Capítulo 6: a base
Acompanhados dos soldados, Leon e Claire haviam sido guiados pela densa floresta até a base. Estavam há poucos quilômetros de distância do local, então não precisaram caminhar por muito tempo; o que acabou deixando Claire muito feliz.
O lugar não era muito extenso. Cercado por imensos sacos de areia e arames farpados, em meio a caminhões e jipes, havia diversas tendas montadas em campo aberto. Vários soldados, carregando armas de diferentes tamanhos, passavam pelos dois com olhares de curiosidade. "Esse é o reforço?", Claire ouviu um deles perguntar para um outro soldado enquanto caminhava em direção a tenda médica.
— Precisa de ajuda? — Leon perguntou acompanhando-a.
— Não, não — recusou, disfarçando o andar manco. — Estou bem.
Os dois seguiram vagarosamente até a barraca com uma cruz vermelha bordada nas paredes e entraram.
— Ah! Vejo que os tão esperados agentes especiais chegaram — um homem de cabelos castanhos cumprimentou com um sotaque um pouco engraçado, enquanto mexia no conteúdo de algumas caixas de papelão. — Precisam da ajuda de um médico? — ele perguntou sorrindo enquanto se virava para os dois.
"Ele é bonito", ela observou.
— É, precisamos — Leon começou. — Ela se machu...
— Eu machuquei a minha perna quando o avião caiu e gostaria muito que você desse uma olhada. — Claire falou interrompendo Leon e dando um passo a frente.
Leon a olhou desconfiado.
— Oh! Sim, claro — o médico respondeu indicando para que ela se sentasse em uma cadeira alta que estava próxima. — Aliás, eu sou Samuel.
— Claire — ela se apresentou.
Após uma rápida troca de sorrisos, Samuel se agachou para analisar o ferimento. Ele observou o sangramento por um breve instante e se levantou novamente murmurando alguma coisa sobre gazes ou coisa parecida, como se estivesse tentando se lembrar aonde estavam. Caminhou até uma caixa que estava em cima da mesa e pegou alguns itens.
— Belo machucado — ele afirmou sorrindo, enquanto voltava-se para ela e agachava novamente, dessa vez tocando na perna de Claire. Leon revirou os olhos. — Vou só limpar e fazer um curativo, depois vou te dar umas pílulas e tudo vai ficar bem.
— Certo! — disse Claire. — Mas eu vou poder andar normalmente daqui a quanto tempo?
— A dor vai diminuir bastante com o remédio, mas andar normalmente, normalmente, eu não posso lhe responder com certeza — ele confessou, jogando um líquido em cima da ferida e secando com um algodão. — Mas tenho certeza de que não vai demorar muito. O sangramento vai parar com o curativo que vou fazer e o inchaço vai diminuir com o remédio que vou lhe dar.
— Perfeito! — ela afirmou acomodando-se melhor na cadeira. — Deveríamos ter mais médicos como você por...
— Tem visto alguns ferimentos estranhos ultimamente? — Leon perguntou inesperadamente, interrompendo a conversa dos dois.
— Hm... Como assim? — Samuel questionou.
— Bom, sei lá. Tipo alguns arranhões profundos ou... Mordidas?
O médico pareceu surpreso.
— Bem, para falar a verdade, tenho sim. Me trouxeram uma moça jovem aqui uma vez, ela estava com uma febre terrível e um sangramento impossível de se estancar: uma mordida no ombro.
— O que houve com ela? — Leon o interrogou mais uma vez, curioso.
— Ela morreu poucas horas depois.
— E então?
— Bom, então nós enterramos ela, oras!
"Eles não sabem", Leon pensou fitando Claire para ver se ela pensava o mesmo que ele. Entretanto, para a infelicidade dele, ela continuava admirando o rapaz que agora amarrava uma gaze em volta de seu joelho.
Samuel se levantou mais uma vez, caminhando até outra caixa e abrindo-a, procurando por algo.
— Pronto, Claire. Agora só preciso lhe dar os comprimidos. Dois devem bastar — disse entregando as pílulas e um copo d'água. Ela agradeceu com um sorriso e ingeriu o remédio.
— Me ajuda a levantar? — ela perguntou.
