Capítulo 7

"Whoo, isso é tão... você ouviu o que ela disse, Bones? Ouviu? Não consigo acreditar, é tão… whoo."

"Eu ouvi" ela murmurou, olhando para fora da janela. A clínica era perto do seu apartamento, e ela deixara o carro em casa. A comida prometida estava chamando.

"Tenho esperma com qualidade de um rapaz de dezoito anos!"

"Eu ouvi," ela disse, os dentes cerrados, desta vez.

"Então, todas as instruções que você me passou ontem são muito redundantes."

"Mmm." Ela parecia agitada.

"Você deveria estar feliz." Booth disse, seu tom de voz indicando confusão ao humor dela.

Ela soltou uma respiração afiada. "Por que sentiu necessidade de questionar a minha fertilidade, Booth?"

"O que?"

"Quando perguntou se eu precisava tomar algum cuidado para estabelecer minha viabilidade."

"Não é o que eu disse. E, de qualquer modo, eu... pensei que estava ajudando." Ele mentiu. Ele havia feito o dever de casa, após a sessão com Sweets. Gastou horas na internet, tendo certeza de conhecer todos os fatos.

"Você praticamente exigiu que minha própria fertilidade fosse checada, antes de consentir que fizéssemos sexo."

"E não é o que você fez comigo?"

Ela tinha que concordar que ele tinha um ponto racional. Talvez, por isso, ela estivesse tão irritada. "É diferente para mulheres, Booth. Não é tão fácil ser testada. É um procedimento complicado, e muito doloroso. Só usado como último recurso, talvez depois de 12 meses."

"Você espera que, aleatoriamente, eu faça sexo sem sentido com você, por um ano? Sabendo que pode não acontecer?"

"Não seria nada aleatório, Booth. Tem que coincidir com ovulação."

"E o que acabei de fazer? Por você! Aquilo não foi doloroso?"

"Você teve que se masturbar, Booth. Se houve qualquer dor, acho que deveria ver um médico."

"Não dor física. Mas e dor emocional? Muita. Foi muito difícil fazer aquilo, Temperance." Ele usou o nome dela. Aquilo sempre dizia que a situação era séria.

Booth manobrou a SUV dentro do estacionamento do restaurante, e pisou no freio, jogando-os para frente, quando o veículo parou abruptamente.

"Porque você é católico?" Ela perguntou.

"Não, droga! Porque ainda não sei o que lugar ocupo na sua vida!"

Ela o olhou, incrédula. "O mesmo que ocupava ontem."

"E se não for suficiente para mim? Para nós dois? Você sabe o que passo com Parker."

"É tudo que posso oferecer." As palavras soaram vazias, sem sentido.

"Você já admitiu para Sweets que estamos em uma tortuosa relação substituta. Por que não podemos dar esse último..." Ele lutava para achar as palavras certas.

A raiva a queimava por dentro. "Porque aquela maldita linha que você desenhou ainda está lá. Talvez esteja transparente o suficiente, que outras pessoas não possam ver, mas está lá por um motivo."

Booth soltou uma meia risada. "É meio redundante agora, não acha?"

"E se tudo desse errado, Booth? Se acabarmos nos odiando porque começamos um relacionamento, puramente para o bem de uma criança?"

"É isso que você acha?"

"Sim." Ela realmente acreditava nisso. Era evidente pelo tom de voz.

Silêncio. Ela procurava confirmação nele. A mandíbula dele se torcia, enquanto processava a declaração dela. Booth abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ao invés, ele baixou a cabeça e apertou a ponte do nariz com o dedão e o indicador.

"É o único jeito, Booth. E, se não pode respeitar isso, talvez eu devesse reconsiderar minha opções."

Ele ergueu a cabeça e olhou para fora, para as luzes de neon do restaurante. "Pedirei ao Sweets para nos separar. Temporariamente. Até descobrirmos o que está acontecendo aqui. Entre nós." Ele soltou o cinto de segurança e começou a sair da SUV.

"Está deliberadamente nos sabotando?"

"Não, estou..." Os olhos dela o olhavam, confusos. Ela não entendia, quando fazia tanto sentido. Saber que era responsável por fazê-la se sentir assim, estava acabando com ele. "Vou pedir nossa comida. Você pode... o que quiser."

"Não estou mais com fome."

Ele suspirou. Por que isso era tão difícil? "Certo. Volto já."

Ela ficou esperando ele voltar. A cadeirinha de Parker, no banco traseiro, a atormentava. Booth fazia tudo para ser um bom pai para Parker. Por que estava tão indisposto a se dedicar do mesmo jeito, ao filho deles? Finalmente, ele voltou, com uma sacola com comida quente, soltando vapor.

"Vou te levar para casa," ele disse, ligando o carro.

"Booth?"

"Sim."

"Não quero que obrigue a estar comigo, pelo bem de um bebê."

