Capítulo 6: A Proposta


No carro de Ikki, o silêncio imperava. Ele estava com uma expressão tão séria, que me incomodou. Acho que nosso almoço não terminou como esperávamos, embora eu não saiba exatamente o que estávamos esperando. Eu olhei pela janela, ainda teríamos uns quinze minutos de viagem.

Eu não poderia manter aquele clima chato entre nós, nem queria. Ele estava precisando de um amigo, eu também. Ainda faríamos o projeto do site juntos, o que nos rendia várias horas juntos. Pensando nisso, eu decidi descontrair o ambiente, mantendo as brincadeiras sexuais bem longe, é claro.

Você prefere que eu sente no banco de trás? Assim você pode bancar o meu motorista com perfeição! Fala alguma coisa, frango, eu não gosto tanto assim de silêncio...eu ri, esperando que ele compreendesse minha intenção.

Escuto Hyoga quebrar o silêncio e fazer uma brincadeira, tentando melhorar o clima. Olho para ele de soslaio, muito rapidamente, e volto a direcionar meus olhos apenas para a pista. Permaneço quieto por mais alguns segundos antes de responder. – Não gosta de silêncio, mas gosta de correr para o seu namorado assim que ele chama. – qual a relação de uma coisa com a outra? Que raio de comentário foi esse? Não sei como melhorar o que disse e opto por voltar a me calar.

Você sabe que isso não fez o menor sentido, não é?– digo num tom divertido, recusando-me a acreditar que ele está com ciúmes de Isaac. – Eu só... Não sei, confesso que não gosto de deixá-lo esperando, não com toda aquela tendência autodestrutiva dele. Eu sei que passo a impressão de que eu sou uma espécie de cordeirinho, mas não sou. Estou preocupado com ele, e com o que vai pensar de nós dois. – fico um pouco mais sério, mas procurando demonstrar que não me senti ofendido com o comentário.

Em primeiro lugar, o que eu disse fez muito sentido.– devolvo, de forma irracional e quase infantil – Em segundo, você tinha me dito que não possuía compromissos hoje. Preocupado com a tendência autodestrutiva dele? Qual é a desse cara, afinal de contas? Ele quer liberar você pra alguém, mas quando se dá conta de que isso pode mesmo acontecer, ele se apavora? Porque é isso que ele pensou, não é? Ele achou que você estava comigo para ter o que ele não pode te dar.– falei tudo de uma única vez, sem pensar. Não estava pensando, não me sentia capaz e algo dentro de mim queimava e eu simplesmente tinha que colocar pra fora.

Fiquei sem palavras, por um instante. De onde vinha tanta fúria? Eu realmente não tinha compromissos hoje, e não esperava que ele fosse até minha casa. Tenho certeza de que, a essa altura, ele já nos imaginou fazendo coisas impublicáveis no seu quarto, mas não quero fazê-lo passar por isso. Quero encontrá-lo depressa para que não haja margem para dúvidas, entende? Ele ainda é meu namorado, Ikki, e mesmo que ele não esteja retribuindo, eu ainda devo companheirismo a ele.

Demoro a responder, fingindo estar mais atento à direção do meu jipe. Mas não consegui não ficar com aquelas palavras repetindo-se em minha cabeça continuamente. "... ele já nos imaginou fazendo coisas impublicáveis no seu quarto...". É impressionante o poder sugestivo que as palavras podem ter. Agora, quem subitamente se via invadido por imagens nada decentes era eu. A imagem do corpo molhado de Hyoga em meu banheiro... aquelas gotas d'água escorrendo vagarosamente por aquele torso nu... a calça semi-aberta, deixando entrever a cueca preta... e o que poderia ter acontecido se eu tivesse me deixado levar pelos meus desejos irracionais naquela hora...

Engoli em seco e senti minha respiração ficar algo descompassada, fora o incômodo de perceber que minha calça jeans começava a ficar apertada demais em uma região que eu não queria acreditar que voltava a dar sinais de vida, ainda mais fortes. Respirei fundo, o mais que pude, e certamente Hyoga percebeu meu intuito de me acalmar com isso: – Você não está parecendo o namorado dele, pato. Tá parecendo babá desse cara.– falo sem olhar para ele, como se soubesse que esse simples ato me faria perder todo o esforço em me restabelecer.

