5. Alforria.

Kibum abriu os olhos. A manhã era bela, o sol entrava pela janela do quarto do hospital deixando-o ainda mais branco do que de costume. Sentou na cama, e viu a porta do próprio quarto aberta; logo Jonghyun estava entrando por ela e parando de repente ao encontrar o garoto desperto.

- Bom dia! - disse enérgico para o menor, se aproximando do leito e esfregando as mãos frias - Que bom que você acordou, vou aproveitar para examinar você hoje.

- Bom dia - Kibum respondeu em um tom completamente contrário ao de Jonghyun. - O que você vai...?

- Aquele seu ferimento no abdome... Precisamos trocar os curativos e ver como anda a cicatrização. - o médico sorriu ternamente depois de explicar. - Sente na beira da cama e tire a blusa.

O mais novo obedeceu preguiçosamente. Arrastou o corpo sobre o colchão macio, parando sentado em frente ao médico. Segurou as barras da própria blusa, puxando para cima, revelando o corpo magro, porém definido. Passava em sua cintura um monte de ataduras que ocultavam um enorme e profundo corte, que Kibum sequer queria saber como havia parado ali na noite do acidente. Além da faixa, a pele branca ainda era maculada por hematomas pequenos e arranhões.

Jonghyun não deixou de notar o quanto o mesmo era bonito apesar de machucado.

Aproximou-se do outro para tirar a faixa que circundava sua cintura. O toque da mão fria de Jonghyun na pele quente de Kibum fez com que o mais novo se arrepiasse e até mesmo enrijecesse – Desculpe – o mais velho comentou, rindo de leve com a reação do outro, que corara.

Puxou a faixa, revelando uma cicatriz mediana. Jonghyun arregalou os olhos – Isto aqui está melhor do que eu esperava. – comentou surpreso. Tocou e acompanhou a linha do ferimento novamente. Isso é possível? Pensou estupefato. – Na verdade, isso já está praticamente cicatrizado... E uma semana atrás parecia que iria jorrar sangue durante meses...

- Isso significa que eu já posso ir embora? – perguntou o paciente, encarando a cicatriz sem emoção alguma.

- Se você quiser, amanhã mesmo já recebe alta. – Jonghyun respondeu. – Você irá para a casa de algum parente ou...

- Não, eu quero ir para a minha casa.

Jonghyun hesitou. – Você não acha que pode acabar sendo...

Kibum lançou um olhar penetrante para o médico. Céus, não é como se ele não soubesse o que estava fazendo! – Eu sei o que eu quero, Jonghyun. – disse, calmo, olhando diretamente para os olhos do mais velho. – Eu quero ir para a minha casa.

O outro suspirou, derrotado. Assentiu para Kibum, e olhou para a marca novamente – Nem será preciso colocar outra faixa nisso... – comentou mais para si mesmo do que para o outro.

Recolheu as faixas velhas, e já estava para sair do quarto. – Jonghyun... – ouviu a voz do garoto a lhe chamar novamente. Virou-se para ele e esperou que falasse – Hoje nós vamos... Ver os meus pais, certo?

O mais velho sorriu terno a ele – Se quiser, podemos ir agora... – Jonghyun olhou para a janela – O dia está bom, e esse sol vai fazer bem a você. Tudo bem?

Kibum olhou para a janela também, por um curto momento. Depois, de volta para Jonghyun – Tudo bem. – disse, e deixou até mesmo seus lábios sorrirem de leve.

Roupas comuns e calçados já estavam sobre o corpo do enfermo, agora em pé defronte à janela de seu quarto. Olhava para o mundo movimentado e ensolarado alguns andares abaixo e à sua frente. Parecia um dia maravilhoso a se passar em um parque com uma família grande e harmoniosa.

Ouvira três batidas na porta e, logo após, a mesma se abrindo com seu já conhecido e até mesmo aconchegante ranger. Voltou-se à porta aberta, encontrando um Jonghyun com uma expressão aparentemente tranquila em seu rosto.

- Pronto, Kibum? – o médico perguntou ao seu paciente.

O garoto virou novamente para a janela, apenas o rosto, admirando o pouco que enxergava das ruas à altura daquele prédio. Respirou fundo. Tudo aquilo parecia tanto com uma jornada curta, mas extrema e assustadoramente difícil.

Quando olhou para Jonghyun novamente, seu olhar parecia mais pesado. Apenas assentiu ao médico com a cabeça antes de caminhar, mancando quase imperceptivelmente pelo desconforto que ainda sentia – e, talvez, sentisse durante muito tempo em seu corpo ferido. Quando chegou à porta, o médico o parou e começou a conduzir Kibum até uma cadeira de rodas acostada à parede do corredor do hospital.

