por isso, estava indo atrás do irmão mais velho. Pela preocupação de Kiseki e para acalentar sua esperança. Hoshi sempre lhe fora um ponto de apoio, alguém que ele desistira de tentar se espelhar por ser impossível copiar sua singularidade, mas ainda o admirava por ser um idealista e nunca desistir do que achava ser certo ou das coisas que queria.
E Hoshi, assim como ele, queria os pais juntos novamente.
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Hoshi estava perdido em seus pensamentos, como vinha ocorrendo com demasiada frequência nos últimos dias. Recapitulando tudo o que fizera até ali e buscando traçar passos para seguir adiante.
Algumas atitudes agora lhe pareciam extremamente desnecessárias. Se houvesse permanecido em seu tempo, sem mexer com o passado, não teria que lidar com tantos problemas de uma única vez.
Agora parecia mesmo uma peça deslocada no tempo.
Era assim que se sentia a cada novo dia e a cada instante que aquela realidade se apresentava tão diferente daquela que deixara para trás.
E o que mais o incomodava era crer que estava perdendo pedaços de seu antigo eu. As lembranças aos poucos se confundiam e desapareciam.
Podia ser estranho, afinal, como ele saberia que estava perdendo recordações?
Simples: ele já não conseguia se lembrar da sua antiga infância. As novas lembranças estavam suprimindo-as; tomando o lugar das anteriores, se tornando únicas. Isso o deixava preocupado.
E se esquecesse de tudo? Como agiria em prol de seu otousan se não houvesse mais o conhecimento do que vivenciara até ali?
Seria como ser absorvido totalmente por aquela realidade, como ocorrera com Kiseki que não se recordava de nada.
Irônico, pois discutira com Itachi justamente por não se sentir adequado ali. Agora… agora estava nervoso por temer que tudo se encaixasse. Era como se o universo estivesse se moldando a brusca alteração que sofrera com a interferência de Hoshi no passado.
Sua necessidade de contar sua descoberta a Itachi era crescente e pretendia fazer isso.
Após horas preso em pensamentos que o torturavam e olhando toda a preparação para a homenagem e festa que foram o estopim de tudo, Hoshi se levantou da grande área rochosa onde há pouco tempo havia sido esculpido o rosto de Sasuke como novo representante da Vila da Folha.
Ele escalou pela contenção sem maiores problemas; não era um ninja, mas aquela área não era de todo inacessível. Quando chegou ao topo do monumento, lançou um último olhar para o horizonte. Estava com um mau pressentimento.
— O que está fazendo aqui? — a voz de seu irmão o surpreendeu, obrigando-o a virar repentinamente.
Seu pé falseou e sentiu que tombaria para trás. Seu coração parou por um segundo em sua garganta até sentir a pegada forte em seu pulso o trazendo de volta ao equilíbrio.
Com os olhos arregalados, Hoshi engoliu em seco. Tsuki não parecia assustado, mas notou uma tensão que se dissipou pouco a pouco ao vê-lo voltar a respirar. A mão em seu pulso permaneceu.
— Você quer me matar? — reclamou Hoshi.
— Desculpe, não pensei que estivesse tão distraído. — pediu o rapaz de olhos azuis.
A irritação se esvaiu rapidamente ao ver a culpa no semblante do mais novo.
— Está tudo bem. — Hoshi apaziguou, coçando a nuca com a mão livre e sentindo o coração ganhar estabilidade em seus batimentos — Nessas horas é bom ter um irmão com reflexos tão bons.
Tsuki sorriu mais confiante e repetiu a pergunta feita anteriormente.
— O que está fazendo aqui, aniki? A Kiseki está atrás de você.
Aquela chata estava o perseguindo. Não que estivesse deliberadamente fugindo dela, mas com a preocupação o consumindo, preferia evitar a personalidade ácida e crítica da garota, pois se sentia incapaz de fingir estar bem por muito tempo ao lado dela.
Se ao menos Kiseki se lembrasse do que haviam vivenciado juntos, o que tinham passado, mas não! Ela tinha que perder toda a memória no processo de transição para a nova realidade.
A verdade é que se não fosse por Itachi, sentir-se-ia extremamente sozinho e perdido…
Notou que o irmão ainda esperava por sua resposta e não viu mal em ser sincero com ele.