Eu não sou babá dele, Ikki. Honestamente, não sei por que se importa tanto com isso. Eu não te entendo, sabia? Desde que entrei nesse carro, você só me dirigiu a palavra para perguntar como chegar à minha casa, agora quer brigar por um assunto que nem te diz respeito?– eu não pude evitar meu nervosismo, não depois de ele atingir meu calcanhar-de-aquiles.

Ah, nem me diz respeito?– não sei por que isso mexeu tanto comigo. Realmente, não me dizia respeito, mas... me incomodava profundamente – Acontece que você estava na minha casa, tratando de negócios comigo e tivemos que interromper tudo porque seu namorado impotente ficou inseguro de repente e te mandou voltar correndo pra casa, o que você faz sem pensar duas vezes! Então, pato, essa droga de situação me diz respeito porque você se atrapalhou como profissional, me atrapalhou como seu cliente e, pra piorar tudo, eu ainda estou tendo que te levar pra casa debaixo dessa chuva! – acabei me exaltando, falando bem mais alto que o necessário e dizendo coisas completamente absurdas. Não estávamos tendo uma reunião de negócios; ele era apenas um amigo querendo me ajudar... e eu me ofereci para levá-lo pra casa.

Mas já era, a voz da razão estava completamente perdida dentro de mim e eu apenas falava, sem pensar no que dizia, sem medir as consequências do que falava.

Eu me calei naquele instante. Ambos estávamos exaltados, não adiantaria insistir naquela discussão. O problema foi o clima, ainda mais tenso do que antes. Ikki virou à direita num cruzamento e indiquei que parasse diante do segundo edifício da rua. Não me surpreendi ao ver Isaac na portaria, me esperando. - Eu...– não sabia o que dizer, estava me sentindo péssimo.

Olhei timidamente para Ikki, esperando que dissesse algo que aliviasse a situação constrangedora.

Que surpresa. Namorado inseguro à espera.– digo enquanto estaciono o carro em frente à portaria. Percebi que o Hyoga não estava mais querendo discutir, mas eu estava irrefreável. – Olha, eu tava pensando e concluí que é melhor não trabalharmos juntos, pato. Você é complicado demais com essa sua relação bizarra com o impotente aí.– Por que eu estava falando isso? Eu estava agredindo o russo gratuitamente e dizendo coisas que não eram verdadeiras. Eu queria trabalhar com o loiro, sim. Mas me sentia tão estranho... do lado de fora, Isaac nos olhava parecendo impaciente, esperando que Hyoga descesse do carro.

E eu não queria isso.

Não queria que ele saísse, que fosse pra casa com aquele cara, de quem eu fazia questão de ressaltar, a toda hora, o problema que havia recém-descoberto nele... De qualquer forma, em minha já tão perturbada cabeça, creio que me apeguei à possibilidade de que, se eu provocasse Hyoga, ele não sairia do carro. Se começássemos a discutir, ele ficaria. Pelo menos, um pouco mais.

Você realmente não quer mais trabalhar comigo? Ou só está querendo tripudiar em cima da minha 'relação bizarra'? – não queria demonstrar minha tristeza com o que ele disse, mas foi impossível. Ouvi uma batida no vidro da janela. Era Isaac, parado com um guarda-chuva em uma das mãos, indicando com a outra que eu abaixasse o vidro. Foi o que fiz, imediatamente.

Oi, meu amor.– Isaac me cumprimenta, roubando um selinho que eu não retribuí. Ultimamente ele não costuma ser carinhoso assim, e eu logo percebo que é por causa do Ikki. Oi. Eu já estou subindo, Isaac.– digo sem muito entusiasmo, esperando que ele entre novamente e me deixe ouvir a resposta de Ikki.