- Eu queria caminhar sozinho. – o garoto retrucou, estancando em seu lugar.

- Por favor, ande na cadeira pelo menos dentro do hospital. – o olhar do médico chegava a ser suplicante à teimosia que Kibum tinha às vezes. – Deixo você caminhar até o carro, e depois no cemitério. Você ainda está fraco, Kibum, e irá cansar rápido principalmente por não fazer esse esforço há algum tempo.

O garoto ainda ficou um tempo apenas a encarar a cadeira de rodas diante de si. Relutando, olhou novamente para Jonghyun com uma expressão carregada de uma centelha de ressentimento. Todavia, seu lado mais sensato concordava que daquela maneira seria mais cômodo para ele mesmo também.

Acabou sentando à cadeira e se deixando ser conduzido por Jonghyun por entre os grandes corredores do hospital.

Kibum não havia, praticamente, deixado o quarto desprovido de cores durante sua estada ali. E, às vezes que deixou, era para correr apressadamente em direção à emergência, em completo desespero, sem dar devida atenção a nada mais do que o caminho que deveria fazer. Observar o que acontecia diante de si era uma grande novidade.

Havia tanta gente!

De repente era como se visse tudo aquilo em câmera lenta. Pessoas ilesas, ao menos fisicamente falando, mas que o semblante não deixava enganar; alguns choravam aos prantos, outros estavam preocupados, outros mais calmos, muitos segurando as mãos de pessoas ao seu lado. Era uma diversidade de rostos e tipos. Médicos, algumas vezes macas com pacientes sendo levadas às pressas, e terceiros que acompanhavam as macas com as mesmas expressões de quem esperava acostado às paredes.

Cada vez mais, aquilo fazia com que Kibum pensasse...

- Quer levantar agora? – Jonghyun cortou os pensamentos do garoto, que se flagrou parado perto de uma grande porta de vidro que dava às ruas. – Já vamos sair.

O médico se postou ao lado de Kibum tencionando ajudar o garoto a erguer o próprio corpo da cadeira. Mas ele acenou negativamente com a cabeça – Eu consigo sozinho, não se preocupe. – Disse, já segurando os braços do objeto para ter forças a levantar.

Logo já estava de pé sem grandes dificuldades. Jonghyun sorriu satisfeito para o garoto, que retribuiu sem tanta empolgação. Colocou os braços sobre o ombro do menor, aparentemente despreocupado, e ambos saíram à rua.

Quando Kibum atravessara a porta, algumas diversas reações e sentidos diferentes se manifestaram. A brisa fresca atingiu em cheio seu corpo, algo que ele não sentia havia um tempo e que lhe provocou arrepios. Mas o sol brilhava intensamente no céu limpo e sem nuvens, aquecendo seu corpo e lhe dando energia.

Respirou o ar natural da rua, fechando os olhos...

Não imaginava, de maneira alguma, que sair daquele hospital lhe faria tão bem.

- Matando a saudade de dias bonitos como esse? – Jonghyun ao todo tempo esteve observando o garoto, com aquele mesmo sorriso satisfeito de antes.

- Acho que sim – o garoto murmurou em resposta, ainda de olhos fechados. Respirou fundo, sentindo o ar entrando por suas narinas e seguindo o rumo em seu corpo. Depois, soltou o ar, que se mesclou, quente à brisa fria.

Abriu os olhos, observando as folhas das árvores, havia muitas caídas, mas tomavam conta dos galhos sadios. E a grama dos terrenos em volta do agrupamento de prédios daquele hospital. Mesmo que fosse do lado externo, ainda estava naqueles terrenos, e desejava mais do que tudo sair um pouco daquele clima.

E ver seus pais.

Apenas voltou a olhar para Jonghyun, que entendeu e se aproximou do garoto. Passou o braço calmamente pelos ombros do menor e passou a conduzi-lo em direção a um estacionamento – Vamos de carro até lá – explicou – Não é tão perto assim daqui.

Caminharam os dois, o tempo todo em silêncio. Seus olhos, no entanto, tinham em cada um, um brilho diferente por expectativas; Kibum estava prestes a fazer algo que com certeza lhe traria muita dor, mas ao mesmo tempo, seria bom. E Jonghyun... Estava à espera da reação do garoto, embora já tivesse uma ideia do quão padecente poderia se apresentar.

Logo, já se aproximavam de um sofisticado carro preto, e Jonghyun soltou os ombros de Kibum para abrir as portas do mesmo. Fez sinal para que o menor entrasse, e o outro o fez. E, então, já estavam a caminho de seu destino.

