Capítulo 5
— Desculpe, mas eu não vou poder esta noite — disse Ginny, tanto frustrada quanto preocupada. Estava começando a apreciar suas noites com Harry em diversos eventos para os quais ele a levava. Mas também estava preocupada com o acordo deles. — Espero que você entenda. É uma emergência dos feriados.
— Uma contingência que negligenciamos no nosso acordo. Ginny não podia dizer se ele estava irritado ou não, e descobriu que se sentiu um pouco nervosa sobre perguntar.
— É somente que muitas pessoas não compareceram no último fim de semana, quando os pais deveriam ter ajudado com a decoração dos cenários na escola.
— Para a peça de Natal? — perguntou ele.
— É um festival de inverno, Harry. Nós não promovemos nenhuma celebração de uma data festiva.
— E chamar isto de festival de inverno engana pessoas?
Ginny ouviu o humor na voz dele.
— É inclusivo. Então, há diversos cenários para serem construídos e pintados. Eu preciso ficar e ajudar.
— O que sua classe vai apresentar?
— Cantar "Pegar uma estrela cadente" enquanto usam a linguagem americana de sinais ao mesmo tempo.
— Multitarefa na idade de 5 anos. Impressionante. Muito bem, srta. Weasley. Ligue para mim quando os cenários estiverem decorados. Se houver tempo, eu a levarei à festa comigo.
— Sinto muito por perder sua festa — disse ela, lamentando sinceramente.
— Você ainda não sabe se vai perder, sabe?
— Nós não somos exatamente um grupo talentoso no que diz respeito à carpintaria, Harry. Passaremos a noite inteira aqui.
— Apenas me telefone.
Ginny desligou e andou de volta para o prédio principal do auditório. As outras professoras e alguns voluntários estavam dividindo o trabalho. Uma vez que o mais próximo que Ginny estivera da experiência de construir alguma coisa eram as aulas de tricô que fizera no verão anterior, ela recebeu instruções de como pintar.
Após trinta minutos, todos estavam trabalhando arduamente, construindo, lixando e pintando. Quinze minutos depois disso, quatro homens grandes vestidos em camisetas, jeans e botas de trabalho entraram. Cada homem carregava uma enorme caixa de ferramentas. A diretora da escola desligou a serra elétrica e removeu os óculos de proteção.
— Posso ajudar? — perguntou ela.
— Nós estamos aqui para ajudar com os cenários — um dos homens respondeu. — Harry Potter nos enviou.
As professoras olharam ao redor em confusão. Ginny pigarreou.
— Ele é... ah... um amigo meu. Eu mencionei que nós não tivemos os pais como voluntários, como de costume. — Ela tentou parecer normal, o que provavelmente não estava funcio nando, considerando que não conseguia parar de sorrir. Um sentimento de leveza e felicidade a fez pensar que talvez fosse capaz de flutuar para casa, em vez de dirigir.
A diretora suspirou agradecida.
— Nós estamos desesperados. Vocês já trabalharam na construção de cenários para uma peça escolar antes?
Os homens trocaram olhares.
— Dois de nós somos marceneiros, e dois somos pintores de casas, senhora. Podemos lidar com isso. Se apenas nos disser o que precisa ser feito, deixe-nos terminar o trabalho, e este ficará excelente.
Ginny tirou seu celular do bolso e discou o número de Harry.
— Obrigada — sussurrou ela assim que ele atendeu. — Isso foi incrível.
— Este sou eu me certificando de que você não cancele nos so compromisso. Eu a apanho às 5h. Não será uma noite longa.
Ela queria dizer mais, fazê-lo admitir que ele agira de modo não característico para ajudá-la. Mas alguma coisa em seu in terior lhe dizia que Harry não queria receber crédito pelo que tinha feito. A pergunta era por quê. O que no passado de Harry o fazia acreditar que ser bom, gentil e honrável era uma coisa ruim? Alguém o machucara? Talvez fosse hora de descobrir.
-x-
— Eu não entendo — disse Ginny quando pôs a chave na fecha dura da porta da frente e girou-a. — Ele é banqueiro. Tem muito dinheiro. Então, por que se importa com o seu?
— Bancos usam dinheiro de outras pessoas e lucram com isso — disse Harry. — Emprestando, investindo. Quanto maiores foram as contas bancárias, maior a renda do banco.
— Certo — murmurou ela devagar, obviamente não convencida.