Fênix, como vai? Por que você não sobe também? Podemos tomar um vinho, para afastar o frio.– ele abre um sorriso falso, e espero que Ikki não acate sua provocação.

Vi como o russo abaixou o vidro assim que o caolho pediu que ele o fizesse. Cada vez mais eu me enervava por sentir que esse Hyoga que saía apressado do meu apartamento por conta de uma simples ligação, ou que fazia o que o outro mandava sem pestanejar, não era o mesmo com quem eu conversei pelo MSN, na pizzaria ou na minha casa. Tudo isso me fazia gostar menos desse ex-marina, se é que isso era possível.

Então vejo-o beijar o loiro rapidamente, como se quisesse marcar seu território, como se quisesse me provar algo. Eu já apertava o volante com força, tentando não dizer mais nada, mas aí ouço o convite desse idiota que, visivelmente, quer me provocar. Pois bem. Ele quer brincar com fogo? Vou ensinar a ele como se faz. – Um vinho cai bem.– falo sem sorrir, sem qualquer esforço para me fazer simpático.

Retiro a chave da ignição e olho para o russo: – Vamos, pato? – pergunto, no mesmo tom sério, com uma expressão fria no rosto.

Para o meu desespero, Ikki caiu na armadilha. Suspirei, cansado dos joguinhos de Isaac. Ouvi Fênix me chamar e assenti com a cabeça, descendo do carro logo em seguida.

Entramos juntos no prédio e, durante todo o tempo, Isaac mantinha aquele sorrisinho de escárnio. Eu sabia o que ele realmente queria e, só de imaginar a possibilidade, eu já sentia vontade de vomitar. Aquela noite seria mais um de seus testes. Porque todas as suas propostas não passavam disso, testes para ver quão fiel eu seria capaz de ser, o quanto o amava. Mas usar o Ikki nisso? Um amigo meu, alguém que eu realmente considerava? Isto era demais pra mim.

Subimos de elevador em silêncio, até o sétimo andar. Mostrando uma empolgação que não sentia, Isaac foi caminhando na frente e abriu a porta do 704.

Diminuí o passo, de modo que nos distanciamos um pouco de meu namorado. Com Ikki atrás de mim, eu sussurrei: Eu não sou como ele pinta, está bem? Lembre-se de que você conhece a mim, não a ele.– dizendo isso, eu entrei no apartamento.

Era um clima muito esquisito. Eu não era bobo, sabia bem que o caolho inseguro tinha me convidado para subir não por simples gentileza. Aquele cara devia estar querendo averiguar o que se passava. E, para isso, se fingia de desentendido. Eu realmente odeio esses tipos. Não gosto de gente que não diz o que pensa, que fica usando de artifícios e falsidade para descobrir o que quer saber. Prefiro a sinceridade, mas já percebi que isso é cada vez mais raro nos dias de hoje. De todo jeito, entrei para o teatrinho dele. Queria ver até que ponto esse cara chegava com tudo isso.

Entretanto, quando nos aproximávamos do apartamento, ouvi o que Hyoga disse, em voz baixa, e fiquei um pouco preocupado. Pelo visto, a coisa era um pouco mais séria do que eu pensava. Não respondi nada, até por não ser possível. No segundo seguinte, estava já entrando no apartamento do loiro.

Sente-se, Ikki. Fique à vontade!– eu disse, tentando sorrir um pouco. Isaac foi até a cozinha, buscar o vinho e as taças, e nesse meio tempo eu voltei a encarar Fênix. Você vai me responder à pergunta que te fiz no carro? Realmente não quer que trabalhemos juntos? – novamente não disfarcei a tristeza, mesmo não sabendo por que a ideia de não trabalhar com ele me fizesse mal.

Já tinha até me esquecido do comentário impensado que havia feito no meu jipe. Suspirei, sentindo-me menos nervoso, mas com outras sensações estranhas tomando o lugar do nervosismo. Eu não gostava do Isaac, fato. Contudo, não sabia dizer ao certo o que estava sentindo diante do que acontecia. Estar ali, daquele jeito, naquela circunstância, era realmente esquisito. – Esquece o que eu falei no carro, pato. Eu estava nervoso. – os olhos dele estavam mais tristes; não gostei de vê-los assim. E me senti mal por entender que eu era responsável por isso, com aquela agressão gratuita.