Kibum apenas prestava atenção nas ruas passando. No sol batendo contra os prédios. Na brisa que vinha de fora e penetrava pelas frestas abertas no carro de Jonghyun. E prestava atenção nos outros carros. Era estranha e até mesmo assustadora a sensação de estar dentro de um carro desde aquele dia...

Mordeu os lábios, recriminando-se. Mas ao mesmo tempo com pena de si mesmo.

Inegável e obviamente sentia falta de sua família e temia por Sooyoung. E também sofria por Sooyoung. E pela perda definitiva de seus pais – que só estava prestes a se confirmar, ao fim daquele trajeto pelas ruas de Seoul. Não podia evitar que quaisquer pensamentos acabassem direcionados a ultima noite deles juntos.

Jonghyun se manteve quieto e aparentemente atento apenas à direção, mas a mudança de postura de Kibum não lhe passou despercebida. Todavia, não sentiu que precisasse falar alguma coisa para o garoto. Pelo menos, não naquele momento.

A curta viagem seguiria em silêncio por cerca de mais quinze minutos, até que parassem em frente a um longo terreno amarrotado de crucifixos, altares e flores. – Chegamos. – Jonghyun disse enquanto estacionava o carro à calçada. – Embora você já deva ter deduzido isso.

Saiu do carro, esperando que Kibum fizesse o mesmo. No entanto, ele não só havia permanecido no carro, como não olhava para o cemitério.

O menor encarava as próprias mãos. Um frio subia a seu estômago; ele não sabia exatamente o que sentia. Não estava em prantos, pelo menos não mais do que o que sempre parecera mostrar desde o acidente. Mas sentia-se receoso do que estava fazendo. Do que havia escolhido fazer. E se for demais para mim? Pensava. E se em vez de me sentir com eles... Eu sentir como se estivesse me despedindo? Ainda mais distante?

- Eles sempre estarão aqui quando você quiser vir – Jonghyun abriu a porta do carro, e estendeu a mão para Kibum, sorrindo docemente.

Ele bem sabia o que se passava na cabeça do menor naquele momento.

O garoto mirou a mão do médico e depois os seus olhos. E, então, o sorriso. Branco, bonito, calmo, paciente e compreensivo. Ao mesmo tempo, um sorriso de cumplicidade. Era como se dissesse silenciosamente para Kibum "Eu estarei com você."

Kibum respirou fundo, e segurou com força a mão que o convidava a seguir em frente.

Saiu do carro, parando de pé ao lado de Jonghyun e observando os portões que o levariam para o interior do cemitério. Deu alguns passos à frente, sendo acompanhado pelo médico. Estava na hora de ver seus pais.

- Vamos logo – murmurou Kibum, baixinho, ao outro. Passou a caminhar mais rápido, adentrando o lugar e caminhando o mais longe possível daqueles túmulos e lápides em mármore.

Era estranho. A sensação de entrar em um cemitério e se ver rodeado de pessoas que talvez houvessem morrido décadas antes – a julgar pelo aspecto em que estavam algumas das lápides. O ar parecia mais pesado, ao mesmo tempo em que... Mais leve? Não sabia; mas Kibum resolvera apelidar aquilo consigo mesmo, de "brisa da morte".

Logo, ambos se viam quase ao centro do cemitério, e Kibum deu-se conta de que sequer sabia para que lado ele devia ir. Olhou para Jonghyun como se pedisse socorro.

Se não estivessem em um local tão macabro e o clima não estivesse tão estranho, Jonghyun teria rido da expressão presente no rosto do menor. Passou o braço pelos ombros de Kibum novamente, e dessa vez começou a guiá-lo por um hiato nas lápides, à direita – Se eu não me engano, era por aqui – explicou, conduzindo a ambos pelo caminho estreito.

De fato, cerca de meio minuto depois, seria comprovado que Jonghyun estava certo.

Eram duas lápides iguais, simples e bem próximas, sendo quase uma só. Estavam gravados no mármore os nomes de seus pais, ano de nascimento e, ao lado, aquele mesmo ano em que eles haviam deixado Kibum.

Era impossível para o garoto impedir seu estômago de embrulhar diante daquela imagem. Ajoelhou-se diante das duas lápides, observando-as fixamente. O coração parecia até mesmo ter congelado. Congelado ao ponto de que Kibum não caía em prantos, apenas... Sentia. Sentia a necessidade de expor o que parecia dar um nó em sua cabeça.