Eles tinham passado as últimas duas horas num coquetel tedioso. Na teoria, a noite tinha sido sobre networking, mas se tornara claro que Harry fora convidado de modo que um banqueiro proeminente solicitasse os negócios dele. Normalmente, ele não se importava de ser convidado... Isso compensava um excelente negócio. Mas naquela noite não estivera no humor.
Em vez disso, estivera checando o relógio e seu celular.
Ginny tirou seu xale preto dos ombros e jogou-o sobre o sofá. Abaixou-se para remover os sapatos de salto alto, gemendo de alívio por liberar os pés.
— Eles não estavam brincando — murmurou ela, curvando os dedos no tapete. — Beleza é dor.
No geral, Harry teria respondido ao comentário, mas estava muito ocupado observando o decote ousado do vestido dela, expondo seios claros e generosos. As curvas pareciam grandes o bastante para encher suas mãos. Olhando-os, perguntou-se como seria o gosto da pele suave. Imaginou sua língua circulando os mamilos rijos, provocando-os enquanto ela se contorcia sob seu corpo.
A imagem foi suficientemente vivida para causar uma pulsação em sua masculinidade. Sentindo-se desconfortável, ele mudou de posição.
Ginny endireitou o corpo, deu um passo atrás e gemeu novamente.
— Acho que o dano é permanente. Como as mulheres usam esses sapatos todos os dias? Eu não aguentaria. — Ela apontou para o canto. — Não está linda?
Harry olhou naquela direção e viu a árvore de Natal deco rada perto da janela. Preenchia o espaço, derramando seus ga lhos dentro da sala. Centenas de enfeites pareciam cobrir cada centímetro de galho. Ginny acendeu as luzinhas, as quais piscavam numa velocidade estonteante. Aquilo não era algo que ele teria gostado, entretanto havia alguma coisa especial sobre a árvore.
— Muito bonita.
— Você já comprou uma para sua casa? — Ginny quis saber.
É claro que não, mas ele não queria magoar os sentimentos dela. Em vez disso, apontou para a mesinha de centro, onde um manual de instruções era visível dentro de uma capa plástica.
— O que é aquilo?
Ela olhou para baixo, então pegou o pacote.
— Eu não sei. É o manual de um freezer. Nós não temos um...
Lentamente, Ginny ergueu a cabeça e o encarou.
— Você não fez isso.
Harry apontou para a cozinha. Além da mesma, estava a área de serviço com uma máquina de lavar roupa, uma secadora, e, a partir de uma hora atrás, um freezer novinho em folha. Ela correu para a cozinha. Ele a seguiu. Quando Harry a alcançou, Ginny estava deslizando as mãos adoráveis ao longo da porta, antes de abri-la e olhar para as prateleiras cheias.
Havia pacotes de carne, frango e peixe, uma pilha de pizzas congeladas, sacos de verduras, caixas de suco e sorvete. Ginny olhou para aquilo por um minuto inteiro, boquiaberta. Depois, fechou a porta e virou-se para fitá-lo.
Harry conhecera muitas mulheres lindas na vida. Dormira com elas, namorara algumas, abandonara muitas. Tinha sido se duzido pelas melhores, até mesmo sido casado, mas nenhuma jamais o olhara do jeito que Ginny fazia agora... Com lágrimas nos olhos azuis, uma expressão de pura felicidade no rosto.
— Você não precisava fazer isso — disse ela.
— Eu sei. Mas eu quis. Dessa forma, você pode fazer compras em grandes quantidades. Fica mais barato. Sei como adora uma barganha.
— Esse é o melhor presente de todos. Obrigada. — Ela pegou-lhe a mão e apertou-a. — Sério, Harry, isso me proporciona uma mudança de vida.
Ele recolheu a mão, não querendo ser bajulado no momento. Tinha visto uma necessidade e a preenchido. Nada mais.
— É apenas um freezer.
— Para você. Para mim, significa que não vou precisar me preocupar com alimentação por um tempo. É uma chance para eu relaxar.
Harry havia dado presentes antes. Jóias. Carros. Férias.
Agora, dentro da pequena casa humilde de Ginny, percebeu que nunca dera nada que importara. Ninguém tinha ficado emocionado por algum presente seu antes. Talvez porque Ginny fosse uma das poucas mulheres que ele já gostara.
Querer e gostar eram duas coisas completamente distintas.