Eu ia gostar de trabalhar com você. Isso se você não se incomodar com minhas mudanças intempestivas de humor.– termino de falar e abro um sorriso amigável, buscando melhorar a situação.

As palavras amenas dele, junto com o sorriso que abriu, acalmaram-me de uma forma que eu não esperava. Eu realmente pensava que estivesse nervoso por conta de Isaac, mas agora percebo que era muito mais pela possibilidade de não trabalhar com Ikki. Sorrio de volta, sentindo-me mais tranquilo e completo: Frango, seu sobrenome deveria ser 'mudança de humor'!

Eu comecei a rir, sem me importar com o fato de que Isaac podia nos ver da cozinha. Quando ele retornou, trazendo o vinho e as taças, eu notei que o ar de superioridade havia abandonado seu rosto. Então, vocês se divertiram hoje?– meu namorado pergunta, mas em vez de dirigir seu olhar a mim, é Ikki quem ele encara.

Vejo que Hyoga soube aceitar meu pedido de desculpas sem precisar de mais nada. Não me questionou sobre por que eu estava nervoso, não fez qualquer coisa para prolongar a situação chata. Pelo contrário, ajudou a aliviar o clima de uma forma tão agradável, abrindo um sorriso tão bonito, que logo me esqueço de que até poucos segundos atrás eu estava me sentindo mal em estar ali. Entretanto, o caolho chega no momento exato para me relembrar disso: – Sim, bastante. O Hyoga é uma ótima companhia.– respondo, sem ser grosseiro, mas sem sorrir, enquanto recebo a taça que ele me entrega.

Ah, eu sei bem o quanto...– Isaac deixa claro o tom malicioso e observa atentamente a minha reação e a de Ikki. Provavelmente espera ver no nosso olhar o que aconteceu entre nós dois. Este loiro aqui pode ser uma companhia deliciosa.– completou, deixando-me acanhado.

Isaac, eu e Ikki faremos um projeto juntos, vou fazer um site para mostrar os trabalhos dele.– tentei mudar de assunto, mas meu namorado sequer se interessou em saber qual era o trabalho de Ikki.

Trabalhar juntos? Então a tarde de vocês realmente foi bem produtiva, não é? E quanto você vai cobrar pelos serviços, Hyoga? Ou já cobrou?– Isaac diz num tom de escárnio, voltando a encarar Ikki.

Eu coloquei a taça sobre a mesinha de centro e me levantei, ficando em pé, de frente para Isaac, encarando-o firmemente: – Qual o seu problema? Tem alguma coisa que você queira falar? Fala na minha cara. – não levantei o tom da minha voz, não precisava. Conheço a força da minha presença, sei que quando quero me impor, apenas um gesto me basta. E fiquei revoltado com o comentário desse imbecil. Agora ele queria o quê, humilhar o Hyoga? Como ele tinha coragem de falar do russo desse jeito?

Isaac não se alterou, tampouco desfez o sorriso zombeteiro. Quem tem que me dizer algo é você, Ikki. Por acaso está interessado no meu namorado?– perguntou, olhando diretamente nos olhos de Fênix.

Fiquei apreensivo com a pergunta, ansioso pela reação de Ikki. Espera um pouco, ansioso? Não, amedrontado era a palavra correta.

Meneei a cabeça, com um sorriso incrédulo no rosto. – Você tem problemas, cara... Sério mesmo. Devia procurar ajuda. E não digo apenas em relação ao seu negócio aí... – dirigi um olhar rápido para baixo, indicando sobre o que falava. – A sua cabeça não tá legal e seria bom você conversar com alguém que pudesse te ajudar nesse ponto.– percebo que a expressão do Isaac se modifica um pouco e ele lança um olhar interrogativo para o russo.

