Capítulo 6 – Noivado

Surpreendentemente, não só Mrs. Bennet manteve o segredo do noivado da filha, como conseguiu que Miss Lydia não o revelasse. Provavelmente, o fato de manter segredo ser recompensado com um vestido novo deve ter ajudado. Miss Catherine estava tão feliz com o casamento da irmã e o presente do futuro cunhado, que não só manteve segredo, como ajudou a planejar o café da manhã do casamento e a fazer a lista de convidados.

O casamento de Mary e a viagem de Lizzy, a colocou como musicista obrigatória da família. Mrs. Bennet, embora não gostasse realmente de música, ouvira dizer que era bom para os nervos, por isso fazia questão de ter alguém tocando piano durante a tarde, nos dias em que ficava em casa, enquanto descansava no sofá. Mesmo antes de Elizabeth viajar, Kitty já preenchia ocasionalmente esse papel, pois a irmã costumava visitar os colonos pelo menos duas vezes por semana. Lydia nunca se interessara em aprender a tocar.

A família Bennet moldou a segunda filha mais nova de maneira particularmente estranha. Embora inteligente e agradável, ela se fazia de tola e fútil para tentar agradar a mãe. Havia lido um bom número de livros e ocasionalmente os discutia com Lizzy, mas de maneira geral escondia o fato de gostar de ler. Fascinada ao ouvir a segunda irmã cantar em italiano, conseguiu criar coragem para pedir aulas, mas fez questão que fossem secretas. Dessa mesma maneira aprendeu um pouco de francês e alemão. Se o pai tivesse prestado um pouco de atenção nela, teria encontrado uma mente quase tão admirável quanto o de sua adorada Elizabeth, mas apesar dos esforços dessa última, ele nunca se dera ao trabalho.

Ao chegar ao salão de baile, as moças Bennet foram imediatamente saudadas por vários oficiais e Mr. Wickham, que estava interessado em Miss Elizabeth, embora não tenha recebido grande incentivo, imediatamente começou a conversar com ela.

- Miss Elizabeth, certamente essa primavera em Hertfordshire tem sido menos florida sem sua presença. – Os Bennets devem ter recebido alguma herança. Todas as moças estão com roupas mais finas que o habitual e as jóias de Miss Elizabeth, se forem verdadeiras, devem valer um bom dinheiro.

- Obrigada, Mr. Wickham. Mas creio que minhas irmãs cuidaram bem do jardim de Longbourn em minha ausência. – ele parece Mr. Collins falando!

- Antes que eu me esqueça, – replicou um tanto confuso com a resposta da moça "Será que ela realmente não entendeu o que eu quis dizer?" – a senhorita me concederia a honra das duas primeiras danças?

- Já tenho par para essas danças. E antes que o senhor perca seu tempo, não tenho nenhuma dança disponível para o senhor. E nem minhas irmãs.

- Certamente...

- Se uma delas aceitar dançar com o senhor será imediatamente levada para casa por meu pai e ficará de castigo por um bom tempo.

- Mr. Darcy envenenou seu pai contra mim...

- Mr. Wickham, por favor! Tanto meu pai como eu somos criaturas inteligentes e plenamente capazes de ver a impropriedade da maneira como sua história foi contada e a incoerência entre suas palavras e seus atos. Claro que a bondade de Mr. Darcy em alertar meu pai não atrapalhou.

Nisso, o grupo de Netherfield Park chegou, com Darcy e Bingley dirigindo-se imediatamente na direção das Misses Bennets. Wickham, que estava de costa para a porta, espantou-se com o sorriso luminoso de Elizabeth e seguiu-lhe a direção, surpreendendo-se ainda mais em ver seu inimigo. Antes que ele pudesse insinuar alguma mentira sobre as intenções do moço, Mr. Darcy alcançou a noiva, sorrindo e a cumprimentou com um beijo na mão, antes de tomar-lhe o braço e cumprimentar o restante da família, mal reconhecendo a presença de Wickham.

Enquanto o grupo se dirigia ao balcão principal, o oficial reteve Miss Catherine para falar mal de Darcy.

- Miss Kitty, eu estou preocupado com as intenções de Darcy com sua irmã. Ele não é um homem honrado e...

- Mr. Wickham, o senhor não tem permissão para me chamar pelo meu apelido. E gostaria que não me chamasse pelo nome também. Prefiro que não me dirija a palavra. Com licença. – e apressou-se para alcançar a família.

