La Cantiga Del Corro De Amor

Uma das maiores belezas do mundo é que ele caminha circularmente: tudo que vai embora, volta para nós em algum momento. Aquele era o principio que guiava a vida da pequena Ginny, assim como de todos em volta dela. Nascida em uma família de druidas, dificilmente poderia ter chegado sequer ao quinto aniversário antes de saber sobre essas coisas. Seu avô vinha cantar sobre as antigas histórias, o que era sempre bem vindo para quebrar a monotonia na qual viviam.

Porque suas vidas também eram tão rotineiras quanto um círculo, sem grandes novidades. Eles plantavam e colhiam, sempre nas mesmas épocas. Eles contavam o tempo pelos movimentos das estrelas e pelas fases da lua, sabendo quando nasceria o próximo bezerro e quando seria a melhor época para retirar as últimas maçãs das árvores. Nunca mudava, sua vida era fácil e previsível.

E um tanto chata.

Claro, eventualmente surgiam questões mais interessantes, como a disputa de território entre outros fazendeiros, a disputa dos melhores potros de uma cruza de cavalos de diferentes donos, e todas as outras questões legais nas quais o seu pai, como um druida, era consultado. Ele, afinal, sabia de cabeça toda a lei, e conhecia toda a extensão de terras entre Rhodi e Neri, entre Neri e Asta, ente Asta e Nova Cartago.

Mesmo isso não era o suficiente para sua mente inquisitiva, seus olhos curiosos e sua cabeça cheia de perguntas. Parecia a garota que havia muito mais para saber e comentar do que o pouco que permitia entreouvir, e às vezes quando estava sozinha, coisas estranhas aconteciam. O vento nas árvores transformava-se em um sussurro, contando-lhe coisas sobre o passado e o futuro; as águas do lago viravam um espelho, e mostravam-lhe como fazer tantas coisas. Segredos que mal podia dividir sem que alguém a repreendesse.

Ginny tinha um sonho.

Não daqueles que se tem a noite, mas uma esperança. Sabia que não era provável, que era valiosa demais como única filha para não ser usada em uma aliança de casamento interessante, mas não a impedia de sonhar.

Sonhava com uma casa entre a floresta e o lago, solitária e perdida, onde aprenderia mais sobre as coisas que lhe escondiam. Uma casa onde mulheres reunidas poderiam estudar sobre os deuses e encantamentos, sobre as estrelas e os fluxos do universo que se repetiam nelas.

Os mistérios que se insinuavam em sua mente.

Tudo tinha piorado desde que seu irmão casara. Sua cunhada tinha poucos atrativos segundo os padrões comuns, mas era mais inteligente que a maior parte dos homens. Ela estudara, um dia, sobre as plantas e as doenças, sobre as curas e os animais, e podia consertar um guerreiro ferido tão bem quanto um druida.

A garota invejava os conhecimentos de Hermione e desejava tê-los para si. Ela viera de uma das cidades dos Helenos, mas pouco falava sobre o local. Amava o marido e ajudava em todas as coisas, mas recusava-se a ensinar Ginny para que não irritasse seus sogros que jamais aprovariam aquilo.

Ginny era um vestido de noiva sendo bordado aos poucos.

Não que fosse contrária ao casamento, longe disso. Adoraria ter sua casa, seus filhos, e também pensava muito nisto; mas sentia que deveria haver mais no mundo. E conforme os anos foram passando, mais e mais ela se interessava por estas 'outras coisas' que pareciam entrar e sair de foco dependendo da lua.

E quando ninguém estava vendo, ela fugia de casa durante a noite, para ouvir os sons escondidos pela escuridão, olhar o céu e tentar discernir seu significado. Na verdade, seu pai sabia daquelas escapadas, mas amava-a tanto que não ousava reprimi-la. Sabia que sua filha gostaria de saber mais, e se tivesse outras, deixá-la-ia seguir sua vocação.

Mas esta era sua única jóia.

Os anos foram passando, e Ginny foi crescendo e tornando-se cada vez mais interessada em conhecer mais da vida do pouco que via naquela casa. Cada vez esperava mais pelas feiras que marcavam os pontos importantes do ano e pelos rituais que sempre as acompanhavam. Seus olhos prendiam-se naqueles que previam o futuro e oficiavam sacrifícios com adoração.

E foi em um destes festivais que ela o encontrou pela primeira vez. Ele tinha cabelos claros como a maior parte dos celtas, mas havia algo em seu rosto que se distinguia no meio dos outros. Era magro demais, fraco demais, pouco parecido com os guerreiros que protegiam a Ibéria. Seus olhos não brilhavam em direção aos sacerdotes.

Ele olhava para ela.

Pela primeira vez Ginny notou que tinha crescido, e que até poderia ser considerada bonita. Tinha cabelos longos e soltos, contrastando com suas vestes de um amarelo forte, com as quais chamava o sol que se escondera por tanto tempo para voltar por meio deles.

Os olhos dele exploravam-na de forma que nunca antes percebera, como se visse não apenas o seu rosto e seus olhos, mas toda sua alma junto com isto. Ao olhar pare ele, Ginny sentia-se ao mesmo tempo estranhamente desnuda e completamente confortável.

Como se o reencontrasse após mais um giro da roda.