— Eu precisava ficar sozinho.
Um leve vinco surgiu entre as sobrancelhas do mais novo e os olhos límpidos expressaram confusão.
— Por quê?
Essa era uma grande pergunta e Hoshi, por mais vontade que tivesse de compartilhar seus receios e anseios com alguém, não poderia, simplesmente escolher qualquer pessoa.
O silêncio prolongado deu tempo para que Tsuki analisasse parcialmente o irmão.
— A Kiseki tem razão. Você está estranho.
Isso não era bom, realmente.
— Qual é, Tsu-chan?! — acabou por elevar seu próprio humor para ludibriar o mais novo. — Eu só estou cansado dessa situação indefinida que vivemos.
Sua auto-interpretação de longe foi capaz de convencer Tsuki que parecia estar com toda sua atenção fixa em si.
— O que você tem? — Tsuki perguntou em um tom sereno, se aproximando ao ponto de segurar o queixo de Hoshi e encará-lo profundamente, como se, com esse gesto, fosse capaz de enxergar a resposta dentro dos olhos negros do irmão. — Você não costuma mentir.
As palavras por um instante desarmaram Hoshi.
Como Tsuki poderia lê-lo tão bem? Obviamente sua pergunta não precisava de resposta. Conhecia a razão. Sabia do vínculo que compartilhavam e era este o motivo que tornava tão fácil ser decifrado pelo irmão.
— Você quer mesmo me ajudar? — perguntou tendo o imediato assentir como resposta — Fique atento nessa homenagem. Não abaixe a guarda por um segundo sequer e…
— O que vai acontecer? — indagou Tsuki levemente intrigado.
— Eu espero que nada. — Hoshi deu de ombros — É só um pressentimento ruim.
E não deixava de ser a verdade. Gostaria de contar do ataque que ocorrera neste mesmo evento em sua realidade, mas seria demais. Por enquanto, era tudo o que poderia oferecer ao mais novo.
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Estava esgotado. A missão novamente o consumira e as noites turbulentas de sonhos inexplicáveis o estavam enlouquecendo. Até passara a chamá-los de pesadelos, pois se repetiam e nunca era capaz de ver com clareza o que ocorria, embora as sensações fossem vívidas o suficiente para deixá-lo em estado vergonhoso.
Deixara a cargo de Neji o relatório para ser entregue a Sasuke. O grande Hokage ficaria irritadíssimo, tinha certeza que sim, mas realmente estava pouco se importando com a quebra de sua conduta.
Queria descansar. Deitar em sua cama, fechar os olhos e dormir. De preferência sem sonhos bizarros.
Não demorou muito para chegar ao apartamento o qual agora ele chamava de lar. Mal abriu a porta e um vulto se projetou para cima de si.
— Chichiue! — Taiyou pulou em cima de seu pai assim que este pôs os pés para dentro do cômodo minúsculo.
Primeiramente ficou assustado e somente depois de alguns segundos pensando, recordou-se de que Taiyou havia decidido morar consigo.
Naruto abraçou o pequeno com um sorriso sincero e sentiu um calor aconchegante se instalando em seu peito. Havia se esquecido de que seu caçula o esperava para lhe recepcionar com aquele abraço e liberar parte do fardo da solidão.
A sensação de estar em casa era ao menos ilusória.
Era como um remédio fazendo efeito sobre as suas dores, amenizando o que o corroia; embora soubesse que se tratava somente de um paliativo, porque a verdadeira cura para seu desalento não poderia ser ministrado por nenhum de seus filhos.
— Como foi a missão? — o menino perguntou e deu espaço para o pai. — Não se machucou, né?
— Não posso te contar sobre a missão, Tai-chan, você sabe bem disso. — Naruto afagou os fios loiros muito lisos do topo da cabeça do menor e sorriu. — Mas eu não estou machucado.
Com um bico que lembraria Naruto em seu tempo de infância, Taiyou cruzou os braços sobre o peito e com uma sobrancelha elevada, inquiriu:
— Mesmo? Nenhum arranhão? — o menor levantou os braços do pai, virando-o de costas, levantando suas roupas e investigando para encontrar um sinal de ferimento — Nadinha, nadinha?