Ele fizera aquele acordo para melhorar sua reputação, e tirar o quadro de diretores do seu encalço. Mas em algum lugar ao longo do caminho, começara a gostar de Ginny. Não podia dizer se isso era bom ou ruim.
— Essa é minha boa ação para a época de Natal — disse ele. — Não leia muita coisa nisso.
— Certo. — O sorriso de Ginny era sábio. — Porque você não é um bom sujeito.
— Eu não sou.
— Assim ouvi dizer. — Ginny abriu o freezer novamente e removeu uma pizza. — Esta tem diversos recheios. Que tal?
— Você vai assar uma pizza?
— Eles serviram só sushi naquela festa. — Ginny torceu o nariz. — Peixe cru não é minha comida favorita.
— Pizza é.
Ela voltou para a cozinha e ligou o forno.
— Quer assistir a um filme de Natal enquanto esperamos?
— Não.
Ela riu.
— Eu o deixaria escolher qual deles.
— Eu ainda diria não.
As lágrimas haviam desaparecido, e agora os olhos azuis bri lhavam com risada.
— Você não é muito fã da vida doméstica, é?
— Eu nunca tive um motivo para isso — replicou ele.
— Mas você foi casado. A ex sra. Potter não o domesticou? Ele se aproximou.
— Eu pareço domesticado?
— Hmm. — Ginny o estudou. — Acho que posso ver peque nas marcas no seu rosto aonde as rédeas iam.
Harry tentou alcançá-la, e ela se abaixou. Mas escorregou no piso de vinil. Ele a pegou nos braços, o corpo delicado relaxando contra o seu. A vontade de puxá-la para mais perto era forte, o desejo instantâneo. Todavia, o lembrete de sua ex-esposa estragou o momento. Harry a liberou.
— Cho não estava interessada em me domesticar — disse ele, deliberadamente dando alguns passos atrás.
Ginny inclinou-se contra o balcão.
— Como ela era? Cameron disse que ela era uma mulher interessante.
— Duvido disso. Cameron teria dito que ela era uma vadia.
— Isso também.
Harry não pensava em sua ex-esposa mais do que precisava.
— Isso faz muito tempo — murmurou ele. — Ela havia se formado na faculdade de jornalismo. Eu tinha acabado de comprar minha primeira companhia bilionária. Cho apareceu para me entrevistar para um jornal que estava escrevendo. Ou foi o que ela falou. Acho que aquele foi um jeito de me conhecer.
Cho era quatro anos mais nova do que Harry, mas era fria, sofisticada e confiante. Na época, ele era um ex-boxeador, musculoso demais e acostumado a usar seu tamanho para conseguir o que queria, enquanto Cho vencia usando sutileza.
— Ela é linda? — perguntou Ginny, não encontrando os olhos dele.
— Sim. Loira de olhos azuis. — Ele estudou a mulher à sua frente. As duas mulheres não tinham nada em comum. Ginny era suave e aberta. Confiava no mundo e pensava o melhor das pessoas. Cho jogava para vencer e não se importava com quem ma chucava no processo.
Ela havia suavizado o lado rude de Harry, ensinando-o o que significava ser um cavalheiro. Com ela, ele aprendera sobre vinho, sobre as roupas certas e sobre quais eram os tópicos de conversa seguros para uma discussão política. Ela era sempre preocupada em fazer a coisa certa... até que a porta do quarto estivesse fechada. Lá, Cho o preferia o menos civilizado possível.
— Quanto tempo você ficou casado?
— Três anos.
— Você... — Ginny pigarreou. — Eu presumo que você a amava. Não era um arranjo de negócios.
— Eu a amava — respondeu ele sem rodeios. Tanto quanto alguém podia amar uma mulher que mantinha o coração firme mente protegido numa caixa de gelo. — Até que eu a peguei fazendo sexo com um de meus associados de trabalho.
Nem mesmo na cama deles, pensou Harry, ainda mais furioso do que magoado pela memória. Na sua mesa de trabalho.
— Eu a coloquei para fora e fiz um empréstimo grande o bastante para comprar as partes de todos os meus sócios — dis se ele, olhando além de Ginny, mas não vendo nada ao redor dos dois. Em vez disso, via Cho nua, jogando os cabelos longos sobre o ombro.
— Você não foi tolo o bastante para pensar que eu realmente o amasse — Cho tinha falado em resposta à sua pergunta não pronunciada.
Ele tinha sido tão tolo. Durante todo tempo em que crescia, Harry soubera que precisava ser forte para permanecer seguro. Com Cho, havia se permitido esquecer-se das lições dolo rosas que aprendera em sua juventude. Nunca mais faria isso.
