Capítulo 6
Passamos pelo portão da fazenda que estava aberto, o que significava que tínhamos visitas. Fiquei pensando quem poderia ser enquanto nos aproximávamos da casa, torcendo para ser alguém conhecido, mas o Jeep Commander preto que estava estacionado era desconhecido para mim, embora isso não significasse muita coisa.
Paguei a corrida ao motorista e desci do táxi, subindo as escadas de cimento que levavam à minha casa. Lembro que quando era criança, achava essa escadaria enorme. Para mim, naquela época, subir essas escadas era quase como chegar ao céu, de tão alta que eu imaginava ser aquela elevação onde a casa tinha sido construída.
Parei no meio da escada olhando para a casa com um pouco mais de atenção. Parecia... maior. Parecia não. Estava maior. Pelo visto minha mãe ainda não tinha parado com a mania de reforma.
Estava com o pé no último degrau quando a porta da entrada se abriu de súbito e minha mãe apareceu, com um sorriso enorme no rosto, e correu na minha direção.
Joguei minha mochila no chão de grama a tempo de recebê-la em meus braços.
- Quer matar a sua mãe do coração, é? – ela perguntou ainda nos meus braços. – Imagina o que eu pensei quando Cris apareceu aqui, dizendo que o ônibus tinha chegado ontem a noite?
- Cris está aqui? – perguntei, soltando-a e olhando para a casa atrás dela.
- Sim. Não viu o carro dele lá embaixo?
- Desde quando você tem um Jeep, palhaço? – perguntei para o homem que aparecia na porta naquele instante.
- Muitas coisas mudam em dois anos, Hector. – ele sorriu e andou na minha direção, me abraçando também, embora com muito menos delicadeza que a minha mãe. – Bem vindo de volta, primo.
- Obrigado. É bom estar de volta. Onde estão todos?
- Suas irmãs ainda estão dormindo. – minha mãe respondeu, se abaixando para pegar a minha mochila, mas eu fui mas rápido e a peguei, jogando-o sobre um ombro. Ela me encarou com o olhar de censura, mas não falou nada – E seu pai... ah, olha ele aí.
Me voltei para a porta que se abria novamente e me adiantei até ele, abraçando-o também.
- E aí, meu velho, como está?
- Velho una mierda. Olha o respeito, moleque.
Meu bom e velho pai. Não mudava. Totalmente espanhol, mas se recusava a falar alguma palavra do seu idioma nativo, com exceção dos palavrões. Ah, isso ele não se preocupava em falar.
- Como está, pai? – perguntei, me afastando um pouco para poder encará-lo.
- Bem, bem. – ele desconversou – Quero saber é como você está? Por que não veio para casa essa noite?
- Ah, passei a noite em Carmel. – respondi apenas, sem querer entrar em detalhes. – Desci por lá para ver o mar um pouco e ficou muito tarde para continuar o caminho.
- Devia ter me ligado – Cris falou, dando uma tapa no meu ombro – Teria ido te buscar.
- Ora, mas eu não sabia que meu primo estava motorizado agora.
- Pra você ver...
- O que você fez? Assaltou um banco?
- Você nunca teve muita vocação para piadas, Hector.
- Vocês dois, deixem essas conversas sem futuro para depois. – minha mãe falou nos interrompendo e pegou na minha mão, me puxando para dentro de casa. – Acabei de preparar um café da manhã delicioso. Está com fome?
- Faminto. Mas antes eu quero ver as meninas.
- Elas estão dormindo, já disse.
- Isso não são horas de ninguém dormir.
- Hoje é sábado, Jesse.
- Tanto faz. Vou acordá-las.
- Vou contigo. – Cris falou logo, com um sorriso no rosto.
- Não demorem ou a comida vai esfriar. E me dá isso aqui, Jesse – minha mãe falou, já puxando a mochila das minhas costas.
- Mãe, deixa que eu levo.
- Me dá isso, garoto. – ela exigiu, sua expressão começando ficar irritada como quando ela era contrariada – Vou colocar para lavar.
Desisti de insistir e lhe entreguei a mochila, subindo as escadas com meu primo em seguida.
- E aí? Como estão as coisas por aqui?
- Depois te conto. Vamos cavalgar hoje à tarde?
- Com certeza. – isso era algo que eu jamais dispensaria. Sentia muita falta das horas que eu costumava passar jogando conversa fora com Cris enquanto andávamos a cavalo pela propriedade. – E Micaela, como está?
- Bem, chata, mas bem. Vou trazer ela aqui mais tarde.
Continuamos o caminho pelo corredor no primeiro andar, até parar na porta do primeiro quarto que eu sabia ser o de Bia. Até a placa "JD Rocks" era a mesma de quando eu saí de casa, embora agora tivesse também uma foto do ator ao lado.
Entrei devagar sem fazer barulho, mas de repente me senti estranho por entrar assim sem pedir licença. Bia não tinha mais quinze anos. Ela tinha a idade de Suzannah. A idade da garota com quem eu tinha passado uma noite muito prazerosa.