Não se falaram na longa noite escura, durante a qual todos contavam histórias e cantavam músicas, esperando o momento que a tocha seria trazida do alto do lugar sagrado e o fogo novo acenderia a fogueira e iluminaria todos, afastando o frio que teimava em penetrar por dentro de suas roupas.

Ela ouviu quando ele cantou, e seu sotaque deixava claro que ele viera de alguma cidade colonial. Uma música mais delicada do que as que costumavam usar, um domínio intenso da voz, que fazia com que ela se sentisse aquecida por dentro enquanto ele cantava sobre o herói que vagava chorando pela perda do amor da deusa que o deixara.

A música na voz dele tocava dentro de sua alma.

Saiu daquele festival imensamente perturbada. Não conseguia pensar nem mais nos mistérios nem em sua vida futura, só se perguntar se o veria novamente. Sua intuição dizia que sim, mas sua cabeça duvidava; ele nunca tinha aparecido antes, porque deveria achar que voltaria?E porque ser tão tola ao ponto de se importar?

Mas sabia, também, que ele despertara sua feminilidade, e nunca mais poderia voltar a sentir-se tão criança quanto fora antes de ser tocada por seu olhar. Agora, fugia durante a noite para olhar as estrelas e contar as semanas até a festa do leite e quem sabe – quem sabe – vê-lo novamente.

A esperança a fez florescer.

Naquela festa ela foi chamada para representar a donzela, e em sua cabeça foi posta uma coroa de velas, todas acesas. Ginny mal podia enxergar, mas com algum sentido extra sabia que ele estava entre a multidão reunida. Muitos falaram sobre sua beleza desta vez, mas não se importava.

Vestida de branco e coroada de luzes, ela caminhou até ele, e levantou as mãos no gesto comum de benção.

"Só mesmo os deuses poderiam me dar benção maior do que vê-la de novo" ele sussurrou, e ela sentiu sua pele arrepiar. Os olhos dele eram a única coisa visível na claridade intensa, e ela soube que tinha sido um do outro desde o começo do mundo – e o seriam até o fim.

Mas quando a coroa foi apagada, ele não estava mais lá.

Não precisou, desta vez, contar nas estrelas e na lua o fluxo do tempo. Todo seu corpo clamava e implorava pela festa das fogueiras, quando todo o país se iluminaria, e de cada topo de montanha poder-se-ia ver a próxima fogueira de benção, até o fim do mundo.

Ela sabia que seria seu primeiro festival de verdade, e implorava para que não demorasse, embora o tempo não passasse nem mais rápido nem mais devagar por conta de suas súplicas – seguia como sempre.

Quando as fogueiras se acenderam, seu coração chegou a crepitar.

Depois, ao tentar lembrar do que pensara, sabia que não poderia explicar. Seus pés andaram para longe, para o meio do bosque sagrado, seu corpo desesperadamente atraído pelos ruídos misteriosos dos homens e mulheres que faziam amor entre as árvores.

Não se importou se a procurariam, e nem se perguntou sobre os riscos, apenas embrenhou-se pela mata, sem poder ver nenhum dos casais, mas ouvindo-os e sentido-os em sua pele, em um grito silencioso de desespero para que fizesse o mesmo.

Não ficou surpresa ao encontrar o rapaz na sua volta.

Se falaram, ela não poderia se lembrar. Talvez o tivessem feito sem usar palavras, pois certamente os olhares eram intensos o suficiente para isso. Eles apenas caminharam um na direção do outro até encontrarem-se, no meio das árvores que erguiam-se até esconder o céu estrelado.

E foi o bosque sagrado quem assistiu, escondeu e aprovou a união de ambos, suas vozes se misturando a centenas de outras, todas no mesmo ato de adoração. Não havia mais consciência, não havia mais Ginny, só havia aquela maravilhosa perdição nos braços de outrem.

Ele sussurrou seu nome, e ela o gravou no coração: Draco.

As manhãs sempre acabam com os transes provocados pelas fogueiras, e antes do sol nascer, já estava dentro de sua tenda, onde deveria estar. E embora pudesse esperar pelo próximo encontro, já não tinha certeza de que ele viria; talvez carregasse em si mesma o propósito daquela vida.

E, sem dúvidas, antes que a colheita chegasse, ficou claro para todos que a mágica fértil tinha funcionado muito bem com ela. Outros, talvez, tivessem ficado irados com tal ousadia da menina, mas seu pai aceitou alegremente, lembrando que todos os filhos da fogueira eram filhos do Deus Cornudo, e portanto, uma dádiva.

E a roda girou, trazendo um bebê para seus braços.

Sua mãe, no entanto, não estava tão satisfeita e convenceu seu pai a casá-la logo antes que tornasse a arranjar um filho nas fogueiras. Ginny resignou-se, sabendo que seus sonhos românticos tinham acabado, e esperando pelo melhor. E enquanto entregava seu filho para uma ama de leite, alegrou-se que ele ao menos estaria vivo.

Foi na ocasião do festival seguinte que seu noivado foi anunciado, para a alegria de todos que participavam. Sua mãe a vestiu com esmero, e aconselhou-a a ficar quieta, e conforme era levada para o homem vestido como um jovem druida, com a cabeça tonsurada, seu coração batia com força pedindo-a para fugir ou lutar, embora soubesse que o melhor que podia esperar era um marido tolerante.

O jovem virou-se, e ela ficou sem ar.

Draco.

Seriam felizes para sempre, ao menos desta vez, até que a roda voltasse a girar.