- Mr. Bennet tem um anúncio a fazer, prestem atenção! – trovejou Sir William.

- Minha filha Elizabeth está noiva de Mr. Darcy e eles se casarão dia 14 de julho.

O anúncio do noivado causou grande surpresa. Miss Bingley, embora previamente avisada, foi quem recebeu a notícia pior. Mrs. Phillips ficou brava com a irmã por guardar segredo e prometeu nunca mais falar com ela cerca de oito vezes naquela noite. Lady Lucas ficou enciumada por Mrs. Bennet ter conseguido casar mais uma de suas filhas, e tão bem. Mas consolava-se com a idéia de que a amizade entre Charlotte e Lizzy colocaria a filha no caminho de homens ricos. Mr. Wickham estava triplamente amargurado, pela felicidade de Mr. Darcy, por não poder desfrutar dos encantos de Elizabeth Bennet e por ter as outras moças Bennet fugindo dele como o diabo da cruz.

Mr. Darcy dançou todas as danças, a maioria delas com Elizabeth. Suas outras parceiras foram suas anfitriãs em Netherfield, as outras três Misses Bennets e Charlotte Lucas.

Mrs. Bennet teve a alegria de vangloriar-se não só do casamento da filha, mas dos dotes recebidos pelas outras três.

- Com dez mil libras de dote, minha Lydia bem que poderia casar-se com um oficial. Mas Mr. Darcy é muito particular e para ter direito ao dinheiro ele tem que aprovar o casamento e não acho que ele goste muito dos oficiais.

- Oh, minha irmã! Nunca mais falarei com você por não ter me contado essas notícias antes. Você acha que eu sou uma fofoqueira e iria espalhar para todo mundo? E Lydia pode fazer um casamento muito melhor que com um simples oficial da milícia. Um capitão ou um coronel das tropas regulares, talvez um lorde.

- Ah! Sinto que vou desmaiar com essa idéia! Imagine receber uma carta de minha filha Lady Lydia! E franqueada! E você viu as jóias que Lizzy ganhou de presente de noivado? Esse colar que ela está usando é o mais simples, apenas um fio de pérolas. Ela também ganhou um conjunto de rubis e diamantes, que é digno de uma rainha. Além dos presentes de Mr. Darcy, ela terá as jóias da família. No dia do casamento ela usará um conjunto de pérolas e diamantes maravilhoso, que foi da mãe de Mr. Darcy. E o anel de noivado, de diamantes, está na família há séculos.

- E esse vestido ela comprou em Londres? Nunca a vi usar algo tão elegante.

- Um tanto simples demais para o meu gosto. O tecido é bonito, mas poderia ter mais rendas e babados. Mas você precisa ir a minha casa amanhã, ver os tecidos que ela nos trouxe de presente. Sedas, musselines finíssimas, lisas, bordadas, brancas, coloridas, rendas... Oh! Provavelmente amanhã nós iremos visitá-la a caminho da modista. Creio que Lizzy trouxe algo para você também.

- Mal posso esperar para ver. Podemos nos encontrar na modista amanhã para que eu as ajude a escolher os modelos. Certamente Lizzy trouxe vários desenhos de Londres.

- Mal tivemos tempo de ver o que ela trouxe. Eu já lhe contei que se Mr. Bennet morrer eu terei um apartamento em Bath? Está no contrato de casamento de Lizzy e Mr. Darcy. Ele é um cavalheiro tão rico, bonito, gentil e atencioso. Agora entendo a implicância de Mr. Bennet com Mr. Wickham. Um homem que fica falando mal de um cavalheiro como Mr. Darcy não pode ser boa coisa.

- Realmente. Creio que nunca mais o convidarei para ir à minha casa. Temos que marcar um jantar em minha casa, em honra aos noivos.

Miss Lydia experimentou uma crescente popularidade no baile, assim como as irmãs. Embora não fosse a mais brilhante das irmãs Bennet, ela entendeu que as atenções recebidas eram devido à alteração de sua situação financeira. E através de sua amizade com Mrs. Forster aprendeu outras duas coisas: que mesmo um coronel não seria capaz de lhe proporcionar um estilo de vida tão elegante quanto desejava e que casar não significa deixar de desfrutar as atenções de outros homens.