— Deixe de besteira, 'ttebayo. — Naruto riu, dando um tapa na nuca do filho, largando sua bolsa em um dos cantos, adentrando o apartamento e indo direto para a geladeira.
Naruto pegou uma lata de bebida e a abriu, sorvendo o líquido alcoólico. Quando virou, deixando que a porta da geladeira batesse sozinha atrás de si, estancou ao ver de relance o jeito como Taiyou o olhava.
O menino tinha um ar que denunciava mágoa e raiva ao mesmo tempo; algo que beirava uma sucinta contrariedade, além de tristeza. Desapareceu quase instantaneamente quando Naruto se virou, mas não rápido o suficiente para que o jinchuuriki não o notasse.
Suas sobrancelhas loiras se uniram em um estranhamento que foi sublimado pelo repentino avanço de Taiyou que grudou em seu pulso e o puxou.
— Né, chichiue, você vai ter que descansar pra estar bem até a noite! — o loirinho falou, tirando a lata da mão do pai e puxando-o em direção a cama.
— Etto… Mas, por quê? Eu vou dormir por uma semana inteira, Tai-chan! — como se fosse possível dormir tanto tempo desde que se separara, fora os sonhos que o assolavam em meio aos momentos de descanso. — Nem venha com…
— Mas, chichiue, mais tarde é a homenagem dos quinze anos de reconstrução e paz em Konoha. O senhor é um dos homenageados e não pode faltar.
Naruto parou rente à cama com os olhos azuis arregalados como pratos e virou-se para o filho.
— Homenagem?
Taiyou assentiu e continuou:
— Não se lembra? Todo mundo vai estar lá e vai ter um grande discurso e festa.
Claro que ele se lembrava, agora que Taiyou trouxera o fato à tona. Pensar em todo o ramen e besteiras que poderia comer durante a festividade fazia sua boca salivar, mas a afronta de ter que ouvir um discurso do Hokage — de Sasuke… isso certamente fazia sua empolgação diminuir exponencialmente.
— Claro que me lembro, sim! — mentiu descaradamente, forçando-se a rir para não estressar o menor. — Vou descansar e estarei preparado. Nós dois vamos comer até não aguentarmos mais!
Taiyou aparentou estar satisfeito com as suas palavras e empolgou-se quando iniciou uma listagem das coisas que os dois poderiam fazer e, principalmente, comer. Apesar de franzino, o seu caçula era tão guloso e comilão quanto ele fora da infância.
E não demorou muito para ambos estarem espremidos um ao lado do outro na cama, nem para que Naruto pegasse no sono embalado pela voz do mais novo que lhe narrara seus dias de academia e tentava dar a ele um relatório sobre os irmãos durante o período em que estivera fora.
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O suave bater na porta fez Taiyou ser obrigado a sair da cama. O fez com cuidado para não acordar o pai. Os passos leves o guiaram até a porta e ele a abriu, olhando debaixo a figura do adulto à sua frente. Logo um sorriso surgiu em seu rosto.
O abraçou, como afetuosamente fazia, ganhando um leve afagar no topo da cabeça. Puxou o mais velho para o corredor do lado de fora, encostando a porta para evitar que o som adentrasse o cômodo onde Naruto descansava.
— Não faça barulho — ele pediu muito sério.
— Não farei. — prometeu o moreno.
Convencido, Taiyou assentiu e avisou:
— Mas não deixe o chichiue dormir demais, senão ele perde a homenagem. Vou encontrar com meu time para ajudar nos preparativos.
— Cuide-se. — o mais velho disse antes de Taiyou correr e sumir ao virar no corredor.
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Estava febril, mas não era uma doença, era uma condição. Seu corpo quente enlouquecido pelo desejo, insatisfeito, puxava outro corpo contra o seu para que este lhe desse aquilo que ainda necessitava.
— Naruto-kun?
"Meu…" sua própria voz clamava sua posse, embora fosse ele a ser possuído. O estremecer que causou no outro homem foi intenso e soltou um suspiro de puro deleite ao senti-lo perder completamente o controle e atingir fortemente o ápice em seu interior.
— Naruto-kun?
De súbito abriu os olhos, suas mãos estavam fincadas no lençol da cama e sua respiração quase errática. Reconheceu o rosto de Itachi, levemente preocupado.
