Capítulo 6
O dia havia acabado de surgir. Freya graciosamente acenava dos portões do Palácio, e Hugo respondia da janela, sorridente; mas o sorriso desapareceu assim que ela se foi, dando lugar a uma expressão apreensiva. Faltava apenas um dia, aquele dia, para partir para o Japão.
- Já arrumou as malas, Hugo? - Indagou a tia, surgindo detrás dele.
- Ainda não, vou fazer agora. Achei melhor esperar a mamãe ir para o hospital antes.
- Fez bem. Quer ajuda?
O menino assentiu para Hilda, e seguiram para o quarto dele.
Hugo ria entre dentes, imaginando como Freya faria suas malas, enchendo de coisas que ela julgaria ser de extrema importância, mas que não tinham tanta importância assim, demonstrando toda o jeito descontroladamente precavido que as mães costumam ter. E o mais engraçado é que sua tia Hilda não era muito diferente, afinal, ela era tão mãe dele e de Adelle quanto Freya em certos momentos.
- Eu precisaria ser um Guerreiro-Deus para carregar isso, tia. Está muito cheia. - Ambos riam.
- Ah, mas os Guerreiros-Deuses não eram apenas fortes Hugo. Eles sempre tinham em mãos tudo o que achavam ser útil. Isso sempre lhe auxiliava muito em suas batalhas.
O porta-retratos sobre o criado estranhamente refletiu a luz, levando Hugo a percebê-lo ali. Apanhou-o e o observou, durante alguns bons instantes. O dedo passava sobre a imagem da risonha Adelle, cheia de saúde e vitalidade. Voltou os olhos para a mala, imaginando que em breve ela pudesse ter aquela saúde novamente. Colocou cuidadosamente o porta-retratos na mala.
Hilda fechou a mala, e fitou o sobrinho com pouca porém notável tormenta.
- Querido, você sabe que fico muito apreensiva com isso. Se não fosse de fato algo importante para sua irmã, eu também não permitiria que você fosse. Não assim pelo menos, sozinho e sorrateiro.
- Eu sei. Mas não é importante somente para a Adelle. - Ele sentiu um pouco de receio ao falar - Tenho um monte de coisas pra perguntar, coisas que eu não acho que a mamãe se sentiria bem em me responder. Esse momento é muito oportuno para suprir as minhas dúvidas.
- Eu entendo. - Hilda abaixou-se na altura dele, acarinhando-lhe nos cabelos - E você está nervoso? Digo... em conhecer o seu pai?
- Sim, muito. Mas eu sinto mais... medo do que posso encontrar. Mamãe não falou quase nada sobre ele para nós, apenas que ainda estava vivo e vivia em outro país. As vezes eu penso que ele pode ter feito algum mal para ela. - Foi inevitável para ele deixar que uma lágrima rolasse.
- Mas ele não fez querido, acredite.
- Você o conheceu, tia?
- Não tanto quanto deveria. Mas eu conheço a sua mãe, ela é muito inteligente e nunca se apaixonaria por alguém ruim.
- É... tem razão. - Hugo enfim sorriu, pois concordava plenamente com isso. Sempre achou que sua mãe fosse tão boa e doce que possuía o poder de atrair outras boas pessoas ao seu encalço. E uma pessoa que fizera aquela gentil mulher se apaixonar não poderia de maneira alguma ser má.
Pela primeira vez, Hugo criou boas expectativas quanto a seu pai.
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Era este o inicio da tarde. O jato da Fundação Graad partiu levando Atena e seus Cavaleiros.
Freya apertou o rosário contra o peito, querendo sentir a garantia de que se veriam novamente. As esperanças disso acontecer eram grandes, pois não havia o que os impedisse de se encontrar. Mas ao vê-lo partir sentiu uma angustia, um mal presságio dentro de si. Rezar para que os deuses protegessem Hyoga foi o que conseguiu fazer para tranquilizar ao menos um pouco seu coração aflito.
Eis que poucas semanas Hilda lhe noticiou. O senhor do Mundo Inferior, junto ao seu exército de Espectros iniciara a execução de seu plano de destruir a Terra. Uma grande guerra se iniciara, tornando o tormento de Freya ainda maior. Passou então horas a fio a orar para os deuses, com seu rosário de ouro envolto nos dedos, pedindo a eles a proteção máxima para seu amado guerreiro do gelo.
Numa de suas extensas orações, recebeu a companhia de sua irmã mais velha, que não tardou a ajoelhar-se ao seu lado, iniciando parte d euma oração junto com ela, mas algumas palavras a interromperam.
- Os Guerreiros-Deuses foram os homens mais poderosos já existentes neste mundo, e mesmo assim não foram suficientemente fortes para enfraquecer a fé dos Cavaleiros, que com o poder desta mesma fé os venceram. Adversário algum terá poder para os vencer, minha irmã, fique tranquila. - Hilda recitou em baixo tom, o que fez Freya parar sua oração e erguer subitamente seu olhar para ela, incrédula. E Hilda entendeu perfeitamente o porquê da reação dela.