Sem dizer nada, o rapaz logo se inclinou para ajudá-la e segurou sua mão.
— Muito obrigada — ela agradeceu devolvendo para ele o copo. E os dois ficaram se encarando por poucos segundos. Ela abriu a boca para dizer algo, mas o loiro ao seu lado a interrompeu.
— Já acabou?
— O que? — Samuel perguntou confuso. — Ah, sim!
— Ótimo! Vamos, Claire — ordenou puxando-a pelo braço grosseiramente.
— Volte quando precisar de alguma coisa! — Samuel gritou para ela.
Leon continuou arrastando Claire até chegarem ao limite da base. Mesmo com a má iluminação, os dois podiam avistar, além das cercas de arame e sacos de areia, uma estrada de terra entre altas árvores. Não ficaram curiosos para saber aonde aquilo poderia levá-los.
— O que foi isso? — ela questionou irritada, soltando seu braço dos dele.
— O que foi isso? Ele estava... Ele estava se aproveitando de você?
— Se aproveitando de mim? Leon, ele estava me ajudando!
— Ajudando?! Você é cega? Ele ficou tocando em você e...
— Ele não fez nada de diferente do que você fez comigo lá na floresta — ela o interrompeu cruzando os braços.
— Mas... É diferente.
— Como isso pode ser diferente?
Leon tentou dizer algo, mas nada saiu de seus lábios entreabertos. Disfarçando sua frustração ele colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e fitou o horizonte além da cerca.
— Foi o que eu pensei — disse Claire, finalizando a conversa e virando-se para ir embora.
— O que é aquilo? — ele perguntou segurando-a novamente pelo braço e apontando para o local. Um pequeno riacho, a poucos metros do limite da base, logo ao lado da estrada.
A princípio, Claire pensou que uma planta estivesse emergindo dali: grandes membranas vieram à superfície primeiro, preenchendo aos poucos a água escura. Centenas de compridos tentáculos as seguiram, serpenteando pelas pequenas ondas da água. Após isso, como se tivessem crescido, saíram da água apoiadas por vários troncos de árvores e começaram a se mover. Claire estava errada, não era uma planta, eram várias.
Primeiro uma, depois quatro, em seguida dez; várias plantas humanoides começaram a caminhar lentamente na direção da barreira que delimitava a base. Leon segurou o braço de Claire com mais força, quase machucando-a. Os dois, instintivamente, correram de volta para onde as tendas estavam, alertando aos berros a todos sobre as criaturas.
Um homem, aparentemente o comandante da operação, saiu de uma grande tenda assustado.
— O que está acontecendo? — ele questionou, correndo atrás da multidão que se aglomerava na cerca e gritava em espanto.
Ao avistar as criaturas, e sem trocar mais nenhuma palavra, ele agarrou, agressivamente, a metralhadora de um dos soldados e começou a fuzilar os bichos que vinham em sua direção, mas sem êxito algum.
— Nós temos que queimá-las! — gritaram Leon e Claire, ao mesmo tempo, enquanto corriam em direção ao comandante.
— O que? — ele perguntou surpreso. — Como sabem?
— Nós... Nós já lidamos com uma dessas antes — respondeu Claire, trocando olhares com Leon.
No mesmo momento, um dos monstros abocanhava a cabeça de um soldado. As criaturas haviam chegado a cerca, e os homens atiravam nelas como se não houvesse amanhã.
— Merda! — Leon berrou. — Por favor, diga-me que vocês possuem um lança-chamas.
O comandante acenou negativamente com a cabeça, ainda perturbado com a situação. E os dois se olharam novamente, como se estivessem tentando raciocinar juntos.
— Gasolina! — ela berrou finalmente, virando-se para o homem que não sabia o que dizer. — Vocês possuem gasolina! Aonde está?
— Na carroceria do caminhão, ao lado da minha tenda. Vamos!
Os três correram até o local, pegaram e carregaram o máximo de galões cheios que puderam, cerca de dez. Voltaram, ainda mais rápido, para a cerca.
— O que pretendem fazer? — o comandante perguntou.
— Acho que você já sabe — Leon respondeu. — Mas vamos precisar da sua ajuda.