O sonho, novamente.
Engoliu em seco, forçando-se a aplacar as sensações que pareciam ainda formigar em seu corpo inteiro. Estava em seu quarto, havia dormido ouvindo Taiyou. Notou o entardecer ainda claro devido à luminosidade fraca que adentrava o cômodo pela única janela junto à cama.
Mas isso não explicava o que Itachi fazia ali.
— Está tudo bem? — ele lhe perguntou, monocordiamente. — Parecia estar em meio a um pesadelo.
O rubor esquentou suas bochechas e sentiu vontade de rir. Pesadelo? Era como chamava, entretanto, o que havia em seus momentos de inconsciência era tudo, menos um pesadelo. Claro que não diria isso ao Uchiha.
— Está tudo bem — disse com a voz rouca do sono e pigarreou para limpar a garganta. Fez um movimento para erguer o corpo e sentar-se na cama, mas desistiu no momento que sentiu sua região íntima ainda desperta. — O que você está fazendo aqui, Itachi-bastardo?
— Vim saber como estava. Taiyou precisou sair e acabei ficando.
Notou que Itachi estava sentado na beira da cama, com aqueles olhos negros e misteriosos ainda recaindo sobre sua figura, sem denunciar se o analisava ou simplesmente o encarava.
— Vocês se preocupam demais. Eu to bem.
A mão elegante, de dedos longos, elevou-se e pousou sobre a testa do loiro que arregalou brevemente os olhos ante ao contato, mas logo os fechou deixando escapar um suspiro de contentamento.
Frio.
Espalhava-se causando um arrepiar por seus braços, era uma sensação boa mediante ao calor que seu corpo emanava.
Seria bom ter as mãos frias afastando aquela quentura, deslizando por seu corpo como um bálsamo que o aliviaria da sensação incômoda.
— Você não está bem.
Seus olhos abriram, assustados com seus pensamentos, sendo trazido de volta do curto momento de introspecção pela voz serena de Itachi. Viu um assombro passar pelos orbes escuros e desaparecer em um milésimo de segundo.
— Fique aqui, Naruto-kun — ele lhe ordenou.
Algo além de sua vontade fez com que Naruto segurasse o pulso de Itachi no momento em que ele ameaçou se afastar e levar consigo aquela sensação boa.
Trincou os olhos, querendo se forçar a pensar direito.
— Aonde vai? — perguntou, satisfeito pelo Uchiha não ter tentando mais se afastar e por manter a mão exatamente onde estava.
— Chamar o Sasuke.
— Seu bastardo! — grunhiu, se erguendo em um movimento e voltando a encarar Itachi. — Ficou louco?
Sentado na cama, olhando diretamente naquela escuridão indecifrável que eram os olhos de Itachi, Naruto sentiu um impulso incomum de quebrar aquela postura sempre comedida do Uchiha, fazê-lo demonstrar emoções que sequer saberia denominar.
— Sua pupila mudou. — Itachi alertou.
A boca de Naruto ficou entreaberta em meio ao reconhecimento do sinal que Itachi apontava. Seus olhos só mudavam quando estava para perder o controle do demônio ou…
Agora entendia o porquê de seu julgamento e raciocínio estarem comprometidos e o confundindo daquela forma.
— Não vai chamar aquele desgraçado. — determinou e quando Itachi o fitou de um jeito que indicava duvidar de sua afirmação, Naruto foi tomado pela afronta, por aquele sentimento de ser desafiado e isso só aumentava o abrasar de sua condição, por isso, desviou olhar para baixo. — Eu vou ficar bem, preciso de tempo, mas posso controlar isso.
Claro que podia. Mesmo constatando que por baixo de sua vestimenta, estava excitado. Culpa do maldito sonho. Talvez eles estivessem ligados a sua condição de precisar satisfazer ao cio de seu corpo.
Percebeu que ainda segurava com força o pulso de Itachi e, com envergonhada relutância, o soltou.
— Por mais forte que aparente ser, você precisa dele, Naruto-kun. — insistiu o Uchiha, fazendo o interior de Naruto se retorcer. — Vá tomar um banho e se arrumar. A homenagem irá começar em uma hora.
