VI

Minha filha. É, eu tinha uma filha. Angie. Tinha seis anos e eu nunca a vira. Nunca a abraçara. Não conhecia o seu cheiro. Eu perdera seu desenvolvimento. O destino havia sido mau . E Olivia não parecia feliz. Eu a abandonara para corrigir um erro, e sem querer cometera outro. Ela estava certa. De que adiantaria conhecer Angie, se eu estava indo embora? Eu devia abrir mão da minha filha, para não magoá-la. Melhor crescer achando que o pai não sabia que ela existia, do que pensar que ele a abandonara da mesma forma que fizera com a mãe.


-Ela está uma moça, Olivia.

-É verdade, Astrid.

Ella sorriu ao escutar o comentário; andava pelo parque segurando a mão de Angie. Rachel permitira que ela viesse a Nova Iorque com a tia.

-Como foi o encontro com Peter?

-Tranquilo.

Mas Astrid notou que Olivia ficara tensa ao ouvir o nome dele.

-Vão ficar quantos dias?

-Ainda não sei. Eu consegui duas semanas, mas espero voltar antes. Ella não pode faltar o colégio por muito tempo.

-Você já falou com Walter?

-Não. Eu até pensei em procurá-lo, mas Broyles me disse que Peter está hospedado na casa dele. Achei inoportuno, sem falar que eles estão ocupados tentando reconstituir a fórmula para curar o menino.

-Você é quem sabe.

Olivia notou que Astrid desejava saber alguma coisa, mas estava com receio de aborrecê-la.

-Pode perguntar, Astrid. Não vou ficar chateada.

A outra deu um meio sorriso.

-O que sentiu quando o reencontrou?

Pausa.

-Eu não sei, exatamente. Mas não consegui ficar com raiva dele. Acho que ele merecia... ter tido um pouco mais de sorte.

-Vocês dois mereciam.

Olivia corou. Angie veio na sua direção. Ela se abaixou para abraçá-la. O seu rosto se iluminou como se passasse de uma zona sombria para a luz.

-Ainda acho que deveria falar com Walter. Seria uma prova de consideração.


"Fez a coisa certa, não tem que ficar se martirizando."

Olivia não disse nada. Agradecia a ligação de Rachel,a intenção era boa, mas ela se sentia cada vez mais desconfortável. Ainda que lhe custasse reconhecer, estava abalada com a presença dele. E estava sensibilizada com a doença do menino. Desde criança o destino brincava com Peter de gato e rato.

"Olivia?"

"Preciso pensar sobre o assunto."

"Está ficando doida, Olivia?"

"Já disse que preciso pensar."


Ela ficou parada na porta. Trazia Angela pela mão. Estavam na sede da Massive Dynamic. O ambiente futurista do edifício continuava a ser opressivo.

-Walter?

-Entre, Olivia.

Ele se virou para olhá-la, mas foi distraído pela visão da criança.

-Ela é mesmo uma beleza. Venha cá, Angela...

A menina olhou para a mãe. Ela fez um gesto e a menina largou sua mão e caminhou até bem perto de Walter. Ele a abraçou. Ela deixou. Percebeu que era alguém de confiança.

-Quem é o senhor?

-Sou seu avô, Walter.

Ele olhou para Olivia, meio relutante, mas ela não estava aborrecida, apenas séria. Ela não o contradisse.

-Eu não sabia que tinha um avô.

-Eu sou pai do seu pai.

-E como ele era?

-Parecido com você.

Ela ficou apreensiva com o rumo da conversa. Walter propôs:

-Angela, querida, por que não dá uma olhada no computador? Tem uns jogos infantis muito divertidos.

-Posso, mamãe?

Olivia assentiu. Walter olhava carinhosamente para a menina.

-E agora, Olivia?

Ela continuou calada?

-Você já pensou que essa pode ser a única oportunidade da menina conhecer o pai?

Ela olhou para Angie, mas a garota estava distraída olhando o monitor .

-Bem, eu preciso confessar a você que eu nunca vi as coisas por essa perspectiva.

-Por que não experimenta conversar com ela?

-Ela só tem seis anos. Não quero que ela se apegue e depois se sinta abandonada.

-Talvez você esteja projetando seus próprios sentimentos na sua filha.


-Tia Liv?

-O que foi, Ella?

-Vai deixar a Angie conhecer o pai, não vai?

-Eu ainda não decidi. Tenho medo. Ele vai embora em breve. Ela provavelmente nunca poderá revê-lo. Não quero traumatizá-la, entende?

Ella entendia. Era muito ligada à tia, desde pequena. Quase não se lembrava dos dois juntos, como namorados. Mas percebia que o amor incondicional que ela tinha pela filha se devia em grande parte ao que sentira pelo pai. Notou também que só de ouvir o nome dele, Olivia ficara abalada. Com toda a certeza ela não o havia esquecido.