Capitulo VI - Mal entendido.
Regina saiu cedo na manhã seguinte, enquanto todos dormiam. Dirigiu até a loja do Sr. Gold com o rosto tenso de quem não podia mais adiar todas as perguntas que a perturbavam; perturbavam-na como um ninho de vespas em sua cabeça.
O sininho tocou quando a porta abriu e foi Belle a primeira a aparecer.
- Ohh... – A boca da moça abriu ao se deparar com o rosto preocupado de Regina. Nunca era uma boa coisa quando a prefeita visitava a loja de antiguidades. – Posso ajudá-la? – Belle disfarçou.
- Não. – Regina suspirou sem muita paciência. – ... Mas seu... O Gold talvez possa. – Talvez não.
- Em que eu, talvez, posso ajudá-la? – Gold apareceu caminhando a passos lentos e descontraídos.
- É particular. – A voz de Regina, nesse momento, era gélida como a voz da Rainha Má. Rumpelstiltskin sempre parecia fazer emergir o pior que havia nela. Antes era preciso, agora era apenas um hábito.
Não foi preciso pedir que Belle se retirasse e Gold não o faria mesmo assim, a moça sutilmente seguiu pela porta até a outra sala.
Gold fingiu está envolvido com alguma coisa no balcão esperando que Regina prosseguisse.
- É sobre como eu consegui voltar... – fez uma pausa para criar coragem, de certa forma sentia-se estúpida. – Eu, Robin e o filho dele... nós viajamos por um portal usando... usando uma Vela de Hermes. – A boca dela estava contraída em uma linha, por ter sido tão direta, como uma criança justificando-se com seu professor.
- Bobagem! – Os olhos dele a fitavam incrédulos. Gold tentava entender a piada quando se deu conta de que ela falava sério. – Você... Como? – Formular uma só pergunta era um desafio. Rumple sabia exatamente toda a história sobre o artefato a que ela se referia, ele próprio o havia procurado desesperadamente quando soube de um mito sobre o deus da magia que talvez o levasse até Bae. Mas não encontrou nada e provavelmente fora melhor assim.
Rezava a lenda que o deus Hermes, forjou ainda em criança muitos objetos, alguns deles – como suas Velas do Desejo Imediato – eram feitos como uma rota de fuga para desaparecer depois de cometer algum crime, evitando assim sofrer os castigos que seu pai, Zeus, preparava. As velas feitas da mais pura e simples magia, funcionavam reconhecendo seu possuidor e dando lhe a realização de seus desejos mais urgentes. Quando Hermes tornou-se adulto, guardou algumas, como um convite a quem estivesse tão desesperado por realizar qualquer desejo a ponto de roubar um deus. E a quem tivesse tal coragem, ficava a promessa de vingança. Um jogo divertido no qual Hermes sabia que sempre venceria.
Ninguém nunca vira de fato uma coisa como essa e, Rumple teve motivos para acreditar que não passava de um mito. No entanto agora estava Regina ali - diante dele - dizendo ter usado pessoalmente uma das Velas de Hermes.
- Eu a vi... Toquei. É real, Gold! – A mão dela gesticulava parecendo ainda segurar o objeto. – Merlin a enviou para mim... ele mesmo a roubou. – Era estranho falar o nome dele depois de tantos anos. – E se a vela é real, então todo o resto também é... Hermes existe e vai caçá-lo! – a última frase soou um tanto aflita.
Gold encostou-se ao balcão como se estivesse cansado; uma mão esfregava a testa e ele quase a perguntou se Merlin não estava morto – era para está! – mas pensou que depois do que ouvira seria uma pergunta idiota. Levou um tempo perdido na lembrança de Merlin ao lado de Regina, ambos sentados ao topo de uma colina, parecendo avô e neta trocando confidências. Mesmo incapaz de compreender o terror em que aquela criança vivia e ainda de longe, Rumple pode sentir a magnitude da amizade que compartilhavam.
- Hermes não caçará Merlin, Regina. – O homem endireitou a postura e encarou Regina nos olhos. O que diria a seguir era grave: - Hermes caçará quem usou a vela... Exatamente quem acionou a vela. Há uma espécie de rastreador mágico nela. – A lenda era clara quanto a isso, não entendia como Merlin (O grande Mago Merlin) poderia ter se enganado a tal ponto.