Ela não queria contar a ele tudo que sua mente imaginou, de todas as formas possíveis, nas vezes que tentou imaginá-los como um casal. E sempre terminava mal, deixando-a aflita. De coração partido, até? Se for assim que uma simples fantasia consegue te deixar acabada, então a realidade é intolerável de se pensar.


"Sweets! Eu estava prestes a te ligar."

"Bom dia, Agente Booth."

"Quero que nos separe. Mantenha-a no laboratório. Apenas temporariamente. Apenas o suficiente para fazê-la perceber que…"

"Oh, Deus…" a expressão de Sweets era dolorosa.

"O que?"

"Conhece a expressão 'cuidado com aquilo que deseja', Agente Booth?"

"Claro." Booth estava preocupado com o pânico de Sweets.

"Eu estava indo te contar que..." Sweets ergueu um arquivo. "Cullen me mandou te informar sobre uma operação no Texas. Ele quer que vá comandar a força-tarefa."

"Quando e por quanto tempo?"

"Hoje. Esperam que seja por dez dias, mas você sabe como essas coisas são."

"Droga!" Booth esmurrou a mesa, frustrado. "O timing não podia ser pior."

"Presumo que você e Dra. Brennan ainda estão trabalhando em suas diferenças."

"Se eu não estiver aqui, ela fica confinada no laboratório?"

"Na verdade..." Sweets parecia nervoso.

"Cullen designou outra pessoa como contato?" Booth perguntou.

"Cullen designou alguém para todos os seus casos."

"Quem?" Booth grunhiu, suspeito.

"Williams."

Parecia que Booth havia levado um tapa. Ambos conheciam a reputação do cara. Um pouco mais jovem que Booth, ex-fuzileiro, apenas alguns anos fora da academia. O garoto de ouro de Cullen, com uma taxa de casos encerrados, que recentemente começara a incomodar os colegas. E uma reputação que dizia respeito às mulheres. "Suponho que não preciso dizer nada."

"Do que é mesmo que Dra Brennan nos chama, miseráveis funcionários?"

"Monótonos." Booth respondeu, seco. Ele iria para o Texas, gostando ou não.


Temperance Brennan estava na plataforma, mais uma vez examinando restos que foram recuperados do veículo queimado. Seu celular começou a tocar, no bolso do seu jaleco, ecoando pela seção do Jeffersonian.

Camille Saroyan ergueu os olhos. "Vai atender, Dra. Brennan?"

"Não."

"Tem certeza? Pode ser importante."

"É Booth. Ele pode esperar."

"Pode ser uma pergunta estranha, mas como sabe que é Booth?" Cam perguntou.

"O número dele tem um toque diferente."

Cam parecia confusa. "É o mesmo toque para todos."

O celular parou de tocar. Temperance não havia se distraído do trabalho. Cam a viu trabalhando, desprendidamente, por alguns momentos, até o celular de Brennan tocar outra vez.

"Booth está ligando de novo," ela disse, solícita, antes de voltar ao trabalho. "É sempre só Booth, não é?" Era mais uma constatação do que uma pergunta de Cam. Brennan obviamente não sentiu necessidade de responder. Ela olhou de volta à mulher. "E se for relacionado ao caso?"

"Ele já teria te ligado, Dra. Saroyan." Ela tirou as luvas de látex e saiu, na direção de sua sala.

Sentando-se, ela puxou o telefone do bolso. A tela mostrava que ela perdera nove chamadas. Ela discou um número. A voz lhe dizia que ela tinha sete chamadas. É o que acontece quando você ignora o celular a manhã toda. Temperance ouviu com cuidado.

"Bones. Me liga. É importante."

Ele parecia nervoso. Alguma coisa devia ter acontecido. A segunda mensagem começou.

"Ei, sou eu de novo. Realmente preciso falar com você."

A terceira.

"Droga, Bones. Pare de me ignorar. Precisamos conversar."

Outra, então outra, então outra.

"Por favor, me ligue. Logo."

"Não posso ir te ver, Bones. Precisa me ligar de volta."

"Surgiu uma coisa, Bones. Apenas me ligue."

Ela quase desligou, antes de a última mensagem começar. Ela achou que seria como as anteriores.

"Oi, Bones. Eu não queria te contar em uma mensagem, mas você não atende o celular, o que provavelmente significa que não quer falar comigo. Então, aqui vai. Cullen vai me mandar para o Texas. Não sei dizer por quanto tempo. Terei uma idéia melhor quando chegar lá. Estou prestes a entrar no avião, então, desta vez, não conseguirá me ligar de volta. Te ligo quando chegar."

Apesar do que dizia a mensagem dele, ela pressionou o botão de discagem rápida. O celular dele caiu direto na caixa postal. "Booth? Eu…" Ela não pensou no que diria, esperando que a parte de estar embarcando fosse exagero. "...Eu entendo, Booth. Entendo que é um modo muito eficiente de colocar um espaço entre nós, como sugeriu na noite passada." E, com isso, ela desligou.


TBC