É, o Hyoga me contou a respeito.– falei, sentindo um certo gosto de satisfação, como se necessitasse jogar na cara dele que o Hyoga confiava em mim, como se precisasse mostrar que tínhamos algum vínculo importante também. – Sinceramente, não é liberando o Hyoga para outras pessoas que você vai resolver esse problema. Até porque, o pato não é um objeto pra você sair rifando por aí, pra quem quiser.– finalizo, esquivando-me da pergunta que, sei bem, eu não saberia responder. Se eu estava interessado no Hyoga? Já não sabia o que pensar sobre isso. Eu me dividia entre o que parecia querer e o que devia querer...

Saber que Ikki tinha conhecimento de seu problema deixou Isaac um pouco desarmado, mas ele logo se recuperou. Não te perguntei o que você acha das minhas atitudes, Fênix. Perguntei se tem interesse no meu namorado.– aquela situação me fez explodir. O Ikki é hétero, Isaac. Quer parar com essa palhaçada? Ele é um amigo, não passará disso! – afirmei, evitando o olhar de Ikki.

Escutar da boca do Hyoga que não passaria disso me fez sentir uma frustração completamente ilógica. Ou melhor... já não me parecia tão ilógica assim. De toda forma, o russo sabia do que falava. E isso me ajudou a encontrar a voz da razão dentro de mim, novamente. – Eu não tenho qualquer interesse no seu namorado, Isaac. – fiz questão de chamar o loiro de namorado do finlandês, para mostrar que eu sabia qual era o meu lugar nessa história.

Como ele disse, sou hétero. Até pouco tempo, eu tinha uma namorada, mas achei melhor ficar só porque sou o tipo de cara que gosta de curtir várias, em vez de ficar com apenas uma. Ou seja, eu gosto tanto de mulher que uma só não me satisfaz.– que coisa estranha; eu falava como se precisasse provar para mim mesmo minha heterossexualidade. De qualquer modo, esperava que minha resposta fosse o bastante para dar um fim àquela discussão surreal.

Isaac sorriu satisfeito. Logo descobriríamos o porquê: Sendo assim, Ikki, eu tenho uma proposta para vocês dois. – ele relaxou no sofá e agia como se a ideia mais extraordinária acabasse de lhe ocorrer. Está disposto a ouvir, Fênix?

Achei estranha a expressão que o rosto dele assumia agora. Uma parte minha alertou-me, como se dissesse que o melhor a fazer agora era ir embora, como se soubesse que, ficando ali, eu me envolveria em um problema sem tamanho. Mas outra parte de mim, como que atraída por esse perigo desconhecido, dominou-me e eu acabei me sentando de volta no sofá. – Estou. O que quer propor? – indaguei, com a voz mais calma.

Não vou fazer rodeios, já que você tem conhecimento do meu problema.– Isaac parou um pouco e analisou Ikki, buscando minha mão logo em seguida e me puxando para seu colo. Estava um pouco atordoado pela situação, e não me neguei. Eu quero que você satisfaça o meu namorado pra mim. Apenas no quesito sexual, é claro. – eu tentei me desvencilhar dos braços de Isaac, no mesmo instante que ouvi suas palavras. Mas ele me segurou no seu colo, provavelmente foi por isso que me puxou, em primeiro lugar. Sabia que eu não permaneceria ali de bom grado.

E então, Fênix? Está interessado?

Eu escutava o que ele dizia, mas não acreditava. Olhei para Hyoga, e vi como Isaac o segurava em seu colo, de forma possessiva, ao mesmo tempo em que parecia oferecê-lo de bandeja para mim, quase como se o russo não tivesse vontade própria. Era uma loucura, aquilo tudo era loucura! Parecia que eu havia sido tragado para aqueles filmes em que situações tão absurdas ocorrem que, ao assistir, pensamos que algo do tipo jamais ocorreria na vida real. E agora, lá estava eu, o pivô do meu próprio filme surreal.

Isaac, eu acho que você não entendeu o que eu disse. Eu sou hétero. Eu gosto de mulheres, não de homens. De verdade; de onde você tirou essa ideia maluca? Até porque se eu tivesse de fazer algo com o Hyoga, nem sei por onde iria começar... Eu nunca estive com outro homem, não tenho essa inclinação.– parei de falar, porque vi que já estava me explicando demais.