Regina sentiu um zumbido no ouvido e o chão rodopiou embaixo dos seus pés. "Não há como protegê-lo!". A frase fazia trilha para a imagem do rostinho de Roland, no dia anterior, assoprando a vela, assinando sua sentença. Mais uma morte. E mais uma vez era culpa de Regina, que segurava com força o trinco da porta, ouvindo a voz de Gold a chamando pelo nome, o som distante como se ela estivesse mesmo prestes a desmaiar.
O sangue pulsava forte e dolorosamente em sua cabeça e ela sequer ousava pensar em Robin e em uma maneira de contar a ele o que aconteceria.
Ainda era difícil caminhar quando chegou à porta de casa, como se seus pés estivessem acorrentados a uma daquelas bolas de ferro usadas em prisões. A culpa emudecia sua raiva: por que se importar tanto com o filho de um estranho? Aquela não seria a primeira criança a morrer em nome da Rainha.
Ao cruzar o hall de entrada pode ouvir o barulho familiar da TV, algumas vozes barulhentas denunciavam a programação infantil, havia também a voz de Henry tagarelando vividamente.
Quase como um fantasma, ela deixou-se aparecer no domínio da sala de estar.
- Mãe! – Henry sorriu para ela, com seu sorriso tão Emma. – Como estão as coisas na prefeitura?
- Ótimas! – Regina soltou a respiração aliviada por ter um álibi.
Roland saíra do transe que a enorme TV lhe causava e sorriu para Regina também. Ele estava usando um pijama branco com cachorrinhos felizes estampados; seus cabelos castanhos cor de mel, seus grandes olhos do mesmo tom, um sorriso grande e torto, como o do pai, davam-lhe uma aparência angelical. O garoto tímido mal falava e não costumava sorrir, mas gostava daquele lugar, gostava de Henry e achava que ele era muito sortudo por ter "duas mães", uma delas, Regina. Roland ainda não sabia muito sobre o que pensar a respeito de Regina, ela era diferente, não era como Helena - sentia-se grato por isso – mas havia alguma coisa de muito triste nos olhos dela, como se ela entendesse todas as coisas no mundo e tivesse respostas para todas as perguntas que os adultos nunca o respondiam. Havia a parte brava que gritara com ele na noite anterior, mas essa estava triste também... todas estavam e parecia que estariam para sempre.
Regina caminhou pela sala em direção ao seu gabinete, rápido, na tentativa de se livrar dos olhos grandes e insuportavelmente amáveis de Roland, mas deteve-se ao chegar diante da escada: Robin estava ali, parado, de braços cruzados em uma jaqueta de couro preta, com seus cabelos louro-escuros um tanto desgrenhados e um meio sorriso, parecendo um rapaz de olhos verdes brilhantes e rosto descontraído. Ele estivera observando Regina desde que ela entrara pela porta com sua expressão assustada até que, subitamente, o viu e alguma coisa se iluminou no rosto dela.
Na verdade Regina teve que se lembrar de respirar quando o viu com aquelas roupas modernas cobrindo sua elegância natural. Cada detalhe dele era tão lindo, como uma pintura renascentista. Ela sentia vontade de se jogar nos braços dele, entretanto não podia, nenhum dos dois podia.
- Prefeita?! – Robin sorriu para ela, compartilhando em segredo o desejo e tomá-la nos braços. – Imagino que deveria agradecer a quem deixou todas aquelas roupas no seu quarto de hóspedes. Foi realmente um exagero... – ele estava imaginando algum estagiário do gabinete da prefeita tendo que acordar mais cedo só para comprar dúzias de roupas, que agora estavam postas em um closet pomposo no quarto em que ele dormira.
- Regina! – Ela o corrigiu um tanto impaciente e com o olhar baixo evitando os olhos dele. – Não foi nada. – E não tinha sido mesmo, lembrou-se dos poucos minutos que passara pra encher o closet de roupas sem nem ao menos precisar entrar no quarto. Aquele era um feitiço bastante útil. – Preciso ir agora. – Abriu caminho passando cautelosamente por ele, havia muitas perguntas que precisavam de respostas e algumas delas poderiam ser encontradas em sua biblioteca, sobretudo, na internet.
Os três observaram as passadas elegantes dela pela a escada em direção ao segundo andar. Robin foi quem olhou por mais tempo, perguntando-se qual seria sua punição se a seguisse e até subiu alguns degraus, porém, conteve o impulso.