Tudo isso somado, levou-a a um plano que não lhe dá mérito algum em matéria de coração, moral ou inteligência: roubar o noivo da irmã. Suas primeiras tentativas de flertar com ele foram recebidas com fria polidez e uma rápida retirada do cavalheiro para o lado de sua noiva. Elizabeth notou o comportamento da irmã e a repreendeu. Lydia nunca se importou com o que as irmãs pensam ou dizem e nem mesmo se deu ao trabalho de fingir prestar atenção à irmã. Mas Elizabeth agora tinha uma poderosa arma para puni-la: os tecidos que trouxera de Londres.

Uma mudança de tática foi exigida. Interessar-se pelas mesmas coisas que o cavalheiro foi rapidamente descartado, pois seria muito aborrecido. Miss Lydia então decidiu ser encontrada com Mr. Darcy em uma posição comprometedora. Isso não era tão fácil como parecia, pois o cavalheiro sempre que possível estava junto a Elizabeth – grudados como carrapatos, pensou a jovem. E se em alguma ocasião ele não estava com Elizabeth, ele estava com Mr. Bennet, conversando sobre livros e coisas do gênero.

As aulas de equitação de Elizabeth continuaram, duas vezes por semana, e ela foi se acostumando aos poucos com Titânia e perdendo o medo. Miss Darcy sempre os acompanhava.

Cinco dias após o baile, Charles Bingley pediu para cortejar oficialmente Jane Bennet e ela o aceitou. Nesse mesmo dia, os Darcy se mudaram para Pulvis Lodge e os convidados começariam a chegar no dia seguinte, começando pelos condes de Selby, que foram seguidos pelos Elbert e os Highmore. Mrs. Bennet nunca foi tão feliz quanto nesses dias, onde podia comentar sobre os jantares íntimos que dava e sobre os quais participava, em que havia tantos Lordes e Ladies.

Andrew Elbert, conde de Castleton, era o irmão de Violet Fitzwilliam, a condessa de Selby, e havia se casado com a então Lady Regina Highmore, filha do Marquês de Montrose. Seu filho mais velho, também chamado Andrew, era o Visconde de Leinster e havia se casado com a mais velha e mais amável das irmãs Krestel, Julia. Seu segundo filho, Mr. Elbert, herdara do avô materno uma grande propriedade e casara-se com a Honorável Miss Mabel Carteret,1 sem grandes atrativos além de seu dote e posição social. O irmão do conde, General Richard Elbert, estava acompanhado de sua esposa Christina, filha de um conde sueco e seus dois filhos solteiros, Coronel Gustav e Capitão Charles.

Richard Highmore, o atual Marquês de Montrose, casara-se com Grace Fitzwilliam, tia materna de Mr. Darcy, de quem o casal era padrinho. Seu filho mais velho, Daniel, conde de Bedford e era casado com a adorável Marianne Grinshaw. O segundo filho, Lord George, casara-se com Miss Amélia Morton,2 uma moça boazinha, mas sem graça. Os dois mais novos, Lord Roger e Lady Alice, ainda eram solteiros.

Os condes de Britwood, Mr. Tilney, Miss Morland, Lord Thorne e os irmãos Oakwood chegaram no mesmo dia, mas ficaram hospedados em Netherfield. No outro dia chegaram os Grinshaw,3 George, Visconde Tyrone, sua esposa Cecília, cujo pai era o irmão mais velho de Sir Lewis, Visconde Amphtill, e o irmão mais novo Coronel Samuel Grinshaw, que ficaram hospedados em Pulvis.

As moças da região ficaram tontas com tantos novos vizinhos, vários deles solteiros, muitos desses solteiros bonitos e alguns até com títulos. Nem mesmo a milícia era páreo para eles, pois embora tivessem ganhassem em quantidade, perdiam em qualidade e em novidade. E os vestidos e acessórios das senhoras também alimentavam os sonhos delas.

Finalmente aconteceu o encontro de Mr. Tilney e Miss Elizabeth, ansiosamente aguardado por muitos. Eles se deram muito bem, as conversas em que eles participavam eram muito animadas e deliciavam todos os ouvintes. Mas Lizzy preocupou-se com o relacionamento do jovem clérigo com Miss Morland e pediu ao seu noivo para conversar com o amigo sobre o assunto. Henry e Cathy estavam apaixonados, mas seu relacionamento lembrava muito o do casal Bennet, que deveria servir de exemplo e lembrete sobre como não construir um relacionamento. O conselho foi bem recebido e Mr. Tilney explicou que estava ajudando Miss Morland a ampliar seu entendimento do mundo e que, embora ela fosse ocasionalmente tola, normalmente era bastante sensata.