Eu amo o Hyoga, quero que ele obtenha o prazer que não posso proporcionar, mas não abro mão de ter o amor dele para mim. Você sendo hétero, Ikki, torna tudo ainda mais perfeito. Você pode suprir os desejos do meu loirinho aqui, sem tentar roubá-lo de mim. E não se preocupe com os pormenores. Uma vez sozinho com este aqui, você será guiado pelo instinto, acredite. Como eu disse a você, o Hyoga pode ser uma companhia deliciosa...– as palavras de Isaac pareciam punhais me perfurando. Meus olhos se encheram de lágrimas, de vergonha, nojo e desespero. Eu não poderia ficar ali, não conseguiria olhar nos olhos de Ikki depois de todos aqueles absurdos que ouvimos. Num movimento extremamente bruto, consegui me desvencilhar de Isaac, e saí apressado do meu apartamento, sem olhar para trás.

Não conseguia acreditar; quanto mais eu me negava, mais ele insistia. Porque eu estava me negando, não estava? Em dado momento, eu já nem sabia mais. Então, vi como Hyoga pareceu enfurecer-se e desvencilhou-se Isaac, abandonando o apartamento rapidamente. – Você perdeu o juízo, só pode.– falei me levantando no mesmo instante. – Eu não posso aceitar uma coisa dessas, Isaac. Não é justo com ninguém, mas especialmente com o Hyoga. Eu tenho grande respeito por ele, considero-o meu amigo e sei que há limites que não se devem ultrapassar. Você devia saber disso também.– Caminho com pressa até a porta, e saio sem dizer mais uma palavra, preocupado apenas em encontrar Hyoga. Não tive paciência de esperar pelo elevador e comecei a descer as escadas correndo, na esperança de achá-lo pelo caminho.

Ikki quase tropeçou em mim, nas escadas. Tenho o costume de ficar sentado por ali, quando quero ficar sozinho. Quando notei sua presença, enxuguei rapidamente minhas lágrimas e me encolhi ainda mais, abraçando minhas pernas junto ao meu peito. Não disse nada, não tive coragem. Sequer olhei pra ele, também. Estava tão envergonhado, que não sabia como agir. O que eu poderia dizer? Desculpe-me pelo constrangimento. – foi a única coisa em que pude pensar.

Ao encontrar Hyoga sentado ali, senti um grande alívio por achá-lo razoavelmente rápido. Entretanto, vi como a minha presença pareceu deixá-lo desconfortável e isso me chateou. Mas que droga. Por culpa daquele idiota, iríamos perder o que começávamos a construir? Não queria aceitar isso. Sentei-me ao seu lado, percebendo que ele evitava me olhar. – Não precisa se desculpar. Você não tem culpa de nada.– falei buscando um tom de voz tranquilo, mas ainda me sentia zangado com o que aquele imprestável tinha acabado de propor. – A propósito... seu apartamento é muito bonito, pato.– resolvi mudar completamente de assunto, tentando assim, melhorar aquela situação chata.

Obrigado.– tentei sorrir, mas foi inútil. Às vezes, me pergunto o que eu ainda faço ao lado dele. E não sei a resposta, nunca consigo chegar a ela. Sempre começo a pensar nos problemas dele, no acidente... Foi culpa minha, sabe? A culpa foi toda minha.– Ikki não havia perguntado, mas senti necessidade de dizer. Era como se precisasse me explicar pra ele, a ideia de que Fênix tivesse uma imagem ruim de mim simplesmente me apavorava.

Calma, pato.– coloquei minha mão no joelho dele, e percebi que o corpo dele tremia. – Você tá muito nervoso agora, não precisa...– eu ia dizer que ele não tinha que se explicar pra mim, mas então me dei conta de que ele parecia querer falar. Parecia que ele precisava disso e eu só queria que ele se sentisse melhor, então mudei o que dizia: – Por que acha que a culpa foi sua?– espantei-me em ver que, sem grande esforço, minha voz tinha um tom suave, quase doce, como se eu buscasse acalmá-lo com palavras macias.