Naruto segurou a língua para não brigar com Itachi. Em outros tempos, teria voado no pescoço dele, mas no estado em que se encontrava, com os pensamentos oscilando e o induzindo a imaginar coisas inimagináveis, ele só aproveitou o levantar do moreno para pular da cama e apressar-se para o cubículo que era o banheiro, o qual ele trancou a porta.
Arrancou as roupas como se elas queimassem sua pele e abriu a ducha no frio, permitindo que a água atingisse diretamente seu corpo.
Fria como a mão de Itachi.
Grunhiu frustrado, apoiando uma das mãos sobre os azulejos amarelados e abaixando a cabeça. O que ele precisava e queria não era aquilo, mas sua mão se fechou ao redor da ereção que não se dissipava e a friccionou.
Esse também era um dos motivos de não ter estendido a discussão com o outro homem.
Fechou os olhos, evitando ofegar alto enquanto se masturbava.
— Pensando no irmão Uchiha, moleque? Tsc, Tsc, Tsc. Que coisa mais feia. — debochou o demônio em sua mente.
— Me deixe em paz, Kyuu. — ordenou baixo, entre dentes, parando de se acariciar.
— Sabe que logo você estará no limite e não vai pensar direito. — Kyuubi apontou jocosamente.
— Eu não vou. — disse em sua mente — É passageiro, eu posso controlar isso.
— Mas é o que você quer, não é? As mãos dele em você. — sussurrou o demônio com a voz distintamente sedutora.
As mãos frias percorrendo seu corpo, Naruto completou o pensamento como se fosse uma cena vívida em sua mente, sua mão voltando a se mover em seu sexo, sem que pudesse se deter.
— É passageiro. Eu posso controlar isso.
— Até quando? Seu estúpido, nunca foi bom em controlar nada — riu a raposa.
Naruto bloqueou o demônio e se não estivesse tão excitado, teria rido dele e debochado sobre como ele "não era bom em controlar". Entretanto, seu baixo-ventre atestava exatamente o contrário do que queria mostrar a raposa de nove caudas. Sua mão deslizava sem parar por seu sexo endurecido, sua respiração ficava a cada instante mais pesada.
Não era por causa de Itachi, especificamente, era por causa do cio e por causa dos sonhos e porque não tinha Sasuke ali para aplacar sua ânsia.
Era o que precisava acreditar.
Voltar seus pensamentos para Sasuke não ajudou muito a sua situação, também. Muito menos ao imaginar a forma exigente que o marido costumava tomá-lo.
Uma simples masturbação não o saciaria, mas não iria pensar nisso naquele momento. Queria apenas se lembrar da forma vigorosa com que Sasuke se arremetia em seu interior e como ele sussurrava em seu ouvido até que estivesse exausto.
Diferente daquele homem em seu sonho que era mais silencioso, mas não menos intenso em seus movimentos agressivos e sedentos por seu corpo.
Aquele homem desconhecido que tinha os movimentos ritmados, muito profundos e que se arremetia dentro de si conforme lhe era exigido.
Mordeu o braço que apoiava na parede azulejada para abafar o som de seu ápice.
Sua visão nublou e ficou tonto por alguns segundos, só se dando conta que havia escorregado para o chão e que a água ainda o gelava, depois de algum tempo.
Tinha um problema sério nas mãos. Um que teria de resolver ou poderia acabar cometendo alguma besteira dentro em breve.
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Não fora ao apartamento de Naruto à toa. Estava se precavendo, seguindo o receio de Hoshi de que essa festividade trouxesse novos problemas. Se Orochimaru estivesse verdadeiramente vivo e planejando algo, perguntava-se se não tentaria algo contra Sasuke, afinal, seu otouto fora a obsessão do nukenin.
As situações eram diferentes da realidade da qual Hoshi viera. Começando por Naruto estar vivo e ele — Itachi — também. Vingança fora a motivação primordial daquele homem, vingança contra Sasuke e contra a Vila. Naruto possuído pela raposa de nove caudas fora um meio de atingir ambos.
Mas Itachi não poderia esquecer-se de que Hoshi também fora envolvido: sequestrado e mantido com o propósito de desnortear Sasuke e levá-lo diretamente a toca do inimigo.
Só que nesta realidade, não era somente Hoshi. Existiam mais três meios de atingir Sasuke e isso preocupava demasiadamente Itachi.
