Coragem

Não havia se passado tanto tempo assim desde que dormira nos braços de Soluço. Acordou depois de um pesadelo em que a guerra se concretizava, sabia que era apenas um pesadelo, mas não conseguiu deixar de sentir que a realidade se aproximava perigosamente dele.

Encarou o rosto do viking ao seu lado, sentiu uma grande calma invadindo seu corpo, o calor que emanava do rapaz a tranquilizava e a única coisa que realmente queria fazer era continuar ali, nos braços dele.

Balançou levemente a cabeça e se perguntou o que faria. Continuaria ali, esperaria o rapaz acordar e, quem sabe, fugir para terras longínquas onde ninguém os conhece e começar uma vida nova ao lado dele, ou encararia de frente o problema que se aproximava rapidamente, tentando encontrar uma solução sem que precisassem se matar para isso?

Sabia muito bem que caso Soluço acordasse não teria forças para deixar o lado do rapaz, que faria qualquer coisa que ele sugerisse, que enfrentaria o mundo para permanecer ao seu lado. Entretanto, sabia que não podia ser assim. Era a princesa da Escócia, precisava governar o país quando chegasse o momento, precisava encontrar uma resposta que não envolvesse fugas.

Respirando fundo e com o maior cuidado possível, levantou-se e se vestiu, tomando todo o cuidado para que não acordasse o viking. Quando terminou de se arrumar, pegou uma de suas flechas, amarrou uma fita verde de seu vestido nela e a deixou ao lado do rapaz, esperando que ele entendesse.

Banguela a observava como se a acusasse por abandonar seu treinador. A garota sorriu e acariciou seu focinho.

- Cuide dele, Banguela.

E depositou um beijo nos lábios do rapaz antes de montar e partir.

Seu caminho, não tão longo quanto gostaria, até o castelo era solitário. E na solidão que a envolvia permitiu que seus pensamentos tentassem encontrar uma ordem, uma lógica, uma saída, por assim dizer.

Tinha a certeza de que Aidan não conseguiria manter sua escapada em segredo, não quando seus pais acordassem e procurassem por ela. Decidiu que o melhor a se fazer era voltar para casa – e se assustou com o quanto doía pensar nisso. Balançou a cabeça e continuou seu caminho.

Ao chegar ao castelo, entrou o mais silenciosamente possível pela mesma porta que havia saído com Macintosh. Os guardas não estavam em lugar nenhum, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha, será que algo tinha acontecido enquanto estivera fora? Procurou por sinais de luta, mas não havia nada, apenas um silêncio ensurdecedor a recebeu.

Respirando fundo, deu de ombros e dirigiu Angus à sua baia, notando que Logan estava ali e parecia calmo. Tranquilizada, preparou-se para entrar no castelo, mas foi pega de surpresa por braços que a envolveram. Reprimiu um grito e virou-se rapidamente, soltando-se do abraço e encarando Aidan.

- Você me assustou!

O rapaz sorriu enquanto a encarava e colocou os braços atrás da cabeça.

- Desculpa... Parecia tão desligada que não resisti.

- Imbecil... – não conseguiu deixar de sorrir para o amigo.

Ele tomou sua mão e a puxou até a muralha leste, não faltava muito tempo para o nascer do sol e parecia que o rapaz iria questioná-la sobre sua noite. Não estava pronta para compartilhar o que houve com ele - ou com qualquer outra pessoa -, mas ficou grata pela companhia. Não mais queria ficar sozinha.

- Você voltou cedo, Rida.

Claro que a conversa iria para esse lado. Sentiu o rosto queimando e imaginou se o seu rosto estaria da mesma cor que o cabelo. Se recusava a comentar o que acontecera, ainda mais com Aidan! Ficou alguns instantes calada, apenas encarando o horizonte lentamente se clarear.

- Fiquei com medo de você não voltar, sabia... O que eu diria para os nossos pais caso você tivesse ido embora? – a voz do rapaz tinha um leve toque de tristeza, não conseguiu deixar de imaginar o medo que ele sentiu enquanto se demorava na floresta.

- Eu não podia... Eu não abandonaria você, Aidan, não no meio dessa merda toda. – sorriu e tocou o braço do seu amigo.

O moreno sorriu enquanto encarava o horizonte. Seu sorriso começou a minguar, Merida imaginou que tivesse sido algo que falara.

- Ora, vamos, Aidan. Sabe muito bem que... – e quando seguiu o olhar do jovem, viu o que ele vira. E não acreditou.

O céu estava pontilhado de grandes manchas negras que seguiam diretamente para o castelo DunBroch. Os vikings estavam atacando.

Ficaram por alguns momentos estupefatos, não conseguiam acreditar no que seus olhos viam. A força viking era muito maior do que qualquer um tinha imaginado.

Desceram correndo as escadas, já dando o alarme da aproximação viking. Guardas incrédulos encaravam o céu ao nordeste, incapazes de acreditar na existência dos dragões, vários já se escondiam – tomados pelo desespero – e gritos de alarme eram dados, carregados por um medo paralisante, causando uma cacofonia indescritível.

Os líderes de clãs coordenavam a entrada de suas tropas, enquanto Fergus já organizava a defesa do castelo. Merida e Aidan armaram-se e tomaram seus lugares nas muralhas, Elinor e os trigêmeos, junto com todas as mulheres do castelo, barricaram as portas do salão interior e se armaram. Muitas ali rezavam e choravam, tomadas pelo medo.

O Castelo DunBroch seria capaz de enfrentar um cerco por semanas – ou até mesmo meses com a chegada do inverno – seus estoques de comida deveriam durar, afinal, aprenderam da pior forma que cercos podiam ser terríveis.