Mr. Darcy convenceu a sogra da importância das caminhadas para a saúde de Miss Elizabeth, bem como da importância da noiva estar saudável no casamento. Seus passeios eram sempre acompanhados de Miss Catherine e Miss Darcy, para o bem da propriedade, e as moças sempre se mantinham discretamente longe, mas à vista, enquanto tornavam-se grandes amigas. Nesses passeios Mr. Darcy atualizava a noiva sobre a correspondência com alguns membros da família e alguns amigos, entre outros assuntos.

- Recebi várias cartas hoje. Uma delas é de um primo meu, Lord Cromer,5 que nos ofereceu sua propriedade em Berkshire para a lua-de-mel. Ele não vive lá, então não seríamos um incômodo. O que você acha?

- Qual é à distância daqui até lá?

- Pouco mais de meio dia de viagem.

- Gosto mais da idéia de ir para lá que para Londres.

- Então escreverei para ele aceitando a proposta. Ele também pediu que o visitássemos depois que estivermos instalados em Pemberley. Ele já tem mais de oitenta anos, nenhum filho e não se dá bem com a sobrinha e os sobrinhos netos, exceto pelo mais velho, especialmente depois que ele casou. Ele aprovou plenamente a escolha de Edward e tenho certeza que ele também gostará muito de você.

- Espero que sim. Onde ele mora?

- Em Essex.

- É bastante fora de nossos planos de viagem, caso contrário poderíamos terminar a lua-de-mel com uma visita. Mas quando viermos para cá de novo, talvez no casamento de Jane, poderemos passar por lá. O que você acha?

- Aprovo plenamente seu plano. E falando em cartas de parentes, meu primo Ferrars escreveu contando sobre o nascimento do primeiro filho, Henry Joseph.

- Eles moram em Devonshire, não é? É muito longe de Skylark para fazermos uma visita durante nossa viagem?

- Não muito, poderíamos passar lá a caminho de Clairborne e ficar por dois ou três dias. Você gostaria realmente de ir?

- Gostaria. E pelo que você me contou da história deles, será bom mostrar algum apoio familiar, mesmo que vocês sejam apenas primos distantes.

- Nós nunca fomos muito próximos, embora ele sempre tenha sido meu favorito em sua família. Fiquei surpreso quando ele me convidou para ser padrinho de casamento, mas eu era o único parente dele a comparecer.

- Pelo menos a esposa dele é digna do sacrifício, pelo que você me falou. Fiquei até com um pouco de ciúmes da forma como você falou dela.

- Ela é uma mulher muito especial, superior à grande maioria. Mas, naturalmente, não chega a seus pés.

- Com tanta bajulação, Fitzwilliam, vou ficar convencida!

- Elogios sinceros nunca são bajulação, Elizabeth. E não posso evitar elogiá-la sempre, pois você tem muitas qualidades e eu as aprecio muito. Terei que contar com a força de seu caráter para mantê-la razoavelmente modesta.

- Creio que esse foi mais um elogio, embora indireto. Prometo tentar me manter modesta.

- Nesse caso, posso comentar como você está linda hoje? Cada vez que eu a vejo você parece mais bonita.

Na véspera do casamento, Miss de Bourgh apareceu de surpresa, tendo fugido de Rosings Park para prestigiar o casamento do primo. Infelizmente, os Collins não a acompanharam. Mary sempre pensara primeiro em seu dever. Como esposa de Mr. Collins, seu dever era obedecê-lo e segui-lo sem questionamento, o que significava obedecer e seguir Lady Catherine de Bourgh. Mrs. Collins chegou a escrever à irmã e ao pai solicitando que o noivado fosse desfeito, mas naturalmente foi ignorada por eles. As cartas de Lady Catherine nesse sentido, para Mr. Darcy, Lord Selby, Lady Montrose e seus outros parentes, não obtiveram outro resultado.