Se algo acontecesse a um dos filhos, certamente seria o estopim de uma guerra. Também não diria que se algum mal recaísse sobre Naruto, a situação seria diferente.
De todo modo, estava completamente alerta. O loiro não estranhara muito a sua presença, acabara acreditando que era por precaução, para que não perdesse o horário da homenagem. Entretanto, Itachi se preocupara ao constatar que o jinchuuriki estava na pior fase para encontrar-se separado de Sasuke.
E estaria mentindo se negasse ter ficado tentado a se aproveitar desse momento frágil do loiro. Foi como ver um flashback , o problema é que não poderia permitir que acontecesse novamente. Sua consciência apesar de saber que fazia o certo ao se afastar, também o criticava por não tomar uma iniciativa, principalmente agora que Naruto e Sasuke haviam se separado.
Era uma chance… uma a qual ele não estenderia a mão para tocar.
Determinara-se a contar a Sasuke sobre a condição atual de Naruto para que ele tomasse a frente e o procurasse. Certamente, eles se entenderiam na cama e, quem sabe, toda a crise conjugal fosse superada.
Haviam chegado alguns minutos antes. A solenidade começara pontualmente, no horário determinado. Sasuke era rigoroso nessas questões.
Itachi podia ver com nitidez como a formalidade fazia emergir a faceta mais tímida de Naruto. O ninja loiro não se adaptava a esse tipo de cerimônia, por mais tempo que passasse. Imaginava que Sasuke estivesse investindo em um discurso que exaltasse principalmente as qualidades dele e todo empenho investido durante a batalha e vitória de anos atrás, e que naquele início de noite comemoravam.
Se era a intenção de seu irmão causar boa impressão e amenizar o estrago que causara, Itachi não vira sucesso em sua iniciativa. Naruto poderia estar tímido e constrangido, mas a tensão que a posição de Hokage causava nele, assim como toda a imponência do traje, da postura séria e do respeito que o irmão evocava nos cidadãos e ninjas de Konoha, só despertava mais a razão de Naruto, fazendo-o lembrar do porquê de não estar mais junto ao marido.
De onde estava, na mesma posição que Naruto na homenagem, podia ver Hoshi em meio às pessoas com Taiyou sobre os ombros, não muito longe de Tsuki e Kisho.
Ofereceu-lhe um assentir de cabeça, querendo assegurar-lhe que tudo estava bem e continuaria assim; viu-o sorrir abertamente e levantar o polegar como sinal de confiança.
Tudo normal e tranquilo.
Fogos estouraram ao final da solenidade, gerando animação e aplausos.
Enquanto Naruto era puxado por Sakura e Ino para que fossem comemorar, Itachi segurou o pulso de Sasuke e sussurrou em seu ouvido:
— Precisamos conversar.
Sasuke franziu o cenho, intrigado. Itachi meneou a cabeça fazendo um gesto para que o irmão o seguisse e depois dedicou um último olhar na direção de Hoshi, que o encarou apreensivo, certamente por não entender porque o tio estava seguindo Sasuke em vez de Naruto.
Somente com o olhar, indicou para o sobrinho o outro pai, deixando entender que estava a cargo dele a vigia.
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Tsuki percebeu a interação entre o irmão e o tio. Qualquer outra pessoa não teria notado, mas ele estava atento a Hoshi desde sua última conversa. Pelo que parecia, o pressentimento do mais velho também era de conhecimento de Itachi e, o que mais abismava Tsuki, era que o tio, ao que tudo indicava, levara a sério o receio do sobrinho.
Em vez de ficar questionando, Tsuki preferia observar. Muitas vezes, a resposta não precisava de palavras, mas somente de um pouco da sua atenção. Era isso o que fazia agora.
Entretanto, seu raciocínio foi bruscamente interrompido pela chegada de Kiseki. O rosto da garota não expressava amabilidade, pelo contrário. O semblante fechado já dizia que seu humor estava péssimo.
— Desce, moleque. — ela exigiu, olhando para Taiyou que ainda estava sobre os ombros de Hoshi.
— Kiseki, o que…? — Hoshi, com seu jeito amigável, tentou questionar.
— Desce logo! — a Hyuuga ordenou crispando o cenho, ela mesma tirando o menino dos ombros do irmão. — Você vem comigo.