Mas a chegada dos dragões mudaria tudo.

A muralha e as paredes do castelo eram feitas da mais dura pedra, mas seu telhado e muitos de seus alicerces eram de madeira pura. Se os dragões tivessem algum poder de fogo teriam sérios problemas.

O coração de Merida batia com força em seu peito, sabia do poder que os dragões possuíam e temia que não conseguissem vencer a batalha, que seus parentes e amigos morressem. Respirou fundo e trocou um olhar com Aidan, Duncan e Wee. Agora que estavam à beira do abismo sabiam que contariam e protegeriam uns aos outros até a morte.

Os dragões se aproximavam cada vez mais. Havia dragões vermelhos com espinhos, azuis com grandes maxilares e até dragões verdes de duas cabeças. Não conseguiu impedir que seus olhos passeassem pelo grande exército viking procurando pelo dragão negro e seu cavaleiro, não o encontrando em lugar nenhum. Não sabia se ficava feliz ou decepcionada.

Uma nuvem negra de corvos seguia os dragões e os circulava, aproximando-se do castelo DunBroch e antecipando uma luta sangrenta. As árvores ao redor do castelo logo tornaram-se cheias dos pássaros negros, seu crocitar enviando arrepios pela espinha dos defensores. Os soldados foram tomados pelo mau agouro que as aves traziam em suas asas.

Seus corpos estavam tomados pelo suor frio da antecipação, encarar seus agressores sobrevoando suas terras fora do alcance de suas flechas deixava-os tensos. A cada ligeira aproximação por parte dos vikings, cada lutador ficava ainda mais tenso. Esperavam que os monstros começassem seu ataque, mas nenhum atacante se aproximava o suficiente.

Aparentemente os vikings estavam apenas provocando os escoceses. Pousaram seus monstros há certa distância do castelo, de tal forma que permaneceram fora do alcance das flechas dos defensores.

- O que diabos eles estão esperando, Rida? – Aidan estava preocupado. Tanto ele quanto Duncan e Wee não eram bons arqueiros, mas não estavam dispostos a deixar Merida ali nas muralhas sozinha.

- Parece que estão procurando alguma coisa... – observava alguns dragões sobrevoarem o castelo rapidamente e franziu o cenho – Já estou me cansando desses dragões passarem por aqui como se fossem imbatíveis.

Os quatro estavam reunidos no topo da muralha oeste, e encaravam as tropas vikings montadas em seus dragões. A cada besta que passava por sobre suas cabeças, as tropas se abaixavam ligeiramente por reflexo, menos os quatro filhos dos clãs. Merida segurava o arco com tanta força que seus dedos já estavam brancos.

- Merida, o que está pensando em fazer? – a voz de Duncan era baixa.

- Eu vou derrubar o próximo cavaleiro que passar por aqui. – sua voz era determinada. Seus amigos apenas deram algum espaço para a garota se preparar.

Enquanto todos os outros arqueiros continuavam se abaixando sempre que um dragão se aproximava, a garota preparou-se para atirar sua flecha. Era um grande dragão vermelho com listras negras, dentes proeminentes e uma cara maligna, seu cavaleiro era atarracado. Respirou fundo e, ao soltar o ar, mirou no cavaleiro, soltando sua flecha.

A flecha voara rapidamente atingindo as costas do rapaz enquanto cavaleiro e dragão se dirigiam para o grupo de vikings desmontados e reunidos em terra. A força de sua flecha o derrubara, não sabia se ele estava vivo ou morto, mas não deixou de sorrir satisfeita em ver que sua flecha o atingira. Seus amigos sorriram e alguns dos arqueiros comemoraram.

A comemoração, porém, não durou muito tempo. Ao perder o seu cavaleiro o dragão rugiu, bravo. Seu corpo inteiro pegou fogo e ele começou a investir contra os defensores. Soltou rajadas de fogo sobre o castelo, o estábulo sendo rapidamente tomado. Vários escoceses já corriam com baldes de água para tentar apagar o fogo e impedi-lo de se alastrar pela área interna das muralhas.

Merida encarava o dragão voando a esmo em cima de sua casa, incapaz de acreditar que havia começado a guerra.

- Se abaixa! – Wee pulou sobre a garota e ambos rolaram pela muralha no momento exato que o dragão passou soltando fogo por ali.

Aidan e Duncan e mais alguns defensores conseguiram se proteger, mas tiveram arqueiros que não tiveram a mesma sorte, sendo queimados vivos. Seus gritos tomaram conta do castelo e todos os escoceses sentiram medo. Medo e determinação; se era guerra que os vikings queriam, era guerra que eles teriam.

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N/A: E, após muito atraso, o sexto capítulo de "Eu te amo, porra!" foi postado!

Sim... eu sei. Estou há algumas semanas atrasada, mas foi tanta coisa que aconteceu... Juro que queria continuar conseguindo postar a cada semana, como estava postando no começo, mas a faculdade apertou, meus cursos estão apertando também, fora que estou fazendo estágios durante os fins de semana. Então... é.

Agradeço de todo coração por vocês continuarem acompanhando, não desistam, essa fic será terminada e eu estou me divertindo muito a escrevendo. Só peço para que tenham paciência – bastante paciência – e, prometo, que a espera valerá a pena.

Obrigada a todos que comentaram e àqueles que não comentaram também.

Espero que esse capítulo esteja bom. Agradecimentos especiais à Tilim, minha linda amiga que betou esse capítulo, e ao Senpai, por ter lido em primeira mão e me questionado o tempo inteiro. Amo vocês!

Beijos da Tifa!