O toque da mão de Ikki em meu joelho me causou uma sensação estranha, mas procurei me focar em suas palavras suaves. Ele dirigiu bêbado naquela noite, por minha causa. Estávamos numa festa na casa do Shun, ele ficou inseguro pela forma como eu e seu irmão agíamos. É claro que não tinha nada a ver, mas na cabeça dele, era outra história. O Isaac veio me confrontar, completamente bêbado. Naquela época eu era bem mais arredio e não me deixei levar fácil. Nós brigamos feio, em plena festa, ele ficou agressivo e aquilo foi a gota d'água. Quando ele disse que iríamos embora, eu quis ficar. Ele me ameaçou, eu não dei ouvidos e o mandei sumir dali e da minha vida. Se eu não tivesse feito isto, era eu quem dirigiria aquele carro, ele não sofreria o acidente e nem teria os problemas que tem hoje.

Escutei atentamente a toda aquela história, notando como havia um tom amargurado em cada palavra, carregada em excesso de uma culpa que ele não deveria sentir. – Pato, presta atenção.– minha voz mantinha o tom delicado e consegui que ele olhasse para mim. – Ele procurou por isso. Eu sinto muito pelo acidente em si, mas a culpa não é sua. Quem bebeu foi ele. Quem procurou briga foi ele. E quem não teve consciência de que não estava capacitado para dirigir foi ele também. Você não pode querer assumir a culpa pelos atos de outra pessoa.– os olhos úmidos dele, o rosto entristecido e tão vulnerável formavam um quadro quase poético. Se fosse uma fotografia, seria linda. Marcada por uma tristeza doce. Contudo, se ele sorrisse... Ah, se ele sorrisse! Essa poderia vir a se tornar a imagem mais bela em que eu já tivesse posto meus olhos. Movido por um impulso, levei minha mão direita ao rosto dele e afastei a franja loira que encobria um pouco de seus olhos claros. O gesto foi sutil, suave, e quase uma carícia. Sorri para ele, olhando em seus olhos: – Não se culpe mais. Não faça isso com você.

As palavras gentis e o gesto suave me tranquilizaram. Ikki não foi a primeira pessoa a me eximir da culpa, mas foi a primeira vez que meu coração realmente quis acreditar nisto. Pus minha mão sobre a dele, e sorri docemente. Faltavam-me palavras para agradecer ao seu carinho, mas fiz um pequeno esforço para dizer algo: E depois você diz que fere as pessoas e as arrasta para o abismo. Será que não tem consciência do quanto você é especial, Ikki?– mordi o lábio, tentando encontrar as palavras certas para tocar no assunto que me incomodava. Você pode me fazer um favor? Podemos agir como se você jamais tivesse entrado no meu apartamento hoje? Como se nunca tivesse ouvido aquela proposta?

Que proposta?– respondi com um sorriso como não estava acostumado a oferecer. Um sorriso por inteiro, um sorriso de corpo e alma, um sorriso que possivelmente me desnudava e que, por isso mesmo, eu evitava. Mas não poderia agir diferente disso agora... O sorriso que se desenhou no rosto de Hyoga era exatamente como eu imaginava que seria naquele momento. Ele não estava simplesmente bonito, como já havia se tornado usual para eu perceber. Não; dessa vez era algo que ia muito além dessa beleza meramente física. O semblante dele trazia algo que me atraía, que me fazia prender os olhos nele e me perder em uma sensação nova e desconhecida, como tantas outras que havia experimentado hoje, mas que era mais forte e mais aprazível. – Obrigado por me fazer sentir especial.– respondi sentindo-me leve. Eu não era tão especial assim, mas ao lado dele, sentia-me como se fosse. – Escuta, já que o nosso dia tem sido tão agradável, que tal prolongá-lo um pouco mais?– falo ignorando por completo o ocorrido de há pouco. Faria literalmente o que o russo me pedia. Aquilo nunca aconteceu.