As mãos, meio trêmulas, tocaram o mármore frio. Engoliu em seco – Às vezes parece que eu não vou conseguir dar rumo à minha vida – a voz saía meio rouca. – Eu queria tanto vocês de volta... A Soo está fraca, e eu posso perdê-la a qualquer momento... Eu não... Eu não quero que isso aconteça! Mas só vocês conseguiriam cuidar dela e deixá-la segura nesse momento.

"Mãe, eu estou me sentindo completamente perdido. Pai... Eu sinto que ainda tenho vida, mas não é como se conseguisse ter controle dela. Eu não sei mais. Por favor, me ajudem. Apesar de tudo... Eu percebi que ainda sinto vontade de viver.

Apesar de tudo... Eu percebi que ainda sinto vontade de viver.

Jonghyun ouvira o pequeno monólogo do garoto em silêncio, ao lado dele. Não sabia o que dizer. Nem o que estava se passando em seu próprio peito naquele momento.

Até que Kibum levantou e encarou o médico, com olhos levemente marejados – Vamos embora logo. – murmurou fraco – Eu não vou conseguir mais ficar por aqui.

- Tão rápido assim? – Jonghyun perguntou, até mesmo um pouco preocupado.

Por que não vai logo? Kibum pensava desesperado. Fechou os olhos, tentou se conter, mas não adiantava. Traiu a si mesmo deixando uma lágrima escorrer pelo seu rosto – Eu estou cansado... Eu quero pensar da maneira que falei com os meus pais. – confessou – E... Ficar aqui não está me ajudando agora.

O mais velho ficou observando a lágrima fujona. Como já parecia até mesmo se tornar comum, levou a própria mão ao rosto do menor para secar aquela lágrima que maculava seu rosto.

Quando o menor abriu os olhos novamente para encarar o médico, este lhe sorriu docemente.

- Pelo menos você tomou a decisão correta.

Agora ele estava em pé, diante da cama do quarto do hospital que agora podia ser vista arrumada. Olhou para si mesmo, e para as roupas normais que vestia. Finalmente, depois daquele tempo, estava vestindo algo que não fosse tecido fino e branco do pijama do hospital.

As vestes do dia do acidente, porque não havia outra roupa por lá além daquela. Aquelas roupas pareciam pesar sobre seu corpo. Não só por ser algo mais elaborado e estar vestindo mais peças de roupas... Mas parecia remeter a lembranças. Dessa vez, não do acidente.

E sim da vida normal que levava antes de parar entre as paredes do hospital.

As roupas extravagantes que gostava de vestir quando saía na calada da noite com seus amigos próximos, os dias que passava ajudando a irmã nos desenhos que fazia para a escola, ou então quando a vestia e arrumava seus cabelos para levá-la, todas as manhãs, para a mesma. Quando perguntava para os seus pais como havia sido o trabalho no dia, e quando simplesmente passava um tempo ouvindo as músicas que gostava jogado à cama, encarando o teto sem graça de seu quarto.

Haveria maneira de ter aquela vida de volta? Nem mesmo ele sabia. Mas agora era o momento de colocar os pés novamente no asfalto cinzento das ruas. Voltar aos estudos... Pensou pesaroso. Aquele retorno era, para ele, a mesma coisa que agir como se a sua vida não houvesse virado de cabeça para baixo. Agir como se nada tivesse acontecido.

Sangue frio.

Infelizmente ele não conseguia ter esse tipo de sangue.

Seu coração gritava até mesmo mais alto do que sua voz quando exaltada. Queria tudo aquilo de volta. Perdera quase todas as posses que uma pessoa não pode reaver em sua vida.

E, agora, via-se caminhando para fora do quarto do hospital, passando pelas mesmas pessoas que esperavam pela mesma coisa, chorando pelos mesmos motivos que sempre choraram enquanto Kibum esteve – e, quem sabe, até quando nunca imaginou que estaria ali.

Tentou ao máximo se manter alheio à tristeza que assolava aqueles em sua volta. Já bastava a sua própria e infinita tristeza. E já bastava o tanto de coisas que encarar as pessoas lhe fazia refletir sobre.

Quando se viu novamente parado perante a porta de entrada daquele hospital. Seu coração pareceu aquecer, bater mais forte e, ao mesmo tempo, doer. Hesitou.

E então se lembrou de suas próprias palavras para o túmulo de seus pais: Apesar de tudo... Eu percebi que ainda sinto vontade de viver. Ele tinha? Na verdade, estava tentando ter.

Por eles. E pela sua irmã.

Apenas por eles.

E, apenas por eles, passou pela porta do hospital e sentiu o sol envolver seu corpo em luz e calor. Aliás, os dias estavam tão belos ultimamente...

Perguntava-se se aquilo conseguiria lhe ajudar a vencer a difícil fase que enfrentaria a partir daquele momento.