A quem eu queria enganar? Suzannah era uma mulher e não uma garota. Mesmo não sendo maior de idade, ela era uma mulher sim. Completa, perfeita e deliciosa.
E algo na decoração do quarto da minha irmã me fez perceber que ela também tinha se tornado uma mulher. Não sei se no sentido completo da palavra – e esperava mesmo que não –, mas a ausência dos pôsteres de boybands e do rosa que sempre predominara ali dentro era prova viva que a minha irmãzinha não era mais criança.
Apesar do seu rosto angelical parcialmente coberto pelo lençol dizer o contrário. Sua expressão estava tão serena que fiquei com pena de acordá-la. Mas o sentimento logo passou quando meu lado de irmão mais velho e chato falou mais alto.
Sentei ao seu lado no colchão e comecei a cutucá-la no ombro como costumava fazer quando queria irritá-la. Aos poucos ela foi despertando e ainda de olhos fechados ficou tentando tirar meu dedo dali, parecendo não estar completamente acordada ainda.
- Que saco. O que é? – ela reclamou, mas então seus olhos entraram em foco, um sorriso enorme dando lugar à expressão emburrada de antes – Jesse!
Se não estivesse sentado, provavelmente teria caído com a força com que ela se jogou nos meus braços, nós dois caindo juntos no colchão.
- Oi Bia. Sentiu minha falta? – perguntei sem deixar de rir, ainda abraçando-a.
- Nada. Que é isso. Idiota.
- Ei, eu volto e você me xinga? – brinquei, começando a fazer cócegas na sua cintura. – E que tanto cabelo é esse? – perguntei, puxando seus cabelos compridos.
- Deixei crescer. – ela respondeu rindo tanto que quase não dava para entender o que falava, e pulou da cama se esquivando das cócegas. – Oi Cris.
- Oi Bia.
- Você chegou quando? – ela perguntou, tentando arrumar os cabelos agora tão longos que chegavam ao seu quadril.
- Agora mesmo. Vai se trocar que eu quero tomar café da manhã com todas vocês.
- Todo mundo já acordou?
- Não. Você foi a primeira. Vou acordar Mila agora. Vê se não demora.
Saí do seu quarto junto com Cris e fomos para o quarto do lado onde havia uma placa escrito "Mila & JD" dentro de um coração. Esse cara tinha mel ou o quê?
Camila foi a mais difícil de acordar. Ela sempre tivera o sono mais pesado da casa e isso pareceu ficar mais acentuado com o passar dos anos. Gastei quase cinco minutos para tentar fazê-la perceber que tinha alguém tentando acordá-la, e outros três minutos para puxá-la da cama.
Cris ficou lá para vigiar, caso ela voltasse para a cama e eu fui para o quarto que Gabriela dividia com Cecília e encontrei as duas já arrumadas, penteando os cabelos e ambas começaram a gritar e pular quando me viram.
Catarina provavelmente ouviu os gritos das duas, porque logo colocou a cabeça para dentro do quarto, pela porta entreaberta, e agora se juntara às duas no coral de gritos.
Apenas quinze minutos depois foi que eu consegui descer as escadas novamente, e todos ouvimos um belo sermão da minha mãe por demorar tanto. Conversamos enquanto comíamos o café da manhã que ela tinha preparado e aos poucos eu fui ficando a par das novidades.
Cris finalmente tinha conseguido convencer o pai a transformar a fazenda deles em hotel e os negócios iam de vento em polpa. Minha mãe tinha ajudado na decoração dos quartos do hotel e acabara se empolgando e resolvera reformar e redecorar algumas partes da nossa casa também.
- Isso explica as janelas a mais que eu vi quando cheguei. – comentei depois de engolir um pedaço de bacon.
- Você ainda não viu nada, Jesse. – Bia falou enquanto se servia de mais suco de laranja – Espera só até ver o seu quarto.
- Meu quarto? – perguntei franzindo o cenho – Mãe, o que a senhora fez com o meu quarto? Não transformou ele numa academia de ginástica, transformou?
- Muito engraçado, mocinho. Eu apenas redecorei.
Tentei imaginar como estaria meu quarto agora, mas resolvi deixar isso para depois. Não queria me ocupar com besteiras agora.
- E ainda tem a piscina. – Mila falou de repente, dando um pulo da mesa – Que é para onde eu vou agorinha mesmo.
- Nada disso, Camila. Seu irmão acabou de chegar e você já quer ir para a piscina? Nem pensar.
- Saco – ela bufou e sentou novamente, com a cara emburrada.
- Nós temos uma piscina agora? Onde?
- No pátio – Bia respondeu. – E ainda ficou um espaço bem legal para churrasco.
- Churrasco. É isso! – meu pai exclamou de repente, batendo no tampo da mesa com tanta força que derramou um pouco do suco no seu copo. – Vou fazer um churrasco amanhã para comemorar a sua volta, meu filho.
- Pai, não precisa.
- Claro que precisa. – minha mãe me interrompeu, agora com um sorriso enorme no rosto – Vou agora mesmo ao centro comprar o que precisa.
- Eu vou também. – Bia falou de pronto, ficando em pé.