O Cel. Fitzwilliam também chegou na véspera do casamento, oficialmente devido aos seus deveres no exército, mas na realidade para ver a noiva o menos possível. Ele não parara de pensar nela o tempo todo que estivera longe e tinha pouca esperança de que revê-la ajudasse a serenar seus sentimentos. Ao vê-la no jantar em Pulvis Lodge, radiante e olhando apaixonadamente para o noivo, ele percebeu que teria que manter o máximo de distância dos Darcy que pudesse. Embora ele sentisse inveja e ciúmes, sentia-se consolado de sua tristeza pela felicidade que Elizabeth trouxera para Mr. Darcy, Miss Darcy e o resto da família. Servir de padrinho no casamento seria uma tortura, mas o afeto pelo primo não havia diminuído e o coronel não iria desapontá-lo. Ele já tentara curar seu coração partido nos braços de outras mulheres, mas não havia adiantado. Por isso, só via uma saída para sua situação: participar mais ativamente da guerra no continente. Mas essa resolução seria mantida em segredo até que ele tivesse acertado os detalhes de sua viagem.

O casamento foi muito bonito. A igreja estava enfeitada de rosas brancas, jasmins – ambos verdadeiros - e amores-perfeitos brancos e roxos – feitos de seda –, conforme havia sido decidido no dia em que o casal ficara noivo. Mrs. Bennet preferia outra combinação de flores, de preferência com vermelho e flores mais caras, mas não resistiu aos argumentos de Mr. Darcy, que explicou o papel do amor-perfeito em Sonhos de Uma Noite de Verão, a primeira peça que eles assistiram juntos. O padrinho de Mr. Darcy foi seu primo Coronel Fitzwilliam e Elizabeth teve como madrinha Jane. A noiva estava radiante, com os olhos quase dourados e o noivo mais apaixonado que nunca. Os votos foram sinceros e intensos e nem mesmo Miss Bingley pode deixar de notar o afeto mútuo do casal, para sua grande tristeza.

O café da manhã do casamento foi bastante animado e a comida excelente e farta, com a ajuda dos criados de Pulvis. Embora a exuberância de Mrs. Bennet e da filha mais nova, que se consolava do insucesso de seu plano flertando com todos os lordes e oficiais disponíveis, fossem mais do que a maioria dos convidados agüentasse e elas foram evitadas o máximo possível, nenhuma das duas foi capaz de perceber isso e Mr. Bennet as ignorou, como já era seu hábito. No entanto, Lord Selby, Lord Montrose e Lord Tyrone tiveram uma conversa séria com ele, quase no final da festa.

- Mr. Bennet, todos nós estamos felizes com o casamento de Darcy. Sua filha é uma jovem maravilhosa e a felicidade que ela trouxe para meus sobrinhos é mais preciosa que qualquer dote. – começou Lord Selby.

- Estou certo que Mrs. Darcy será uma admirável senhora de Pemberley e fará um grande sucesso na sociedade londrina. – continuou Lord Montrose – Isso é claro, se sua esposa e filha mais nova não estragarem tudo.

- Sinto muito, Mr. Bennet, mas temos que ser diretos. O comportamento das duas tem sido intolerável. Meu irmão é bastante mulherengo e creio que se não fosse pelo respeito que ele tem por nosso primo Darcy, sua filha mais nova já não seria mais uma donzela. E não teria um noivo, certamente.

- Creio que vocês estão exagerando. Lydia é tola e gosta de flertar, mas não vejo grande problema nisso. – disse Mr. Bennet, ofendido com os comentários.

- O comportamento de Miss Lydia com meu irmão E alguns outros convidados, é semelhante a das moças de alguns bordéis de má qualidade em que já fui. Ela estava acariciando a região de seu decote enquanto empinava o busto ao falar com eles, lambia os lábios exageradamente e gemia ao comer doces, levantava a saia para mostrar o tornozelo...

- Imagino que o assunto seja desagradável, mas só queremos o bem dos Darcys. Não queremos que Mrs. Darcy tenha que encontrar com a mãe e a irmã apenas as visitando aqui ou em Pemberley quando não houver outros convidados para que eles não sejam envergonhados por elas. – continuou Lord Montrose.

- Certamente estamos acostumados a comportamento até mais escandaloso em nosso meio. Meu próprio filho coleciona amantes e toda a sociedade sabe, embora ele se comporte de forma discreta em público. Mas ele tem o benefício da posição social e da fortuna. Miss Lydia não tem. Mesmo com a conexão com os Darcys, com o dote que ele criou para ela e sendo filha de um cavalheiro, o fato dela ter parentes no comércio, e eu devo dizer que aprecio muito os Gardiners, a torna mais vulnerável. .

- Eu não vi nada do comportamento que Lord Tyrone mencionou... – começou Mr. Bennet.