— Certo. Do que precisam?
— Você precisa despejar esta gasolina do lado de lá — afirmou, indicando o local com a mão. — Eu vou fazer o mesmo com este lado daqui. Mas tente ficar longe desses bichos!
— Continuem chamando a atenção dessas filhas da puta — Claire ordenou gritando para os soldados assustados —, mas mantenham distância, ou vão perder a cabeça... — neste exato momento um dos homens mais apavorados saiu correndo aos berros para as tendas, mas uma planta o impediu de continuar fugindo e devorou sua cabeça com uma só mordida. — Literalmente.
O comandante saiu as pressas, e os dois então correram em direção ao lago, desviando de algumas plantas que guinchavam para eles. Chegando ao local, eles despejaram o conteúdo de um galão inteiro e em cima colocaram três galões abertos, então começaram a derramar a gasolina que sobrou enquanto voltavam para a cerca, passando perto de alguns bichos e por pouco não sendo atacados.
— Certo, Claire — Leon começou a falar, entornando o resto da gasolina. — Agora você vai para trás da cerca e avise a todos para se abaixarem. Quando eu mandar você atira e explode tudo, ok?
— Tá! — ela confirmou e, de imediato, ele se virou para terminar o serviço. Ela o puxou pelo braço, olhando-o nos olhos azuis e chegando muito perto de seu rosto. Leon pode sentir um suave perfume vindo da mulher. — Tenha cuidado — ela pediu.
Um pouco surpreso ele acenou positivamente com a cabeça e correu para o meio dos bichos.
Desviando de bocadas e tentáculos gosmentos, ele jogava o líquido inflamável entre os vários monstros que o cercavam. De longe avistava o comandante fazendo o mesmo, porém, com um pouco mais de cautela. Leon tinha mais medo de levar um tiro dos soldados desesperados do que morrer para as plantas anormais.
"Acabou", pensou ao deixar escorrer a última gota de gasolina no chão. O outro homem também já havia terminado a tarefa, via ele correndo em direção a base. Disparou de volta para a barreira, desviando dos últimos bichos e pulando por cima dos sacos de areia que delimitavam a base.
— Claire, agora! — gritou de longe para ela, enquanto passava por cima dos sacos de areia sobrepostos.
Com um único e certeiro tiro, a gasolina pegou fogo e rapidamente se espalhou, passando pelas plantas e escorrendo até chegar ao lago, que estava encharcado com o líquido inflamável. A escuridão da noite foi tomada por um forte e quente brilho da explosão. Foi possível ouvir de longe os guinchos de dor das criaturas queimando no chão.
— Isso! — ela comemorou em êxtase ao ver o sucesso do plano mal bolado. — Leon, deu cert...
Quando olhou para o lado, para falar com Leon, ela percebeu que o loiro havia sido agarrado por uma planta que não foi pega pelo fogo. Leon atirava inutilmente na boca aberta da criatura, tentando desesperadamente se livrar dos "braços" escorregadios do monstro. A cada segundo que se passava a criatura o apertava com mais força e se esforçava para puxá-lo para dentro de sua boca.
Claire correu em direção aos dois e tirou sua faca da bainha rapidamente, arrebentou os tentáculos que prendiam Leon a planta, fazendo a criatura emitir um ruído agudo. Imediatamente, o comandante, que parecia estar acompanhando a cena há algum tempo, jogou um último galão de gasolina para ela, que agarrou o objeto no ar com as duas mãos e arremessou em direção a planta.
Com um empurrão de Claire, Leon foi jogado desajeitadamente em cima dos sacos de areia. Ela atirou precisamente na gasolina e imeditamente pulou em cima de Leon, levando-os para trás da barreira e protegendo ambos da explosão.
— Puta que pariu! — ela berrou descolando seu rosto das bochechas de Leon. — Você está bem? — perguntou se erguendo e mantendo-se sentada.
— Eu... — ele começou a responder constrangido, enquanto analisava a situação em que se encontravam. Ela estava sentada em seu colo, enquanto ele a segurava pela cintura. — Eu estou bem...
De maneira assustadoramente rápida, Claire se jogou para o chão, saindo de cima dele, e começou a se levantar.
