Lucas, apesar do jeito tímido e da fixação por super heróis e computadores, era uma boa pessoa. Tinha uma conversa agradável e sua presença não era um incômodo, pelo menos não para mim. Desde a briga com Noel, estávamos andando juntos no intervalo, além de fazermos dupla em algumas aulas comuns. Era bom poder ter alguém para passar o tempo, alguém que não me queria morto ou preso. Ele sabia como era ser excluído e ridicularizado, Alisson havia feito isso com ele também. Digo também porque Alisson não fazia piada apenas de nós dois; Alisson manipulava e humilhava o colégio inteiro, excluindo apenas as quatro escravinhas dela.
Como eu odiava aquelas meninas. Elas eram sempre suscetíveis às ideias de Alisson, sempre faziam o que ela mandava sem questionar; abaixavam a cabeça para tudo, mesmo sabendo que o que Ali fazia era errado. Em todos esses anos, apenas uma das escravas que Alisson chamava de amigas foi capaz de desafiá-la: Spencer.
Pelo que ainda me lembro, Spencer estava defendendo um garotinho loiro do primário que Ali havia jogado tinta verde dentro de sua mochila, manchando e estragando todos os cadernos e livros do pobre menino. Foi a discussão mais feia que já vi em Rosewood High, não sei como Spencer não foi morta naquele dia. Pelo menos uma delas ainda tinha opinião própria...
Alisson queria ser a rainha de Roswood High, mas a vida acabou por depô-la de seu trono. Uma das poucas pessoas além de Spencer que tinham tido a coragem de enfrentá-la cara a cara era Jenna. Mas isso teve seu preço, e não foi nada barato. Até hoje minha irmã ainda acredita que pode, com alguma cirurgia ou remédio, voltar a enxergar. Sinceramente, espero que isso nunca aconteça. Se cega ela já me causa muitos problemas, vendo seria pior ainda. Maldita hora em que meu pai foi se casar de novo.
- Tudo bem, Toby?
- Hã... Ah, sim. Tudo ótimo..., disse enquanto voltava meus pensamentos para o mundo real.
- Mesmo?, ele levantou uma sobrancelha ao dar uma mordida em seu sanduíche de queijo.
- Sim. Só estava pensando... Deixa pra lá.
- Hm.
Ele terminou de mastigar e tomou um gole do refrigerante à sua frente.
- Toby!, ouvi alguém dizer às minhas costas.
- Parece que vamos ter companhia, disse Lucas olhando desconfiado para mim.
Virei-me no banco da mesa o máximo que pude e vi Emily correndo em nossa direção, os cabelos esvoaçando levemente em volta da blusa azul claro. Rapidamente virei-me de volta. Talvez se eu a ignorasse, ela desistisse de falar comigo e fosse embora. Infelizmente minhas tentativas não foram bem sucedidas e ela acabou por se sentar na mesa, de frente para Lucas e eu.
- Bom dia, Toby! Bom dia, Lucas!, ela disse.
- Bom dia, respondeu ele. Hmm, acho que tenho alguns programas para atualizar. Vejo vocês depois.
Depois de limpar a boca com um papel, pegou o copo de refrigerante e a bolsa e foi embora, ignorando meus olhares ameaçadores. Ótimo, pensei. O que ela quer dessa vez? Já não se desculpou o suficiente?
- Toby, acho que devemos conversar... Ela fez uma pausa, esperando alguma resposta minha. Vendo que eu não diria nada, coçou a garganta e continuou a falar – Você tem todo o direito de estar bravo comigo pelo que aconteceu no Homecoming. Eu falhei com você. Deveria ter dito às meninas que você iria ao baile comigo. Nada daquilo teria acontecido se eu tivesse feito isso, ela fez uma pausa e desviou o olhar. Soltou um suspiro e voltou a me fitar – Então, como eu sei que você está precisando de ajuda em química, eu gostaria de te convidar para ir estudar comigo amanhã. Eu sei que não é grande coisa em comparação com o que aconteceu naquela noite, mas espero poder me redimir com você.
Ela pareceu prender a respiração por um momento enquanto esperava por uma resposta minha. Seus olhos brilhavam enquanto ela me encarava, mordendo o lábio debaixo, esperançosa. Então era isso? Uma aula de química? Era o máximo que ela conseguia fazer? Como viu que eu não responderia, Emily soltou um longo suspiro e se levantou.
- Vou estar na praça principal, perto da fonte às dez e meia da manhã de sábado. Se decidir alguma coisa, sabe onde e quando me encontrar. Vou estar sozinha, se isso servir de consolo.
Com passos largos, Emily foi embora, entrando novamente no colégio. Aquela proposta parecia não ter nada de mais, mas o Homecoming também não tinha. Respirei fundo e comecei a pensar em todas as possibilidades de dar certo e de dar errado que aquele encontro inesperado poderia oferecer. Por um lado, estaria estudando de graça para a prova de química, matéria que eu estava indo realmente muito mal. Além disso, estaria na companhia de alguém já conhecido e a praça não ficava tão cheia de gente naquele horário, então não seria tão perigoso assim para eu sair em público. Mas por outro lado, aquilo poderia ser uma armação. Suspirei. Eu já não tinha mais nada a perder, então acho que iria arriscar.
[...]
O céu estava estranhamente limpo e azul, sem uma única nuvem nele. O Sol estava radiante, porém não muito quente. De repente uma brisa fresca soprou, fazendo as árvores balançarem preguiçosamente e com ela veio um cheiro de flores doce e disperso. A fonte de água fazia um barulho similar ao de uma cachoeira e aquilo me acalmou de um jeito que nunca achei que seria possível. Em um banco da praça, uma moça de cabelos pretos longos estava sentada lendo, muito concentrada. Me aproximei devagar e toquei em seu ombro. Ela levantou a cabeça lentamente e ao me ver, abriu um largo sorriso.
- Você veio!