- Ei, Cris – Catarina chamou do outro lado da mesa – Micaela vem aqui hoje?
- Vem. Mas acho que só na parte da tarde.
- Dá pra trazer ela agora? – ela perguntou com os olhos brilhantes de empolgação. – Queria mostra uma coisa.
- Ah. Tudo bem.
No meio de toda aquela conversa, muitas paralelas, ficou decidido que minha mãe iria ao centro com Bia e Mila e Cris foi para casa, que ficava na fazenda ao lado, para trazer a sua irmã. Catarina, Cecília e Gabriela ficaram me rodeando até que meu primo voltasse e eu não tive como falar em particular como o meu pai. Mas arrumaria um jeito de falar com ele ainda hoje.
Quando Cris retornou com Micaela, já passava das dez da manhã. Ficamos ainda um pouco ali conversando e depois resolvemos ir até o estábulo já que seria muito difícil manter alguma conversa sem ter quase que gritar por conta do som alto que as meninas tinham colocado.
- E aí? Como estão as coisas por aqui? – perguntei enquanto andávamos lado a lado pela propriedade até chegarmos às baias.
- Não mudou muito mais do que já foi contado.
- E meu pai?
- Na mesma. – Cris respondeu de modo vago, sem me encarar.
- Na mesma? Na mesma, Cris?! – reclamei irritado com esse modo disperso dele – Meu pai está doente e você só fala isso?
- Foi mal, cara, mas seu pai proibiu que esse assunto fosse mencionado nesse final de semana, ok?
- Ele fez isso?
- Fez. E é melhor mesmo, Jesse. Você acabou de voltar... Deixa esse assunto para depois.
Suspirei derrotado, enquanto empurrava a porta do estábulo e, cumprimentando alguns funcionários que estavam por ali, segui com Cris para os fundos, onde ficavam os cavalos.
- Meu pai está muito enganado se está pensando que vai escapar de conversar comigo sobre isso. Mas vou deixar para a segunda feira, se é isso que ele quer. – falei num tom baixo, para que ninguém ouvisse. – Mas então, o que conta de novo fora isso? Como está o hotel?
- Ah, incrível. É muito melhor administrar um hotel fazenda que uma fazenda de gado reprodutor. E bem mais divertido também. Temos até hóspedes estrangeiros.
- Nossa! O negócio está bom, então.
- Melhor do que você imagina. Mas, mudando de assunto, que história é essa de passar a noite em Carmel, hein?
- O quê?
- Não está tendo o Festival de Bach por lá?
- Está. – respondi, olhando para a parede.
- Conta essa história direito, Jesse. – ele falou rindo – Não tem vagas em hotel ou pousada nenhuma por lá.
- E?
- Onde você passou a noite?
- Não é da sua conta.
- Hum... Vendo a sua expressão... O seu jeito alegre demais para quem acabou de voltar da guerra, eu diria que tem mulher envolvida aí.
- Olá, garotão! – exclamei entrando na baia do meu cavalo, ignorando Cris – Lembra de mim?
Willy imediatamente ficou alerta e veio andando na minha direção, reconhecendo minha voz no mesmo instante. Ele estava com oito anos agora, e era um dos mais bonitos cavalos da raça Appaloosa que eu já tinha visto. Mas eu o tinha desde que ele era um potrinho desengonçado, então isso me tornava meio suspeito para julgar.
- Quem é ela? – Cris insistiu, se escorando na porta da baia.
- Jimmy? – gritei, chamando pelo capataz, que logo apareceu atrás de Cris. – Willy tem se exercitado?
- Claro, patrão. Três vezes na semana eu saio com ele para dar uma volta na propriedade. E o veterinário esteve aqui ontem para os exames de rotina. Está tudo bem com ele.
- Ok. Obrigado por cuidar dele enquanto eu estive fora, Jimmy. Fez um bom trabalho.
Jimmy não era do tipo que gostava de agradecimentos ou elogios e mesmo sob a sua pele queimada do trabalho a céu aberto, eu pude perceber que ele corava.
- Que é isso, patrão. Fiz o meu trabalho. – ele murmurou, tirando o chapéu da cabeça e encarando o chão – O senhor vai sair com ele agora.
- Acho que sim. – só então eu encarei Cris, que me olhava com uma sobrancelha arqueada – O que diz, primo? Uma voltinha antes do almoço.
- Agora! – ele exclamou, indo para a baia ao lado, onde ficava o cavalo que ele costumava montar, e Jimmy se afastou para pegar as celas que usaríamos. – Quem sabe assim eu consigo arrancar esse segredo de estado sobre a noite passada. – ele gritou lá de dentro e na mesma hora eu me arrependi do convite.
Não que eu não quisesse falar de Suzannah para ninguém. Só não queria ter que contar isso para ele agora, porque sabia que ele iria distorcer tudo que eu falasse, tornando os acontecimentos mais depravados do que realmente tinham sido. Se bem que, recordando de tudo que tinha acontecido entre nós na praia e no quarto, ele tinha toda razão de pensar o pior de mim.