Eu não me lembrava de ver um sorriso tão lindo no rosto dele. Confesso que aquele sorriso me balançou, Ikki era tão charmoso! E não fazia de propósito, pelo menos não comigo. Sentia-me um pouco acanhado, por essas coisas mexerem tanto com o meu íntimo, mas acredito que seja a minha carência do momento, não é? Só pode ser... Prolongar? O que tem em mente?– pergunto, sentindo-me estremecer um pouco com as possibilidades que surgem em minha cabeça, todas envolvidas com a proposta de Isaac, para meu desespero.

Tem um parque de diversões que chegou na cidade há pouco tempo. Me disseram que é bom.– na verdade, ninguém me disse. Escutei alguns colegas falando a respeito. E, não sei por que, mas me pareceu algo plausível. Tirar a cabeça do Hyoga disso que tinha acabado de acontecer era importante. Um lugar desses me parecia um bom local para afastá-lo disso, até porque não creio que ele queira voltar para seu apartamento agora. E nem deve; não enquanto aquele idiota estiver lá.

A chuva já estava parando quando entramos. Se tiver parado de chover, seria legal. Não acha? – perguntei meio inseguro. Estava fazendo certo? Não tinha o costume de convidar pessoas a saírem comigo. Normalmente, ou o Shun me arrastava, ou... eu pegava alguma garota em algum bar e íamos direto para algum quarto de motel barato. Porque, claro, nunca levava nenhuma delas para minha casa. Sacudo a cabeça, afastando esses pensamento e olho interrogativo para o loiro.

Quem é você e o que fez com o frango?– eu ri, não perdendo a oportunidade de provocá-lo. Parque de diversões? Isso afetará brutalmente a sua fama de mal! Mas eu adoraria ir até lá com você.– completei, sorrindo ainda mais.

Terminei por rir, um pouco embaraçado. – É, eu sei. Eu e um parque de diversões... não parecemos ter tanto em comum. Mas não ria tanto, pato. Ainda posso te surpreender em vários aspectos. Tem muitos lados meus que você não conhece.– falo fingindo um tom misterioso e enigmático, de brincadeira. – Eu vi o jeito que você olhou para o meu relógio do gato Félix, lá em casa. Pois saiba, pato das neves, que quando ninguém está vendo, eu gosto de comprar coisas engraçadas para minha casa e me divirto indo a parques desse tipo.– terminei de dizer como se houvesse revelado um grande segredo, ainda mantendo o tom de brincadeira. – E aí? Surpreso com o que eu posso ser?– sorri divertido, enquanto nos levantávamos e terminávamos de descer as escadas para sair do prédio.

Não. Estou ávido por mais, na verdade.– disse simplesmente, enquanto o acompanhava até seu carro.

Chegamos do lado de fora do prédio e realmente havia parado de chover. O céu estava, inclusive, muito límpido agora e a tarde começava a morrer. Entramos no carro e eu me sentia em um estado bem melhor do que quando chegamos. – Desculpe então, pato. Mas não tenho mais informação nenhuma a te dar.– coloco a chave na ignição e dou a partida. – Na verdade, eu sou previsível demais e até para inventar que sou diferente do esperado é complicado.– digo com naturalidade enquanto dou ré com o jipe. – O meu relógio de parede foi presente de grego de alguns colegas do meu trabalho e quem teve a brilhante ideia de colocá-lo lá foi meu irmão. Quanto ao parque de diversões, nunca estive em um. – jogo um olhar simpático para o russo. – Pronto, agora voltei a ser o ranzinza que você conhecia?

Sim, e eu adoro isso.– sorri, aproveitando para olhá-lo livremente, enquanto dirigia. Meu celular começa a tocar, e vejo que é Isaac. Sem pensar muito, eu desligo o aparelho. Nada de interrupções, certo?

Nada de interrupções.– apresento meu habitual sorriso de canto enquanto dirijo em direção ao parque. E, assim como ele, retiro meu celular do bolso e o desligo também. – Essa noite, vamos ser só eu e você, pato.


Continua...