- Então eu sugiro que o senhor preste atenção. – cortou Lord Montrose, um tanto exasperado com a atitude, ou falta de, do anfitrião. – Vamos voltar à festa antes que nossas esposas venham nos procurar.

Para o desgosto de Mr. Bennet, bastou ele prestar um pouco de atenção e foi incapaz de ignorar o comportamento da filha mais nova. Mas um fato diminuiu seu desconforto. Miss Bennet olhava para a irmã com uma expressão aturdida e seria fácil passar o problema adiante. Bastou sussurrar com voz ligeiramente severa no ouvido da filha mais velha "Dê um jeito em Lydia antes que ela estrague a festa de Lizzy" e ele não precisou preocupar-se mais com Lydia, nem em como impedi-la de fazer um espetáculo de si mesma.

Os noivos partiram para a lua-de-mel e a maioria dos convidados partiria no dia seguinte. Miss Darcy, acompanhada por Mrs. Annesley, passaria duas semanas em Pulvis Lodge para aproveitar a companhia de Kitty, que depois a acompanharia para Selby Castle, onde os noivos terminariam sua viagem e Lady Selby daria um baile em homenagem ao casal...

Quando Mrs. Bennet soube que a filha favorita havia sido retirada da festa por Jane, ela ficou furiosa e despejou sua ira. Felizmente tal descoberta só ocorreu após os convidados terem ido embora.

- Quem você pensa que é para tratar sua irmã desse jeito? Eu ainda estou viva e sou a única que pode colocá-las de castigo! E castigo para quê?

- Mama, o comportamento de Lydia...

- Não ouse criticar o comportamento de sua irmã! Ela estava tentando encontrar um marido, como é obrigação de todas vocês! Se você não fosse sempre tão tímida, fria e formal, certamente já estaria casada há tempos. Do jeito como você se comporta, acabará como uma velha solteirona. Tenho certeza que Mr. Bingley não teria ido embora no ano passado se você tivesse seguido meus conselhos e flertado pelo menos um pouco com ele. Como ele pode saber que você está interessada nele e esperando por uma proposta? Tentei fazer com que ele ouvisse minha opinião sobre o assunto, mas não foi o suficiente. Espero que você não o deixe escapar dessa vez! – a crueldade do último comentário fez Jane fugir da sala em lágrimas.

- Eu ouvi Miss Bingley comentando com Lady George Highmore sobre o comportamento de Lydia. – disse Kitty calma e friamente, com um certo ar de desinteresse.

- Elas provavelmente estavam com ciúme da popularidade de Lydia.

- Também ouvi Lady Montrose comentando sobre o assunto com a filha. Elas adoram Lizzy e acham incrível que ela possa ser sua filha e irmã de Lydia. Lady Montrose chegou a questionar Lady Lucas sobre a história de nossa família, pensando que você seria a segunda esposa de meu pai.

- Como elas ousam? – indignou-se Lydia, que tivera grande prazer em ver Jane maltratada pela mãe como punição pelo tratamento que recebera.

- Ela é uma Marquesa, filha de um conde e Lady Highmore é filha de um marquês. Elas não só são da mais alta sociedade londrina, como pertencem à nobreza, portanto não devem considerar ousadia criticar o comportamento da filha de um advogado de cidade pequena que casou-se com um cavalheiro com uma pequena propriedade e sem importância social e uma de suas filhas.

- Mas elas parecem gostar tanto de Lizzy! – objetou Mrs. Bennet.

- Lizzy as conquistou com seus próprios méritos. Foram justamente esses méritos, a inteligência, as prendas e as boas maneiras de minha irmã que fizeram as damas pensarem que ela não era sua filha, Mama. – explicou Kitty pacientemente, sem se alterar.

- Eu irei contar esse insulto a Lizzy e a Mr. Darcy! Escreverei para eles hoje mesmo!

- Para quê? Fazê-los brigar por causa dos parentes em plena lua-de-mel? Mr. Darcy é muito leal à família e Lady Montrose além de tia é madrinha dele. O único efeito disso seria diminuir os convites para visitá-los, já que eles não poderiam convidar as duas famílias ao mesmo tempo. Agora, com licença, pretendo descansar um pouco antes do jantar, pois o dia foi muito cansativo.