Regina respirava ofegante quando chegou à biblioteca e bateu a porta de carvalho escuro, encostando-se a madeira como se impedisse a entrada de alguém. "Não sorria para mim. Não seja tão encantador... Eu matei o seu filho!". Ela teria dito para ele, se fosse corajosa o suficiente, mas não era o caso; Regina estava submergida pelo medo.
O computador estava disposto sobre uma mesa luxuosa de madeira de modelo vitoriano - na verdade, aquela era uma peça que a própria Rainha Victória usara em um de seus gabinetes e que agora abrigava os planos de uma Rainha de outro tempo, de outro reino e de outro mundo. – No começo as pesquisas eram simples, apenas para preencher algumas lacunas sobre o próprio Hermes e suas lendas, depois mais aprofundadas, no entanto, não demorou até que Regina soubesse que não encontraria nada do que buscava. Nada que ajudasse Roland, só alguns relatos sobre a lenda do deus e suas vaidades.
As horas passaram imperceptíveis até o pôr-do-sol avermelhado tirá-la definitivamente de sua busca sem êxito. Regina pode ver pelas fretas da persiana os primeiros flocos de neve caindo sobre a grama, leves como plumas de um travesseiro, estava cedo muito cedo para nevar. Aquela era uma época do ano que ela realmente não apreciava.
Duas batidas na porta a tiraram de seu torpor, dando-lhe um susto quase como se alguém tivesse gritado. Regina levantou-se de maneira rápida e barulhenta. Ao abrir a porta sentiu-se estranhamente familiarizada com o rosto atrás dela: Robin de cenho franzido e um meio biquinho quase mimado. "Por que agora era como se ele sempre estivera ali?"
- Vim resgatar você... Do quarto mais alto da torre mais alta. – Ele deu uma espiada por sobre o ombro dela, para o interior do cômodo, depois desistiu e sorriu esperando que ela o convidasse.
- Entre! – Disse por reflexo e quando ele entrou desejou que não o tivesse feito, a porta fechou e eles estavam a um passo um do outro e a sós. Mas Robin não pareceu reparar muito, seus olhos brilhavam diante das enormes prateleiras de livros e ele mais parecia uma criança diante de uma montanha de doces.
- Você tem mais livros aqui do que eu imaginava existir em todo o mundo! – Ainda parecia uma criança admirada.
- Gosta de livros? – Regina perguntou realmente interessada nele.
- Minha mãe costumava ler pra mim... Há muito tempo. Eu li todos que havia na biblioteca do castelo de Rumpelstiltskin, a maioria sobre magia e lendas inúteis – Ele caminhou passando as mãos por alguns títulos. – Que histórias esses livros contam? É sobre esse mundo?
- A maioria! Alguns contam toda a história desse mundo... Sobre seus monstros, seus heróis, suas magias, suas guerras e seus sonhos. – Regina não pode evitar a intensidade em sua voz, tampouco o desejo de ter a biblioteca de Rumpelstiltskin ao invés daquela. Com certeza seria mais útil.
- Está nevando... – Robin começou ainda sem olhá-la, parado diante de uma grande e imponente prateleira, bem ao centro, de livros com capas de couro pretas e títulos dourados. Todos eles tinham pequenas faixas em suas bordas, algumas pretas, vermelhas e outras cinzas. Havia ainda uma única faixa branca ao lado, sem nenhum livro, em um lugar que, talvez, tivesse abrigado um livro algum dia. – Esses... – Ele a olhou, por fim, e viu uma expressão vazia em seu rosto, de modo que o impediu de continuar. – Vim roubar você desse lugar. Os garotos estão esperando... Vamos! Ninguém fica sozinho no primeiro dia de neve.
"Eu fico!". Ela pensou em dizer, mas teve medo de soar infantil. Depois, não queria mesmo ficar ali sozinha, queria ver Henry sorrindo abertamente, como sempre fazia quando a neve chegava, queria está perto de Roland, o fazendo feliz antes que seu inevitável destino o encontrasse e queria, sobretudo, permanecer sob os olhares de Robin.
"Vim roubar você...". A frase voltou em sua memória, desta vez, com efeito. Roubar era o que ele fazia de melhor, ela sabia. Desde que vira o brasão de leão talhado em sua capa de couro... A Rainha era capaz de reconhecer o símbolo da Resistência em todos os seus moldes: aquele era Robin Hood, o mais perigoso e eficaz ladrão da Floresta Encantada, o inimigo número um da monarquia, mas especificamente, da Rainha.
Infeliz destino, para ambos; inimigos mortais, inconscientemente, apaixonando-se.