A mão delicada se fechou fortemente no pulso de Hoshi e o puxou consigo, praticamente o arrastando no meio das pessoas.
— Kiseki, sua anta maluca! Me larga! — o Uchiha relutava.
— Cala a boca ou faço do seu dentista um homem rico! — ela rebateu, irritada.
Tsuki, juntamente com Taiyou, ficou olhando os dois se afastarem e sumirem no meio das pessoas, enquanto Kisho comentou com um sorriso irônico.
— Se eles se casarem, vai ser difícil saber qual dos dois será o homem da casa.
Em meio a tensão momentânea, a tirada de Kisho fez despertar risadas. O humor negro do mais novo não cansava de surpreender Tsuki. Sabia, porém, que a Hyuuga iria colocar Hoshi contra a parede, coisa que ele não fizera ou aprovava ser feito. Mas quem era ele para discutir com Kiseki? Ao contrário de seu irmão mais velho, prezava por sua cabeça bem no lugar onde estava.
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Naruto estava se sentindo mais desprendido. Sakura e Ino costumavam a ter esse efeito. Nunca deixaram de discutir, muito menos de lhe perturbar com assuntos fúteis. Talvez achassem que era um bom ouvinte por ser gay, ou por ter um marido também. O qual nem tinha mais.
Mas achava que aquele cerco por parte das duas era proposital dessa vez, com o objetivo de fazê-lo relaxar e esquecer-se do rancor que sentira no meio daquela homenagem, por ser Sasuke o anfitrião de toda aquela solenidade.
Naruto tentava, tentava muito, entretanto, não era capaz de aceitar o que Sasuke fizera. Os olhares que ele lhe dedicara durante o discurso foram ternos, embora a seriedade continuasse firme em seus traços faciais. Só que aos seus olhos, não passavam de falsidade.
Porque a falsidade estava encruada em qualquer atitude que visse em Sasuke desde que descobrira sua traição. Todavia, o que mais o desconcertou foi o calor. Aquele calor que mantinha sob controle e que deixava sua pele mais corada e seu sexo desperto.
O que Sasuke despertava em si sobrepujava até mesmo sua forte convicção de não se render aos efeitos de sua libido alterada.
Balançou a cabeça, se negando em cair na armadilha que seu corpo queria armar para si e viu que estivera ignorando as duas mulheres por muito tempo.
— Estávamos nos perguntando quando sairia desse seu transe — ironizou Sakura, já com um copo de uma bebida fumegando nas mãos, a qual pedira na barraca em que se encontravam parados.
— Aposto que ele estava pensando em coisas pervertidas — Ino cutucou com o cotovelo a mulher de cabelos rosa e com o olhar estreitado, questionou: — Conte pra gente, Naruto, está de olho em alguém depois de ter dado um pé na bunda do Hokage?
— Ino, sua imbecil — xingou Sakura equilibrando o copo em uma das mãos e dando uma cotovelada agressiva na lateral do corpo da loira.
— Deixe de falsidade, Sakura! Você também ta doida pra saber por que ele ficou corado de repente.
— Eu não estou nada! Você que é uma pervertida sem noção!
Naruto ia abrir a boca para intervir, no fundo achando que a maturidade daquelas duas só aflorava quando separadas, mas foi interrompido com a aproximação inesperada de Kisho.
— Posso falar com o senhor? — ele lhe perguntou, lançando um olhar significativo para as duas mulheres que continuavam a discutir completou: — Longe dessa bagunça?
A voz de Kisho não estava agressiva como o de costume, isso chamou a atenção de Naruto e o fez ficar curioso. E, de certo modo, o filho lhe dera a deixa perfeita para se livrar das duas amigas que pareciam agora mais preocupadas em se ofender e discutir sobre as suas necessidades sexuais.
— Claro. — respondeu — Sakura-chan, Ino-chan, vou dar uma volta.
Acenou para as duas, já se afastando e caminhando ao lado do pequeno. Ouviu ambas reclamarem, mas não o seguiram. Aproveitou para especular, reparando na postura do filho. Ele não estava preocupado, ou demonstrava sua aura hostil, parecia tranquilo, estranhamente contido.