- Você sabe muito que eu sei tudo o que se passa em Asgard, acha que eu não saberia sobre você e Hyoga aqui dentro de Valhala? - Mas o tom da regente era pura suavidade, e ela sorria com doçura - Eu confio nos Cavaleiros, Freya. Bem como nosso pai confiou, e como você tem confiado, ou mais do que isso. Fique despreocupada que, se um homem de Atena estiver envolvido, as coisas darão certo.
E a partir de então, as duas passaram horas e horas daquela noite rezando, pedindo que os deuses auxiliassem Atena com seu miraculoso poder. O que pareceu inicialmente ser em vão, pois logo souberam que mais uma grande guerra se iniciaria, com o objetivo de salvar a vida de um dos Cavaleiros antes atingido com grande gravidade por Hades.
Nem ao menos sabiam ao certo quem era este Cavaleiro, mas Freya não conseguia evitar pensar no pior. Chorava e rezava muito, horas a fio, com o rosário apertado entre as mãos.
Por favor Odin, que não seja Hyoga...
E o ritual se repetiu por mais dias, até o momento em que uma grande Aurora Boreal tomou os céus de Asgard e do mundo. As cores variavam para algumas incomuns naquele fenômeno, e ainda mais incomum foi quando a Aurora parou de dançar e caiu dos céus, como uma grande chuva de luzes coloridas.
A chuva banhava tudo de esperança, vitória, amor... e a mais utópica paz. Os Cavaleiros haviam por fim vencido a batalha final.
- Agora de fato não há mais nada que nos impeça... - Freya disse, sorrindo bobamente ao sair do Palácio, banhando-se na chuva luminosa.
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- Mamãe...? - Ele bateu no porta, ainda que esta já estivesse semi-aberta.
- Oi querido, entre. - Freya ergueu o olhar para o garoto. Hugo aproximou-se e se deitou na cama ao lado da mãe.
- Posso dormir com você hoje?
- Claro. Faz um tempo que você não dorme aqui mesmo. - Ela fez bico, satirizando uma mágoa - Pensei até que tivesse crescido demais pra isso.
- É, pois veja que eu não cresci tanto assim. - Hugo abraçou Freya. Concentrou-se no abraço cálido e no suave perfume dela, que o acalentava tanto que o planeta parecia não girar.
- Só faltou a sua irmã aqui... - Freya murmurou, com seus dedos brincando nos cabelos dourados dele. Pela primeira vez desde que a irmã adoeceu, Hugo não sentiu lástima em sua mãe quando ela falava de Adelle; ele supôs que ela tivesse em mente os prósperos momentos em que dormiam os três juntos, embalando-os e eles a ela. Era impossível ter qualquer sentimento de tristeza com essa doce cena em mente.
- Logo ela vai estar, mãe. - Ele disse, sorrindo esperançoso.
- Sei que vai querido... - A moça sorriu, orgulhosa do quanto seu filho era otimista. Freya beijou-lhe a testa e o cobriu com o cobertor. E o ninou sem parar, como um pequeno bebê que ela imaginava que ele ainda fosse. Hugo a abraçou mais forte, a fim de senti-la o mais intensamente possível. Depois de tantos anos de sua vida nos quais nunca havia ficado longe dela, via-se que no dia seguinte embarcaria num avião estranho e iria para o outro lado do mundo, passando vários e indeterminados dias sem aquele abraço.
"Que este quente embalo te mantenha próxima de mim, mesmo enquanto eu estiver longe." Orou ele em seu consciente. E logo adormeceu.
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Hilda ria pelos cantos, sem conseguir controlar sua felicidade. Era muito compreensível a razão disto, pois não havia ninguém que se importasse mais com Asgard do que ela.
Depois de um longo mês, Saori Kido finalmente havia confirmado em uma carta que sua fundação financiaria a construção de um hospital no pequeno país. Profissionais que já atuavam em Asgard de modo caseiro, unidos a outros que viriam de outros países tornariam a vida de todos os habitantes muito melhor. E a de Hilda também.
Mas seria necessária uma assinatura da Governante, num documento que estava no Japão. Hilda jamais saíra de sua terra antes, e tinha receio em sair, pensando o que poderia acontecer com as grandes geleiras por falta de suas orações e proteção.
Mas ela também poderia enviar um representante oficial, que assinaria por ela, segundo a carta. Logo colocou-se a pensar em quem poderia representá-la. Não havia resposta mais óbvia, ninguém depois de Hilda sabia mais sobre todos os procedimentos de Asgard do que ela, seu braço direito, sua única família. Freya era a mais perfeita representante que Hilda pudesse ter.
Hilda foi até o quarto de Freya, e da porta contemplou a irmã, orando com aquele rosário reluzente em mãos. Ainda que a irmã também nunca tivesse saído de Asgard, não havia ninguém mais disposto a fazer aquela longa viagem. Lá era supriria sua incansável ânsia por um certo reencontro.
Mais uma atualização.
Agradeço sinceramente aos que estão acompanhando.
Tenham todos uma boa leitura.