— Okay... — ela disse enquanto limpava sua roupa suja de terra.
— Meu parabéns, agentes! — saudou o comandante, enquanto se aproximava dos dois. Leon se apressou a ficar de pé. — Eu sou Mark, Mark Jones, líder desta operação — cumprimentou eles com um aperto de mão. — Cheguei há pouco tempo aqui, estava no vilarejo desta ilha, por isso não os cumprimentei quando vocês chegaram. Me desculpem.
Os dois acenaram com a cabeça compreensivamente.
— Kennedy e Redfield, não é? — ele questionou apontando para Claire e Leon, respectivamente.
— Não, eu sou Redfield — esclareceu Claire enquanto indicava para si mesma.
— Oh! Pensei que Redfield era um agente homem.
— Ah sim, este, no caso, é meu irmão.
— Hm... Entendo — disse com um sorriso. — Bom, me desculpem pela confusão e obrigado por ajudarem com estas... Coisas. — agradeceu apontando para os restos das plantas carbonizadas que estavam ao chão. — Bom, se me permitem, vou fazer a listagens dos infelizes soldados que morreram aqui. Mas quero falar com os dois amanhã, correto? Com licença — e seguiu em direção a sua tenda.
— É verdade, Claire. Tem uma coisa que não te perguntei — Leon começou virando-se para ela. — Como você foi parar nesta missão comigo?
Ela demorou um certo tempo para responder.
— Bom, aparentemente, Chris me indicou. Mas como ele não tem nada a ver com o governo, confesso que também tenho minhas dúvidas — disse reforçando a presilha do cabelo, que havia saído um pouco do lugar com a correria desenfreada. — De qualquer forma, estou muito feliz de estar aqui... E você também deveria, porque sem mim você já estaria morto há muito tempo.
— É, por falar nisso, obrigado.
— Pois é, imagina só; se eu não tivesse lhe empurrado esse seu rostinho bonito estaria todo destruído! — ela brincou rindo.
— Acha meu rosto bonito? — ele perguntou sorridente, enquanto a feição de deboche dela ia desaparecendo de seu rosto até suas bochechas ficarem levemente avermelhadas.
— Claire! — ela ouviu Samuel chamá-la, felizmente interrompendo-a de tentar responder algo para Leon.
— Ah, Sam! — suspirou aliviada. — O que foi?
— Sam? — Leon perguntou estranhando. — Quando vocês dois ficaram tão íntimos? — ela o fitou com um olhar de desaprovação.
— Você está bem? — Samuel questionou se aproximando dela. — Fiquei sabendo que ajudou a destruir estas... Estas... Seja lá o que forem.
— É, eu ajudei sim.
— Não deveria ter corrido, Claire. Assim que o efeito do remédio passar, você irá sentir muita dor — avisou enquanto tocava o braço dela delicadamente. — Venha comigo, posso te dar mais algumas pílulas e refazer esse seu curativo.
— Ah, sim. Claro! — com a resposta, Samuel começou a levá-la de volta, perguntando sobre o que exatamente eram aquelas plantas.
— Claire! — Leon tentou chamá-la antes que o rapaz intruso a levasse. — Eu vou procurar alguma coisa para comer. Vejo você... — Claire não prestava atenção nele. Estava longe, dialogando com o médico. — ... Mais tarde.
Observações não muito importantes:
- Agradeço pelos elogios que me enviaram. É muito importante para mim saber que há pessoas gostando do que estou escrevendo. Continuem fazendo estas reviews, é bem legal saber a opinião dos leitores. Espero, realmente, que a história esteja ficando legal. Quero tomar o rumo certo e escrevê-la de maneira interessante. =)
- Caso haja uma confusão ao tentar "imaginar" as plantas que foram utilizadas como vilãs neste capítulo, basta lembrar das Ivy ou Poison Ivy, inimigos que aparecem em Resident Evil 2. Acho que é possível visualizar algumas imagens delas facilmente, basta procurar os nomes no lindo e maravilhoso Google! Não sou muito boa para descrever personagens, vocês já devem ter percebido isto, então achei interessante citá-las aqui para que não houvesse "bagunça".