— O que foi, Sho-chan? — não aguentou e perguntou — Algum problema?
— Não, nenhum. — ele lhe disse, pegando em sua mão.
Foi impossível para Naruto esconder seu aturdimento ante a ação do menor. Principalmente quando ele elevou o rosto em sua direção e lhe sorriu. Por um momento, todos os outros problemas que vinham lhe atormentando desapareceram de sua mente, porque Kisho estava sorrindo de novo para si, como costumava fazer quando era mais criança.
Aquilo definitivamente não era normal, mas era bom, lhe trazia a melhor sensação do mundo e se pegou sorrindo sem perceber. Já estava bem longe do alcance dos sons das pessoas e da festividade, Kisho o guiara para um dos becos vazios da vila, onde parou e o encarou novamente.
— Eu queria parabenizar o senhor. — finalmente Kisho falou — E dizer que os nossos problemas vão acabar a partir de agora.
Kisho o surpreendeu mais uma vez e o abraçou. Naruto, estupefato, se abaixou para entender o que está acontecendo. Por mais que estivesse exultante pelo filho estar tratando-o daquela forma, queria entender o que causara essa mudança drástica no comportamento dele.
— O que houve, Sho-chan? — ele segurou o rosto alvo do menino com ambas as mãos e viu como ele enrubesceu, desviando o olhar.
Ele sempre fazia isso. Naruto pensava que ele era envergonhado demais, embora demonstrasse ser forte e ríspido. Lidar com sentimentos nunca fora algo fácil para Kisho.
— Eu tenho tratado o senhor realmente mal, mas isso vai acabar. Não vai precisar mais tolerar nada. — confessou o garoto, adiantando-se a abraçar Naruto fortemente.
Há quanto tempo não o tinha nos braços? Naruto não se recordava da data certa, achava que fora um processo gradual o afastamento do Kisho, mas um dia, quando menos esperava, percebeu que ele não mais o seguia ou permitia o contato com ele.
Sem hesitar, Naruto correspondeu ao abraço, acolhendo o corpo menor junto ao seu, sentindo novamente aquela parte de si que tanto amava.
oOo
Kisho fechou os olhos brevemente e permitiu-se aproveitar do calor daquele abraço. Não era uma hesitação, somente uma despedida. Talvez só quisesse relembrar como era estar tão perto do pai, de como era senti-lo, pois sabia que não haveria volta a partir dali. Também não era o remorso se esgueirando por sua consciência, longe disso. Era o que precisava fazer para se livrar de Naruto.
Tão discreto quanto possível, deslizou a seringa que estava escondida na manga comprida do blusão que usava e afrouxou o abraço o suficiente apenas para olhar nos olhos do pai.
Os olhos azuis estavam marejados, constatou, sentindo os batimentos acelerarem e pensando o quanto Naruto se emocionava facilmente.
— Amo você. — confessou, causando surpresa por suas palavras e também pelo afundar da agulha no pescoço do pai.
Rapidamente, aplicou todo o conteúdo vermelho, antes do pai poder reagir.
oOo
O ardor que sentiu foi horrível e assustou-se, levando a mão ao pescoço. Ainda de joelhos no chão, viu o filho se afastar alguns passos para trás, o calor dele desaparecendo e deixando no lugar uma dormência. A mágoa e total entendimento só vieram quando os orbes azuis identificaram a seringa na mão de Kisho.
Sua visão turvou rápido demais e seu corpo vacilou, mas antes de perder os sentidos completamente, vislumbrou algo que trouxe um pânico intenso, a sombra de alguém se aproximando do menino. Um adulto, com certeza. E o terror só causou desespero quando foi capaz de ver a mão pálida abraçando o ombro de Kisho e o rosto inclinando-se para o ouvido do menor e sussurrando, antes da língua ousada acariciar a orelha sinuosamente.
— Perfeito, Kisho-kun. Não poderia esperar menos de um Uchiha como você.
oOo
Continua...
Notas da Blanxe:
Luna, apesar de não ter sido postado na data de seu aniversário, espero que você goste dessa atualização ^_^
A todos que acompanham minhas fics, quero avisar que estou retornando a escrita aos poucos e que pretendo finalizar todos os projetos que estão em aberto. Só peço um pouquinho mais de paciência com as atualizações.