Mrs. Bennet ficou indignada com as críticas recebidas, mas não culpou Kitty por isso. O tom tranqüilo da filha não pressupunha nenhuma censura, apenas a constatação de fatos, quase como se ela estivesse comentando os vestidos das convidadas, mas menos entusiasmada. Embora o pai a considerasse tola, a moça era esperta demais para atrair a ira da mãe e arriscar sua viagem com Miss Darcy. Tendo sido testemunha de toda a cena, Mr. Bennet demonstrou sua inércia e fraqueza, já habituais, ao não se dar o trabalho de interferir quando a esposa foi cruel com a filha mais velha, além de certa incapacidade intelectual, que o envergonharia bastante, ao não perceber na quarta filha algo mais que uma moça tola fofocando.

Miss Catherine foi para o quarto de Jane consolá-la e elas combinaram de passar o dia seguinte todo em Pulvis Lodge. Embora a mais velha não tivesse concordado no início com a idéia de fugir da mãe o dia todo, porque ela "certamente não teve intenção de magoar" e "estava certa em repreendê-la por ter agido de tal forma sem consultá-la", bastou pensar que a pobre Miss Darcy deveria estar se sentindo solitária e era obrigação delas cuidar do bem-estar da jovem, como forma de dar as boas vindas à família, para fazê-la concordar com o passeio.

Mrs. Bennet e Lydia resolveram ignorar Jane durante o jantar, Mr. Bennet ignorava todas as senhoras, já com saudades da filha favorita, Kitty ignorava os pais e a irmã mais nova o máximo possível.

- Como Meryton vai estar aborrecida agora! Sem a milícia e sem os convidados do casamento, não haverá ninguém interessante por aqui.

- Mesmo assim quero visitar minha irmã Phillips amanhã. Passaremos o dia com ela, relembrando as alegrias de hoje, sem ninguém para nos atrapalhar. – Mrs. Bennet terminou a frase com um olhar venenoso para a filha mais velha.

- Nós três iremos logo cedo, certo Mama?

- Claro, minha querida! Logo depois do café da manhã.

- Papa irá com vocês?

- Claro que não, Kitty! Que bobagem! Estamos falando de mim, Lydia e você.

- Eu não irei. Já havia combinado de passar o dia com Miss Darcy, pois ela irá me ensinar a tocar harpa.

- Que aborrecido! Antes você do que eu. Miss Darcy se veste como uma criança. O vestido dela era caro, com certeza, mas tão modesto, sem decote algum.

- Ela ainda não está fora. Não é costume entre as famílias do círculo social ao qual ela e o irmão pertencem que moças com menos de dezessete anos freqüentem a sociedade.

- Isso é tão aborrecido e tolo! Mama, você não acha que Lord Thorne é maravilhoso?

- Realmente maravilhoso. Bonito, rico e com um título! Ele seria perfeito para você, se não houvesse Lord Graham. Imagine você sendo uma marquesa!

- Mas nenhum deles é militar. Gostaria de me casar com um lorde que fosse militar também...

Mrs. Bennet perdoou Jane alguns dias depois, já que ela estava sendo cortejada por Mr. Bingley. Especialmente depois da decepção por nenhum dos cavalheiros ter voltado para pedir Lydia em casamento. Pelo menos, se tudo desse certo, ela teria três filhas casadas antes do final do ano.

Durante a estadia de Miss Darcy em Pulvis Lodge, ela e Miss Catherine estavam se tornando cada vez mais próximas. Elas passavam horas juntas todos os dias, lendo, tocando música, costurando, bordando, refazendo chapéus e conversando. Miss Lydia não tinha paciência para os tranqüilos encontros entre as moças, Miss Bennet estava ocupada com Mr. Bingley, Mrs. Bennet não os entendia e Mr. Bennet não se importava. Certamente as moças conversavam sobre assuntos frívolos também, como rapazes e moda, mas mais frequentemente os assuntos eram mais sérios, como discussões sobre a situação política da Europa.

O benefício dessa convivência para Miss Catherine era óbvio: ela aprendia música, maneiras mais refinadas, distanciava-se ainda mais da irmã mais nova e tinha alguém que lhe dava atenção e com quem podia ter conversas inteligentes.

Já para Miss Darcy era mais sutil. Ao ser apreciada por quem era e não por seu dinheiro e posição social, além de ter a oportunidade de ensinar alguém sobre seu assunto favorito, música, ela tornou-se mais confiante e mais forte.

1. Personagem de Persuasão, parente distante dos Elliots

2. Personagem de Razão e Sensibilidade. Mrs. Ferrars a queria como nora por causa do dote.

3. Personagens inventados por mim.

4. Personagem inventado por mim.