Ginny tocou-lhe o braço.
— Sinto muito. Eu não entendo por que ela faria uma coisa como essa.
— Por que não? Porque em seu mundo casamento é para sempre?
— É claro. — Ela pareceu chocada que ele até mesmo perguntasse aquilo. — Meu pai morreu quando eu era muito pequena. Minha mãe falava sobre ele o tempo todo. Ela o tornou tão real para mim e para Charlie que era como se papai não estives se morto, e sim tivesse apenas partido numa longa viagem. Antes de morrer, ela me disse para não ficar triste, porque quando ela se fosse, poderia estar com o amor de sua vida novamente. É isso que eu quero.
— Isso não existe.
— Nem todas as mulheres são como Cho.
— Você encontrou alguém digno desses seus sonhos? — per guntou Harry.
— Não. — Ginny deu de ombros. — Eu continuo me apaixonando pelo homem errado. Não sei bem porquê, mas irei descobrir.
Ela era otimista além da razão.
— Quantas vezes você sofreu uma desilusão amorosa?
— Duas.
— O que a faz pensar que da próxima vez será diferente?
— O que o faz pensar que não vai ser? — devolveu ela. Porque estar apaixonado significava estar vulnerável.
— Você daria tudo a um homem. Somente para que ele a usasse a fim de obter o que quisesse, depois fosse embora? A vida é uma luta... E é melhor vencer do que perder.
— Essas são as duas únicas opções? — questionou Ginny. — O que aconteceu com o cenário de ganho mútuo? Eles não ensinam isso na faculdade de Administração de Empresas?
— Talvez. Mas não na escola da vida.
Ginny pegou-lhe ambas as mãos e curvou os dedos dele, cerrando-lhe os punhos.
— Deve ter sido frustrante descobrir que você não podia usar essas mãos fechadas para lutar e sair de cada situação desagradável.
— Foi.
Além do que Cameron lhe contara, Ginny não soubera muita coisa sobre a ex-esposa de Harry. Agora tinha uma clara compreensão do que acontecera. Cho havia machucado Harry mais do que ele admitiria. Ela lhe destruíra a confiança e os sentimentos. Para um homem que estava acostumado a usar força física quando pressionado contra a parede, a situação devia ter sido devastadora. Ele tinha se permitido ser levado pelo coração, apenas para tê-lo golpeado e devolvido.
— Não houve ninguém importante desde Cho? — perguntou Ginny, embora já soubesse a resposta.
— Houve aquelas que tentaram — respondeu ele em tom de voz leve.
— Você terá de confiar em uma delas. Não quer uma família?
— Eu ainda não decidi sobre isso.
Ginny meneou a cabeça.
— Você tem de admirar a ironia da vida — disse ela. — Eu adoraria encontrar alguém e me casar, ter uma casa cheia de filhos e viver feliz para sempre. O desafio é que não consigo en contrar alguém que me considere interessante no departamento romântico. Você, por outro lado, tem mulheres se jogando aos seus pés, suplicando para serem tomadas, mas você não está interessado. — Ela fitou os olhos acinzentados. — Não deveria desistir do amor.
— Eu não preciso de seu conselho — murmurou ele.
— Eu lhe devo alguma coisa pelo freezer.
— A pizza é suficiente.
— Tudo bem. Quer ir achar algum filme violento na televisão enquanto eu ponho isso no forno?
— Claro.
Ginny o observou sair da cozinha.
Saber sobre o passado dele explicava muita coisa. O que Harry não percebia era que sob aquele exterior rude havia um homem muito bom, o que ele não ia querer ouvir, de qualquer maneira. Os homens detestavam ser chamados de bonzinhos. Mas ele era. Ginny tinha certeza disso.
Como ele costumava ser antes de conhecer Cho? Um homem forte, disposto a confiar e entregar seu coração? Existia algo melhor do que isso? O forno apitou. Ginny abriu a caixa de pizza, colocou-a numa assadeira e, então, dentro do forno.
A esposa de Harry teria algum arrependimento? Tinha percebido tudo que perdera e desejava uma segunda chance? Ginny não a conhecia, não podia dizer. Apenas sabia que se tivesse uma chance com um homem como Harry, ela a agarraria com ambas as mãos e nunca soltaria.
Novo capítulo! Espero que todos estejam a gostar :)
